segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 68



    Eu ainda estava estarrecido com aquilo. Quando eles pararam o beijo e se abraçaram. Diego saiu do pequeno e mal iluminado corredor que se encontrava e ao dobrar a esquina do corredor desapareceu. O outro vinha na direção em que eu estava. Entrei rapidamente na biblioteca e fingi que estava procurando alguns livros por trás de uma prateleira. Diego só podia ter ficado completamente louco ao se envolver com aquele garoto e ainda mais arriscar um beijo daqueles dentro do colégio.
    Pude perceber que ele andou teatralmente fingindo que procurava alguma coisa nas prateleiras e depois de um tempo, sentou-se em uma das mesas. Abriu um livro de química que achou por ali mesmo e colocou seu iphone do lado. Depois de um alerta vibratório discreto, ele leu e respondeu uma mensagem de texto.
    Com meu exemplar tão almejado de Romeu e Julieta em mãos sentei em uma mesa onde podia ter uma visão estratégica dele. Tentei não olhar muito e não fixar na minha cabeça aquele beijo que eu tinha visto, mas como ele, eu precisava disfarçar um pouco antes de sair da biblioteca também.
    Mariana, uma das meninas populares e bonitas da minha sala, entrou na biblioteca e sorriu quando me viu. Ela era realmente simpática e parecia ser uma pessoa de bom caráter, mas eu preferia não me envolver com muita gente naquela sala, já que não tinha padrão financeiro e de sociabilidade para tanto.
    - Brunno! Que sorte encontrar você por aqui!
    - Oi, Mariana! Tudo bom? – Indaguei. O início da fala dela já me indicava que ela queria alguma informação de mim.
    - Você sabe o assunto da prova de Química 2? – Perguntou. Fazendo um gesto de “espere aí” para alguém que estava do outro lado da biblioteca.
    - Se eu não me engano é: Hidrocarbonetos... – Fiz uma pausa para fingir que estava me lembrando, ela interveio.
    - Hidro... O quê? – Ela fez uma careta meio engraçada.
    - Alceno, Alcino... Nomenclaturas... Aquelas cadeias de carbono...
    - Ah! São aquelas formulazinhas não é? Acho aquilo tão complicado... Enfim, depois você escreve num papel e me manda na aula está certo? O chato do meu namorado está impaciente ali! - Ela saiu sem esperar nem a minha afirmação ou negação.
    Ela se aproximou da mesa do menino, deu um beijo nele e se sentou ao seu lado.
     - Por onde você andou o intervalo todo? – Indagou ela em voz baixa.
     - Estava aqui, estudando pra prova de química... - Mentiu, com a mesma facilidade e naturalidade como respira.
      - Ai que bom amor! Você vai me ensinar!
    - Antes disso eu tenho que aprender... – Comentou, sorrindo. Puxando o queixo dela levemente e aplicando um beijo suave. Bem diferente do beijo ardente com direito a amasso na parede que ele deu em Diego a 3 minutos atrás.
     Aristides era um garoto popular da turma “D”. Ao contrário do que o nome sugere, ele é bem bonito. Tem aproximadamente 1,78m, corpo bem malhado e definido, sorriso bonito e como a maioria dos fúteis estudantes ricos do colégio, não tem uma inteligência notável. O engraçado é que eu tinha estudado com ele a na oitava série (o atual nono ano) e ele não era nada de mais. Lembro que nessa época, eu estava tão cheio da falsidade da minha turma, que tinha mudado para a D, com esperança de encontrar pessoas menos falsas, mas pude perceber que realmente tudo tem como ficar pior e acabei voltando pra minha turma meses depois. Voltando ao Aristides, ele era apenas mais um garoto sem sal e de porte físico comum, que tirava notas boas e andava com os meninos de sua sala. Eu realmente não prestei muita atenção nele depois de ter voltado a turma ‘A’ e fiquei bastante surpreso ao ver o desenvolvimento dos seus músculos, que provavelmente derivam de efeitos de anabolizantes e horas de musculação em alguma dessas academias famosas da cidade. Eu nem sabia que ele namorava a Mariana da minha sala.

[...]

    - Sério que você não sabia que a Mariana namora como Aristides? – Indagou Roberta, surpresa, sentando-se na sua carteira e abrindo o seu caderno. O professor começava a anotar algumas coisas no quadro.
    - Eu me ocupo em estudar, não fico preocupado em saber quem namora com quem, por aqui! – Respondi ironicamente.
    - Qualquer um sabe disso Brunno, não precisa investigar muito pra perceber eles se agarrando pelos corredores! – Comentou, soltando um risinho. Roberta sempre dizia que o meu sarcasmo era um grito de sinceridade, que só meus amigos íntimos podiam ouvir, já que eu estava imerso na minha falsa simpatia cotidiana.
    - Eu não sabia...
    - Se você está tão preocupado em estudar, porque isso te importa agora?
    - Pura curiosidade... Falta de ter o que fazer...
    - Você fala como se eu não soubesse que você não dá ponto sem nó! – Ela sorriu maliciosamente. – Sei que você não quer contar e que provavelmente vai dar a desculpa de que “Não pode”...
    - Garota esperta! – Respondi, arqueando uma sobrancelha e voltando minhas atenções às explicações que o professor começava a dar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 67



