segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 68



    Eu ainda estava estarrecido com aquilo. Quando eles pararam o beijo e se abraçaram. Diego saiu do pequeno e mal iluminado corredor que se encontrava e ao dobrar a esquina do corredor desapareceu. O outro vinha na direção em que eu estava. Entrei rapidamente na biblioteca e fingi que estava procurando alguns livros por trás de uma prateleira. Diego só podia ter ficado completamente louco ao se envolver com aquele garoto e ainda mais arriscar um beijo daqueles dentro do colégio.
    Pude perceber que ele andou teatralmente fingindo que procurava alguma coisa nas prateleiras e depois de um tempo, sentou-se em uma das mesas. Abriu um livro de química que achou por ali mesmo e colocou seu iphone do lado. Depois de um alerta vibratório discreto, ele leu e respondeu uma mensagem de texto.
    Com meu exemplar tão almejado de Romeu e Julieta em mãos sentei em uma mesa onde podia ter uma visão estratégica dele. Tentei não olhar muito e não fixar na minha cabeça aquele beijo que eu tinha visto, mas como ele, eu precisava disfarçar um pouco antes de sair da biblioteca também.
    Mariana, uma das meninas populares e bonitas da minha sala, entrou na biblioteca e sorriu quando me viu. Ela era realmente simpática e parecia ser uma pessoa de bom caráter, mas eu preferia não me envolver com muita gente naquela sala, já que não tinha padrão financeiro e de sociabilidade para tanto.
    - Brunno! Que sorte encontrar você por aqui!
    - Oi, Mariana! Tudo bom? – Indaguei. O início da fala dela já me indicava que ela queria alguma informação de mim.
    - Você sabe o assunto da prova de Química 2? – Perguntou. Fazendo um gesto de “espere aí” para alguém que estava do outro lado da biblioteca.
    - Se eu não me engano é: Hidrocarbonetos... – Fiz uma pausa para fingir que estava me lembrando, ela interveio.
    - Hidro... O quê? – Ela fez uma careta meio engraçada.
    - Alceno, Alcino... Nomenclaturas... Aquelas cadeias de carbono...
    - Ah! São aquelas formulazinhas não é? Acho aquilo tão complicado... Enfim, depois você escreve num papel e me manda na aula está certo? O chato do meu namorado está impaciente ali! - Ela saiu sem esperar nem a minha afirmação ou negação.
    Ela se aproximou da mesa do menino, deu um beijo nele e se sentou ao seu lado.
     - Por onde você andou o intervalo todo? – Indagou ela em voz baixa.
     - Estava aqui, estudando pra prova de química... - Mentiu, com a mesma facilidade e naturalidade como respira.
      - Ai que bom amor! Você vai me ensinar!
    - Antes disso eu tenho que aprender... – Comentou, sorrindo. Puxando o queixo dela levemente e aplicando um beijo suave. Bem diferente do beijo ardente com direito a amasso na parede que ele deu em Diego a 3 minutos atrás.
     Aristides era um garoto popular da turma “D”. Ao contrário do que o nome sugere, ele é bem bonito. Tem aproximadamente 1,78m, corpo bem malhado e definido, sorriso bonito e como a maioria dos fúteis estudantes ricos do colégio, não tem uma inteligência notável. O engraçado é que eu tinha estudado com ele a na oitava série (o atual nono ano) e ele não era nada de mais. Lembro que nessa época, eu estava tão cheio da falsidade da minha turma, que tinha mudado para a D, com esperança de encontrar pessoas menos falsas, mas pude perceber que realmente tudo tem como ficar pior e acabei voltando pra minha turma meses depois. Voltando ao Aristides, ele era apenas mais um garoto sem sal e de porte físico comum, que tirava notas boas e andava com os meninos de sua sala. Eu realmente não prestei muita atenção nele depois de ter voltado a turma ‘A’ e fiquei bastante surpreso ao ver o desenvolvimento dos seus músculos, que provavelmente derivam de efeitos de anabolizantes e horas de musculação em alguma dessas academias famosas da cidade. Eu nem sabia que ele namorava a Mariana da minha sala.

[...]

