segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 40


   Felipe me olhou com o desespero estampado no rosto e em um segundo já estava pegando Diego no colo.
    - Precisamos levar ele no médico agora! – Ele começou a caminhar com dificuldade até a porta do quarto.
    - O que você está fazendo? – Indagou Diego ao acordar.
    - Estou te carregando pra te levar no médico! Você desmaiou Dih! – Respondeu Felipe.
    - Claro que não desmaiei, só estava descansando um pouco, me põe no chão agora! – Ordenou saindo dos braços de Felipe.
    - Eu acho que você deveria ir pro médico mesmo assim Diego, só por via das dúvidas! – Eu disse, colocando a mão no seu ombro.
    - Oi Brunno! – Disse Diego me abraçando forte. – O que você está fazendo aqui? Pensei que não quisesse mais falar comigo!
    Eu e Felipe nos entreolhamos, só podia ser brincadeira.
    - Muito engraçado Diego! Você realmente não sabe o que eu estou fazendo aqui?
    - Não... – Respondeu ele indignado. Ele voltou seu olhar para Felipe. – Lipe? Por que você está com essa cara? O que aconteceu? – Ele andou até a mesa do computador. – Essas flores são pra mim? – Ele sentiu o aroma das rosas brancas e deu um longo suspiro.
    - São sim Dih! – Respondeu Felipe abraçando Diego com força.
    - Felipe? – Sussurrei. - Felipe? Você ode vir comigo, por favor? –Pedi indo em direção a cozinha.

[...]

    - O que foi aquilo? – Sibilei, iniciando a conversa.
    - Não faço a menor ideia!
    - Ele apagou e esqueceu das coisas, você acha isso normal?
    - Não...
    - É melhor a gente no médico!
    - Não... Foi só um lapso de memória passageiro, minha mãe já teve um desses... Nós precisamos deixá-lo calmo, se tentarmos obrigá-lo a ir com a gente as coisas podem piorar!
    - Você acha que pode lidar com essa situação sozinho? Você é formado em medicina desde quando?
    - Não sou, mas minha mãe já passou por isso, o médico fez vários exames e não deu em nada, foi só estresse... – Sussurrou ele.
    - Eu não sei não Felipe, isso não parece ser uma boa idéia... Quem sabe quanta coisa ele esqueceu?
    - Vamos fazer o seguinte: Nós vamos lá e tentamos descobrir mais ou menos qual o tamanho desse ‘esquecimento’ dele... Se a gente achar que é grave a gente arrasta ele até o médico, certo?
    - Vamos ver... – Respondi, caminhando até o quarto. Era impressão minha ou Felipe tinha apreciado essa perda de memória do Diego?

[...]

    - Diego... – Eu peguei na mão dele e fiz ele sentar na cama. – Como você está se sentindo?
    - Bem... Por quê?
    - Por nada... – Eu fiz uma pausa. – Qual é a última coisa que você lembra?
    - Que pergunta mais idiota...
    - Responda Dih... – Pediu Felipe, que estava encostado na porta.
    - Gente, como vocês estão estranhos hoje! – Ele parou por um tempo e pensou. – Eu me lembro que o Felipe me ligou dizendo que estava vindo pra cá e eu acho que adormeci e quando acordei vocês dois estavam aqui. Por quê? Algum problema?
    - Não, não... Só pra saber! – Sorri para ele, não queria assustá-lo. – Felipe te dando flores heim? Parece que ele está mudando! – Desconversei sorrindo. – Vou deixar vocês dois por aqui. Preciso fazer uma ligação... – Levantei e fui na direção do Felipe que me olhou expressão de dúvida.
    - O que você vai fazer? – Sussurrou ele, quando eu estava bem perto.
    - Empresta aqui seu celular Felipe, porque eu esqueci o meu! – Falei em tom de voz normal. Peguei o celular do bolso dele. – Fique aí com ele!  - Sussurrei
    Fui até a sala e me sentei no sofá, precisava ver o registro de chamadas. A última ligação do Felipe era de pouco mais de 2 horas atrás. Apesar dos esforços do Felipe em tentar me fazer acreditar que isso é normal, alguma coisa parecia não estar certa...