    - Roger? Como não pensei em você antes? – Indaguei surpreso, ao me virar – Pensei que você tivesse passado da fase Shakespeare!
    - É uma fase que eu nunca vou superar! – Comentou sorrindo. – Vejo que você quer entrar no mundo romântico e trágico de Romeu e Julieta com certa urgência! – Ele voltou a rir – Pode pegá-lo agora! – Ele arrastou o livro com os dedos até ele ficar mais próximo de mim.
    - Por favor! Gostaria de locá-lo! – Entreguei o livro à bibliotecária, que se ocupou em marcar a devolução de Roger e registrar a minha locação. – Apesar de não ter sido direcionado a você, desculpe pelo que eu disse!
    - É bom ver um pouco de sinceridade de vez em quando, Brunno! É bom saber que você não é aquela figura de perfeita simpatia e educação que costuma tentar transparecer, isso te faz parecer um pouco mais humano! – Brincou ele. Com uma leve crítica subentendida em suas palavras.
    - Eu não finjo... – Comecei a falar, mas ele me interrompeu.
    - Não encare como uma crítica e nem se preocupe com réplicas! Tenho que ir agora! – Finalizou. Saindo da biblioteca com pressa.
    Roger estudava na minha sala. Era um leitor compulsivo e escrevia como ninguém, se destacava nas matérias vinculadas à área de humanas e tinha desempenho menos notável nas áreas exatas. Por causa do meu forte instinto de competição, geralmente eu analisava meus concorrentes em cada matéria que era lecionada à minha turma. Sem sombra de dúvidas, Roger era meu mais forte concorrente em Literatura e Redação. O que mais me irritava era que isso era tão natural para ele, que ele facilmente tirava as notas máximas, sem ao menos ter se esforçado, já que ele mantinha suas leituras atualizadas diariamente e alimentava seu blog de literatura. Eu tive um início de amizade com ele, mas ela não evoluiu muito. Talvez isso tenha sido derivado do meu medo e meu conseqüente afastamento. Roger era muito perspicaz, falar e conviver com ele era como colocar seus pensamentos numa vitrine, ele é muito bom em “ler pessoas”, como costumo pensar. Tinha medo de ele conseguir ‘ler’ tudo que eu tentava esconder e do que ele podia fazer com essas informações. No entanto, Roger tinha um defeito enorme: se apaixonava facilmente pelas garotas erradas e essa paixão o levava a uma escravidão emocional imensurável e isso resultava na concretização das óbvias decepções que já davam indícios de fracasso nos primórdios de suas relações.
    Eu precisava relaxar e ler um pouco de forma despretensiosa, por puro prazer. Eu precisava sair daquela nuvem de intensa atribulação produzida pela minha ‘amizade’ com Diego e Felipe. Precisava me focar nos estudos de fim de ano e em me dar bem no simulado para ter novamente o 1° lugar no ranking. Eu precisava me concentrar no vestibular, em qual curso eu iria, de fato, escolher.
    Comecei a ler as primeiras linhas do primeiro ato distraidamente, ainda imerso em alguns tórridos pensamentos, andando lentamente até sair da biblioteca. Em alguns minutos o sinal para voltar pra aula iria tocar. Quando lancei um distraído olhar de soslaio para o lado, na direção de um pequeno corredor que dava acesso à uns banheiros que quase sempre ficavam fechados e só eram abertos em reuniões de pais e mestres, porque ficavam mais perto do auditório do colégio. Esse corredor mal iluminado abrigava em suas sombras, duas figuras se beijando apaixonadamente, o que era bem comum para o local, mas algo despertou minha curiosidade. Dei alguns passos para trás e fiquei escondido na parede do final de corredor da biblioteca e que dava acesso ao corredor do auditório.
    Tentei analisar quem eram os dois componentes daquele amasso de desejo que, ao mesmo tempo ainda apresentava muito carinho e romantismo. Analisando a farda, pude perceber que os dois eram garotos! Essa informação me deixou um pouco chocado e ainda mais curioso para ver quem eram. Foi aí que pude reconhecer Diego entre as sombras. Acabei me lembrando que tinha visto Felipe na cantina na fila pra comprar lanche com Tânia, minutos antes e estava imaginando como ele estaria aqui tão rápido se pegando com Diego. Também estranhei o fato deles fazerem isso aqui no colégio, o que não era nada comum. Até que... Eu pude perceber... Que o outro componente do beijo não era Felipe.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 66



