quarta-feira, 27 de junho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 58



   Voltei para a sala e comecei a resolver algumas questões de química 1 que tinha no livro, para recuperar a parte da aula que eu perdi em meio aos meus devaneios. Esse negócio de meia-vida até que era bem divertido, mas nada se compara a fazer cadeias de carbono Alcano, Alcino, Alceno, Benzeno, Álcool e etc. Era uma das minhas atividades de distração favoritas.
    Eu não sabia ao certo se eu tinha exagerado na dose de frieza com Diego, mas eu já estava um pouco estressado devido ao modo com que Felipe ironizava a minha tentativa de ajudá-lo
    A aula de redação começou, e como eu já tinha feito em casa todas as 10 redações que ele mandou fazer para constituir a nota bimestral, só iria me ocupar em passar a limpo de forma meticulosa. Esse era um daqueles momentos em que eu não queria pensar em absolutamente nada. Uma menina de outra turma entrou na sala e entregou um daqueles bilhetes chamativos, dessa vez, um bilhete verde-limão, para ele. Que parecia ler repetidas vezes sem compreender muito. Deixei isso pra lá e voltei ao meu trabalho caligráfico.
    - Brunno Biancchi, você está sendo chamado na sala da coordenação! – Proferiu ele, como se não entendesse o motivo que impulsionou esse chamado.

[...]

   Eu fiquei igualmente confuso, faz tempo que eu não era chamado lá, desde aquele episódio... Abri a porta da sala e acabei dando de cara com ele, que do alto dos seus 14 cm a mais de altura do que a minha, como eu costumava definir, ‘minusculosidade’, me fitou profundamente franzindo o cenho e fazendo questão de esbarrar em mim, como um rinoceronte raivoso, para entrar na sala. Eu fingi que nada aconteceu, afinal, me intrigava muito mais o fato de eu ter sido chamado na coordenação do que essa rixa de anos que eu tinha com o...
    - Oi Brunno! – Falou a psicóloga com aquela felicidade irritante. – Tudo bom, querido?
    - Tudo. – Respondi secamente, tentando ser o mais educado possível. Não era tão bom assim estudar numa sala que ficava vizinha à coordenação, não dava tempo nem de se preparar para receber a próxima bomba. Entrei, e cumprimentei a coordenadora que estava sentada no seu lugar habitual.
    - Sente-se, por favor! – Disse Sandra, a coordenadora. Eu preferia ouvir notícia ruim em pé, mas, o pedido dela foi quase como uma ordem. A sonsa da Audrey, a psicóloga retardada, sentou na cadeira ao lado da minha.
    - O que aconteceu? – Iniciei a conversa. Creio que tinha absorvido por osmose um pouco da impaciência que Felipe me mostrou no intervalo.
    - Veja bem Brunno, precisamos conversar sobre uma coisa muito importante! – Sandra falou enfaticamente. Será que alguém da minha família tinha morrido? Constatei instantaneamente que não, se fosse isso, a Audrey, vulgo psicóloga sensível, já estaria alisando as minhas costas ou realizando ações dessa natureza.
    - Algo com minha família? – Indaguei, fazendo uma cara de apreensão só pelo esporte de interpretar.
    - Não... Nós precisamos falar sobre o seu rendimento escolar! – Sandra interveio.
    - O que é que tem? – Eu não estava com paciência pra conversa fiada.
    - Você percebeu que suas notas caíram consideravelmente? – Ela continuou.
    - Sim. – Respondi firmemente.
    - A que você atribui a isso? – Perguntou Audrey, com aquele ar de ‘conte-me sua vida e eu resolverei seus problemas’.
    - Talvez eu tenha dado uma relaxada, mas ainda estou acima da média. – Falei, demonstrando um certo descaso.
    - Não se contente com pouco Brunno, sabemos que você é um aluno aplicado e é um dos alunos mais aplicados da sua turma! – Disse a psicóloga. – Para sua informação é “O” aluno mais aplicado, e não “um dos”, sua idiota.
    - Eu me esforço...  – Deixei em reticências, afinal, parece que a humildade, mesmo que seja em 80% dos casos produzidas por falsidade produzida pela educação que recebemos desde pequenos, é amplamente apreciada.
    - Já escolheu o que vai fazer no vestibular?
    - Teatro! – Soltei rapidamente. A expressão delas mudou de forma bem sutil. Estava na cara que essa era mais uma daquelas conversas em que elas tentariam me induzir de todas as maneiras a fazer Medicina, Direito, Odontologia ou uma das Engenharias, já que esses são cursos de maior concorrência e conseqüentemente agregam um destaque maior ao conceito do colégio. Resolvi responder todas as perguntas imbecis que elas fariam anteriormente, com respostas justamente opostas ao que elas querem ouvir.
    - Mas, você já pensou a respeito, tem tantas opções... – Sandra tentava me persuadir.
    - Odeio medicina. Não tenho paciência para ficar estudando todas as partes do corpo e dessecando cadáveres. Odeio direito. Não vou ter paciência de ficar lendo leis que são modificadas de ano em ano. Não gosto de Odontologia, porque ficar abrindo bocas cheias de tártaro e cáries não me parece ser uma coisa muito interessante. Engenharia está fora de questão, me afogar em cálculos também não parece muito empolgante.
    - Você não tem nem uma segunda opção? – A coordenadora forçou a barra.
    - Filosofia. – Menti. Essa era minha mensagem subliminar de “Parede sonhar, vocês não vão me induzir a fazer o que vocês querem”.
    - Só pense a respeito... – Disse a psicóloga com aquela voz mansa como um ronronado de uma gata no cio, apoiando a mão em meu ombro – E não se esqueça do Simulado Pré-Enem.
    - Mais alguma coisa? – Perguntei, elas apenas balançaram a cabeça negativamente. – Então, tchau! Bom dia pra vocês!
     Sai da sala me sentindo ultrajado. É muita pretensão achar que eu tenho uma mente fraca a ponto de ser influenciado com técnicas tão primitivas.
    - O aluno perfeitinho está descendo do pedestal? – Proferiu ele, ironizando minha ida à coordenação.
    - Só se pode perder alguma coisa que já se teve... – Respondi ousadamente. – Todos sabem que o 2° lugar nunca é lembrado nesses tipos de ranking!
    Ele saiu sem rebater a minha resposta.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 57