    - Sério que você não sabia que a Mariana namora como Aristides? – Indagou Roberta, surpresa, sentando-se na sua carteira e abrindo o seu caderno. O professor começava a anotar algumas coisas no quadro.
    - Eu me ocupo em estudar, não fico preocupado em saber quem namora com quem, por aqui! – Respondi ironicamente.
    - Qualquer um sabe disso Brunno, não precisa investigar muito pra perceber eles se agarrando pelos corredores! – Comentou, soltando um risinho. Roberta sempre dizia que o meu sarcasmo era um grito de sinceridade, que só meus amigos íntimos podiam ouvir, já que eu estava imerso na minha falsa simpatia cotidiana.
    - Eu não sabia...
    - Se você está tão preocupado em estudar, porque isso te importa agora?
    - Pura curiosidade... Falta de ter o que fazer...
    - Você fala como se eu não soubesse que você não dá ponto sem nó! – Ela sorriu maliciosamente. – Sei que você não quer contar e que provavelmente vai dar a desculpa de que “Não pode”...
    - Garota esperta! – Respondi, arqueando uma sobrancelha e voltando minhas atenções às explicações que o professor começava a dar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 67



    - Roger? Como não pensei em você antes? – Indaguei surpreso, ao me virar – Pensei que você tivesse passado da fase Shakespeare!
    - É uma fase que eu nunca vou superar! – Comentou sorrindo. – Vejo que você quer entrar no mundo romântico e trágico de Romeu e Julieta com certa urgência! – Ele voltou a rir – Pode pegá-lo agora! – Ele arrastou o livro com os dedos até ele ficar mais próximo de mim.
    - Por favor! Gostaria de locá-lo! – Entreguei o livro à bibliotecária, que se ocupou em marcar a devolução de Roger e registrar a minha locação. – Apesar de não ter sido direcionado a você, desculpe pelo que eu disse!
    - É bom ver um pouco de sinceridade de vez em quando, Brunno! É bom saber que você não é aquela figura de perfeita simpatia e educação que costuma tentar transparecer, isso te faz parecer um pouco mais humano! – Brincou ele. Com uma leve crítica subentendida em suas palavras.
    - Eu não finjo... – Comecei a falar, mas ele me interrompeu.
    - Não encare como uma crítica e nem se preocupe com réplicas! Tenho que ir agora! – Finalizou. Saindo da biblioteca com pressa.
    Roger estudava na minha sala. Era um leitor compulsivo e escrevia como ninguém, se destacava nas matérias vinculadas à área de humanas e tinha desempenho menos notável nas áreas exatas. Por causa do meu forte instinto de competição, geralmente eu analisava meus concorrentes em cada matéria que era lecionada à minha turma. Sem sombra de dúvidas, Roger era meu mais forte concorrente em Literatura e Redação. O que mais me irritava era que isso era tão natural para ele, que ele facilmente tirava as notas máximas, sem ao menos ter se esforçado, já que ele mantinha suas leituras atualizadas diariamente e alimentava seu blog de literatura. Eu tive um início de amizade com ele, mas ela não evoluiu muito. Talvez isso tenha sido derivado do meu medo e meu conseqüente afastamento. Roger era muito perspicaz, falar e conviver com ele era como colocar seus pensamentos numa vitrine, ele é muito bom em “ler pessoas”, como costumo pensar. Tinha medo de ele conseguir ‘ler’ tudo que eu tentava esconder e do que ele podia fazer com essas informações. No entanto, Roger tinha um defeito enorme: se apaixonava facilmente pelas garotas erradas e essa paixão o levava a uma escravidão emocional imensurável e isso resultava na concretização das óbvias decepções que já davam indícios de fracasso nos primórdios de suas relações.
    Eu precisava relaxar e ler um pouco de forma despretensiosa, por puro prazer. Eu precisava sair daquela nuvem de intensa atribulação produzida pela minha ‘amizade’ com Diego e Felipe. Precisava me focar nos estudos de fim de ano e em me dar bem no simulado para ter novamente o 1° lugar no ranking. Eu precisava me concentrar no vestibular, em qual curso eu iria, de fato, escolher.
    Comecei a ler as primeiras linhas do primeiro ato distraidamente, ainda imerso em alguns tórridos pensamentos, andando lentamente até sair da biblioteca. Em alguns minutos o sinal para voltar pra aula iria tocar. Quando lancei um distraído olhar de soslaio para o lado, na direção de um pequeno corredor que dava acesso à uns banheiros que quase sempre ficavam fechados e só eram abertos em reuniões de pais e mestres, porque ficavam mais perto do auditório do colégio. Esse corredor mal iluminado abrigava em suas sombras, duas figuras se beijando apaixonadamente, o que era bem comum para o local, mas algo despertou minha curiosidade. Dei alguns passos para trás e fiquei escondido na parede do final de corredor da biblioteca e que dava acesso ao corredor do auditório.
    Tentei analisar quem eram os dois componentes daquele amasso de desejo que, ao mesmo tempo ainda apresentava muito carinho e romantismo. Analisando a farda, pude perceber que os dois eram garotos! Essa informação me deixou um pouco chocado e ainda mais curioso para ver quem eram. Foi aí que pude reconhecer Diego entre as sombras. Acabei me lembrando que tinha visto Felipe na cantina na fila pra comprar lanche com Tânia, minutos antes e estava imaginando como ele estaria aqui tão rápido se pegando com Diego. Também estranhei o fato deles fazerem isso aqui no colégio, o que não era nada comum. Até que... Eu pude perceber... Que o outro componente do beijo não era Felipe.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 66