    Era mais um dia comum na escola. Felipe estava sempre com Tânia, mas já não representava o papel de ‘namorado de estimação’ de outrora. Eles sempre estavam juntos, mas dificilmente ele dava alguma importância ao que ela dizia ou fazia. Felipe voltou à sua vida normal, recomeçou a andar com a turminha de costume e frequentar as festas badaladas que eram divulgadas na cidade, quando não promoviam suas festinhas particulares que ficavam famosas pelo excesso de bebida e a insanidade que dela derivava. Diego também voltou àquele contexto, mas não estava tão imerso como Felipe, parecia que ele estava emergindo e olhando além daquela limitada e fútil realidade. Era comum ver Diego lendo um livro distraidamente pelos corredores nos intervalos e suas notas subiram significativamente.
    Eu estava muito ocupado com os estudos e preso às preocupações do final do ano. Além disso, a pressão ficava mais intensa devido ao simuladão que o colégio promovia e que produzia competitividade, nem sempre saudável, entre os alunos. Afinal, todos queriam estar no top 10. Era uma questão de status para a maioria dos riquinhos imbecis que resolviam tomar a dose costumeira de ‘juízo de fim de ano’ e tentar uma colocação boa no ranking. Eu sou muito competitivo e adoro colocar todos eles no lugar de imbecilidade que eles merecem e mostrar que overdoses de cursinhos, aulas particulares e reforço não ajudam em nada se não forem atrelados a preceitos básicos como organização, responsabilidade e vontade de estudar. Era nesse momento que os pré-requisitos mudavam e eu passava de um mero bolsista de aparência comum, nível baixo de sociabilidade e que usa roupas de lojas de departamento, ou seja, a base da pirâmide social e passava a ocupar o topo da pirâmide intelectual por causadas minhas notas.
    Alan e eu retomamos nossa antiga amizade e aos poucos voltávamos a ser e a agir como fazíamos antigamente. Nós sempre estudávamos juntos e eu agora estava me inserindo na turma dele, embora não tivesse deixado de lado meus amigos. Tudo corria bem, embora Roberta se queixasse constantemente da minha falta de tempo e as reclamações referentes a não passar tanto tempo com ela como antigamente. Eu ainda via Diego e Felipe uma vez por semana, ou quando tinha tempo disponível, quando marcávamos de ver um filme ou tomar um sorvete, mas a conversa não passava muito do âmbito dos diálogos corriqueiros. Era possível perceber que entre eles, apesar das controvérsias, a amizade também estava voltando ao ser o que era antes de eu entrar e interferir nas suas vidas. Felipe me disse, em nosso último encontro que marcaria um jantar na casa dele para receber os pais de Tânia e contar a notícia, reafirmar o seu compromisso de sustentar a criança e participar da vida dela, embora eu particularmente pense que ele não nasceu para trocar fraldas. Mas, nunca se sabe o que está por vir, as coisas mudam o tempo todo.
    Fui à biblioteca. Precisava de algum lazer. É fato que minhas definições para lazer não passam pelo plano que a maioria das pessoas da minha sala idealizava, mas pelo fato de eu gostar muito de jogos de computador e me viciar facilmente neles, eu estava tentando buscar outras ocupações que me agradavam. Resolvi ler shakespeare pra passar o tempo. Tinha lido Macbeth recentemente, então, decidi fazer uma releitura da tragédia mais conhecida dele: Romeu e Julieta.
    - Como assim não tem Romeu e Julieta? - Indaguei perplexo, fitando a atendente da biblioteca.
    - Ele já está locado, Brunno! - Respondeu ela com calma.
  - De novo? Essa pessoa quer o quê? Encenar a peça ou fazer um longa-metragem? - Perguntei ironicamente, realmente achava um absurdo o fato da biblioteca só ter um exemplar de cada obra de Shakespeare e ainda tinha algum retardado que provavelmente locou, porque acha que ler shakespeare é tão fácil quanto ler crepúsculo, e ao ler a primeira página começou a usá-lo como peso de porta.
    - Boa ideia! Mas, por enquanto fico só na leitura e releitura mesmo! - Respondeu alguém, com a voz suave e colocou o livro de Romeu e Julieta na mesa.



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 65



    - Eu queria dizer que tudo vai melhorar, mas acho que a situação chegou a um nível crítico! É óbvio que existem situações bem piores, mas... – Fiz uma pausa. – Eu estou péssimo para conselhos hoje... Eu pensei que hoje a gente ia tirar um peso das nossas costas... – Comecei, me afundando no sofá da sala do apartamento do Diego.
    - Também achei que estaríamos livres disso tudo. Quem imaginaria que aquela gravidez era verdadeira? – Ele se esparramou no sofá e agarrou uma almofada.
    - Isso não elimina a possibilidade de vocês ficarem juntos, passou-se o tempo em que a regra ‘engravidou, tem que casar’ vigorava soberanamente...
    - Eu sei Brunno, mas acho que o problema é uma soma de outros fatores que me incomodaram... – Rebateu Diego, com ar melancólico.
    - Quais seriam? – Indaguei confuso.
    - O temperamento explosivo, a personalidade mutável, a imaturidade... Eu sempre vou ter que me dispor a aceitar tudo que ele faz? Eu sempre vou ter que romper as barreiras do que estou disposto a agüentar? Eu quero, pelo menos uma vez, algo fácil... – Ele se inclinou para a minha direção, colocando a almofada no meu colo e deitando nela.
    - Você acha realmente que vai conseguir? – Olhei para ele profundamente, tentando imergir naqueles olhos azuis. 
    - Não sei, mas eu preciso tentar respirar um pouco. Ter um relacionamento mais fácil. Não quero ter que decifrar o que a pessoa que está comigo está pensando, não quero mais me esconder...
    - A liberdade custa caro Diego... Você está disposto a pagar o preço?
    - Estou... – Assentiu ele prontamente.
    - Vou reformular a pergunta: Você está disposto a apostar nesse jogo de autenticidade? Está disposto pra arcar com as conseqüências?
    - Você fala como se eu fosse pregar um cartaz na cidade com uma foto minha beijando outro cara!
    - É só excesso de preocupação Dih, você sabe que eu não quero que você se machuque...
    - Você tem que parar de me ver como um ser indefeso Brunno! Eu posso lidar com meus problemas... Além disso, eu preciso me dar essa chance, eu preciso ver se o gramado do vizinho é mesmo mais verde!
    - Sua analogia foi ótima! – Comecei a rir. Era engraçado como, a cada dia que se passava eu percebia que Diego estava mais maduro. Era um quadro bem diferente do que tinha pintado quando o conheci. Parecia até que eram pessoas distintas.
    Felipe entrou no apartamento sem sequer bater na porta. Andou em silêncio até o sofá e sentou na outra ponta, colocando as pernas do Diego em seu colo.
    - A gente vai dar um jeito, não vai? – Ele sussurrou. Estava de cabeça baixa.
    - Eu acho que não Felipe... – Respondeu Diego, deixando a frase meio vaga. Voltando a ficar sentado.  – Dessa vez você vai ter que lidar com isso sozinho! Está na hora de voltarmos a ser o que nós éramos antes. Funcionava bem melhor.
    - O que você está sugerindo? – Felipe parecia não querer acreditar.
    - Felipe... Nós sempre fomos melhores amigos e acho que é isso que conseguimos fazer de melhor com o carinho que temos um pelo outro.
    - Você não pode acabar comigo!
    - Na verdade, estamos começando ou recomeçando! Não adianta insistir em uma coisa que não funciona!
    - Mas... Mas... – Felipe gaguejou olhando para mim, ele esperava que eu pronunciasse algo que fizesse Diego mudar de ideia. Mas, eu achava que aquela era a melhor decisão a se tomar, pelo menos, momentaneamente. 
    Diego o abraçou bem forte. Senti que os dois estavam começando a chorar, embora tentassem conter as lágrimas. Felipe soltou o abraço e segurou o rosto de Diego em suas mãos, estava preparando um arsenal de justificativas e estava disposto a descarregar toda sua munição de argumentos, mas a expressão de Diego desarmou qualquer tentativa. Estava decidido a dar um fim a parte ‘colorida’ da longa amizade deles, queria a liberdade de antigamente, queria que tudo voltasse a ser preto e branco. Que tudo voltasse a simplicidade das conversas despretensiosas de fim de tarde, que eles pudessem sair só pra rir e conversar, como costumavam fazer.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 64



