sábado, 21 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 61


    Eu nunca pensei em experimentar tais sensações. Apesar do calorzinho típico de Maceió, eu estava gelado dos pés a cabeça e meu coração disparava alucinantemente. Eu não sabia ao certo o que dizer e muito menos como prever a reação do Alan mediante ao que eu tinha pra dizer, até porque, eu nem sei o que eu ia dizer! 
    Procurei alguma passagem para esse lugar que ele tinha indicado e depois de me espremer entre uma árvore e uma fresta eu consegui entrar no corredor estreito que ficava atrás do laboratório de ciências. Fiquei esperando. Ninguém passava nesse corredor, e essa foi a primeira vez que eu tinha ouvido falar nele. Fiquei encostado na parede tentando me segurar, porque minhas pernas estavam bambas. 
    Tentei me distrair observando as gotas de água que vinham dos vários condicionadores de ar desse lado do prédio e que formavam pequenas poças d’água no chão. Era engraçado pensar que essas gotinhas, lenta e diariamente conseguiam desgastar o chão de cimento e fazer pequenos orifícios no chão. Então foi que percebi que o que tinha que fazer com Alan era justamente isso, ir aos poucos, tentar manter pelo menos uma relação cordial com ele deforma que eu possa dar bom dia para ele e que ele me responda, no futuro, quem sabe, as coisas avancem um pouco mais.
    - Então... O que você quer? – Disse ele com sua voz grossa e firme me pegando totalmente desprevenido.
    - Queria... Falar sobre a nossa situação...   – Balbuciei com a voz entrecortada.
    - Que situação? – Indagou ele com uma cara de desconfiado.
    - O fato de nós termos sido melhores amigos e agora termos chegado a esse ponto de inimizade! – Falei, o mais calmamente possível.
    - Você sabe muito bem como chegamos a esse ponto! – Disse ele, franzindo o cenho.
    - O pior é que eu não sei! – Admiti. Fazia tanto tempo que isso se desenrolava que eu nem sabia como tinha começado.
    - Vai debochar, agora?
    - Não estou debochando Alan! Eu sei que a gente está brigado faz uns cinco anos, mas eu não me lembro o que começou essa briga! Eu só me lembro da gente rindo como melhores amigos e depois de estarmos no patamar que estamos agora!
    Alan fez uma pausa e ficou pensativo.
    - É... De fato eu não me lembro do motivo pelo qual iniciamos isso, mas deve ter sido porque você falou mal de mim pelas costas! – Incitou. Mas acho que, no fundo, ele também não sabia o motivo da nossa briga, só não queria admitir.
    - Se eu era seu melhor amigo, porque eu falaria mal de você? – Eu precisava conduzi-lo para um pensamento mais racional da situação.
    - Porque queria ser melhor que eu! – Ele continuava chutando teorias pra me culpar. Típico dele!
    - Você é que tem esse extinto de competição!
    - Olha só quem fala! Estou vendo que você é o mesmo idiota de sempre! – Ele se virou e tentou sair do corredor.
    - Espere! – Eu o puxei pelo braço. – Desculpa! – Sussurrei.
    - O quê? Eu não ouvi! – Fingiu ele, com aquela maneira infantil de tratar os assuntos sérios, como era do seu feitio.
    - Desculpa! Eu não sei o que aconteceu a cinco anos atrás. Não sei se eu falei alguma coisa ou não. Eu posso até ter dito alguma bobagem e alguém ter aumentado quando vou contar pra você... Você sabe como o pessoal da nossa sala é não é? – Indaguei. Todo mundo sabia que nossa sala era um ninho de cobras. - Mas, independente de qualquer coisa eu quero que a gente pare com isso e possamos, no mínimo, ser civilizados um como outro.
    - Ah! Agora você quer ficar meu amiguinho de infância de novo? – Ironizou ele.
    - Não necessariamente, mas, quero que a gente pare de competir por tudo, de virar a cara para o outro, essas coisas...
    - Não sei se devo confiar em você! – Alan tinha um gênio meio difícil, era difícil vê-lo dar o braço a torcer.
    - Eu não deveria nem ter inventado essa história! Sai da minha frente que eu vou sair daqui! – Tentei empurrá-lo, mas ele era como um guarda-roupa enorme e pesado impedindo a passagem.
    - Eu vou pensar Brunno! – Sibilou ele. Parecia que realmente ele estava se esforçando pra tentar acreditar em mim. – Mas, por enquanto, vamos deixar essa conversinha entre a gente!
    - Certo... – Respondi e logo o sinal tocou. Alan me deu passagem e eu voltei pra sala sem saber o que pensar dessa conversa. Será que eu tinha agido certo em tentar concertar isso depois de todos esses anos?