domingo, 12 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 39


    Eu ainda não tinha analisado na minha mente de forma mais elaborada a reação que Diego teria a receber essa notícia. Até porque eu não pensei que isso fosse de fato verdade e que, mesmo que fosse isso viesse à tona tão subitamente. Eu resumi a minha reação num semblante de *‘WTF?’ olhando com indignação para Felipe.
(*WTF = ‘que porra é essa? ’em inglês)
    Felipe, finalmente, conseguiu assimilar a besteira que tinha feito (é evidente que os neurônios de uma pessoa com inteligência limitada, como ele, tenham transmissões sinápticas mais lentas. Pelo menos essa era minha teoria não comprovada cientificamente). Felipe então colocou o buquê de rosas brancas em cima da mesa do computador e se apressou e foi abraçar Diego pedindo desculpas repetidamente. Este, não pôde nem corresponder o abraço de forma adequada e ficou estático enquanto Felipe, sem saber que atitude tomar, tentava apenas se desculpar repetida e nervosamente sem elaborar explicações mais complexas.
    Quando Diego finalmente retornou do breve transe, que o susto proporcionara, ele recusou o abraço de Felipe afastando-o de si.
    - Como você pôde fazer isso comigo? – Perguntou Diego vagarosamente, a raiva arranhando sua garganta e o som da sua voz saindo dificultosamente entre seus dentes rangidos.
    - Dih... Foi um acidente e... – Ele interrompeu sua própria fala, pois Diego compôs um semblante de desaprovação e desprezo que não deixaram margem para mais explicações.
    O que ocorria era que nenhuma conversa poderia mudar o fato de que, além de ter traído Diego com a Tânia, Felipe ainda levou sua irresponsabilidade impetuosa ao ponto de engravidar a Miss Silicone. A intensidade do olhar de Diego foi congelante, Felipe não conseguiu mais completar nenhuma frase com êxito. Felipe saiu do quarto pois já não sabia como se comportar dentro daquela situação.
    - Diego! – Sussurrei. – Espere eu voltar, preciso trocar duas palavras com ele!
    Eu não obtive resposta alguma, Diego voltou a chorar e se agarrou ao seu travesseiro. Talvez ele precisasse de tempo mesmo e eu tinha que falar com Felipe.
    Por sorte eu vi o portão de acesso para a escada de serviço se fechando. Acho que Felipe não agüentou esperar o elevador, então corri para alcançá-lo.
    - Felipe?! Pare aí! – Ordenei fazendo-o conter suas passadas rápidas pela escada.
    - Você veio esfregar na minha cara não é? – Perguntou ele se virando para mim, ele estava tentando conter o choro.
    - A idéia era essa, mas, ao contrário de você eu não gosto de chutar cachorro morto! Não vejo necessidade para isso!
    - Sua presença aqui já significa que você veio dar o golpe final...
    - Na verdade, eu vim fazer isso! – Eu disse, descendo mais alguns degraus e abraçando Felipe.
    Felipe estava num nível mais baixo da escada, de forma que sua cabeça se apoiou em meu peito. O abraço desencadeou todas as lágrimas acorrentadas no seu âmago e elas se despejaram escorregadias e molhadas, por minha camisa.
    - Por que... Você... Está... Fazendo isso? – Indagou Felipe entre soluços depois de minutos de desespero.
    - Por que eu sou um masoquista idiota... Está além da sua capacidade mental! – Brinquei.
    - O que eu vou fazer agora? – Ele me perguntou, ignorando minha brincadeira feita numa hora inadequada.
    - Você vai agir como um homem de verdade! – Comecei, soltando o abraço. Segurei seus braços, obrigando que ele tivesse contato visual comigo. – E você vai aprender de uma vez que ser homem não é pegar mulher, ser homem é assumir seus erros, responsabilidades e arcar com as consequências de seus atos... – Fiz  uma pausa breve. – Por hora, você vai comigo se desculpar com Diego e lá nós tomaremos as decisões cabíveis a situação!