    Diego se levantou subitamente sem dizer palavra. Fulminou Felipe com o pior olhar que conseguiu deflagrar. Silenciosamente, irrompeu pela porta de vidro da lanchonete deixando o ar pesado enquanto se afastava. Acho que até para pessoas com inteligência limitada a situação tinha ficado clara.
    - O que deu nele? – Perguntou Tânia. Mostrando surpreendente falta de perspicácia.
Levantei. Felipe fez o mesmo.
    - Leve a Tânia pra casa, agora ela precisa de todos os cuidados! Vou ver o que deu no Diego, acho que ele ficou bravo com você por sua irresponsabilidade, sabe como ele é certinho! – Disse fitando Felipe, usando essa mentira pra amenizar o comportamento ‘você roubou meu namorado’ que Diego tinha demonstrado. – A propósito, parabéns Tânia! Você vai ser mamãe! – A cada dia que passava eu percebia que o meu dom da falsidade ficava melhor.

[...]

    - Diego! – Eu disse, com a respiração entrecortada, depois de ter corrido até ele. – Espera!
    - O que você quer agora, Brunno? Vai defender ele, vai dar em cima de mim... vai fazer o quê? – Bradou ele. Ele estava se contendo. Parecia que o choro ia desabar a qualquer momento.
    - Calma, a gente vai superar isso!
    - Superar? Filho é pra sempre! Mesmo que eu continue com Felipe, sempre vai ter aquela responsabilidade... E ainda vai ter a Tânia, pra piorar ainda mais a situação.
    - Diego, me desculpa! – Começou Felipe, que tinha nos seguido.
    - Eu não disse pra você... – Comecei a falar, mas fui interrompido.
    - Você não manda em mim, Brunno! Embora você quisesse muito ter esse poder... – Felipe me cortou. – Diego, ainda tem solução... Eu vou pedir a ela pra...
    - Nem ouse terminar essa frase! Eu nunca vou conseguir ser feliz sabendo que alguém morreu por isso! Eu não quero falar com você! – Diego começou a andar apressadamente.
    - Embora você não queira me obedecer é bom você perceber que ele não está pronto pra ter essa conversa agora! Leve a biscate em casa e depois a gente resolve isso! Afinal, onde ela está?
    - Está realizando um “desejo”, está acabando com o estoque de tortelete da lanchonete!
    - Volte lá e... – Eu me contive, já estava tão acostumado com meu ar autoritário que nem percebia que vivia dando ordens aos outros. - ... Bom, faça o que quiser, eu vou levar Diego pra casa!

domingo, 19 de agosto de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 63



    - Ai, Felipe! É você... – Disse ao me virar. Meu coração ainda batia acelerado. É óbvio que eu tinha pensado que era o Alan, com algum tipo de resposta pra me dar.
    - Esqueceu que dia é hoje? –Indagou com uma expressão misteriosa.
    - Hoje é dia... – Fiz uma pausa para tentar recordar. – Hoje é o dia do resultado do exame! – Com todos esses pensamentos voltados para Alan, eu tinha esquecido que esse drama da gravidez estava prestes a acabar.
    - Estamos indo buscar agora! Venha! – Ordenou. Caminhando para fora da sala. Diego e Tânia o seguiram também.
    Eu não poderia perder isso por nada! Finalmente a loira peituda ia sair das nossas vidas! Diego e Felipe seriam felizes de novo e eu poderia me concentrar em outras coisas.
    Alguém me cutucou minhas costas e eu fui tomado por aquela sensação novamente.
    - Aonde você vai Brunno? – Indagou Roberta.
    - Betão! – Sussurrei olhando para ela rapidamente. – É hoje que a farsa acaba! Finalmente o drama vai terminar.
    - Agora me resta perguntar... – Reiniciou, andando ao meu lado. – E depois?
    - Depois o quê? – Respondi confusamente com outra pergunta.
    - Você sabe muito bem a finalidade da minha pergunta, não entre na fase de negação!
    - Eu sinceramente não sei dizer com precisão... – Respondi em reticências.
     Roberta se referia a o que ia acontecer daqui pra frente. Eu realmente estava evitando pensar nisso, apesar de eu ter tentado dar um ponto final nisso tudo, eu não conseguia mais ficar longe deles. Diego e Felipe estavam juntos novamente e o único obstáculo era essa falsa-gravidez de Tânia. Eu já tinha entregado o DVD que continha o vídeo que deixava os dois no meu poder e agora eles não tinham mais motivos pra continuar a andar comigo.
     - Brunno... Eu não quero que você se machuque! Você precisa estar preparado para todas as possibilidades! Eu acho mais sensato você tomar uma decisão, antes que os dois tomem por você!
    - Não sei Roberta! Eu sei que você está me dando o conselho certo e que eu deveria pular do barco antes que ele afunde, mas, você sabe que não é tão simples para eu fazer isso... – Parei na frente dela. – Mesmo assim, obrigado! – Apliquei um abraço confortante em Roberta. – Você realmente é uma amiga e tanto! Agora, preciso ir! Eles já estão muito na frente!

[...]