  
    - O que aconteceu com o ‘Não quero falar com vocês nunca mais’? – Iniciou Felipe, quebrando o clima de silêncio ao sentar à mesa de pedra do pátio perto da cantina.
    - Eu ainda estou com esse pensamento, mas eu não posso deixar tudo ficar do jeito que está e me sinto obrigado a tirar você dessa enrascada. – Respondi, apoiando meu queixo nos meus dedos entrelaçados.
    - Faltou chamar o Diego... – Começou ele.
    - Não... – Disse, interceptando sua fala. - Vamos resolver isso entre a gente!
    - Certo... Certo... Como você quiser, contanto que você desgrude aquela idiota de mim! – Felipe revirou os olhos e me fitou de forma séria. – Qual é o plano?
    - Bom... Pra início de conversa eu acho que essa tal gravidez é completamente falsa! Isso está me cheirando a golpe da barriga, ou seja, estou sentindo cheiro de desespero e, como eu sempre digo, pessoas desesperadas tomam medidas extremas...
    - Dá pra você me poupar dessa sua linha de raciocínio disléxica e ir direto ao ponto? – Felipe interveio, ele estava querendo chegar ao quociente antes de realizar a operação.
    - ‘Os jovens de hoje não sabem esperar’... – Parafraseei meu avô, soltando uma risada abafada. – Certo... Vamos direto ao ponto: não existe complicação e não é necessário a gente pensar em um plano mirabolante pra conseguir resolver isso, se ela não está grávida, como eu imagino, e sendo desesperada do jeito que ela é, ela vai querer engravidar de verdade!
    - O quê? – Perguntou ele, como se eu estivesse falando a coisa mais absurda do mundo.
    - Ela vai tentar fazer sexo com você enquanto você estiver bêbado ou vai furar a camisinha com uma agulha antes de vocês... – A imagem da cena me veio a cabeça e eu não pude evitar uma expressão de nojo.
    - O que foi? – A conexão entre minha fala e minhas expressões faciais não estava ajudando a compreensão limitada de Felipe.
    - Nada... – Chacoalhei a cabeça, como se varresse esse pensamento. – Continuando... Ou ela pode achar mesmo que está grávida. Isso se chama gravidez psicológica... Ela pode achar que está sentindo enjôo e mais outros sintomas, mas tudo ser fruto da cabeça dela...
    - Você não acha que anda lendo historinhas de mais?
    - Felipe... Temos que considerar todas as possibilidades, não podemos subestimar a Miss Peitos!
    - Miss... – Ele começou a rir. – Tinha esquecido de como você é engraçado! – Felipe pousou a mão dele sobre o meu braço e riu de forma descontraída. Quem não ficou confortável com essa situação fui eu, que logo senti aquele arrepio se propagando pelo meu corpo. Eu não tinha costume de ser tocado por um garoto, já que eu tinha só amigas mulheres, então, isso para mim, apesar de parecer um simples clichê, era um terremoto de 8 pontos na escala richter.
     - Voltando ao foco... É muito simples, é só fazer um teste de gravidez e pronto e para ela não ficar te enrolando que tal você fazer uma surpresinha? Finja que é romântico para ela!
    - Eu não vou...
    - Você vai fazer exatamente o que eu mandar! – Elevei o tom de voz. Odiava quando eu estava tentando ajudar alguém e o beneficiado atrapalhava meu trabalho. Voltei ao meu tom habitual. – A gente precisa pegá-la desarmada. Fique um tempo sendo romântico, com doses pequenas, para ela não desconfiar... Vá aumentando a intensidade gradativamente e quando você sentir que ela está na sua mão, a gente vai agir...
    - Obrigado Brunno! – Ele se aproximou de mim e pegou minha mão por debaixo da mesa.
    - Que parte do ‘não quero falar mais com vocês’ você esqueceu Brunno? – Bradou Diego, que surgiu sorrateiramente atrás de nós.
    - Mesmo que eu tivesse esquecido, e eu não esqueci, valeu pelo lembrete, Diego! – Respondi, me levantando. – Já resolvi tudo que tinha pra resolver! – Nem olhei para ele para não me perder novamente dos meus objetivos, saí andando apressadamente, sem olhar para trás.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 56