[...]

    Voltamos ao quarto de Diego. Eu praticamente tive que arrastar Felipe, que não parava de chorar como um bebê, de volta pro apartamento de Diego. Por mais que eu me comovesse, eu não podia vacilar, eu precisava ser forte pelos dois!
    Diego estava imóvel na cama.
    - Dih... – Eu iniciei, sentando na cama. Felipe ficou estagnado na porta do quarto. – Precisamos conversar! – Eu coloquei a mão no ombro dele. Ele continuou sem se mexer. – Dih?... Dih? – Ele continuou sem se mexer. Virei Diego para mim, ele estava... – FELIPE!!! Aconteceu de novo!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 38


    Depois de terminar minhas ‘obrigações’, eu já estava me sentindo sujo novamente, então, tomei outro banho e fui me arrumar. Precisava fazer uma visitinha a uma certa pessoa que mora no Stella Maris! Precisava me desculpar. Resolvi ligar antes para não perder a viagem.
    - Diego? – Iniciei prontamente quando ele atendeu ao telefone.
    - Oi Brunno... – Respondeu em tom de desanimação.
    - Você está em casa?
    - Estou...
    - Posso ir aí? Preciso falar com você!
    - Venha! – Respondeu com a voz fraca.

[...]

    - Diego... Eu... – Comecei quando ele abriu a porta pra mim.
    - Entre! - Ele fez sinal para eu entrar. O apartamento estava com as luzes apagadas. Ele estava com uma cara péssima.
    - Você está sozinho?
    - Sim. Minha mãe voltou de Milão cheia de idéias e agora vive enfurnada no escritório buscando novas combinações para as decorações dela e o meu pai... Bom... Meu pai é meu pai néh?
    - Sei... – Eu continuei andando até o quarto dele, decidi não tocar mais no assunto.
    Diego se sentou na cama e me fitou com um olhar vazio.
    - O que você quer de mim agora? – Emoldurando seus olhos tristes e avermelhados tinham algumas olheiras profundas, ele deveria estar chorando antes de eu chegar.
    - Eu quero pedir desculpas por ter te julgado! E acho que também tenho que me desculpar por tudo que eu fiz e porque te magoei!
    -Você só... – Ele fez uma pausa, colocando a mão na testa. - Viu uma oportunidade e a aproveitou, não te condeno por isso! Desculpa ter brincado com seus sentimentos de alguma forma, nem tudo aquilo foi planejado!
    - Você só fez o que tinha que fazer... Na sua situação eu provavelmente teria feito o mesmo!
    - Certo...
    - Diego... Eu gosto tanto de você que precisei fazer todas essas coisas para me aproximar de você! Eu sei que foi por puro egoísmo, eu deveria ter pensado nas consequências e deveria ter pensado em você, no que você queria! Eu também deveria ter mais autocrítica e perceber que você nunca daria bola pra mim e... – Diego me interrompeu com um beijo lento, quando ele parou percebi que ele estava se desmanchando em lágrimas.
    - Desculpa... - Ele pediu enquanto enxugava suas lágrimas.
    - O que foi Diego?
    - Seria bem mais fácil para mim namorar você sabia? – Ele acariciou meu rosto com a mão. – Seria uma coisa mais leve, descomplicada...
    - E o que aconteceu com o discurso: “Eu amo o Felipe apesar dos pesares”?
    - Continua intacto... Mas, não quer dizer que eu não me machuque quando ele faz alguma coisa errada...
    - Isso ainda é sobre a Tânia?
    - Eu esperava isso do Felipe... Pelo menos do antigo Felipe, se é que ele mudou de verdade...
    - Mas vocês não faziam sempre isso?
    - Eu só fazia isso para mascarar a realidade, normalmente o Felipe é que insistia em continuarmos fingindo, e eu até considerei isso normal. Mas ele realmente se sente diferente quanto a isso!
    - Como assim?
    - Ele realmente gosta de ficar com as garotas, não é fingimento!
    - Mas ele gosta de ficar com você! – E lá estava eu defendendo o Felipe de novo, mesmo que de forma despercebida.
    - Sabe Brunno, às vezes eu gosto de pensar no futuro... E sempre que eu faço isso, eu penso em 2 futuros diferentes: No futuro real,  que é o que eu considero que acontecerá, e no futuro imaginário, que é o futuro que eu gostaria que acontecesse. Eu preciso dizer que eu não vejo o Felipe nos dois futuros?
    - Por que não?
    - Quando eu penso no meu futuro imaginário eu tenho idéias que são totalmente opostas a o que ele pensa. Eu sei que você vai achar uma idiotice, mas sei lá... – Ele fez uma pausa breve e respirou fundo. – Eu penso em casar e ter filhos... As vezes quando eu vejo algum filme, novela ou simplesmente quando eu ando numa praça eu vejo todos aqueles casais se beijando em público, brincando com seus filhos no parquinho... É tudo tão...
     - Fácil? – Completei, eu me sentia assim como Diego.
     - É... E mesmo que nos meus sonhos mais otimistas eu não imagino o Felipe ao meu lado... Para ele as coisas também podem ser fáceis! Pode ser que o que ele sinta por mim seja passageiro. Ele pode namorar uma menina, se casar, ter filhos e tudo mais, mas eu não o imagino largando tudo para ficar comigo...
    - Eu sei que você isso é o que você já deve esperar dele, mas... – Fiz uma pausa, Diego recomeçara a chorar – Calma Dih... Não Chore! Tudo vai se resolver...
    Percebi alguém entrando no quarto.
    - Não acredito que você veio aqui contar tudo! Você não perde tempo não é Nerdzinho! – Bradou Felipe com seus olhos fulminantes. – Eu ouvi o que vocês estava falando agora antes de eu entrar! Não sei como você descobriu que a Tânia estava grávida...  Até para você isso é golpe baixo!
    Felipe acabou falando tudo tão rápido com uma metralhadora e acabou se entregando sem se dar conta de que eu não estava contando nada sobre ele e Tânia. Voltei meu olhar para Diego e o semblante do rosto dele mudou drasticamente.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 37


