sábado, 14 de janeiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 33


    Fui até o banheiro, precisava escovar os dentes e tomar um banho antes de enfrentar aquela pilha de pratos e ainda fazer aquele suco chato de fazer. Fiquei me olhando no espelho em cima da pia do banheiro. Eu era tão feio assim? Comecei a fazer uma análise de mim mesmo. Eu tinha algumas espinhas pelo rosto e alguns cravos também, principalmente no nariz. Meu cabelo era péssimo, eu nunca me entendi com ele, sempre precisava cortá-lo curto para ele ficar mais ou menos, ele era seco e leve e ficava todo embaraçado fazendo algumas ondulações. O pior de tudo é que meu cabelo não se decidia, ele nem era cacheado nem era inteiramente liso. Depois disso tinham meus dentes amarelados. Faziam alguns meses que eu tinha tirado o aparelho, mas minha mãe não quis pagar um clareamento. Então, finalmente, tínhamos o corpo, que não chegava nem aos pés do corpo escultural do Felipe, e ainda por cima eu tinha espinhas nas costas e nos braços. Resumidamente, eu precisava de um bom cabeleireiro e provavelmente de um daqueles tratamentos caros, acho que o Gavazzi resolveria a questão, o trabalho dele era brilhante, mas eu não tinha recursos para isso. Precisava também de um bom dermatologista e creminhos, géis dentre outros procedimentos que também eram caros. Precisaria de um clareamento a lazer para meu sorriso ficar perfeito. E, fazer academia, ou alguma atividade física que deixasse meu corpo melhor e detonasse meus pneuzinhos. Enfim... Eu precisava ganhar na mega sena, ou pelo menos no Alagoas dá sorte.
    Deixei essa auto-análise para outra hora. Precisava me arrumar rápido para  poder arrumar tudo em casa. Abri o armário-espelho e fui pegar a pasta de dente, acabei esbarrando em uns remédios e tive que arrumar tudo de novo. Odeio esse meu lado desastrado de ser. Arrumando as caixas uma me chamou atenção: Diazepam. Tentei me recordar para que é que ele servia. Acabei me lembrando de uma peça de comédia que tinha ido em que o protagonista tomava remédios para dormir e era esse tal diazepam. Isso me deu uma idéia interessante.
[...]
    Depois de tomar meu banho de revitalização e de ter escovado meus dentes. Coloquei uma colônia que eu usava em casa e me vesti. Fui rapidamente fazer o maldito, que agora era bendito, suco de maracujá. Pisei um comprimido no copo e misturei com o suco. Não queria que ela dormisse muito tempo.
    - Está aqui seu suco! – Entreguei à Laura fazendo cara de raiva.
    Voltei à cozinha e comecei a lavar os pratos. Não podia ficar na sala para não dar bandeira. Esperei o remédio surtir efeito. Depois de uns 10 minutos, quando eu estava na metade do serviço, fui a sala e percebi que ela estava dormindo. Ainda não era a hora de pegar o DVD, mesmo tendo sido agraciado com essa chance inesperada, eu queria que a Laura ficasse com a cara no chão, queria fazê-la de minha escrava, virar a mesa.
    Procurei a chave em todos os cantos da sala. O quarto dela estava trancado.
     - Que burrice Brunno! – Sussurrei para mim mesmo. O lógico era ela ficar com a chave o tempo todo então, nada mais seguro do que...
    Fui me aproximando dela lentamente. Minhas suspeitas se confirmaram, ela prendeu a chave a um colar.
    Tentar retirar aquele colar seria bem complicado, eu não queria que ela acordasse. Se eu tentasse puxá-lo para abrir o fecho, provavelmente eu teria que mexer no cabelo dela e isso não acabaria bem. A sorte é que a chave não estava presa diretamente à corrente, e sim, presa a uma argola de metal que, por sua vez, estava presa a corrente. Então tudo que eu tinha que fazer era abrir a argola, tirar a chave e depois que eu terminasse devolver a chave ao lugar.
    Peguei dois alicates que estavam guardados numa caixinha na dispensa (Da época que Laura fazia bijuterias) e com habilidade e paciência consegui retirar a chave da corrente sem fazê-la se acordar.
    Saí lentamente de casa. Precisava ir ao chaveiro para fazer uma cópia.
    Meu coração estava pulando pela boca, o homem estava demorando muito a terminar e não sei quanto tempo o meu boa noite cinderela improvisado iria durar. Corri de volta para casa. Laura já tinha mudado de posição no sofá, o que dificultou muito colocar tudo de volta sem acordá-la.
    Ainda com o coração acelerado, depois de ter devolvido a chave ao seu lugar original, coloquei a chave em um barbante e amarrei na minha cintura escondendo ela na minha cueca: o lugar mais seguro que eu podia imaginar... Voltei a lavar os pratos.
    Minha irmã veio até a cozinha cambaleante com dor de cabeça, colocou o copo na pia e saiu resmungando dizendo que estava com cólica e dor de cabeça. Ela mal sabia que teria bem mais dor de cabeça do que pensaria ter e dessa vez o incômodo não seria causado como um mero efeito colateral de um remédio...
[...]
    Infelizmente, as conversas noturnas de minha irmã com seu namoradinho idiota não passaram dela reclamando que estava com cólica e dizendo que estava com saudade dele e essas baboseiras, que não me ajudariam em nada na minha vingança. Mas eu não podia reclamar da sorte, com a cópia da chave eu poderia entrar no quarto dela na hora que eu quisesse. Depois que eu reunisse algumas coisas com as quais eu pudesse chantageá-la eu poderia entrar no quarto dela e pegar o DVD. Ela ia comer na minha mão...

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 32 Versão especial (Dialeto Maceioense)