    Apesar do alívio que se espalhou pelo meu corpo por um tempo considerável, devido ao fim dos turbilhões de problemas atrelados a Diego e Felipe, com o passar do tempo, esse alívio deu lugar a outros sentimentos. Não era fácil ver a Tânia, a biscate grávida, se pendurar no pescoço de Felipe e desfilar com ele pra cima e pra baixo, mostrando-o para todos como um troféu. Ela enchia a boca ao referir-se a ele como ‘meu namorado’ e obviamente a minha vontade era presenteá-la com um bom e velho ‘tapa de mão cheia’, mas, infelizmente, eu fui criado para ser um cavalheiro. Diz-se no ditado popular que ‘um homem não bate numa mulher nem com uma flor’, pensando nisso foi inevitável que eu imaginasse a cena em que eu bateria na retardada peituda com rosas cheias de espinhos esguichando sangue por todos os lados.
    Deixando os meus pensamentos sádicos, provavelmente derivados pela maratona de jogos mortais que eu assisti nesse final de semana para tentar não pensar na última briga que me afligiu, pude observar, no outro pólo, que Diego estava isolado. Mesmo que estivesse cercado dos outros componentes do grupo dos populares da sala, que eu não chego a comentar na minha narrativa porque eles não passam de débeis mentais inúteis, sua solidão era perceptível, de forma quase que gritante. Seu olhar vazio e sua falta de entusiasmo para as coisas eram evidentes, mas parecia que ninguém notava isso, ou simplesmente não se importavam.
    Minhas notas tinham caído consideravelmente, eu conseguia me manter ainda acima da média, mas nos novos resultados eu não tinha nenhuma nota superior a oito e isso me preocupava profundamente. Eu precisava esquecer tudo um pouco e me focar nos estudos.
    Eu sempre me excluí daquela sala e me restringia a poucas relações sociais, acho que em parte, era pelo medo de estar me sentindo assim como estou agora. Eu fui longe de mais ao querer ultrapassar a linha de amor platônico para a convivência real com aqueles garotos, eu desconstruí toda a ideia de ‘mauricinhos perfeitinhos’ e pude conhecer o outro lado deles, e foi justamente esse lado pelo qual eu realmente me apaixonei.
    Eu sentia que minha missão não estava completa e mesmo que eu quisesse me afastar dos problemas que envolviam Diego e Felipe, meu senso de justiça não me deixaria em paz até que eu derrubasse a Tânia do posto de vencedora. Eu me sentia culpado pela separação dos dois e era meu dever fazer com que tudo “voltasse ao normal”, como quando o Timmy Turner fazia um desejo ruim e pedia aos seus padrinhos mágicos: “quero que tudo volte ao normal”. Mas, não ia ser tão fácil como no desenho, e varinhas brilhantes não iriam garantir a minha vitória.
    Algo me dizia que essa possível gravidez de Tânia ou era o golpe da barriga, um dos mais velhos do mundo, ou era gravidez psicológica derivada de uma mente vazia e fútil que tinha sido preenchida pelo ressentimento pelo abandono atrelado ao seu desejo desesperado de namorar o Felipe. No entanto, eu não queria transformar essa batalha em um ato heróico que restabeleceria minha relação com eles dois, então, tinha que fazer tudo por debaixo dos panos.
    O professor saiu da sala e em seguida o sinal tocou. Diego saiu acompanhado da sua nuvem de ‘amigos’ populares sorrindo e falando besteira, fingindo que está tudo bem. Tânia agarrava Felipe desesperadamente perto do quadro, a expressão dele de tédio era quase cadavérica. Mesmo que eu quisesse resolver tudo sozinho, eu precisava do Felipe para terminar com isso de uma vez por todas, então, eu precisava romper temporariamente com a minha promessa de não falar com eles, e o pior de tudo: eu estava ansioso em fazê-lo!
    - Opa! O negócio está bom aí, mas eu posso roubar o Felipe um pouquinho? – Falei quebrando o clima. Ele me fitou com uma feição de surpresa e ao mesmo tempo de um alívio equivalente a alguém que tinha ficado num poço escuro por dias e finalmente foi resgatado.
    - Ah! Claro Bubu! Mas, me devolve ele inteirinho certo? – Disse ela com um sorriso de orelha a orelha.
    - Claro! – Falei sorrindo. Não sua idiota, vou matá-lo, esquartejá-lo e te devolver ele em partes dentro de sacolas plásticas! Pensei, no meu devaneio irônico pautado nas minhas maratonas noturnas de Dexter. Não nego pra ninguém que não tenho vida social e vivo assistindo seriados!
    Saí andando em direção à porta da sala, ali não era o lugar adequado para se ter esse tipo de conversa.