- E então Dih... Está se sentindo melhor? – Eu disse, logo que ele abriu os olhos.
- Ah! Pegue na minha chibata! – Felipe olhou para mim com fogo no zóio. - Você sabe que a culpa é sua seu caga-pau!
- Aí dentro...- respondi voltando minha atenção para Diego.
Estávamos na enfermaria do meu colégio que, por incrível que pareça, eu nunca tinha visitado. Eu quase nunca ficava doente. Deitado na pequena cama suspensa estava Diego, ainda sem entender o que se passava.
- Diego? – Disse Felipe, ao perceber que ele não tinha respondido a minha pergunta. Parecia até que ele tava bebo topado!
- Oxente Lipe! Como eu vim parar aqui? Onde eu estou? – Indagou Diego bulindo no cabelo.
- Calma... Você teve uma bilôra e está na enfermaria! Deve tar meio lombrado ainda! Se você fosse mulher eu dizia que você tava buchuda! – Respondeu Felipe mangando. Passou a mão na cabeça dele carinhosamente.
Eu fui andando lentamente até o balcão da enfermeira para avisá-la que Diego já tinha acordado. Ela estava procurando algum tipo de bregueço para fazê-lo acordar. Eunice, a freira enfermeira, andou aperriada na direção a Diego. Ela pediu que ele permanecesse em silêncio enquanto ela verificava sua pressão.
- Olha só Diego... – Ela começou a falar, ajeitando o birilo que prendia seu cabelo no hábito - Sua pressão baixou um pouco, mas não há nada com que se preocupar. Na verdade, não entendo porque você desmaiou. Você se alimentou direito hoje?
- Acho que tomei um suco... Não me lembro bem, devo ter saído de casa aperriado...
- Rapazinho não faça mais isso! Você precisa se alimentar direito seu caba! – Disse a freira dando um carão nele. - Esses adolescentes não têm jeito... – Ela deu um largo sorriso de dentes amarelados. – Deve ter sido só uma gastura!
- Eu já posso... Ir? – Indagou Diego descabriado, fazendo aquela cara de pidão que desarmava até bomba-relógio.
- Claro! Vão com Deus! – Ela fez uma breve pausa – Ô seus cabas... Ajudem seu amigo certo? Ele pode estar um pouco tonto ainda... – Ela foi rapidamente até sua mesa e voltou com um quadradinho de papel rosa choque. – Não esqueçam do bilhete! Se não depois vão ficar dizendo que vocês tavam gazeando! E não é para ficar de gandaia pelos corredores não viu seus cabras? Diretinho pra sala visse?
- Iapois! – Respondemos em uníssono.
Os bilhetes eram quase como um “passe de corredor” na minha escola. Todo aluno que estava fora de sala por motivos importantes como estar na coordenação, na diretoria, na enfermaria, na psicóloga ou até com o serviço de orientação religiosa precisaria de um desses enxamosos bilhetes coloridos, devidamente assinados, para retornar à sala. Essa escola era toda cheia de pantim.
Nós fomos andando com o Diego incangado no ombro de Felipe até um local do meu colégio que era todo revestido de porcelanato azul no chão e que tinham alguns bancos que ficavam meio escondidos. Lá nós teríamos mais sossego, caso contrário, o belo bilhete rosa choque, que não tinha uma hora inscrita, no aperreio da enfermeira, que devia estar avexada, ela só assinou a data e esqueceu de preencher a hora, iria nos proteger.
- Pegue o beco pitôco! – Disse Felipe enfezado, logo quando nos sentamos.
- Tá! – Retruquei me levantando.
- Não, Brunno! Fique, precisamos conversar... – Pediu Diego.
- Ah! Agora você quer falar com a mundiça néh? Quero passar mais perrengue não!– Respondi, voltando a me sentar. Fitei a parede e uma catenga tava olhando para mim mexendo a cabeça.
- Deixe de munganga que o papo é sério... Olha só Brunno, eu não sei o que o Felipe te disse, mas... – Ele foi interrompido.
- Já foi chorar pra mamãe foi Rafamé? Você é cheio de pantinho!– Rosnou Felipe entre dentes.
- Oxe Lipe pare de arengar com o Brunno!!! – Ele botou seu olhar para Felipe, que foi quase um carão silencioso fazendo ele ficar arroiado.