    - E então Dih... Está se sentindo melhor? – Eu disse, logo que ele abriu os olhos.
    - Ah! Pegue na minha chibata! – Felipe olhou para mim com fogo no zóio. - Você sabe que a culpa é sua seu caga-pau!
    - Aí dentro...- respondi voltando minha atenção para Diego.
    Estávamos na enfermaria do meu colégio que, por incrível que pareça, eu nunca tinha visitado. Eu quase nunca ficava doente. Deitado na pequena cama suspensa estava Diego, ainda sem entender o que se passava.
    - Diego? – Disse Felipe, ao perceber que ele não tinha respondido a minha pergunta. Parecia até que ele tava bebo topado!
    - Oxente Lipe! Como eu vim parar aqui? Onde eu estou? – Indagou Diego bulindo no cabelo.
    - Calma... Você teve uma bilôra e está na enfermaria! Deve tar meio lombrado ainda! Se você fosse mulher eu dizia que você tava buchuda! – Respondeu Felipe mangando. Passou a mão na cabeça dele carinhosamente.
    Eu fui andando lentamente até o balcão da enfermeira para avisá-la que Diego já tinha acordado. Ela estava procurando algum tipo de bregueço para fazê-lo acordar. Eunice, a freira enfermeira, andou aperriada na direção a Diego. Ela pediu que ele permanecesse em silêncio enquanto ela verificava sua pressão.
     - Olha só Diego... – Ela começou a falar, ajeitando o birilo que prendia seu cabelo no hábito - Sua pressão baixou um pouco, mas não há nada com que se preocupar. Na verdade, não entendo porque você desmaiou. Você se alimentou direito hoje?
     - Acho que tomei um suco... Não me lembro bem, devo ter saído de casa aperriado...
     - Rapazinho não faça mais isso! Você precisa se alimentar direito seu caba! – Disse a freira dando um carão nele. - Esses adolescentes não têm jeito... – Ela deu um largo sorriso de dentes amarelados. – Deve ter sido só uma gastura!
    - Eu já posso... Ir? – Indagou Diego descabriado, fazendo aquela cara de pidão que desarmava até bomba-relógio.
    - Claro! Vão com Deus! – Ela fez uma breve pausa – Ô seus cabas... Ajudem seu amigo certo? Ele pode estar um pouco tonto ainda... – Ela foi rapidamente até sua mesa e voltou com um quadradinho de papel rosa choque. – Não esqueçam do bilhete! Se não depois vão ficar dizendo que vocês tavam gazeando! E não é para ficar de gandaia pelos corredores não viu seus cabras? Diretinho pra sala visse?
    - Iapois! – Respondemos em uníssono.
    Os bilhetes eram quase como um “passe de corredor” na minha escola. Todo aluno que estava fora de sala por motivos importantes como estar na coordenação, na diretoria, na enfermaria, na psicóloga ou até com o serviço de orientação religiosa precisaria de um desses enxamosos bilhetes coloridos, devidamente assinados, para retornar à sala. Essa escola era toda cheia de pantim.
    Nós fomos andando com o Diego incangado no ombro de Felipe até um local do meu colégio que era todo revestido de porcelanato azul no chão e que tinham alguns bancos que ficavam meio escondidos. Lá nós teríamos mais sossego, caso contrário, o belo bilhete rosa choque, que não tinha uma hora inscrita, no aperreio da enfermeira, que devia estar avexada, ela só assinou a data e esqueceu de preencher a hora, iria nos proteger.
    - Pegue o beco pitôco! – Disse Felipe enfezado, logo quando nos sentamos.
    - Tá! – Retruquei me levantando.
    - Não, Brunno! Fique, precisamos conversar... – Pediu Diego.
    - Ah! Agora você quer falar com a mundiça néh? Quero passar mais perrengue não!– Respondi, voltando a me sentar. Fitei a parede e uma catenga tava olhando para mim mexendo a cabeça.
    - Deixe de munganga que o papo é sério... Olha só Brunno, eu não sei o que o Felipe te disse, mas... – Ele foi interrompido.
    - Já foi chorar pra mamãe foi Rafamé? Você é cheio de pantinho!– Rosnou Felipe entre dentes.
    - Oxe Lipe pare de arengar com o Brunno!!! – Ele botou seu olhar para Felipe, que foi quase um carão silencioso fazendo ele ficar arroiado.
    - Como eu dizia... Eu não sei o que foi dito, só sei que não foram coisas boas, você sabe como Felipe é péssimo com as palavras... – Ele pousou um dedo sobre a minha boca interceptando minha possível fala. – E nós pedimos desculpas por isso, não é Felipe?
    - Está bem seu niquelba, quer dizer... – Ele se corrigiu antes de continuar a falar. – Brunno. – Ele fez outra pausa. - Desculpa! Satisfeito? – Felipe aparentava estar com raiva.
    - Oxente... Tem precisão não Diego, não carece disso! – Respondi. – O que esse brocoió disse ou não disse não é importante, só sei que vou acabar logo com essa presepada!
    - Nem se atreva a mostrar nada, viu? Seu toco de amarrar jegue! Se não eu te dou um Vábei tão grande... – Reiniciou Felipe
    - Aí dentro! Nem se preocupe, por enquanto, eu não tenho intenção de divulgar o chumbrego de vocês não, seu cabuloso! Em breve chamarei vocês para entrarmos num acordo quanto a essa questão. – Fiz uma pausa só pra deixar o Felipe cabreiro. - Até lá, eu não quero mais me escalar para nada com vocês! Não quero que você Diego faça o sacrifício de ficar dando em cima de um fuleiro que nem eu para conseguir aquela porcaria de DVD de volta, nem quero o Sr. Invocado me ameaçando pelos corredores...
    - Como eu vou saber se isso não é só um Migué? – Falou Felipe todo peidado.
    - Deixe de Fuleragem Felipe! É melhor não deixar o Brunno arretado!
    - Eita bobônica da peste! Eu num sou faroso não seu caba de pêia! As minhas coisas não são de farenaite não!!! E é só isso que eu tenho a dizer! – Me levantei de supetão e vazei de lá atravessado feito cu de calango.


[...]