    Eu precisava considerar o que Diego tinha me dito. Colocar esse vídeo na internet estragaria a vida dos dois e apesar de eu não me importar muito como mauricinho cabeça-oca do Felipe, Diego era diferente, ele não merecia isso! Tentei me colocar no lugar dele e vi que eu teria feito a mesma coisa para ter o DVD em mãos, se alguém tivesse esse tipo de prova para me chantagear. Todos esses pensamentos não me afastaram da minha ideia pro desfecho dessa questão do DVD, já que eu corria o risco iminente de Diego jamais falar comigo de novo, pelo menos eu precisava de um bônus acompanhado desse ônus!

[...]

    Cheguei em casa para mais uma rodada de escravidão. Minha mãe agora tinha voltado a trabalhar, porque tinha tirado férias, e agora eu e Laura estávamos convivendo muito tempo juntos! Era uma relação linda de chantagem e palavrões e que logo chegaria ao fim! O namorado dela ainda estava viajando e acho que por esse motivo ela estava mais mau-humorada ainda. Devia ser a falta de sexo!
    - Os pratos estão te aguardando! – Ordenou ela quando eu entrei na sala.
    - Você ainda vai se arrepender disso, Laura!
    - De ficar aqui deitada no sofá a tarde toda assistindo TV e comendo chocolate? Acho que não...
    - Vou te dar a chance de acabar com essa chantagem agora, se não... – Ela me interrompeu.
    - Se não o que? Você vai contar para a Mamãe é bebê? Aproveita a ela e diz que você estava assistindo vídeo pornô e não se esqueça de esclarecer que era um pornô gay!
    - Como você é baixa!
    - Na verdade, nós somos quase da mesma altura! – Respondeu ela gargalhando fervorosamente. – Agora volte ao trabalho, escravo! Eu tenho que procurar alguma coisa pra fazer, afinal, eu tenho tanto tempo livre!
    - E o pé-rapado do seu namorado?
    - Eu não tenho que te dar satisfações, mas vou dizer assim mesmo! Esqueceu foi bicha burra que ele viajou? Só vou falar com a noite!
    - Laura... Você está indo longe de mais!
    - Espere... – Ela fez uma pausa. – Estou ouvindo alguma coisa!
    - O quê?
    - Acho que são os pratos te chamando!
    - Idiota!
    Sai de lá com raiva, mas, tinha conseguido o que eu queria. Não seria nada justo jogar minha querida irmãzinha na fogueira, sem lhe dar a chance de se redimir. Agora, eu tinha a mais absoluta certeza que ela vai merecer a chantagem que eu vou fazer com ela quando eu conseguir o que eu quero!

