Eu ainda estava estarrecido com aquilo. Quando
eles pararam o beijo e se abraçaram. Diego saiu do pequeno e mal iluminado
corredor que se encontrava e ao dobrar a esquina do corredor desapareceu. O
outro vinha na direção em que eu estava. Entrei rapidamente na biblioteca e
fingi que estava procurando alguns livros por trás de uma prateleira. Diego só
podia ter ficado completamente louco ao se envolver com aquele garoto e ainda
mais arriscar um beijo daqueles dentro do colégio.
Pude perceber que ele andou teatralmente
fingindo que procurava alguma coisa nas prateleiras e depois de um tempo,
sentou-se em uma das mesas. Abriu um livro de química que achou por ali mesmo e
colocou seu iphone do lado. Depois de um alerta vibratório discreto, ele leu e
respondeu uma mensagem de texto.
Com meu exemplar tão almejado de Romeu e
Julieta em mãos sentei em uma mesa onde podia ter uma visão estratégica dele. Tentei
não olhar muito e não fixar na minha cabeça aquele beijo que eu tinha visto,
mas como ele, eu precisava disfarçar um pouco antes de sair da biblioteca também.
Mariana, uma das meninas populares e
bonitas da minha sala, entrou na biblioteca e sorriu quando me viu. Ela era
realmente simpática e parecia ser uma pessoa de bom caráter, mas eu preferia não
me envolver com muita gente naquela sala, já que não tinha padrão financeiro e
de sociabilidade para tanto.
- Brunno! Que sorte encontrar você por
aqui!
- Oi, Mariana! Tudo bom? – Indaguei. O início
da fala dela já me indicava que ela queria alguma informação de mim.
- Você sabe o assunto da prova de Química 2?
– Perguntou. Fazendo um gesto de “espere aí” para alguém que estava do outro
lado da biblioteca.
- Se eu não me engano é: Hidrocarbonetos...
– Fiz uma pausa para fingir que estava me lembrando, ela interveio.
- Hidro... O quê? – Ela fez uma careta meio
engraçada.
- Alceno, Alcino... Nomenclaturas...
Aquelas cadeias de carbono...
- Ah! São aquelas formulazinhas não é? Acho
aquilo tão complicado... Enfim, depois você escreve num papel e me manda na
aula está certo? O chato do meu namorado está impaciente ali! - Ela saiu sem
esperar nem a minha afirmação ou negação.
Ela se aproximou da mesa do menino, deu um
beijo nele e se sentou ao seu lado.
- Por onde você andou o intervalo todo? –
Indagou ela em voz baixa.
- Estava aqui, estudando pra prova de química... - Mentiu, com a mesma facilidade e naturalidade como respira.
- Ai que bom amor! Você vai me ensinar!
- Antes disso eu tenho que aprender... –
Comentou, sorrindo. Puxando o queixo dela levemente e aplicando um beijo suave.
Bem diferente do beijo ardente com direito a amasso na parede que ele deu em
Diego a 3 minutos atrás.
Aristides era um garoto popular da turma “D”.
Ao contrário do que o nome sugere, ele é bem bonito. Tem aproximadamente 1,78m,
corpo bem malhado e definido, sorriso bonito e como a maioria dos fúteis
estudantes ricos do colégio, não tem uma inteligência notável. O engraçado é que
eu tinha estudado com ele a na oitava série (o atual nono ano) e ele não era
nada de mais. Lembro que nessa época, eu estava tão cheio da falsidade da minha
turma, que tinha mudado para a D, com esperança de encontrar pessoas menos
falsas, mas pude perceber que realmente tudo tem como ficar pior e acabei
voltando pra minha turma meses depois. Voltando ao Aristides, ele era apenas mais
um garoto sem sal e de porte físico comum, que tirava notas boas e andava com
os meninos de sua sala. Eu realmente não prestei muita atenção nele depois de
ter voltado a turma ‘A’ e fiquei bastante surpreso ao ver o desenvolvimento dos
seus músculos, que provavelmente derivam de efeitos de anabolizantes e horas de
musculação em alguma dessas academias famosas da cidade. Eu nem sabia que ele
namorava a Mariana da minha sala.
[...]
- Sério que você não sabia que a Mariana
namora como Aristides? – Indagou Roberta, surpresa, sentando-se na sua carteira
e abrindo o seu caderno. O professor começava a anotar algumas coisas no
quadro.
- Eu me ocupo em estudar, não fico
preocupado em saber quem namora com quem, por aqui! – Respondi ironicamente.
- Qualquer um sabe disso Brunno, não
precisa investigar muito pra perceber eles se agarrando pelos corredores! –
Comentou, soltando um risinho. Roberta sempre dizia que o meu sarcasmo era um
grito de sinceridade, que só meus amigos íntimos podiam ouvir, já que eu estava
imerso na minha falsa simpatia cotidiana.
- Eu não sabia...
- Se você está tão preocupado em estudar,
porque isso te importa agora?
- Pura curiosidade... Falta de ter o que
fazer...
- Você fala como se eu não soubesse que você
não dá ponto sem nó! – Ela sorriu maliciosamente. – Sei que você não quer contar
e que provavelmente vai dar a desculpa de que “Não pode”...
- Garota esperta! – Respondi, arqueando uma
sobrancelha e voltando minhas atenções às explicações que o professor começava a
dar.