    Não queria ouvir mais nada daqueles dois. Eles acabaram me seguindo como chumbetas, porque eu estava com a bobônica do bilhete. Bati levemente na porta e entreguei o bilhete ao professor de redação, sentando-me no lugar de costume. Umas pessoas ficaram fuxicando sobre nós. Roberta me olhou com um olhar de dúvida, que logo se substituiu por compreensão ao perceber que Diego e Felipe entraram comigo. Ela não me fez mais perguntas, sabia que mais tarde eu ia satisfazer todas suas curiosidades com um mero suborno de algumas taças de sorvete de menta. Mas mesmo assim ela ficou meio azogada.
[...]
    Eu me arreganhei no sofá da casa da Roberta como de costume. Os pais dela estavam viajando para resolver um problema familiar na Paraíba e ela ficaria sozinha por alguns dias, aí dava pra conversar potoca à vontade. Rosa, a empregada ou como gostaria de ser chamada “executiva do lar”, não demorou muito para servir o almoço que por sinal, estava arretado.
    - E aí gente, tá sapecado? –Indagou rosa. – Eu quase esquecia panela, tava com o bucho no tanque...
    - Não... Está ótimo rosa! Você cada dia ficando mais tampa de crush! – Eu respondi.
   Nós conversamos sobre os temas dos trabalhos de redação que teríamos que fazer. Por causa da minha ausência da sala, eu tinha perdido toda a explicação do professor. Se eu não procurasse saber eu ia levar tromba. Em sumo, o querido professor Osvaldo queria que nós fizéssemos 20 redações, escolhidas dentre os 50 tipos de temas e entregasse tudo isso no final de novembro encadernado. Ele era um professor muito exigente, e certamente o meu professor favorito. Eu nunca consegui uma nota máxima na matéria dele, esse professor só botava pra lascar, apesar das minhas notas serem umas das melhores da sala, num máximo de 0 a 18 eu geralmente tirava 16 ou 17, mas acho que isso, em parte, me instigava a melhorar a minha escrita.
    Depois do almoço, Roberta arrochou sorvete em duas taças e me conduziu ao quarto dela, e começou a fazer perguntas num aperreio só, e eu, entre uma colherada e outra, ia sanando suas dúvidas.
    No final de tudo, Roberta resolveu analisar a questão.
    - Brunno... Eu estou com medo de você levar uns supapos nessa história... Eu sei que você é arriado os quatro pneus e o estepe pelo Diego e não é de hoje! E não adianta querer dizer que você não tem uma quedinha pelo Felipe também!
    - Eita! Eu não gosto do Felipe!
    - Se não gosta eu sou uma bulacheira!... – Disse ela cheia de lomba. - Lembra dos jogos internos do ano passado? Quando ele saiu da piscina com aquela sunga vermelha com aquela lapa de bunda, depois de ter ganhado o ouro para o 2° “A”?
    - Oxe, o que é que tem?
    - Oxente...Você ficou babando por ele e me disse que se ele tivesse cérebro, você provavelmente estaria apaixonado por ele também...
    - Foi só um comentário... Nada haver você futucar nessa história!
    - Aí dentro! Deixe de presepada véi! Não diga que você num fica pocando de vontade de pegar ele... De dar uma chumbregada, dele ficar cheirando o seu cangote...– Roberta começou a se abrir.
    - Apesar de ser um completo idiota e ter um fiapo de charque no lugar do cérebro, não vou mentir que gosto dele... Nas festas, dançando com quenguinhas de quinta categoria, conversando com todo mundo e sendo sociável até que ele parece ser uma boa pessoa, apesar de ser raparigueiro. Mas eu é que não quero levar gaia enquanto ele cai na gandaia com as raparigas dele ou com os com as bichinhas cuscuz com sardinha.
    - Deixe de ser despeitado... – Reiniciou ela.  – Se bem que aquelas raputengas de lá da sala merecem! – Ela começou a rir, voltando a ficar sisuda logo. - Enfim querido Bruninho... Tenha juízo viu? Eu sei que você tem a cabeça no lugar, mas também não precisa repetir o que você fez na 5ª série! Não vá sacudir tudo o que você aprendeu!
    - Vixe Maria! Mas... Você tem que admitir que aquilo foi o pipoco! Saudades daqueles tempos que eu era tampa de crush - Rebati caindo na gargalhada, eu era terrível na 5ª série e fiz várias coisas divertidas para me vingar dos idiotas que falavam mal de mim pelas costas.
    - Valei-me Brunno... – Ela reiniciou fazendo sua cara de reprovação. – Eu te conheço desde a época que a gente jogava chimbra seu caba, e te digo uma coisa: Já dizia o sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, pois mata a alma e envenena! – Ela caiu na risada, mas sei que ela estava me dando um conselho muito importante no meio daquela presepada. – Cuidado para esse troço num miar viu?

[...]
     Voltei para casa. Precisava dar andamento ao meu plano para recuperar o DVD e tucaiar a Laura. Além disso, se eu fosse para casa tarde iria ter muito maloqueiro nóiado na rua. Tava um calor de rachar o quengo, ô lugar quente essa minha querida cidade de Maceió!
    Minha irmã estava arreganhada no sofá, com as canelas cheia de pelos nascendo, assistindo um especial na VH1 sobre os Hansons. Parece que ela só se arruma quando o namorado tá na cidade. Como era de costume ela já veio fazendo algumas exigências.
    - Os pratos estão esperando você na pia certo irmãozinho? – Disse ela enquanto eu tentava ir sorrateiramente para o quarto. - E cadê o meu laptop heim seu leso? Responda! Tá môco é? – Ela indagou empinando a venta.
    Espere só eu botar pocando, pra você deixar dessas presepadas pra cima de mim! Mas num vou ficar afobado não, vai ser tudo ao seu tempo.
    - Espere aí... – Eu fui rapidamente no meu quarto e peguei o MEU laptop para dar para a minha irmã retardada. – Está aqui! Pronto! – Eu disse fingindo que tava descabriado, estendendo-o em sua direção.
    - Bote esse bregueço ali no raque! – Respondeu ela matando uma muriçoca.
    Eu coloquei e já estava saindo de fininho antes que recebesse mais ordens. Sem sucesso. Ela voltou a matracar.
    Ela tá se achando a bala.
    - Mainha pediu para que eu fizesse suco de maracujá... Então... Você pode fazer para mim irmãozinho? Os maracujás estão inriba da mesa da cozinha... – Iniciou ela com ironia. – Ah!  Então esqueça de trazer um copinho para mim e tire as roupas do varal, pode ser que dê um toró e molhe tudo...
    Eu vou é enfiar esse suco na sua guéla sua rapariga até você botar os bofes pra fora!
    - Tá!  - Respondi brabo. Aquela fia da peste me deixava infezado. Se ela acha que vou fazer o que ela quer o tempo todo, vou uma pinóia! Deixe estar...
    Ela não sabia que estava cutucando onça com vara curta, mas ela não perdia por esperar... Vai ser um pega-pra-capá da bixiga!