terça-feira, 17 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 60



    Parecia que o vento agora soprava ao nosso favor e finalmente a tempestade tinha passado. Com a Laura sob controle, fazendo, diga-se de passagem, todas as minhas obrigações domésticas e obedecendo a algumas exigências faraônicas que me vinham à cabeça deliberadamente. Os dias passavam deliciosamente e a iminência do resultado do teste de gravidez mantinha a peituda oxigenada a uma distância favorável à minha tranqüilidade. Era possível ver a expressão de felicidade no rosto de Felipe e Diego, mas, apesar desse sentimento mútuo, o olhar de Diego ainda trazia um pesar de medo do que poderia acontecer.
    Eu também tinha esse tempo para voltar a estudar intensamente, já que as minhas notas estavam na casa dos oito. Todo esse tempo extra me permitia pensar em outras possibilidades. Lembrei de algumas conversas que tinha tido com Diego sobre o menino pelo qual sou irracional e doentiamente apaixonado e agora estava pensando em fazer alguma coisa a respeito. Minha barriga se revirava e meu corpo gelava em um arrepio instantâneo só de pensar em dizer a ele como eu me sinto, ainda mais depois de tanto tempo. Eu queria conversar com Diego sobre isso, mas ele estava decepcionado comigo devido ao meu afastamento e meu orgulho era muito forte para eu ir até lá e tentar reatar laços com ele. Além disso, eu tinha que reaprender a fazer as coisas por mim mesmo, declarar minha independência de Felipe e Diego, talvez, esse tempo todo de aproximação excessiva com eles tenha me feito ter preguiça de dialogar com minha própria consciência.

[...]

    “Posso falar com você no intervalo? Ass: Brunno” Estava escrito no bilhete que tinha deixado dentro do caderno dele. A ansiedade me consumia, afinal, ele já tinha voltado do banheiro e sentado no seu lugar de costume há doze minutos e ainda não tinha aberto o caderno. Tentei prestar atenção na aula, sem muito sucesso, queria ver que reação ele teria ao ler o bilhete que eu tinha escrito em inacreditáveis trinta minutos porque não sabia de fato, que abordagem seria mais eficaz.
    O professor começou a anotar algumas questões no quadro que valiam ponto, então todos se apressaram em abrir seus cadernos; para alguns descompromissados essa ação se convertia em pedir folhas de caderno emprestadas aos outros, já que, nem cadernos levavam para as aulas; e foi então que ele abriu o caderno e viu o bilhete, ele pareceu ler e reler com certa indiferença ponderando se aceitaria ou não. Ele de repente lançou um olhar para mim, e com rapidez voltei minhas atenções ao caderno e comecei a copiar. Agora é só esperar. O professor proferiu, depois de muita insistência dos alunos da primeira fileira da sala, que o exercício poderia ser feito em trio, e logo pude perceber Felipe acenando para mim.
    - Obrigado Brunno! – Disse Felipe, puxando uma cadeira ao meu lado. – Estamos precisando de pontos nessa matéria, não é? – Ele deu uma leve cotovelada em Diego.
   - É... – Respondeu, puxando uma cadeira e sentando-se também.
   - Sem problemas... – Respondi em reticências, imprimindo um sorriso de educação. Minha cabeça só tinha espaço para a dúvida acerca de qual resposta eu iria receber.

[...]