- Como eu dizia... Eu não sei o que foi dito, só sei que não foram coisas boas, você sabe como Felipe é péssimo com as palavras... – Ele pousou um dedo sobre a minha boca interceptando minha possível fala. – E nós pedimos desculpas por isso, não é Felipe?
- Está bem seu niquelba, quer dizer... – Ele se corrigiu antes de continuar a falar. – Brunno. – Ele fez outra pausa. - Desculpa! Satisfeito? – Felipe aparentava estar com raiva.
- Oxente... Tem precisão não Diego, não carece disso! – Respondi. – O que esse brocoió disse ou não disse não é importante, só sei que vou acabar logo com essa presepada!
- Nem se atreva a mostrar nada, viu? Seu toco de amarrar jegue! Se não eu te dou um Vábei tão grande... – Reiniciou Felipe
- Aí dentro! Nem se preocupe, por enquanto, eu não tenho intenção de divulgar o chumbrego de vocês não, seu cabuloso! Em breve chamarei vocês para entrarmos num acordo quanto a essa questão. – Fiz uma pausa só pra deixar o Felipe cabreiro. - Até lá, eu não quero mais me escalar para nada com vocês! Não quero que você Diego faça o sacrifício de ficar dando em cima de um fuleiro que nem eu para conseguir aquela porcaria de DVD de volta, nem quero o Sr. Invocado me ameaçando pelos corredores...
- Como eu vou saber se isso não é só um Migué? – Falou Felipe todo peidado.
- Deixe de Fuleragem Felipe! É melhor não deixar o Brunno arretado!
- Eita bobônica da peste! Eu num sou faroso não seu caba de pêia! As minhas coisas não são de farenaite não!!! E é só isso que eu tenho a dizer! – Me levantei de supetão e vazei de lá atravessado feito cu de calango.
[...]
Não queria ouvir mais nada daqueles dois. Eles acabaram me seguindo como chumbetas, porque eu estava com a bobônica do bilhete. Bati levemente na porta e entreguei o bilhete ao professor de redação, sentando-me no lugar de costume. Umas pessoas ficaram fuxicando sobre nós. Roberta me olhou com um olhar de dúvida, que logo se substituiu por compreensão ao perceber que Diego e Felipe entraram comigo. Ela não me fez mais perguntas, sabia que mais tarde eu ia satisfazer todas suas curiosidades com um mero suborno de algumas taças de sorvete de menta. Mas mesmo assim ela ficou meio azogada.
[...]
Eu me arreganhei no sofá da casa da Roberta como de costume. Os pais dela estavam viajando para resolver um problema familiar na Paraíba e ela ficaria sozinha por alguns dias, aí dava pra conversar potoca à vontade. Rosa, a empregada ou como gostaria de ser chamada “executiva do lar”, não demorou muito para servir o almoço que por sinal, estava arretado.
- E aí gente, tá sapecado? –Indagou rosa. – Eu quase esquecia panela, tava com o bucho no tanque...
- Não... Está ótimo rosa! Você cada dia ficando mais tampa de crush! – Eu respondi.
Nós conversamos sobre os temas dos trabalhos de redação que teríamos que fazer. Por causa da minha ausência da sala, eu tinha perdido toda a explicação do professor. Se eu não procurasse saber eu ia levar tromba. Em sumo, o querido professor Osvaldo queria que nós fizéssemos 20 redações, escolhidas dentre os 50 tipos de temas e entregasse tudo isso no final de novembro encadernado. Ele era um professor muito exigente, e certamente o meu professor favorito. Eu nunca consegui uma nota máxima na matéria dele, esse professor só botava pra lascar, apesar das minhas notas serem umas das melhores da sala, num máximo de 0 a 18 eu geralmente tirava 16 ou 17, mas acho que isso, em parte, me instigava a melhorar a minha escrita.
Depois do almoço, Roberta arrochou sorvete em duas taças e me conduziu ao quarto dela, e começou a fazer perguntas num aperreio só, e eu, entre uma colherada e outra, ia sanando suas dúvidas.
No final de tudo, Roberta resolveu analisar a questão.
- Brunno... Eu estou com medo de você levar uns supapos nessa história... Eu sei que você é arriado os quatro pneus e o estepe pelo Diego e não é de hoje! E não adianta querer dizer que você não tem uma quedinha pelo Felipe também!
- Eita! Eu não gosto do Felipe!