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 32


    - E então Dih... Está se sentindo melhor? – Eu disse, logo que ele abriu os olhos.
    Estávamos na enfermaria do meu colégio que, por incrível que pareça, eu nunca tinha visitado. Eu quase nunca ficava doente. Deitado na pequena cama suspensa estava Diego, ainda sem entender o que se passava.
    - Diego? – Disse Felipe, ao perceber que ele não tinha respondido a minha pergunta.
    - Oi Lipe... Como eu vim parar aqui? Onde eu estou?
    - Calma... Você apenas desmaiou e está na enfermaria! – Respondeu Felipe de forma carinhosa, passando a mão na cabeça dele.
    Eu fui andando lentamente até o balcão da enfermeira para avisá-la que Diego já tinha acordado. Ela estava procurando algum tipo de substância para fazê-lo acordar. Eunice, a freira enfermeira, andou rapidamente em direção a Diego. Ela pediu que ele permanecesse em silêncio enquanto ela verificava sua pressão.
     - Olha só Diego... – Ela começou a falar - Sua pressão baixou um pouco, mas não há nada com que se preocupar. Na verdade, não entendo porque você desmaiou. Você se alimentou direito hoje?
     - Acho que tomei um suco... Não me lembro bem, devo ter saído de casa atrasado...
     - Rapazinho não faça mais isso! Você precisa se alimentar direito querido! Esses adolescentes não tem jeito... – Ela deu um largo sorriso de dentes amarelados.
    - Eu já posso... Ir? – Indagou Diego com aquela cara de pidão que desarmava até bomba-relógio.
    - Claro! Vão com Deus! – Ela fez uma breve pausa - Meninos... Ajudem seu amigo certo? Ele pode estar um pouco tonto ainda... – Ela foi rapidamente até sua mesa e voltou com um quadradinho de papel rosa choque. – Não esqueçam do bilhete!
    Os bilhetes eram quase como um “passe de corredor” na minha escola. Todo aluno que estava fora de sala por motivos importantes como estar na coordenação, na diretoria, na enfermaria, na psicóloga ou até com o serviço de orientação religiosa precisaria de um desses chamativos bilhetes coloridos, devidamente assinados, para retornar à sala.
    Nós fomos andando com o Diego até um local do meu colégio que era todo revestido de porcelanato azul no chão e que tinham alguns bancos que ficavam meio escondidos. Lá nós teríamos mais sossego, caso contrário, o belo bilhete rosa choque, que não tinha uma hora inscrita, na presa a enfermeira só assinou a data e esqueceu de preencher a hora, iria nos proteger.
    - Acho que está na hora de você sair Nerdzinho! – Disse Felipe, logo quando nos sentamos.
    - Tá! – Retruquei me levantando.
    - Não, Brunno! Fique, precisamos conversar... – Pediu Diego.
    - Ok! – Respondi, voltando a me sentar.
    - Olha só Brunno, eu não sei o que o Felipe te disse, mas... – Ele foi interrompido.
    - Já foi chorar pra mamãe foi? – Rosnou Felipe entre dentes.
    - Lipe... – Ele colocou seu olhar de desaprovação para Felipe, fazendo-o se calar.
    - Como eu dizia... Eu não sei o que foi dito, só sei que não foram coisas boas, você sabe como Felipe é péssimo com as palavras... – Ele pousou um dedo sobre a minha boca interceptando minha possível fala. – E nós pedimos desculpas por isso, não é Felipe?
    - Está bem Nerdzi... – Ele se corrigiu antes de continuar a falar. – Brunno, desculpa! Satisfeito? – Felipe aparentava estar com raiva.
    - Isso realmente não é necessário Diego! – Respondi. – O que ele disse ou não disse não é importante, só sei que vou acabar logo com essa situação!
    - Nem se atreva a mostrar... – Reiniciou Felipe
    - Não se preocupe, por enquanto, eu não tenho intenção de divulgar nada. Em breve chamarei vocês para entrarmos num acordo quanto a essa questão. Até lá, eu não quero conviver com vocês! Não quero que você Diego faça o sacrifício de ficar dando em cima de alguém tão ridículo como eu para conseguir aquela porcaria de DVD de volta, nem quero o Sr. Esquentadinho me ameaçando pelos corredores. E é só isso que eu tenho a dizer! – Me levantei bruscamente e saí dali.

[...]

    Não queria ouvir mais nada daqueles dois. Eles acabaram me seguindo, porque eu estava com o bilhete. Bati levemente na porta e entreguei o bilhete ao professor de redação, sentando-me no lugar de costume. Roberta me olhou com um olhar de dúvida, que logo se substituiu por compreensão ao perceber que Diego e Felipe entraram comigo. Ela não me fez mais perguntas, sabia que mais tarde eu ia satisfazer todas suas curiosidades com um mero suborno de algumas taças de sorvete de menta.

[...]

    Eu me joguei no sofá da casa da Roberta como de costume. Os pais dela estavam viajando para resolver um problema familiar na Paraíba e ela ficaria sozinha por alguns dias. Rosa, a empregada ou como gostaria de ser chamada “executiva do lar”, não demorou muito para servir o almoço. Nós conversávamos sobre os temas dos trabalhos de redação que teríamos que fazer. Por causa da minha ausência da sala, eu tinha perdido toda a explicação do professor. Em sumo, o querido professor Osvaldo queria que nós fizéssemos 20 redações, escolhidas dentre os 50 tipos de temas e entregasse tudo isso no final de novembro encadernado. Ele era um professor muito exigente, e certamente o meu professor favorito. Eu nunca  consegui uma nota máxima na matéria dele, apesar das minhas notas serem umas das melhores da sala, num máximo de 0 a 18 eu geralmente tirava 16 ou 17, mas acho que isso, em parte, me instigava a melhorar a minha escrita.
    Depois do almoço, munida pelas taças de sorvete, Roberta me conduziu ao quarto dela, e começou a fazer perguntas e eu, entre uma colherada e outra, ia sanando suas dúvidas.
    No final de tudo, Roberta resolveu analisar a questão.
    - Brunno... Eu estou com medo de você se machucar nessa história... Eu sei que você gosta do Diego e não é de hoje! E não adianta querer dizer que você não tem uma quedinha pelo Felipe também!
    - Eu não gosto do Felipe!!!
    - Lembra dos jogos internos do ano passado? Quando ele saiu da piscina com aquela sunga vermelha depois de ter ganhado o ouro para o 2° “A”?
    - O que é que tem?
    - Você ficou babando por ele e me disse que se ele tivesse cérebro, você provavelmente estaria apaixonado por ele também...
    - Foi só um comentário...
    - Brunno! – Roberta fez aquela cara de ‘deixa dessa’ para mim.
    - Apesar dele ser um completo idiota e ter um grão de arroz no lugar do cérebro, não vou mentir que gosto dele... Nas festas, dançando com as meninas, conversando com todo mundo e sendo sociável até que ele parece ser uma boa pessoa.
    - Enfim querido Bruninho... Tenha juízo viu? Eu sei que você tem a cabeça no lugar, mas também não precisa repetir o que você fez na 5ª série!
    - Mas... Você tem que admitir que aquilo foi divertido!- Rebati caindo na gargalhada, eu era terrível na 5ª série e fiz várias coisas divertidas  para me vingar dos idiotas que falavam mal de mim pelas costas.
    - Brunno... – Ela reiniciou fazendo sua cara de reprovação. – Já dizia o sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, pois mata a alma e envenena! – Ela caiu na risada, mas sei que ela estava me dando um conselho muito importante no meio daquela brincadeira.
[...]