    Acabei me distraindo com a quantidade de questões de matemática que tinha pra resolver em tão pouco tempo, afinal, nenhum dos meus dois ‘colegas de equipe’ sabiam me ajudar em nada.
   - Brunno, quer ajuda? – Indagou Felipe, interrompendo a conversa que estava levando com Diego.
   - Você não vai saber nenhuma dessas questões, até eu estou sentindo dificuldade! Você pode ajudar conversando mais baixo...
    Isadora me cutucou e me entregou um bilhete.
    “Eu aceito. Não por você, mas por minha curiosidade! Por trás do laboratório de ciências, no intervalo!” Um calafrio se apossou de mim. Ele aceitou!

domingo, 8 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 59



    A intensa chuva me persuadia a continuar dormindo, mas meus compromissos com minhas metas eram superiores a minha preguiça. Além disso, seria hoje que Felipe faria a ‘surpresa’ pra Tânia e ver sua expressão ao chegar na sala após isso era de um valor imensurável. Provavelmente, o resultado do teste demoraria a sair, mas é fato que o resultado estaria estampado na sua expressão muito antes dos especialistas terem acesso as amostras.

[...]

    A aula de história estava submersa ao tédio e monotonia habituais, quando Felipe entrou na sala entregando um daqueles bilhetinhos coloridos ao professor e foi em direção ao lugar que costumava se sentar. Tânia não ousou sentar perto dele e com uma expressão de extremo desconforto, foi trocar sussurros com sua amiga Gabrielle.

[...]

    - E então, Felipe? –Incitei ao me aproximar dele no intervalo.
    - Ela fez o papel da inocente que tem a sua honestidade posta à prova! - Respondeu ele. Por que eu não me surpreendi com essa informação?
    - A julgar pela expressão dela, nós temos a batalha dada como vencida, mas, como diz aquele ditado redundante ‘só acaba, quando termina’ e só nos resta esperar.
    - Pelo visto, por enquanto, eu tenho tempo. Já que ela está tão tensa que não falou mais comigo desde o incidente desta manhã.
    - Curta sua liberdade então... Mas saiba que falta mais uma rodada antes que todos nós mostremos as cartas. – Agora é que eu percebi que eu tinha essa mania de sempre falar usando figuras de linguagem.
    - Brunno... Eu...
    - De nada! – Intervim, estava cansado de ser agradecido.
    - Eu ia dizer outra coisa, mas o agradecimento também estava subentendido.
    - Ah! – Eu fiz uma pausa, parecia que os pensamentos de Felipe não me eram tão previsíveis agora. -  Desculpa, o que você ia dizer?
    - Eu queria te chamar pra gente conversar... Sei lá, tomar um sorvete...
    - Embora eu venha a considerar que esse é um convite despretensioso, acredito que Diego não vai gostar de saber.
    - Eu sinto falta de você e sei que ele também sente!
    - Não torne as coisas mais difíceis! Eu só quero consertar as consequências que decorreram daquela chantagem... – Deixei em reticências, embora meu coração acelerado indicasse à resposta que eu gostaria de ter dado.
    - Você sempre se refere a isso como uma coisa negativa, mas, nós ganhamos muito convivendo com você! Mesmo que tenha sido sob esse contexto.
    - Como assim?
    - Provavelmente, sem tudo que ocorreu, Diego e eu continuaríamos com a relação que tínhamos antes de te conhecer. A gente não teria se aproximado tanto e admitido pra nós mesmos que aquilo não era só sexo.
    - Vocês teriam tirado essa conclusão mesmo sem mim. – Era impossível não conceber uma futura “evolução” desse relacionamento, para algo menos desgastante.
    - Mas, o ponto é: quando seria isso? A gente podia até se dar conta no futuro, mas, que conseqüências essa demora acarretaria?
    - Eu não saberia calcular...
    - Está vendo? Então pare de se culpar por tudo não ter saído conforme o planejado, às vezes a vida proporciona desfechos ainda melhores do que nós tínhamos imaginado.

[...]

    A conversa que tive com Felipe, que ocupou cada segundo restante do intervalo me deixou pior do que eu já estava me sentindo. Ele me ausentou de toda a culpa e ainda queria me ter de volta como um amigo participante na sua vida. Por mais que eu tivesse essa capa de que era frio e calculista, eu tinha um coração. E esse coração está amolecendo em banho Maria, e a cada gesto como esse se aproxima o dia em que ele vai tomar o controle e eu vou estar vulnerável a me decepcionar novamente!