Sentei em minha banca, ainda entorpecido
pelos pensamentos que consumiam minha pele em arrepios que eriçavam os pêlos
dos meus braços e faziam com que o calor pulsante do meu sangue percorresse com
voracidade toda a extensão do meu corpo. A mistura de amor e ódio que eu tinha cultivado
por Alan se mostrava uma mistura alucinante e perigosa.
Não poderia deixar de me sentir em êxtase
depois do que tinha descoberto ontem a noite, feridas seriam curadas e de
alguma forma a ordem poderia se restabelecer e esse pensamento me trazia a paz.
O professor já tinha chegado e caminhava a
passos lentos até sua mesa. Felipe foi à sua direção com o caderno em punho
para tirar algumas dúvidas, cena que me causou um estranhamento positivo
enquanto eu percebia que realmente as pessoas podiam mudar com o tempo.
Inclinado sobre a mesa e murmurando alguma indignação por não ter conseguido
resolver um problema, mesmo depois de várias tentativas, para o professor, que
sorria com uma surpresa superior a minha.
Diego entrou na sala com uma expressão
fechada, ignorando algumas pessoas que deram bom dia quando o viram passar.
Felipe virou bruscamente ao terminar de tirar suas dúvidas, dando uma
cotovelada acidental em Diego, que passava distraído. O rosto de Diego se
ruborizou, ele franziu o cenho e retomou seu caminho para uma banca no fundo da
sala, ignorando o pedido de desculpas de Felipe.
Eu ouvi dizer em algum lugar que ódio é
amor reprimido e estava começando a me convencer disso, acreditava piamente que
Felipe e Diego resolveriam os seus problemas e logo estariam juntos de novo.
Afastei esses pensamentos de minhas preocupações por um instante, queria pensar
no meu curto diálogo com Alan de alguns minutos atrás. O sorriso que ele tinha
me ofertado tinha sido diferente, tinha algo de voraz em seus olhos, eu sentia
que ele estava querendo dizer ou fazer alguma coisa, mas não sabia de fato o
que era.
- Eu conheço essa expressão? – Indagou
Roberta com imprecisão.
- Que expressão? – Respondi lançando outra
pergunta.
- Brunno, você está com um ar diferente
essa manhã... – Ela fez uma pausa, aproximando-se de mim e me analisando –
Bom... Feliz você está, mas qual seria a causa? Das duas uma, ou você
arquitetou algum plano maligno perfeito ou algo mais aconteceu...
- Betão, pare de me olhar como um membro do
Grupo Lightman*! – Desatei a rir.
- Um riso despreocupado vindo de você?
Outra raridade nesses tempos difíceis...
- A aula já vai começar e já tem meio
quadro pra copiar! – Comentei, queria fugir dessa conversa por hora, precisava
organizar meus pensamentos. Na lousa, o professor copiava rapidamente números
miúdos, fazendo algumas pausas para pensar.
[...]
Atravessei o banco de cimento e granito,
passando por uma pequena árvore plantada em um vaso de gesso e entrei no beco
estreito dos condicionadores de ar novamente. Alan já estava a minha espera e
me encarou com uma expressão indecifrável.
- Brunno! – Exclamou ele, revelando mais um
sorriso estranho. Era incrível como com o passar dos anos eu perdi a
sensibilidade para a decifração das expressões de Alan. Quando nós éramos
crianças eu sempre sabia o que ele estava pensando apenas com o olhar, hoje eu
não consigo interpretar nem suas intenções através da fala.
- Oi Alan! – Respondi meio nervoso, não
sabia como começar um diálogo com ele.
- Tenho uma proposta pra te fazer! – A falta
de introdução a tal frase me pegou completamente desprevenido, estava tentando me
lembrar de como se respirar e ele continuou: - Não sei se é muito precipitado,
se você vai aceitar, mas não quero esperar mais... – Ele deixou em reticências.
* Grupo Lightman: Presente na série
“Lie to Me” da Fox. Grupo de cientistas que detectam mentiras através da
observação de micro expressões faciais e linguagem corporal.








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