     Voltei para casa. Precisava dar andamento ao meu plano para recuperar o DVD. Minha irmã estava jogada no sofá assistindo um especial na VH1 sobre os Hansons. Como era de costume ela já veio fazendo algumas exigências.
    - Os pratos estão esperando você na pia certo irmãozinho? – Disse ela enquanto eu tentava ir sorrateiramente para o quarto. -  E cadê o meu laptop heim?
    - Espere aí... – Eu fui rapidamente no meu quarto e peguei o MEU laptop para dar para a minha irmã retardada. – Está aqui! – Eu disse, estendendo-o em sua direção.
    - Pode colocar ali no raque!
    Eu coloquei e já estava saindo de fininho antes que recebesse mais ordens. Sem sucesso.
    - A mamãe pediu para que eu fizesse suco de maracujá... Então... Você pode fazer para mim irmãozinho? Os maracujás estão na mesa da cozinha... – Iniciou ela com ironia. – Ah!  Então esqueça de trazer um copinho para mim.
    - Tá!  - Rosnei com raiva.
    Ela não sabia que estava cutucando onça com vara curta, mas ela não perdia por esperar...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 31


    Sentei no meu lugar habitual. Roberta veio me encher de perguntas e eu disse que mais tarde ia a casa dela para tomar o sorvete de menta com chocolate conversar com ela e explicar o que está acontecendo. Diego me fitou quando entrou na sala, já atrasado, e fez sinal para que eu fosse sentar perto dele, mas eu apenas o ignorei. Não tardou muito para Felipe chegar e colocar sua cara de deboche para mim enquanto tomava o lugar ao lado de Diego.
    No intervalo Diego veio falar comigo, e praticamente me arrastou para um lugar mais tranqüilo da escola, onde tinham árvores grandes, e onde podíamos conversar em paz.
    - Brunno, por favor, me desculpe! Eu não queria ter falado aquilo.
    - Era o que você estava pensando...
    - Mas não era o que eu estava sentindo... – Eu o interrompi.
    - Eu não vou me fazer de bobo, eu sei que você estava querendo me usar para atingir o Felipe, mas eu ainda tinha alguma esperança de que parte daquilo fosse verdade.
    - E era... – O interrompi novamente.
    - Pare Diego! Não minta para mim!
    - Eu não quero te machucar Brunno e não vou mentir, eu realmente gosto de você! Não é da mesma forma que eu gosto do Felipe.
    - Como amigo não é?
    - Claro que não... Eu queria você para mim! Em meus braços, sussurrando bobagens em seu ouvido.
    - Mas, como assim? – Indaguei confuso.
    - Eu tenho dois sentimentos fortes dentro de mim, um por você e outro por Felipe, mas não quer dizer que um seja mais forte do que o outro...
    - Eu não vou me deixar enganar... – Balancei a cabeça para espantar os pensamentos que Diego produziu em mim. Sua voz era como um canto de sereia me atraindo para a morte. – Foi o Felipe quem te mandou aqui? Ele achou pouco tudo que me fez?
    - Não... Não foi ele... ele te fez alguma coisa? Ele me disse que foi te procurar naquela hora que você saiu correndo e não te encontrou. Eu também fui quando terminei de me vestir, mas não te encontrei
    - Você acreditou mesmo?
    - Brunno... O que ele te disse?
    - Só o óbvio não é? Eu sou um idiota por achar que com uma chantagem eu vou conseguir ser seu amigo, me aproximar de você, fazer você gostar de mim...
    - Parece até loucura... Mas você conseguiu!
    - Você só quer o DVD de volta Diego... Nem gaste sua saliva!
    - Olhe através dos meus olhos, diga que eu estou mentindo! – Ele segurou meus braços, me obrigando a olhá-lo. – Eu gosto mesmo de você Brunno! Eu não sei se esse sentimento é amor, é paixão, é amizade... Não sei! Mas eu queria muito descobrir isso com você!
    - Não... – Eu balancei minha cabeça novamente. Precisava manter o foco.
    - Diga que eu estou mentindo!
    - Não... Não está... Mas isso não tem importância, breve essa história toda vai acabar! – Eu disse partindo rapidamente.
   Estranhei Diego não vindo atrás de mim e olhei para trás. Ele estava se segurando na árvore e olhando para baixo. Felipe chegou no pátio também. Nós dois fomos em sua direção.
    - Dih? Você está bem? – Perguntei a chegar.
    - O que você fez com ele seu idiota? – Disse Felipe me empurrando.
    Felipe tentou segurar Diego, mas ele tinha desmaiado. Felipe pegou ele no colo e foi rapidamente em direção da enfermaria.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 30


