Voltei para a sala e comecei a resolver
algumas questões de química 1 que tinha no livro, para recuperar a parte da
aula que eu perdi em meio aos meus devaneios. Esse negócio de meia-vida até que
era bem divertido, mas nada se compara a fazer cadeias de carbono Alcano,
Alcino, Alceno, Benzeno, Álcool e etc. Era uma das minhas atividades de
distração favoritas.
Eu não sabia ao certo se eu tinha exagerado
na dose de frieza com Diego, mas eu já estava um pouco estressado devido ao
modo com que Felipe ironizava a minha tentativa de ajudá-lo
A aula de redação começou, e como eu já
tinha feito em casa todas as 10 redações que ele mandou fazer para constituir a
nota bimestral, só iria me ocupar em passar a limpo de forma meticulosa. Esse
era um daqueles momentos em que eu não queria pensar em absolutamente nada. Uma
menina de outra turma entrou na sala e entregou um daqueles bilhetes
chamativos, dessa vez, um bilhete verde-limão, para ele. Que parecia ler
repetidas vezes sem compreender muito. Deixei isso pra lá e voltei ao meu
trabalho caligráfico.
- Brunno Biancchi, você está sendo chamado
na sala da coordenação! – Proferiu ele, como se não entendesse o motivo que
impulsionou esse chamado.
[...]
Eu fiquei igualmente confuso, faz tempo que eu não era chamado lá, desde
aquele episódio... Abri a porta da sala e acabei dando de cara com ele, que do
alto dos seus 14 cm
a mais de altura do que a minha, como eu costumava definir, ‘minusculosidade’,
me fitou profundamente franzindo o cenho e fazendo questão de esbarrar em mim,
como um rinoceronte raivoso, para entrar na sala. Eu fingi que nada aconteceu,
afinal, me intrigava muito mais o fato de eu ter sido chamado na coordenação do
que essa rixa de anos que eu tinha com o...
- Oi Brunno! – Falou a psicóloga com aquela
felicidade irritante. – Tudo bom, querido?
- Tudo. – Respondi secamente, tentando ser
o mais educado possível. Não era tão bom assim estudar numa sala que ficava
vizinha à coordenação, não dava tempo nem de se preparar para receber a próxima
bomba. Entrei, e cumprimentei a coordenadora que estava sentada no seu lugar
habitual.
- Sente-se, por favor! – Disse Sandra,
a coordenadora. Eu preferia ouvir notícia ruim em pé, mas, o pedido dela foi
quase como uma ordem. A sonsa da Audrey, a psicóloga retardada, sentou na
cadeira ao lado da minha.
- O que aconteceu? – Iniciei a conversa.
Creio que tinha absorvido por osmose um pouco da impaciência que Felipe me
mostrou no intervalo.
- Veja bem Brunno, precisamos conversar
sobre uma coisa muito importante! – Sandra falou enfaticamente. Será que alguém
da minha família tinha morrido? Constatei instantaneamente que não, se fosse
isso, a Audrey, vulgo psicóloga sensível, já estaria alisando as minhas costas
ou realizando ações dessa natureza.
- Algo com minha família? – Indaguei,
fazendo uma cara de apreensão só pelo esporte de interpretar.
- Não... Nós precisamos falar sobre o seu
rendimento escolar! – Sandra interveio.
- O que é que tem? – Eu não estava com
paciência pra conversa fiada.
- Você percebeu que suas notas caíram
consideravelmente? – Ela continuou.
- Sim. – Respondi firmemente.
- A que você atribui a isso? – Perguntou
Audrey, com aquele ar de ‘conte-me sua vida e eu resolverei seus problemas’.
- Talvez eu tenha dado uma relaxada, mas
ainda estou acima da média. – Falei, demonstrando um certo descaso.
- Não se contente com pouco Brunno, sabemos
que você é um aluno aplicado e é um dos alunos mais aplicados da sua turma! –
Disse a psicóloga. – Para sua informação
é “O” aluno mais aplicado, e não “um dos”, sua idiota.
- Eu me esforço... – Deixei em reticências, afinal, parece que a
humildade, mesmo que seja em 80% dos casos produzidas por falsidade produzida
pela educação que recebemos desde pequenos, é amplamente apreciada.
- Já escolheu o que vai fazer no
vestibular?
- Teatro! – Soltei rapidamente. A expressão
delas mudou de forma bem sutil. Estava na cara que essa era mais uma daquelas
conversas em que elas tentariam me induzir de todas as maneiras a fazer
Medicina, Direito, Odontologia ou uma das Engenharias, já que esses são cursos
de maior concorrência e conseqüentemente agregam um destaque maior ao conceito
do colégio. Resolvi responder todas as perguntas imbecis que elas fariam
anteriormente, com respostas justamente opostas ao que elas querem ouvir.
- Mas, você já pensou a respeito, tem
tantas opções... – Sandra tentava me persuadir.
- Odeio medicina. Não tenho paciência para
ficar estudando todas as partes do corpo e dessecando cadáveres. Odeio direito.
Não vou ter paciência de ficar lendo leis que são modificadas de ano em ano.
Não gosto de Odontologia, porque ficar abrindo bocas cheias de tártaro e cáries
não me parece ser uma coisa muito interessante. Engenharia está fora de
questão, me afogar em cálculos também não parece muito empolgante.
- Você não tem nem uma segunda opção? – A
coordenadora forçou a barra.
- Filosofia. – Menti. Essa era minha
mensagem subliminar de “Parede sonhar, vocês não vão me induzir a fazer o que
vocês querem”.
- Só pense a respeito... – Disse a
psicóloga com aquela voz mansa como um ronronado de uma gata no cio, apoiando a
mão em meu ombro – E não se esqueça do Simulado Pré-Enem.
- Mais alguma coisa? – Perguntei, elas
apenas balançaram a cabeça negativamente. – Então, tchau! Bom dia pra vocês!
Sai da sala me sentindo ultrajado. É muita
pretensão achar que eu tenho uma mente fraca a ponto de ser influenciado com
técnicas tão primitivas.
- O aluno perfeitinho está descendo do
pedestal? – Proferiu ele, ironizando minha ida à coordenação.
- Só se pode perder alguma coisa que já se
teve... – Respondi ousadamente. – Todos sabem que o 2° lugar nunca é lembrado
nesses tipos de ranking!
Ele saiu sem rebater a minha resposta.