[...]

    Depois de tomar um bom banho eu fui enfrentar minhas tarefas de casa e estava me sentindo a própria cinderela como gata borralheira! Nesses momentos de faxina é que eu tinha a oportunidade de pensar sobre várias coisas e organizar meus pensamentos. Agora eu posso perceber que Felipe me manipulou, eu sei que isso é bem inesperado vindo de um idiota como ele que nem saber mais nada além de malhar e ficar se exibindo por aí, e eu não tinha percebido isso. Todas as coisas que ele disse, não foram só para me atingir, mas principalmente para que eu tivesse essa reação e de certa forma tratasse o Diego mal. Percebendo que minha relação com Diego era inviável e com raiva de tudo eu, no pensamento de Felipe, resolveria a questão acabando de uma vez por todas com a chantagem e deixando o caminho livre pros dois. Como eu fui um idiota! Mas se o Felipe acha que pode brincar comigo, ele está muito enganado! Está na hora do contra ataque!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 36



    Decidi ir para uma daquelas várias mesas de pedra que ficavam no pátio por trás da cantina, lá era um lugar mais calmo para se pensar. Enquanto os alunos do colégio se estapeiam por um lanche e depois se sentam nas mesas que ficam na própria cantina, as mesas de pedra do pátio ficavam quase sempre vazias.
    - Pensei que o nosso assunto estivesse finalizado! – Comentei, me sentando no banco de pedra do pátio.
    - Só acaba quando termina Nerdzinho! – Disse Felipe entre dentes colocando o pé no banco bem próximo de mim.
    - Brunno, por favor! Por mais que eu confie em você essa espera é torturante! Não é justa essa chantagem... – Ele passou por mim e se sentou no banco do lado oposto, ficando de frente para mim. - Eu sei que a gente errou em te humilhar e a forma como a gente se comportou foi inaceitável, mas nós já aprendemos a lição!
    - Não se trata em aprender ou não a lição. Não estou fazendo uma chantagem didática!
    - Mesmo que seja vingança... Já acabou! Você venceu seu pé-rapado! – Interveio Felipe ao meu lado, preferi não manter contato visual com ele.
    - Eu não estou a fim de explicitar todos os motivos que me levaram a fazer isso! – Falei em tom de desprezo.
    - Felipe... Que tal você ir dar um passeio? – Indagou Diego.
    - Tá! – Grunhiu ele saindo dali.
    Felipe se afastou. A estratégia de policial bom e policial mau não parecia dar indícios de eficácia.
    - Eu não sei se eu estou errado, mas apesar de estarmos sob essa chantagem ridícula e sem fundamento, eu acabei me conectando a você. Todas as vezes que a gente conversou e me sentia mais seu amigo... – Iniciou Diego.
    - Antes ou depois de você dar em cima de mim para conseguir o DVD?
    - Podemos conversar sem esse sarcasmo? E é claro que eu fiz isso! Situações como essa exigem medidas extremas!
    - Extremas? Agora não resta dúvidas de que Felipe estava certo!
    - O quê? Dá pra você parar de brigar comigo sobre uma coisa que eu nem sei o que é?
    - “Você pensou mesmo que o Diego pudesse estar gostando de você? Provavelmente ele só estava querendo pegar o vídeo de volta... Ele tem bom gosto, ele nunca ficaria com alguém como você!“ Assinado, Felipe! – Respondi revoltado e irônico.