    O primeiro passo seria instalar um programa no meu Laptop que grava as conversas de MSN. É óbvio que existe essa opção no próprio MSN, mas por mais retardada que Laura fosse ela sabia muito bem desativar isso. Além disso, ativar esse dispositivo a deixaria com a pulga atrás da orelha e eu não queria que ela ficasse desconfiada. Além disso, eu teria acesso também a todas as senhas dela de email, então, todos os perfis das redes sociais e dados da minha irmã estavam em minhas mãos. Depois de instalar tudo, eu precisava da fase 2. Fiz um teste de hackeamento do meu laptop pelo laptop da Roberta e deu tudo certo. No momento em que ela estivesse fazendo algo de errado eu estaria lá para ver, e para um melhor êxito, fiz com que a webcam do meu laptop sempre que acionada, enviasse a gravação para o laptop da Roberta. Tudo que Laura fizesse ou escrevesse eu saberia! Com alguma conversa estranha, informações que pudessem atingi-la ou até algum vídeo. Depois de programar isso tudo e checar diversas vezes eu pude finalmente dormir em paz.
[...]
    Acordei bem disposto e me arrumei rapidamente para tomar café-da-manhã, afinal, um longo dia exigiria combustível! Minha irmã acordou atrasada e de mau-humor e logo cobrou o laptop de volta.
    - Laura... Não esqueça de lavar os pratos do café, querida! – Disse minha mãe quando ela deu a primeira mordida na torrada. Antes que ela falasse qualquer coisa, que deixaria minha mãe desconfiada, eu intervim.
    - Eu lavo mãe! – Disse me levantando. – Já acabei mesmo, depois a Laura me recompensa.
    - Nossa... O que aconteceu com você Brunno? Bateu a cabeça? – Perguntou minha mãe.
    - Tá achando ruim é? – Rebati.
    - Não... Não... Continue assim!
    Eu terminei tudo e tratei de ir embora logo, seria bom chegar adiantado e eu não queria ouvir mais a Laura buzinar aquelas idiotices no meu ouvido.
[...]
    Já no ônibus eu concentrei meu pensamento em fazer uma retrospectiva de tudo que aconteceu nesses conturbados dias. Agora eu podia pensar com mais clareza. Há uma possibilidade de Felipe ter dito todas aquelas coisas só para me magoar, pode ser que tudo aquilo só seja reflexo da personalidade ciumenta de Felipe, com o simples intuito de me atingir. É obvio que eu não sou o galã de novela, mas também não sou tão feio como o Felipe estava tentando me fazer sentir. Acho que no fundo ele estava com medo, os animais primitivos sempre fazem isso, já que a mente dele ainda  está num processo lento de evolução ele deve achar que rosnando para mim eu vou sair do seu território. Bom, ele acha que o território é dele, mas talvez esteja enganado. Imaginei Felipe que nem um cachorrinho, fazendo xixi no pé do Diego para marcar território e comecei a rir.
    Só posso deduzir, a partir dessa reação infantil quiçá primitiva, que no fundo Felipe tenha medo de mim e considere uma concorrência. Ele tem tudo e ao mesmo tempo não tem nada. Nem vou falar no cérebro de minhoca dele, para não parecer arrogante, então vou analisar outras perspectivas. Felipe tem um corpo malhado e bronzeado, fruto de anos de academia e finais de semana torrando no maldito sol da praia do Francês, mas... É só isso? Ele é muito impulsivo, agressivo, mimado pelos pais e com uma visão muito limitada da vida. Tudo para ele é fácil de mais. Até sua relação com Diego é muito fácil. Os dois são filhos de pais que trabalham muito e não ficam muito tempo em casa. Então, oportunidades não faltam para eles fazerem o que quiser. Além disso, por serem amigos de infância, um pode dormir na casa do outro sem levantar suspeitas. Para colocar a cereja no bolo, eles tem bastante dinheiro, tem as melhores roupas, os melhores celulares, vão às melhores festas e tudo que eles tem que fazer é sair beijando umas meninas e jogando fora como todo hétero cafajeste faz. (Não estou dizendo que todos os heterossexuais são cafajestes, conheço vários que não são)
    O que falta então no Felipe? Óbvio! Ele não tem autocontrole, não tem limites e todas suas relações são pautadas nos seus interesses. Não vou dizer que não acredito que ele goste de fato do Diego, mas sinto que ele não corresponde às expectativas de Diego. Apesar de Diego corresponder a quase todas as características mencionadas acima quando falei de Felipe, sua personalidade é completamente diferente. A maioria das coisas que ele faz é porque está com Felipe, ele acaba sendo malvado com as pessoas não por instinto próprio, mas porque ele quer se sentir igual a Felipe quer que ele o aceite. Mas, no fundo Diego é só um garoto carente que quer a atenção de alguém, Felipe não deixa de ser isso também, mas ele coloca sua frustração no álcool e no exibicionismo, enquanto Diego só imita as ações de Felipe, como um espelho reflete a imagem à sua frente. Então, fica aí o motivo pelo qual eu acho que os dois estão juntos. Parece uma análise bem específica e que eu precisaria de muito tempo de convivência com eles para perceber isso, mas, por mais que os dois pensem ser fortalezas intransponíveis de perfeição, na verdade, os dois não passam de um castelo de vidro, frágeis e transparentes.
[...]
    Cheguei ao colégio com aquela velha sensação de estar preso dentro do meu próprio universo, como seu eu estivesse vestindo uma roupa de astronauta. O burburinho embalado por conversas exaltadas e risos do corredor passou alheio à minha percepção. Não queria falar com Diego antes que eu conseguisse tomar uma decisão. Por mais que eu quisesse ver Felipe pagar por tudo que fez, não podia esquecer de Diego no vídeo e no que poderia acarretar a divulgação do mesmo.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 29


    Eu fiz uma cara de pseudo-medo para tornar as coisas mais interessantes e me sentei. Olhando para minha irmã com olhos fugidios, eu queria saborear cada gotinha de veneno dela e para isso eu precisava estar, ou parecer, apavorado. Como meu plano já estava Todo arquitetado, eu apenas precisava PARECER apavorado.
    - Bruninho querido irmão... Como você é descuidado não é? Deixa suas coisas por aí à toa...
    - Você sabe que não estava à toa! – Rebati, imprimindo um nervosismo teatral na minha voz.
    - Bom... Eu fui procurar fita dupla-face e acabei encontrando uma coisa bem mais interessante, mas imagine se fosse a mamãe que tivesse visto isso! – Ela recomeçou falando pausadamente, fingindo que se importa. – Então, que sorte a sua de eu ter encontrado não é mesmo? Fiquei realmente curiosa ao ver um DVD tão cuidadosamente escondido... E você sabe como eu sou não é? Precisava checar...
    - Tem como encurtar esse papinho?
    - Calma irmãozinho querido, não vamos apressar as coisas... – Respondeu ela, irônica. Para pessoas retardadas que nem ela, uma situação dessas equivale a um flagra após uma longa investigação. Pena que ela não se tocou que tudo isso foi pura sorte. - Bom, continuando... E olha que surpresa que eu tive! Vi que meu irmãozinho já está bem crescido e vendo vídeos pornôs, claro que um pornô brasileiro bem amador, mas... – Ela fez uma pausa e continuou. – Ah! Mas tem um agravante não é? Eram 2 homens transando naquele vídeo, admito que eles eram bonitos... Um desperdício total, se bem que eles devem ganhar uma boa grana... Enfim, aonde eu quero chegar é o seguinte: Conto a mamãe primeiro que você é gay ou que anda assistindo vídeos pornôs?
    - Não sei... O que você sugere? – Respondi sarcástico. Foi aí que eu tive um daqueles “clicks” que trazem à mente um fragmento de conversa de volta ao pensamento. Laura havia dito, ‘vídeo pornô’ e ainda insinuou que os garotos do vídeo eram ‘profissionais’. Não sei como não tinha me dado conta disso antes. Mas é que ela é tão lerda que se perde na própria fala e me confunde.
    - O que eu sugiro é que  você me dê algum motivo para ‘esquecer’ o que eu ouvi e não contar a mamãe!
    - O que você quer? – Indaguei pensativo, afinal, a visão dela é tão limitada como a de um jegue. Ela não tem visão de futuro, não olha para frente. Contar a minha mãe é o pior que poderia a acontecer é Laura? Burra de mais, mas isso era melhor ainda...
    - Quero usar seu Laptop a hora que eu quiser, quero que você faça todas as minhas obrigações de casa, isso inclui tirar o lixo, arrumar a mesa, lavar os pratos e claro, lavar minhas roupas...
    - Isso é um ultraje! – Protestei, mas na verdade essa chantagem barata dela me deu uma idéia bem interessante para finalizar meu plano.
    - É isso ou eu falo tudo para a mamãe, queridinho...
    - Eu aceito com uma condição!
    - Nada de condições, eu que mando aqui!
    - Eu preciso do Laptop hoje para terminar de digitar um trabalho, amanhã ele é todo seu por tempo indeterminado... – Na verdade você não vai ficar com ele mais que uma semana sua idiota! Pensei.
    - Ai... Ai... Você tem sorte por eu ser boazinha, o Fred deve estar no ônibus da viagem agora e a internet fica péssima mesmo... Mas amanhã cedo eu quero ele para levar para a faculdade.
    Ah! Esqueci de dizer que minha irmã idiota faz uma faculdade particular aqui da minha cidade, já que ela é burra de mais para entrar na federal ela tentou todas as faculdades possíveis e entrou na mais peba* de todas. (Peba = fraquinha, fuleira, de má qualidade...). Nem vou dizer o curso que ela faz, para depois não gerar um mal-estar aí! Medicina é que não é.
      Enfim, depois de ouvir todas as bobagens que minha irmã tinha a dizer, eu fui para o meu quarto e me tranquei lá. Coloquei meu cd “fallen” da banda Evanescence e comecei a trabalhar. Liguei os dois laptops, e depois fui buscar um travesseiro para colocar nas minhas costas, o serviço iria demorar bastante...