    Era mais um dia comum na escola. Felipe estava sempre com Tânia, mas já não representava o papel de ‘namorado de estimação’ de outrora. Eles sempre estavam juntos, mas dificilmente ele dava alguma importância ao que ela dizia ou fazia. Felipe voltou à sua vida normal, recomeçou a andar com a turminha de costume e frequentar as festas badaladas que eram divulgadas na cidade, quando não promoviam suas festinhas particulares que ficavam famosas pelo excesso de bebida e a insanidade que dela derivava. Diego também voltou àquele contexto, mas não estava tão imerso como Felipe, parecia que ele estava emergindo e olhando além daquela limitada e fútil realidade. Era comum ver Diego lendo um livro distraidamente pelos corredores nos intervalos e suas notas subiram significativamente.
    Eu estava muito ocupado com os estudos e preso às preocupações do final do ano. Além disso, a pressão ficava mais intensa devido ao simuladão que o colégio promovia e que produzia competitividade, nem sempre saudável, entre os alunos. Afinal, todos queriam estar no top 10. Era uma questão de status para a maioria dos riquinhos imbecis que resolviam tomar a dose costumeira de ‘juízo de fim de ano’ e tentar uma colocação boa no ranking. Eu sou muito competitivo e adoro colocar todos eles no lugar de imbecilidade que eles merecem e mostrar que overdoses de cursinhos, aulas particulares e reforço não ajudam em nada se não forem atrelados a preceitos básicos como organização, responsabilidade e vontade de estudar. Era nesse momento que os pré-requisitos mudavam e eu passava de um mero bolsista de aparência comum, nível baixo de sociabilidade e que usa roupas de lojas de departamento, ou seja, a base da pirâmide social e passava a ocupar o topo da pirâmide intelectual por causadas minhas notas.
    Alan e eu retomamos nossa antiga amizade e aos poucos voltávamos a ser e a agir como fazíamos antigamente. Nós sempre estudávamos juntos e eu agora estava me inserindo na turma dele, embora não tivesse deixado de lado meus amigos. Tudo corria bem, embora Roberta se queixasse constantemente da minha falta de tempo e as reclamações referentes a não passar tanto tempo com ela como antigamente. Eu ainda via Diego e Felipe uma vez por semana, ou quando tinha tempo disponível, quando marcávamos de ver um filme ou tomar um sorvete, mas a conversa não passava muito do âmbito dos diálogos corriqueiros. Era possível perceber que entre eles, apesar das controvérsias, a amizade também estava voltando ao ser o que era antes de eu entrar e interferir nas suas vidas. Felipe me disse, em nosso último encontro que marcaria um jantar na casa dele para receber os pais de Tânia e contar a notícia, reafirmar o seu compromisso de sustentar a criança e participar da vida dela, embora eu particularmente pense que ele não nasceu para trocar fraldas. Mas, nunca se sabe o que está por vir, as coisas mudam o tempo todo.
    Fui à biblioteca. Precisava de algum lazer. É fato que minhas definições para lazer não passam pelo plano que a maioria das pessoas da minha sala idealizava, mas pelo fato de eu gostar muito de jogos de computador e me viciar facilmente neles, eu estava tentando buscar outras ocupações que me agradavam. Resolvi ler shakespeare pra passar o tempo. Tinha lido Macbeth recentemente, então, decidi fazer uma releitura da tragédia mais conhecida dele: Romeu e Julieta.
    - Como assim não tem Romeu e Julieta? - Indaguei perplexo, fitando a atendente da biblioteca.
    - Ele já está locado, Brunno! - Respondeu ela com calma.
  - De novo? Essa pessoa quer o quê? Encenar a peça ou fazer um longa-metragem? - Perguntei ironicamente, realmente achava um absurdo o fato da biblioteca só ter um exemplar de cada obra de Shakespeare e ainda tinha algum retardado que provavelmente locou, porque acha que ler shakespeare é tão fácil quanto ler crepúsculo, e ao ler a primeira página começou a usá-lo como peso de porta.
    - Boa ideia! Mas, por enquanto fico só na leitura e releitura mesmo! - Respondeu alguém, com a voz suave e colocou o livro de Romeu e Julieta na mesa.