    - Eu poderia mesmo ficar somente como caras bonitos como o Felipe, mas eles são vazios... Só pensam em sexo e em fazer tudo com a máxima descrição para ninguém saber e os meus sentimentos como ficam? Você é diferente... O jeito que você me beija e o modo como você fala comigo mostram que você tem uma amizade despretensiosa. Você pode até querer ficar comigo e como os outros caras você também pode desejar fazer sexo comigo, mas eu acho que você enxerga além de um corpo malhado de academia e um par de olhos azuis...
    - Por que você está me dizendo isso tudo?
    - É o motivo pelo qual eu beijei você todas aquelas vezes, eu sei que o Felipe estava sempre me impulsionando a conseguir o DVD de volta, mas no caminho eu percebi que eu sentia bem mais do que vontade de ser livre novamente. Eu queria ter te conhecido fora dessa situação, sem essa chantagem...
    - Você provavelmente teria pisado em mim e deixado pra lá!
    - É verdade, mas agora eu vejo as coisas de uma maneira diferente. Eu queria começar de novo com você, do jeito certo!
    - Como eu vou saber que isso não é um truque?
    - Olha só Brunno, eu amo o Felipe e é um amor meio sem-sentido, meio irracional. Ele me irrita a metade do tempo e na outra metade ele me faz sofrer, mas algo dentro de mim precisa ficar com ele, é como um vício! Você me entende?
    - Pior que entendo... – Diego praticamente narrou os sentimentos que eu tenho pelo Alan.
    - Eu quero ser seu amigo quando tudo acabar, mas até lá, eu só espero que você continue do jeito que você é, e que faça a coisa certa para você! Se você acha mesmo que a gente merece, pode postar o vídeo na internet. Você vai conseguir dar uma lição no Felipe e vai acabar com tudo... Talvez você ache que minha vida é fácil só porque eu tenho dinheiro e vou a festas, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Eu tenho que ficar com as meninas pra manter uma imagem de pegador, mas eu nem gosto de meninas, eu tenho que conversar coisas fúteis com desconhecidos que eu chamo de amigos só porque eles freqüentam os mesmos lugares que eu e me esforço para orgulhar meus pais que nem estão em casa para eu dividir minhas conquistas... Faça o que achar melhor! – Concluiu Diego saindo dali.
    Eu fiquei me sentindo péssimo por tratá-lo desse jeito e pela maneira que eu acabei julgando ele ao pensar que ele e o Felipe eram pessoas iguais só porque eles andam juntos. Tudo isso confundiu muito a minha cabeça sobre o desfecho desse jogo de amor e vingança.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 35


    - Onde você se  meteu? – Indagou Roberta confusa. – Eu cheguei e vi sua bolsa, mas você não estava aqui! O professor quase não deixa você entrar! – Sussurrou.
    - É... Antes que ele mude de idéia e me coloque pra fora, vamos copiar o exercício! – Exclamei em um sibilo. Não estava em condições de dar explicações.
    Se eu não ouvisse a própria Tânia falar com Gabriele aos prantos no celular eu não acreditaria nisso, acharia que era um golpe da barriga ou coisa parecida. Mas, o fato de ela não saber que eu estava ouvindo e não estar contando para o Felipe me faz acreditar que essa notícia tem a possibilidade de ser verdadeira. O que me resta é saber o que eu vou fazer com esse tipo de informação.

[...]