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 28


    Tinha que colocar minha cabeça para funcionar. Ainda não sabia o que fazer quando recuperasse o maldito DVD, mas sabia muito bem como iria consegui-lo. Eu não podia subestimar a inteligência da minha irmã, apesar de qualquer chimpanzé bem treinado conseguir ser mais esperto que ela, o cérebro dela sabia fazer duas coisas bem funcionais: Fazer chantagem e roubar. Então, eu precisava contra-atacar. Mas como fazer tudo isso?
    Comecei a andar em direção a orla. Lá seria mais fácil de eu pegar um ônibus para voltar para casa. Apesar de não ser rico como os mauricinhos cabeças-ocas, eu não morava muito longe dali, meu bairro também era um dos melhores da cidade. Logo minha cabeça estava explodindo com pensamentos de cunho vingativo, a maresia batendo forte no meu rosto e embaçando meus óculos. (Como se eu já não tivesse cego o bastante).
    Por um milagre quase divino, o ônibus não demorou, e como não era um horário de pico ainda consegui um lugar para sentar.
    Meu plano tinha que ser perfeito, infalível. Com 100% de chance de dar certo. Então, eu precisava abarcar todos os pontos dessa situação. Para um melhor engajamento, tentei mentalizar todas as minhas vilãs favoritas das novelas, isso sempre me ajudava. Imaginei Paola Bracho rindo estrondosamente, por conseguir seu tão sonhado 1 milhão de dólares, na companhia de Nazaré Tedesco, rindo descontraidamente por ter inaugurado sua nova escada matando 50 pessoas numa só festa, e a Flora Pereira da Silva rindo à toa em um glamoroso cassino. Que sonho participar de uma conversa com essas 3 divas da maldade heim?
    Enfim consegui, inflamado por essa maravilhosa inspiração proposta por minha fértil imaginação, avaliar a situação em seus pormenores. Eu precisava encontrar e recuperar aquele DVD, mas não podia descartar a possibilidade da minha querida irmãzinha mais velha ter feito uma cópia dele, nessa situação, conseguir pegar o DVD só seria um agravante que conduziria ela a entregar o cd a minha mãe ou postar o vídeo na internet.
Então, eu precisava de uma contra-chantagem que conseguisse me dar segurança se minhas tentativas falhassem. É óbvio que eu vou precisar de uma ajudinha da minha querida amiga Robertão! Vou aproveitar que o ponto que é perto da casa dela já é aqui um pouco depois do Posto 7 e vou fazer uma visitinha! Com essa segurança, já posso pensar em como invadir o quarto dela. Minha irmã tranca seu quarto à chave já faz algum tempo, usando a desculpa da privacidade, mas pode ser que ela esteja escondendo o namorado dela por lá ou guardando coisas que ninguém deveria ver. Como saber? Enfim... Voltando ao foco: Eu preciso de uma cópia daquela chave. Arrombação não é uma coisa muito discreta, nem sofisticada. Sempre há uma barra de sabão para tirar o molde de uma chave não é mesmo?
    Desci no ponto e comecei a caminhar rumo à casa da Roberta, minha cabeça estava a mil. Idéias pipocando a todo segundo. No entanto, não podia me precipitar, esse plano demandava tempo para colher todas as informações necessárias para minha contra-chantagem. Com o plano já esboçado em minha mente eu precisava saber o que fazer quando aquele maravilhoso vídeo retornar às minhas mãos...
    Entrei no prédio de minha amiga com cara de triunfo, perguntei ao porteiro se ela estava em casa e em resposta a sua afirmativa, fui logo subindo, nem precisei de elevador. Bati freneticamente na porta até que ela me atendeu.
    - Bruninho lindooooo!!! – Disse ela entusiasmada me dando um abraço apertado.
    - Oi Betão!
    - O que te traz aqui menino? Vamos entrando!
    - Preciso de um favor seu! – Respondi me jogando preguiçosamente no sofá vermelho.
    - Ihhh! Essa cara de malandro! Parece até vilão de novela mexicana, o que você está tramando?
    - Você parece que tem um raio x néh amiga? Você adquiriu o poder de ler mentes?
    - Nem precisa, só de conviver com você esse tempo todo já sei o que significa esse sorriso de bomba nuclear que você está mostrando aí! Me conte tudo!
    - Não posso contar tudo agora porque não tenho tempo, mas preciso do seu Laptop para ontem!
    - Gente... Para quê essa urgência?
    - Digamos que eu vou dar um xeque-mate de uma vez por toda nessa situação!
    - Mais de 50% de chance de dar certo? – Sorriu ela imitando minha mania de colocar probabilidade em tudo.
    - 100% de chance de sucesso e de felicidade garantida!
    - Bruninho... Tenha cuidado, eu tenho até medo dos seus planos...
    - Eu não atiro para errar, você sabe bem disso!
    - Claro que sei! Por morrerei sua Best Friend! – Respondeu ela caindo na gargalhada. – Vou buscar o Laptop agorinha mesmo.
     Encostei minha cabeça no braço do sofá, deixando um leve sorriso no ar. Fechei os olhos e visualizei o fim dessa situação. Não pude nem me estender nos meus devaneios, Roberta logo voltou com uma bolsa na mão.
    - Milhões de cuidados com meu bebezinho viu? – Disse ela me entregando a bolsa.
    - Então vou ir embora logo  para não ficar perigoso!
    - Não vai ficar mais um pouco e me contar a sua idéia? Tem um sorvetinho de menta com chocolate no congelador que tá uma delícia!
    - Você está jogando sujo já! – Disse rindo, Roberta sabia que eu tinha uma quedinha por sorvetes, principalmente o de menta com chocolate que era meu favorito.
    - Você não quer? Tão refrescante nesse dia tão quente... Com chocolate crocante que derrete na boca...
    - Não... Não... Tenho que manter meu foco! Breve brindaremos o sucesso da minha  empreitada com maravilhosos Milk shakes da Bali!
    - Nossa... Que chique!
    - Preciso ir Betão... Há muito o que fazer.
[...]
    Voltei para casa, extasiado. Tantos planos para executar... Abri a porta com cara de triunfo.
    - Olha só quem chegou... – Disse minha irmã do sofá. – Meu irmãozinho favorito! Quero ter um papinho de Brother and Sister com você!!!
    