- Se não gosta eu sou uma bulacheira!... – Disse ela cheia de lomba. - Lembra dos jogos internos do ano passado? Quando ele saiu da piscina com aquela sunga vermelha com aquela lapa de bunda, depois de ter ganhado o ouro para o 2° “A”?
- Oxe, o que é que tem?
- Oxente...Você ficou babando por ele e me disse que se ele tivesse cérebro, você provavelmente estaria apaixonado por ele também...
- Foi só um comentário... Nada haver você futucar nessa história!
- Aí dentro! Deixe de presepada véi! Não diga que você num fica pocando de vontade de pegar ele... De dar uma chumbregada, dele ficar cheirando o seu cangote...– Roberta começou a se abrir.
- Apesar de ser um completo idiota e ter um fiapo de charque no lugar do cérebro, não vou mentir que gosto dele... Nas festas, dançando com quenguinhas de quinta categoria, conversando com todo mundo e sendo sociável até que ele parece ser uma boa pessoa, apesar de ser raparigueiro. Mas eu é que não quero levar gaia enquanto ele cai na gandaia com as raparigas dele ou com os com as bichinhas cuscuz com sardinha.
- Deixe de ser despeitado... – Reiniciou ela. – Se bem que aquelas raputengas de lá da sala merecem! – Ela começou a rir, voltando a ficar sisuda logo. - Enfim querido Bruninho... Tenha juízo viu? Eu sei que você tem a cabeça no lugar, mas também não precisa repetir o que você fez na 5ª série! Não vá sacudir tudo o que você aprendeu!
- Vixe Maria! Mas... Você tem que admitir que aquilo foi o pipoco! Saudades daqueles tempos que eu era tampa de crush - Rebati caindo na gargalhada, eu era terrível na 5ª série e fiz várias coisas divertidas para me vingar dos idiotas que falavam mal de mim pelas costas.
- Valei-me Brunno... – Ela reiniciou fazendo sua cara de reprovação. – Eu te conheço desde a época que a gente jogava chimbra seu caba, e te digo uma coisa: Já dizia o sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, pois mata a alma e envenena! – Ela caiu na risada, mas sei que ela estava me dando um conselho muito importante no meio daquela presepada. – Cuidado para esse troço num miar viu?
[...]
Voltei para casa. Precisava dar andamento ao meu plano para recuperar o DVD e tucaiar a Laura. Além disso, se eu fosse para casa tarde iria ter muito maloqueiro nóiado na rua. Tava um calor de rachar o quengo, ô lugar quente essa minha querida cidade de Maceió!
Minha irmã estava arreganhada no sofá, com as canelas cheia de pelos nascendo, assistindo um especial na VH1 sobre os Hansons. Parece que ela só se arruma quando o namorado tá na cidade. Como era de costume ela já veio fazendo algumas exigências.
- Os pratos estão esperando você na pia certo irmãozinho? – Disse ela enquanto eu tentava ir sorrateiramente para o quarto. - E cadê o meu laptop heim seu leso? Responda! Tá môco é? – Ela indagou empinando a venta.
Espere só eu botar pocando, pra você deixar dessas presepadas pra cima de mim! Mas num vou ficar afobado não, vai ser tudo ao seu tempo.
- Espere aí... – Eu fui rapidamente no meu quarto e peguei o MEU laptop para dar para a minha irmã retardada. – Está aqui! Pronto! – Eu disse fingindo que tava descabriado, estendendo-o em sua direção.
- Bote esse bregueço ali no raque! – Respondeu ela matando uma muriçoca.
Eu coloquei e já estava saindo de fininho antes que recebesse mais ordens. Sem sucesso. Ela voltou a matracar.
Ela tá se achando a bala.
- Mainha pediu para que eu fizesse suco de maracujá... Então... Você pode fazer para mim irmãozinho? Os maracujás estão inriba da mesa da cozinha... – Iniciou ela com ironia. – Ah! Então esqueça de trazer um copinho para mim e tire as roupas do varal, pode ser que dê um toró e molhe tudo...
Eu vou é enfiar esse suco na sua guéla sua rapariga até você botar os bofes pra fora!
- Tá! - Respondi brabo. Aquela fia da peste me deixava infezado. Se ela acha que vou fazer o que ela quer o tempo todo, vou uma pinóia! Deixe estar...
Ela não sabia que estava cutucando onça com vara curta, mas ela não perdia por esperar... Vai ser um pega-pra-capá da bixiga!