    Olhei fixamente para um ponto específico da sala. Meus pensamentos se dispersavam facilmente. Dessa vez eu não estava pensando nem no meu plano para reaver o DVD, nem na suposta gravidez de Tânia e muito menos na minha relação conflituosa com Diego e Felipe. As vezes eu me pego  pensando nele de novo e sei que não deveria me martirizar desse jeito, mas é inevitável. É como um vício que me obriga a continuar alimentando-o.
    Eu gostava do tempo em que eu não sabia que estava apaixonado por ele, quando nós éramos apenas amigos ciumentos. Ninguém entrava no nosso grupinho do “quarteto” por causa de que todos nós tínhamos ‘ciúmes de amigos’, menos Thiago, ele não sentia nada disso, passava o ano juntando dinheiro para trocar seu celular por um 10 vezes mais moderno e continuava no mês seguinte, e pelo fato dele ser hétero, provavelmente ele não tenha essa mente feminina da competição. Jonas tem aquela síndrome de Blair Waldorf de querer controlar todos, de não deixar a gente socializar com os outros meninos. Ainda me lembro na 5ª série (que hoje já é o sexto ano) quando tentei fazer amizade com o Heitor, mas depois de um tempo Jonas me deu logo um ultimato: Ou eu me afastava dele, ou me afastava do grupo. E eu escolhi continuar no grupo. Partindo da idéia que Thiago não tinha ciúmes de ninguém e que o ciúme de Jonas era causado por sua síndrome Blair... Só restava eu e o Alan. Quem sabe o ciúme fosse meu o tempo todo e eu não tivesse me dado conta.
    Nas brigas entre nosso mini-grupo sempre cada um já tinha seu fiel escudeiro. Se eu brigasse com Alan, Jonas ficaria do meu lado e Thiago ficaria do lado do Alan. Se eu brigasse com Jonas, Alan ficaria do meu lado e Thiago ficaria do lado de Jonas. Era difícil acontecer algum desentendimento meu com Thiago então não consideraria essa possibilidade. É uma coisa até complexa de entender, a única forma de simplificar é que eu nunca ficaria do lado de Thiago, nem ele do meu. Pra mim ele era um apêndice do grupo. Todos nós, com exceção de Thiago, brigávamos por tudo e qualquer coisa, mas geralmente a raiva não sobrevivia a mais de uma semana. A gente sempre arrumava um jeito de mandar um escudeiro falar com o escudeiro do ’inimigo’ para ‘acabar com a guerra’. Mas o que eu não sabia era que uma dessas brigas seriam definitivas e que ela seria com o Alan, meu melhor amigo. Que eu conhecia desde os 10 anos. Nossa briga foi com 12 ou 13 anos e não me lembro bem o motivo. As pessoas sempre foram invejosas e nossas brigas sempre geravam ibope e fofoca das pessoas que não tinham o que fazer. Eu só sei dizer que, devem ter aumentado tudo que ele falou de mim e vice e versa e esse telefone sem fio acabou destruindo tudo o que a gente tinha conquistado ao longo desse tempo.

[...]

    - No que você está pensando Brunno? – Indagou Roberta.
    - Na aula!
    - A aula acabou Brunno, você não percebeu? O professor liberou a gente pra conversar, porque já corrigiu os exercícios...
    - Desculpe... É só que... Eu não estou com cabeça pra mais nada.
    - Pensando nele de novo? E nem tente mentir pra mim!
    - Você sabe que eu ainda gosto dele...
    - Depois de tudo que ele fez? Depois de tudo que ele falou sobre você?
    - É irracional, eu sei, mas talvez isso seja amor não é?
    - Um amor masoquista e doentio! – Ela fez uma pausa. – Mas, mesmo assim é amor. E o amor é um sentimento muito digno, e mesmo que você ame o Moby Dick aí eu acho bonito.
    - Pois eu acho horrível...
    - Além disso, é bom ver que você é um ser humano. As notas altas e essa pose de “eu só não passo em medicina porque não quero” fazem você parecer um robô japonês programado para a perfeição! – Ela começou a rir.
    Eu não pude resistir e comecei a rir também.
    Alguém me cutucou. Olhei para traz e Dayana me estendeu um bilhete sorrindo para mim. Nem todos os populares são idiotas fúteis. A Dayana era legal. Peguei o bilhete, agradeci e virei novamente.

Precisamos conversar com você!
D. e F.