domingo, 1 de janeiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 27


    - Ah... É só você Felipe? – Comentou Diego com Desdém.
    Eu corri para me vestir, não sei muito bem o motivo, deveria ser o nervosismo.
    - O que vocês pensam que estão fazendo? – Indagou ele fazendo uma pergunta bem idiota, mas não podemos exigir muito do intelecto limitado de um cabeça-oca.
    - Não é óbvio? – Respondeu Diego, praticamente lendo a minha mente.
    - Eu pensei que a gente estava bem... – Rebateu Felipe tentando se acalmar.
    - Bem? Se você acha... Vejo que nossa relação está bem moderna agora!
    - Do que você está falando? – Perguntou Felipe confuso. Eu terminei de me vestir e sentei na cadeira do computador ficando de voyeur da cena.
    - Você achou que eu não ia descobrir? Você acha que eu sou tão imbecil assim? Eu sei que você está de rolo com a Tânia, a rainha das biscates! – Agora começava a fazer sentido a atração repentina de Diego por mim.
    - Quem... Quem... Foi você não é? – Felipe voltou seu olhar furioso para mim.
    - Não foi ele... Precisa alguém dizer? Ela fez questão de encher a boca para falar com as amiguinhas dela sobre você!
    - Mas eu pensei que a gente não vivesse problemas com isso!
    - E não tem... Tanto é que eu estava aqui me divertindo com o Brunno!
    Eu fiz cara de indignação, mas Diego ignorou minha presença. Preferi ver o resto da discussão e ver onde isso ia culminar.
    - Mas ele é homem!
    - E daí? – Indagou Diego arqueando uma sobrancelha.
    - As mulheres estão liberadas, os homens não!
    - Quem disse isso?
    - Pensei que já fizesse parte do acordo! – Repeliu Felipe, alterando o tom da voz.
    - Não assinei nenhum contrato, além disso dá no mesmo! Se você pode eu também posso...
    - Você nunca criou confusão por causa disso! Por que está criando caso agora?
    - Porque antes nós éramos só amigos com bônus, e agora, pelo menos eu pensei que fôssemos namorados e olha só o que você faz!
    - Agora sim! Você se acha muito maduro não é? Devolveu na mesma moeda, nem sequer falou comigo sobre a situação e usou esse nerdzinho sem sal para me atingir? Faça-me o favor!
    - OBRIGADO! – Eu disse num tom de voz acima do tom dos dois. -  Não tenho que ficar aqui ouvindo isso. – Eu saí do quarto praticamente correndo, meus olhos começaram a se encher de lágrimas.
    Apertei o maldito botão do elevador, mas ele ainda estava no subsolo, demoraria demais para chegar até a cobertura. Abri a porta da escada de incêndio e comecei a descer desesperado. Na pressa, acabei pisando de mal jeito e cai da escada, meu óculos voou longe. Minhas costas começaram a arder. Alguma coisa me puxou para cima.
    - É um idiota mesmo! – Disse Felipe rindo enquanto me ajudava.
    - Não preciso da sua ajuda seu retardado! – Respondi, me libertando dos braços dele dando o empurrão mais forte que consegui. Catei meus óculos no chão com dificuldade, afinal, eu precisava de óculos até para achar os óculos. Quando finalmente o encontrei coloquei ele no rosto e voltei a descer as escadas com dificuldade me agarrando no corrimão com todas as minhas forças.
    - Eu ainda acho bem pregado Ó Majestade Brunno! Achou que chantageando a gente ia conseguir algo além de uma falsa-amizade? Você não é tão inteligente quanto aparenta! Devia ter aceitado desde o início uma boa quantia dinheiro, sei lá... Para comprar uns joguinhos de computador ou um Box completo de Star Wars talvez até sobrasse dinheiro para você comprar pelo menos um óculos novo!
    Notei que meus óculos estavam rachados.
   - Eu vou embora! – Completei descendo as escadas rapidamente.
   - Não vai não que eu ainda não acabei com você! – Ele me puxou pelo braço e me empurrou na parede. – Você se acha especial não é? Só porque tira umas notinhas melhores que as minhas? É óbvio que você tem que se matar de estudar porque você é pobre e não vai ter tudo que eu tenho assim de mão beijada. Além disso, você é feio moleque! Não dá pra ser modelo, nem ator, acho que nem pra balconista você serve! Então estude! Seja um daqueles pesquisadores solitários que passam décadas desenvolvendo pesquisas que só vão para frente se tiver pessoas ricas como eu para patrocinar, ou melhor... Talvez você não chegue a tanto, talvez você só seja mais um professor fracassado de Física que tem que berrar para ser ouvido por alunos elitizados de escolas particulares que não estão nem aí para o que você está tentando ensinar!
   Nessa hora eu não agüentei. Comecei a chorar, mas eram lágrimas de raiva que brotavam de meus olhos.
   - E tem mais! – Continuou Felipe, com um prazer sádico misturado a sua voz grossa. – Você pensou mesmo que o Diego pudesse estar gostando de você? – Ele deu uma gargalhada. – Provavelmente ele só estava querendo pegar o vídeo de volta... Ele tem bom gosto, ele nunca ficaria com alguém como você! – Felipe me olhou dos pés à cabeça. – Então chore... Mas chore muito! Porque enquanto você está aí lutando para sobreviver eu estou coberto de dinheiro e pior ainda pra você: Enquanto você está aí nessa sua solidão anti-social eu estou cheio de amigos e estou dormindo com Diego! – Ele me empurrou grosseiramente na parede voltando a subir as escadas.
    Eu fiquei ali chorando por um tempo. Estava muito difícil de segurar aquilo tudo. Eu geralmente tinha estabilidade emocional, mas como eu costumava guardar muito as coisas ruins que me aconteciam, uma faísca era o bastante para eu explodir. Depois de algum tempo, não sei ao certo quanto, me levantei e me recompus.
   - Isso não vai ficar assim! – Disse para mim mesmo – Eu quero aquele DVD de volta!