Eu nunca pensei em experimentar tais sensações. Apesar do calorzinho típico de Maceió, eu estava gelado dos pés a cabeça e meu coração disparava alucinantemente. Eu não sabia ao certo o que dizer e muito menos como prever a reação do Alan mediante ao que eu tinha pra dizer, até porque, eu nem sei o que eu ia dizer!
Procurei alguma passagem para esse lugar que ele tinha indicado e depois de me espremer entre uma árvore e uma fresta eu consegui entrar no corredor estreito que ficava atrás do laboratório de ciências. Fiquei esperando. Ninguém passava nesse corredor, e essa foi a primeira vez que eu tinha ouvido falar nele. Fiquei encostado na parede tentando me segurar, porque minhas pernas estavam bambas.
Tentei me distrair observando as gotas de água que vinham dos vários condicionadores de ar desse lado do prédio e que formavam pequenas poças d’água no chão. Era engraçado pensar que essas gotinhas, lenta e diariamente conseguiam desgastar o chão de cimento e fazer pequenos orifícios no chão. Então foi que percebi que o que tinha que fazer com Alan era justamente isso, ir aos poucos, tentar manter pelo menos uma relação cordial com ele deforma que eu possa dar bom dia para ele e que ele me responda, no futuro, quem sabe, as coisas avancem um pouco mais.
- Então... O que você quer? – Disse ele com sua voz grossa e firme me pegando totalmente desprevenido.
- Queria... Falar sobre a nossa situação... – Balbuciei com a voz entrecortada.
- Que situação? – Indagou ele com uma cara de desconfiado.
- O fato de nós termos sido melhores amigos e agora termos chegado a esse ponto de inimizade! – Falei, o mais calmamente possível.
- Você sabe muito bem como chegamos a esse ponto! – Disse ele, franzindo o cenho.
- O pior é que eu não sei! – Admiti. Fazia tanto tempo que isso se desenrolava que eu nem sabia como tinha começado.
- Vai debochar, agora?
- Não estou debochando Alan! Eu sei que a gente está brigado faz uns cinco anos, mas eu não me lembro o que começou essa briga! Eu só me lembro da gente rindo como melhores amigos e depois de estarmos no patamar que estamos agora!
Alan fez uma pausa e ficou pensativo.
- É... De fato eu não me lembro do motivo pelo qual iniciamos isso, mas deve ter sido porque você falou mal de mim pelas costas! – Incitou. Mas acho que, no fundo, ele também não sabia o motivo da nossa briga, só não queria admitir.
- Se eu era seu melhor amigo, porque eu falaria mal de você? – Eu precisava conduzi-lo para um pensamento mais racional da situação.
- Porque queria ser melhor que eu! – Ele continuava chutando teorias pra me culpar. Típico dele!
- Você é que tem esse extinto de competição!
- Olha só quem fala! Estou vendo que você é o mesmo idiota de sempre! – Ele se virou e tentou sair do corredor.
- Espere! – Eu o puxei pelo braço. – Desculpa! – Sussurrei.
- O quê? Eu não ouvi! – Fingiu ele, com aquela maneira infantil de tratar os assuntos sérios, como era do seu feitio.
- Desculpa! Eu não sei o que aconteceu a cinco anos atrás. Não sei se eu falei alguma coisa ou não. Eu posso até ter dito alguma bobagem e alguém ter aumentado quando vou contar pra você... Você sabe como o pessoal da nossa sala é não é? – Indaguei. Todo mundo sabia que nossa sala era um ninho de cobras. - Mas, independente de qualquer coisa eu quero que a gente pare com isso e possamos, no mínimo, ser civilizados um como outro.
- Ah! Agora você quer ficar meu amiguinho de infância de novo? – Ironizou ele.
- Não necessariamente, mas, quero que a gente pare de competir por tudo, de virar a cara para o outro, essas coisas...
- Não sei se devo confiar em você! – Alan tinha um gênio meio difícil, era difícil vê-lo dar o braço a torcer.
- Eu não deveria nem ter inventado essa história! Sai da minha frente que eu vou sair daqui! – Tentei empurrá-lo, mas ele era como um guarda-roupa enorme e pesado impedindo a passagem.
- Eu vou pensar Brunno! – Sibilou ele. Parecia que realmente ele estava se esforçando pra tentar acreditar em mim. – Mas, por enquanto, vamos deixar essa conversinha entre a gente!
- Certo... – Respondi e logo o sinal tocou. Alan me deu passagem e eu voltei pra sala sem saber o que pensar dessa conversa. Será que eu tinha agido certo em tentar concertar isso depois de todos esses anos?