   Tânia estava sentada ao meu lado, completamente imóvel no banco de couro e olhava para a janela distraidamente. Ela sabia lá no fundo que estava caminhando para a guilhotina, em breve, sua cabeça estaria rolando pelo chão. Diego estava sentado no banco da frente e estava tenso, o silêncio no carro era mortal.
    Chegamos ao laboratório que analisava esse tipo de exame. Felipe e Tânia foram buscar o exame, enquanto Diego e eu sentávamos numa mesa de uma lanchonete que ficava na frente do laboratório.
     Eu não ousei falar. Diego estava frio. Eu conseguia imaginar o que estava passando por sua cabeça agora. Após alguns minutos que pareceram uma eternidade, eles voltaram. O envelope estava lacrado.
    Felipe sentou-se ao meu lado e Tânia sentou no lado oposto da mesa, ao lado de Diego. Felipe rasgou a borda do envelope do exame com paciência, folheando nervosamente a caminho da última folha. Ele parou um tempo lendo e depois passou o envelope pra mim. Eu comecei a ler e uma expressão de confusão tomou conta de mim.
    - Como assim você está grávida de verdade? – Indaguei perplexamente, fitando Tânia.

sábado, 18 de agosto de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 62



    Eu tinha a mania masoquista de pensar no futuro e geralmente os resultados previstos ao serem comparados com os resultados reais causavam extrema frustração. Mas, mesmo sabendo disso, eu não conseguiria não imaginar o que poderia vir a seguir. O Alan entrou nesse colégio no mesmo dia que eu e isso não foi nenhuma coincidência! Já éramos amigos fazia um tempo, porque a minha mãe e a dele eram colegas de trabalho e decidimos mudar para o mesmo colégio. A nossa amizade só aumentou com o passar do tempo, mas parecia que as pessoas tinham inveja disso. Nós brigávamos constantemente, porque nós éramos dois cabeças-duras e prevalecia entre a nossa amizade um saudável instinto de competição, principalmente no que se referia às notas na escola, mas, nunca brigamos por esse motivo. A real razão das brigas era pelos ciúmes, o que a gente tentava explicar por “ciúmes de amigo” e que impedia que ninguém atravessasse a anteriormente delimitada linha de ‘melhor amigo’. No entanto, de forma natural, conseguimos agregar mais dois membros ao grupo: o Jonas e o Henrique e a partir disso, realmente o círculo se fechou. Em algum momento na época que eu fazia sexta série (O atual sétimo ano) nós brigamos e nunca mais voltamos a nos falar, pelo menos até o presente momento.
    Eu não podia negar que o que eu sentia por Alan era bem diferente do que sentia por Diego e diferente da atração que sentia por Felipe. Eu sentia raiva dele por tudo aquilo que aconteceu no decorrer desses anos, nas trocas de ofensas nos corredores, nas difamações que correram soltas pelas bocas e ouvidos dos fofoqueiros do colégio. Mas, junto com essa raiva morava um sentimento que clamava por uma reconciliação e era tão esperançoso que, além da amizade, ansiava por amor.

[...]

    Por mais que eu tentasse me concentrar nas malditas questões de Biologia II a ansiedade não deixava margem para meu foco em estudar. Eu tinha medo do que Alan podia responder, a ideia de ser amigo dele me assustava mais do que a de odiá-lo (ou fingir isso). Não sei se conseguiria manter o controle da situação conduzindo uma amizade com ele. Com muita dificuldade e varando a madrugada, consegui resolver as questões para a aula do dia seguinte.

[...]

    Acordei atrasado e tive que me arrumar às pressas, mas fiz com que minha Personal Slave me conseguisse uma carona pra escola, além de fazê-la preparar meu café-da-manhã. Então antes do trabalho, o namorado da minha irmã veio me buscar. Cheguei na escola a tempo, com uns cinco minutos de sobra, que era justo o tempo que era necessário pra chegar a minha sala.
    Sobressaltado, me sentei rapidamente e abri meu caderno, o professor já estava se preparando pra começar a aula.
    - Brunno, você está bem? – Sussurrou Roberta.
  - Não dormi direito fazendo as questões de Biologia II! – Respondi, sorrindo para ela.
    - Tem mais coisa por trás disso, que tipo de sorriso é esse?
    - O professor começou a falar Betão, depois a gente fala disso!
    Eu não conseguia me concentrar em mais nada, a angústia da falta de resposta me deixava apreensivo. Toda vez que eu olhava, ele se comportava como se nada tivesse acontecido.

[...]

    Depois de uma eternidade e de eu ter inventado mais uma história esfarrapada pra Roberta, as aulas acabaram. Eu não gostava de mentir pra minha melhor amiga, mas preferia explicar tudo pra ela depois que as coisas se resolvessem. Andei distraidamente em direção a porta da sala.
    - Aonde você pensa que vai? – Disse ele, me pegando de surpresa.