    Era um bilhete de Diego e Felipe. Eu nem precisaria ver as iniciais no fim, só a caligrafia impecável de Diego já era bastante para reconhecê-lo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 34


    Com meu plano em andamento, a única coisa que precisava fazer era esperar. Nesse ínterim eu deveria evitar completa e absolutamente conversar com Felipe e Diego. Apesar de estar, enfim, concertando tudo a finalidade de todo esse processo voltou a minha mente para me fazer vagas indagações. O que eu ganhei com tudo isso? Alguns beijos calientes de Diego e Felipe em suas belas e bem-sucedidas tentativas de fazer ciúmes um ao outro. Diego, por sua vez, não só beijou como fez sexo comigo somente no intuito de receber o maldito DVD de volta e Felipe bem que tentou o mesmo plano. Apesar de observar mudanças no comportamento dos dois, mudanças, por sinal, positivas, a minha intenção não era essa restauração de caráter em prol da harmonia social. Eu comecei isso tudo por puro egoísmo, eu queria o Diego de qualquer jeito, queria que ele sentisse por mim o mesmo que sente por Felipe, mas creio que para isso eu precisasse de mais uns 15 cm de altura e alguns meses de academia. O fato é que essa “mudança” dos dois só ocorreu devido a chantagem que eu fiz e no momento que tudo acabar tudo vai voltar a ser como antes. Eles vão ir à festas, usar roupas caras e dormir em suas gigantescas King Sizes e eu vou  continuar me contentando com ir ao corujão do Cine SESI como maior badalação possível de uma noite.
    O sinal tocou com uma daquelas músicas gospels de novo e eu precisava ir pra sala, a aula já ia começar. Eu precisava desse tempo pra pensar nessas questões repetidas que martelavam a minha mente.
    Andei rapidamente, precisava cruzar o colégio para chegar a bendito andar do terceiro ano. Saí da biblioteca e comecei a ouvir uns sussurros. As vozes eram mais que conhecidas.
    - Eu preciso te dizer uma coisa!
    - Eu também...
    - Então comece você príncipe!
    - O que rolou entre nós está acabado!
    - Como assim está acabado? E ontem à noite?
    - É isso mesmo que você ouviu! Acabou! Ontem não foi a primeira vez mas foi a última!
    - Você disse que...
    - Eu invento qualquer coisa pra conseguir o que quero! E agora que já consegui, não tenho mais interesse em você!
    - Você me usou todo esse tempo? – A voz feminina fraquejou.
    - Não faça essa cara de santa! Você já deu pra metade desse colégio! Acho que você deveria se orgulhar de eu querer algo com você... Além disso, você não esnobou com suas amigas dizendo que eu estava na palma da sua mão?
    - Quem disse isso?
    - Isso não vem ao caso. Estou indo, cansei de ouvir essa sua voz chata. Quem sabe se você não fosse tão insuportável eu teria te comido por mais um tempinho! – Ele começou a rir.
    Perto da biblioteca tinham uns banheiros que nunca eram usados e sempre ficavam fechados, deveriam ser usados só em reunião de pais e mestres, se elas ocorressem no auditório ou coisa assim. Esses banheiros eram escondidos por umas paredes e quem visse de fora só via as plaquinhas homem e mulher. Foi dali que saiu Felipe rindo com um semblante aliviado.
    Pude ouvir a menina chorar e falar com alguém!
    - Alô? Gabriele? Você não vai acreditar no que aconteceu! – Ela sussurrou dificultosamente devido ao choro. – Ele acabou comigo! - Ela esperou um pouco, ouvindo o que a amiga tinha a dizer. – Não... Nem deu tempo de eu dizer que eu estou grávida!
    Não acreditei no que eu estava ouvindo. Esperei mais um pouco para ver quem era e não demorou muito para sair de lá a senhorita Miss Peitos! Tânia saiu dali arrasada, enxugando suas lágrimas e tentando ser forte. Toda essa cena me soou como um alerta de bomba, uma declaração de guerra. A loira oxigenada mal sabe, mas ela conseguiu ganhar na loteria, mesmo que não fique com Felipe, mas vai arrancar uma boa pensão da família Duarte! Parece que a aspirante a mulher fruta não é tão retardada como eu pensei, ela tem todas as armas pra vencer a guerra, mas é como dizem por aí: Não é o maior exército que vence a guerra e sim a melhor estratégia!