sábado, 21 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 61


    Eu nunca pensei em experimentar tais sensações. Apesar do calorzinho típico de Maceió, eu estava gelado dos pés a cabeça e meu coração disparava alucinantemente. Eu não sabia ao certo o que dizer e muito menos como prever a reação do Alan mediante ao que eu tinha pra dizer, até porque, eu nem sei o que eu ia dizer! 
    Procurei alguma passagem para esse lugar que ele tinha indicado e depois de me espremer entre uma árvore e uma fresta eu consegui entrar no corredor estreito que ficava atrás do laboratório de ciências. Fiquei esperando. Ninguém passava nesse corredor, e essa foi a primeira vez que eu tinha ouvido falar nele. Fiquei encostado na parede tentando me segurar, porque minhas pernas estavam bambas. 
    Tentei me distrair observando as gotas de água que vinham dos vários condicionadores de ar desse lado do prédio e que formavam pequenas poças d’água no chão. Era engraçado pensar que essas gotinhas, lenta e diariamente conseguiam desgastar o chão de cimento e fazer pequenos orifícios no chão. Então foi que percebi que o que tinha que fazer com Alan era justamente isso, ir aos poucos, tentar manter pelo menos uma relação cordial com ele deforma que eu possa dar bom dia para ele e que ele me responda, no futuro, quem sabe, as coisas avancem um pouco mais.
    - Então... O que você quer? – Disse ele com sua voz grossa e firme me pegando totalmente desprevenido.
    - Queria... Falar sobre a nossa situação...   – Balbuciei com a voz entrecortada.
    - Que situação? – Indagou ele com uma cara de desconfiado.
    - O fato de nós termos sido melhores amigos e agora termos chegado a esse ponto de inimizade! – Falei, o mais calmamente possível.
    - Você sabe muito bem como chegamos a esse ponto! – Disse ele, franzindo o cenho.
    - O pior é que eu não sei! – Admiti. Fazia tanto tempo que isso se desenrolava que eu nem sabia como tinha começado.
    - Vai debochar, agora?
    - Não estou debochando Alan! Eu sei que a gente está brigado faz uns cinco anos, mas eu não me lembro o que começou essa briga! Eu só me lembro da gente rindo como melhores amigos e depois de estarmos no patamar que estamos agora!
    Alan fez uma pausa e ficou pensativo.
    - É... De fato eu não me lembro do motivo pelo qual iniciamos isso, mas deve ter sido porque você falou mal de mim pelas costas! – Incitou. Mas acho que, no fundo, ele também não sabia o motivo da nossa briga, só não queria admitir.
    - Se eu era seu melhor amigo, porque eu falaria mal de você? – Eu precisava conduzi-lo para um pensamento mais racional da situação.
    - Porque queria ser melhor que eu! – Ele continuava chutando teorias pra me culpar. Típico dele!
    - Você é que tem esse extinto de competição!
    - Olha só quem fala! Estou vendo que você é o mesmo idiota de sempre! – Ele se virou e tentou sair do corredor.
    - Espere! – Eu o puxei pelo braço. – Desculpa! – Sussurrei.
    - O quê? Eu não ouvi! – Fingiu ele, com aquela maneira infantil de tratar os assuntos sérios, como era do seu feitio.
    - Desculpa! Eu não sei o que aconteceu a cinco anos atrás. Não sei se eu falei alguma coisa ou não. Eu posso até ter dito alguma bobagem e alguém ter aumentado quando vou contar pra você... Você sabe como o pessoal da nossa sala é não é? – Indaguei. Todo mundo sabia que nossa sala era um ninho de cobras. - Mas, independente de qualquer coisa eu quero que a gente pare com isso e possamos, no mínimo, ser civilizados um como outro.
    - Ah! Agora você quer ficar meu amiguinho de infância de novo? – Ironizou ele.
    - Não necessariamente, mas, quero que a gente pare de competir por tudo, de virar a cara para o outro, essas coisas...
    - Não sei se devo confiar em você! – Alan tinha um gênio meio difícil, era difícil vê-lo dar o braço a torcer.
    - Eu não deveria nem ter inventado essa história! Sai da minha frente que eu vou sair daqui! – Tentei empurrá-lo, mas ele era como um guarda-roupa enorme e pesado impedindo a passagem.
    - Eu vou pensar Brunno! – Sibilou ele. Parecia que realmente ele estava se esforçando pra tentar acreditar em mim. – Mas, por enquanto, vamos deixar essa conversinha entre a gente!
    - Certo... – Respondi e logo o sinal tocou. Alan me deu passagem e eu voltei pra sala sem saber o que pensar dessa conversa. Será que eu tinha agido certo em tentar concertar isso depois de todos esses anos?


terça-feira, 17 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 60



    Parecia que o vento agora soprava ao nosso favor e finalmente a tempestade tinha passado. Com a Laura sob controle, fazendo, diga-se de passagem, todas as minhas obrigações domésticas e obedecendo a algumas exigências faraônicas que me vinham à cabeça deliberadamente. Os dias passavam deliciosamente e a iminência do resultado do teste de gravidez mantinha a peituda oxigenada a uma distância favorável à minha tranqüilidade. Era possível ver a expressão de felicidade no rosto de Felipe e Diego, mas, apesar desse sentimento mútuo, o olhar de Diego ainda trazia um pesar de medo do que poderia acontecer.
    Eu também tinha esse tempo para voltar a estudar intensamente, já que as minhas notas estavam na casa dos oito. Todo esse tempo extra me permitia pensar em outras possibilidades. Lembrei de algumas conversas que tinha tido com Diego sobre o menino pelo qual sou irracional e doentiamente apaixonado e agora estava pensando em fazer alguma coisa a respeito. Minha barriga se revirava e meu corpo gelava em um arrepio instantâneo só de pensar em dizer a ele como eu me sinto, ainda mais depois de tanto tempo. Eu queria conversar com Diego sobre isso, mas ele estava decepcionado comigo devido ao meu afastamento e meu orgulho era muito forte para eu ir até lá e tentar reatar laços com ele. Além disso, eu tinha que reaprender a fazer as coisas por mim mesmo, declarar minha independência de Felipe e Diego, talvez, esse tempo todo de aproximação excessiva com eles tenha me feito ter preguiça de dialogar com minha própria consciência.

[...]

    “Posso falar com você no intervalo? Ass: Brunno” Estava escrito no bilhete que tinha deixado dentro do caderno dele. A ansiedade me consumia, afinal, ele já tinha voltado do banheiro e sentado no seu lugar de costume há doze minutos e ainda não tinha aberto o caderno. Tentei prestar atenção na aula, sem muito sucesso, queria ver que reação ele teria ao ler o bilhete que eu tinha escrito em inacreditáveis trinta minutos porque não sabia de fato, que abordagem seria mais eficaz.
    O professor começou a anotar algumas questões no quadro que valiam ponto, então todos se apressaram em abrir seus cadernos; para alguns descompromissados essa ação se convertia em pedir folhas de caderno emprestadas aos outros, já que, nem cadernos levavam para as aulas; e foi então que ele abriu o caderno e viu o bilhete, ele pareceu ler e reler com certa indiferença ponderando se aceitaria ou não. Ele de repente lançou um olhar para mim, e com rapidez voltei minhas atenções ao caderno e comecei a copiar. Agora é só esperar. O professor proferiu, depois de muita insistência dos alunos da primeira fileira da sala, que o exercício poderia ser feito em trio, e logo pude perceber Felipe acenando para mim.
    - Obrigado Brunno! – Disse Felipe, puxando uma cadeira ao meu lado. – Estamos precisando de pontos nessa matéria, não é? – Ele deu uma leve cotovelada em Diego.
   - É... – Respondeu, puxando uma cadeira e sentando-se também.
   - Sem problemas... – Respondi em reticências, imprimindo um sorriso de educação. Minha cabeça só tinha espaço para a dúvida acerca de qual resposta eu iria receber.

[...]

    Acabei me distraindo com a quantidade de questões de matemática que tinha pra resolver em tão pouco tempo, afinal, nenhum dos meus dois ‘colegas de equipe’ sabiam me ajudar em nada.
   - Brunno, quer ajuda? – Indagou Felipe, interrompendo a conversa que estava levando com Diego.
   - Você não vai saber nenhuma dessas questões, até eu estou sentindo dificuldade! Você pode ajudar conversando mais baixo...
    Isadora me cutucou e me entregou um bilhete.
    “Eu aceito. Não por você, mas por minha curiosidade! Por trás do laboratório de ciências, no intervalo!” Um calafrio se apossou de mim. Ele aceitou!

domingo, 8 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 59



    A intensa chuva me persuadia a continuar dormindo, mas meus compromissos com minhas metas eram superiores a minha preguiça. Além disso, seria hoje que Felipe faria a ‘surpresa’ pra Tânia e ver sua expressão ao chegar na sala após isso era de um valor imensurável. Provavelmente, o resultado do teste demoraria a sair, mas é fato que o resultado estaria estampado na sua expressão muito antes dos especialistas terem acesso as amostras.

[...]

    A aula de história estava submersa ao tédio e monotonia habituais, quando Felipe entrou na sala entregando um daqueles bilhetinhos coloridos ao professor e foi em direção ao lugar que costumava se sentar. Tânia não ousou sentar perto dele e com uma expressão de extremo desconforto, foi trocar sussurros com sua amiga Gabrielle.

[...]

    - E então, Felipe? –Incitei ao me aproximar dele no intervalo.
    - Ela fez o papel da inocente que tem a sua honestidade posta à prova! - Respondeu ele. Por que eu não me surpreendi com essa informação?
    - A julgar pela expressão dela, nós temos a batalha dada como vencida, mas, como diz aquele ditado redundante ‘só acaba, quando termina’ e só nos resta esperar.
    - Pelo visto, por enquanto, eu tenho tempo. Já que ela está tão tensa que não falou mais comigo desde o incidente desta manhã.
    - Curta sua liberdade então... Mas saiba que falta mais uma rodada antes que todos nós mostremos as cartas. – Agora é que eu percebi que eu tinha essa mania de sempre falar usando figuras de linguagem.
    - Brunno... Eu...
    - De nada! – Intervim, estava cansado de ser agradecido.
    - Eu ia dizer outra coisa, mas o agradecimento também estava subentendido.
    - Ah! – Eu fiz uma pausa, parecia que os pensamentos de Felipe não me eram tão previsíveis agora. -  Desculpa, o que você ia dizer?
    - Eu queria te chamar pra gente conversar... Sei lá, tomar um sorvete...
    - Embora eu venha a considerar que esse é um convite despretensioso, acredito que Diego não vai gostar de saber.
    - Eu sinto falta de você e sei que ele também sente!
    - Não torne as coisas mais difíceis! Eu só quero consertar as consequências que decorreram daquela chantagem... – Deixei em reticências, embora meu coração acelerado indicasse à resposta que eu gostaria de ter dado.
    - Você sempre se refere a isso como uma coisa negativa, mas, nós ganhamos muito convivendo com você! Mesmo que tenha sido sob esse contexto.
    - Como assim?
    - Provavelmente, sem tudo que ocorreu, Diego e eu continuaríamos com a relação que tínhamos antes de te conhecer. A gente não teria se aproximado tanto e admitido pra nós mesmos que aquilo não era só sexo.
    - Vocês teriam tirado essa conclusão mesmo sem mim. – Era impossível não conceber uma futura “evolução” desse relacionamento, para algo menos desgastante.
    - Mas, o ponto é: quando seria isso? A gente podia até se dar conta no futuro, mas, que conseqüências essa demora acarretaria?
    - Eu não saberia calcular...
    - Está vendo? Então pare de se culpar por tudo não ter saído conforme o planejado, às vezes a vida proporciona desfechos ainda melhores do que nós tínhamos imaginado.

[...]

    A conversa que tive com Felipe, que ocupou cada segundo restante do intervalo me deixou pior do que eu já estava me sentindo. Ele me ausentou de toda a culpa e ainda queria me ter de volta como um amigo participante na sua vida. Por mais que eu tivesse essa capa de que era frio e calculista, eu tinha um coração. E esse coração está amolecendo em banho Maria, e a cada gesto como esse se aproxima o dia em que ele vai tomar o controle e eu vou estar vulnerável a me decepcionar novamente!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 58



   Voltei para a sala e comecei a resolver algumas questões de química 1 que tinha no livro, para recuperar a parte da aula que eu perdi em meio aos meus devaneios. Esse negócio de meia-vida até que era bem divertido, mas nada se compara a fazer cadeias de carbono Alcano, Alcino, Alceno, Benzeno, Álcool e etc. Era uma das minhas atividades de distração favoritas.
    Eu não sabia ao certo se eu tinha exagerado na dose de frieza com Diego, mas eu já estava um pouco estressado devido ao modo com que Felipe ironizava a minha tentativa de ajudá-lo
    A aula de redação começou, e como eu já tinha feito em casa todas as 10 redações que ele mandou fazer para constituir a nota bimestral, só iria me ocupar em passar a limpo de forma meticulosa. Esse era um daqueles momentos em que eu não queria pensar em absolutamente nada. Uma menina de outra turma entrou na sala e entregou um daqueles bilhetes chamativos, dessa vez, um bilhete verde-limão, para ele. Que parecia ler repetidas vezes sem compreender muito. Deixei isso pra lá e voltei ao meu trabalho caligráfico.
    - Brunno Biancchi, você está sendo chamado na sala da coordenação! – Proferiu ele, como se não entendesse o motivo que impulsionou esse chamado.

[...]

   Eu fiquei igualmente confuso, faz tempo que eu não era chamado lá, desde aquele episódio... Abri a porta da sala e acabei dando de cara com ele, que do alto dos seus 14 cm a mais de altura do que a minha, como eu costumava definir, ‘minusculosidade’, me fitou profundamente franzindo o cenho e fazendo questão de esbarrar em mim, como um rinoceronte raivoso, para entrar na sala. Eu fingi que nada aconteceu, afinal, me intrigava muito mais o fato de eu ter sido chamado na coordenação do que essa rixa de anos que eu tinha com o...
    - Oi Brunno! – Falou a psicóloga com aquela felicidade irritante. – Tudo bom, querido?
    - Tudo. – Respondi secamente, tentando ser o mais educado possível. Não era tão bom assim estudar numa sala que ficava vizinha à coordenação, não dava tempo nem de se preparar para receber a próxima bomba. Entrei, e cumprimentei a coordenadora que estava sentada no seu lugar habitual.
    - Sente-se, por favor! – Disse Sandra, a coordenadora. Eu preferia ouvir notícia ruim em pé, mas, o pedido dela foi quase como uma ordem. A sonsa da Audrey, a psicóloga retardada, sentou na cadeira ao lado da minha.
    - O que aconteceu? – Iniciei a conversa. Creio que tinha absorvido por osmose um pouco da impaciência que Felipe me mostrou no intervalo.
    - Veja bem Brunno, precisamos conversar sobre uma coisa muito importante! – Sandra falou enfaticamente. Será que alguém da minha família tinha morrido? Constatei instantaneamente que não, se fosse isso, a Audrey, vulgo psicóloga sensível, já estaria alisando as minhas costas ou realizando ações dessa natureza.
    - Algo com minha família? – Indaguei, fazendo uma cara de apreensão só pelo esporte de interpretar.
    - Não... Nós precisamos falar sobre o seu rendimento escolar! – Sandra interveio.
    - O que é que tem? – Eu não estava com paciência pra conversa fiada.
    - Você percebeu que suas notas caíram consideravelmente? – Ela continuou.
    - Sim. – Respondi firmemente.
    - A que você atribui a isso? – Perguntou Audrey, com aquele ar de ‘conte-me sua vida e eu resolverei seus problemas’.
    - Talvez eu tenha dado uma relaxada, mas ainda estou acima da média. – Falei, demonstrando um certo descaso.
    - Não se contente com pouco Brunno, sabemos que você é um aluno aplicado e é um dos alunos mais aplicados da sua turma! – Disse a psicóloga. – Para sua informação é “O” aluno mais aplicado, e não “um dos”, sua idiota.
    - Eu me esforço...  – Deixei em reticências, afinal, parece que a humildade, mesmo que seja em 80% dos casos produzidas por falsidade produzida pela educação que recebemos desde pequenos, é amplamente apreciada.
    - Já escolheu o que vai fazer no vestibular?
    - Teatro! – Soltei rapidamente. A expressão delas mudou de forma bem sutil. Estava na cara que essa era mais uma daquelas conversas em que elas tentariam me induzir de todas as maneiras a fazer Medicina, Direito, Odontologia ou uma das Engenharias, já que esses são cursos de maior concorrência e conseqüentemente agregam um destaque maior ao conceito do colégio. Resolvi responder todas as perguntas imbecis que elas fariam anteriormente, com respostas justamente opostas ao que elas querem ouvir.
    - Mas, você já pensou a respeito, tem tantas opções... – Sandra tentava me persuadir.
    - Odeio medicina. Não tenho paciência para ficar estudando todas as partes do corpo e dessecando cadáveres. Odeio direito. Não vou ter paciência de ficar lendo leis que são modificadas de ano em ano. Não gosto de Odontologia, porque ficar abrindo bocas cheias de tártaro e cáries não me parece ser uma coisa muito interessante. Engenharia está fora de questão, me afogar em cálculos também não parece muito empolgante.
    - Você não tem nem uma segunda opção? – A coordenadora forçou a barra.
    - Filosofia. – Menti. Essa era minha mensagem subliminar de “Parede sonhar, vocês não vão me induzir a fazer o que vocês querem”.
    - Só pense a respeito... – Disse a psicóloga com aquela voz mansa como um ronronado de uma gata no cio, apoiando a mão em meu ombro – E não se esqueça do Simulado Pré-Enem.
    - Mais alguma coisa? – Perguntei, elas apenas balançaram a cabeça negativamente. – Então, tchau! Bom dia pra vocês!
     Sai da sala me sentindo ultrajado. É muita pretensão achar que eu tenho uma mente fraca a ponto de ser influenciado com técnicas tão primitivas.
    - O aluno perfeitinho está descendo do pedestal? – Proferiu ele, ironizando minha ida à coordenação.
    - Só se pode perder alguma coisa que já se teve... – Respondi ousadamente. – Todos sabem que o 2° lugar nunca é lembrado nesses tipos de ranking!
    Ele saiu sem rebater a minha resposta.