segunda-feira, 28 de novembro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 24


   - Diego... Diego... - Tentei afastá-lo de mim, mesmo que isso fosse um sacrifício monumental. - Vai devagar... Eu já não estou entendendo mais você! Diego, por mais que eu goste de você eu não vou continuar a fazer isso!
    - Isso o quê? - Indagou ele fazendo aquela cara de menino pidão que desmonta qualquer tanque de guerra.
    - Você não se acertou com o Felipe? Por que está me agarrando agora?
    - Porque eu gosto de você... - Respondeu, anexando o sorriso mais lindo do mundo.
    - Falando sério! É bem melhor você parar com essas coisas...
    - Que coisas?
    - De olhar pra mim com olhos de promessas e depois sorrir, como quem nada quer!
    - Brunno... Relaxe! A gente não está se divertindo juntos? - Indagou ele me arrancando um beijo.
    - Eu tenho medo de onde isso vai dar...
    - Você pensa demais... Você calcula demais... Dá pra você curtir um momento de cada vez?
    - Eu só começo uma caminhada, sabendo onde eu vou chegar...
    - Mas as surpresas são a melhor parte das jornadas! - Respondeu ele com o entusiasmo de uma criança na manhã de natal.
    - Se for um urso faminto no meio de uma floresta, significa game over!
    - Como você é pessimista! - Disse ele caindo no riso.
    - Realista, somente. Não gosto de correr riscos. Além disso sou um rapaz de família! Não sou para ficadas sem sentido... - Comentei rindo.
    - E se o risco for... - Reiniciou ele em um sussurro, passando a mão por meu corpo... - Eu? - Ele enfiou a mão na minha cueca!
    - Bom esse é um risco... que... eu... - Nem conseguia completar meus pensamentos. Até que ele parou, olhou no fundo dos meus olhos...
    - Onde fica o banheiro Brunno?
    - Hã? - Como ele conseguiu cortar o clima desse jeito???
    - Banheiro...
    - Segunda a esquerda depois do quarto!
    Eu já não sabia o que pensar. O que Diego achava que eu era? Um brinquedinho? Ele acha que pode vir aqui e 'se divertir' e depois voltar pra o Felipe. E amanhã? Eu vou ficar chupando o dedo? Por mais que eu queira ficar com ele, e aproveitar tudo que posso... E depois?
    - Voltei!!!
    - Diego... Se você não veio pra estudar é melhor... - Fui interrompido.
    - A gente continuar o que já estava fazendo... - Completou ele prontamente me empurrando na cama e subindo em cima de mim.
    - Não faz isso... Não sabe que eu não consigo resistir?
    - A ideia é justamente essa Brunno! - Ele se aproximou lentamente, fingiu que ia me beijar e ficou olhando para mim com aqueles olhos de oceano.
    Eu tentei beijá-lo, mas ele se esquivou e meu beijo foi parar na sua bochecha. Ele segurou firma minhas duas mãos contra a cama, me imobilizando. A "reação instantânea" voltou a dar o ar da graça. Eu mal conseguia levantar a cabeça para beijar Diego. Ele voltou a se aproximar de mim, bem lentamente, sussurrou umas coisas no meu ouvido, e voltou a fugir dos meus beijos.
    - Por que você está fugindo dos meus beijos?
    - Não foi você mesmo que disse que era um 'rapaz de família' e tudo mais... - Comentou ele, me parafraseando.
    - E daí?
    - Rapazes de família... - Reiniciou, fazendo uma pausa entre suas palavras sussurrantes - Tem que ficar quietinhos, não podem nem beijar! Só vou te deixar na vontade...
    - Diego... Também não é assim...
    - Ah! Agora você quer é? - Disse ele saindo de cima de mim. - Agora eu que é que sou difícil! - Ele se levantou e saiu da cama.
    - Difícil é? - Comentei me levantando bruscamente. Puxei Diego pelo braço e o joguei na cama, pulei em cima dele logo em seguida. - Vamos ver agora quem é que é o difícil!

sábado, 26 de novembro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 23


    Depois de ter conseguido, enfim, confidenciar parte do que eu passei esses dias à Roberta e ter descarregado um pouco tudo que eu estava guardando, eu pude me sentir um pouco mais leve. O plano que ela tinha arquitetado parecia bem prático mesmo, era só revirar o quarto de Laura quando ela saísse de casa. Mas tinha um, porém, por mais que minha irmã fosse desmiolada, ela jamais guardaria um tesouro daqueles em um lugar óbvio de mais e nem deixaria o local exposto. Provavelmente, toda vez que ela fosse sair, ela trancaria a porta. Diante desse impasse sobram duas opções: Copiar a chave de alguma forma, ou arrombar a porta. Enquanto eu bolava esse estratagema, eu desci do ônibus e caminhei absorto, por aqueles malditos corredores abarrotados de gente.
    Entrei na sala praticamente sem ser notado.
    Todos tinham seus próprios grupinhos e seus comentários para fazer sobre as festas caras regadas a álcool que costumavam frequentar. A futilidade se espalhava pelo ar e quase me fazia sufocar. Era um dia como outro qualquer e para aprender a conviver com eles é preciso colocar minha máscara de oxigênio e mergulhar nesse mar de luxúria e mediocridade emocional.
    Pude ver Diego e Felipe nos lugares que costumavam se sentar. Sentei no meu lugar habitual, ao lado de Roberta, que me sorriu com a surpresa estampada nos lábios. Tive que me esforçar ao máximo  pra copiar tudo o que perdi no dia anterior e prestar atenção nos novos assuntos que brotavam freneticamente da boca dos professores apressados. Vez ou outra, eu me permitia olhar para Diego novamente, como que para verificar se ele estava bem. Seu olho já estava bem melhor e a ‘roxidão’ de outrora deu lugar a uma leve mancha quase que lilás. Eu senti aquela tristeza dentro de mim novamente, eu queria estar ali! Mas, eu estava me descuidando muito com os estudos e precisava manter o foco, não é fácil manter a bolsa nesse colégio. Além disso, eu precisava dar essa alegria a minha mãe, que tanto investiu em mim, e precisava corresponder às minhas expectativas pessoais.
    O que eu estava fazendo? Por que eu tive essa ideia quase que ilógica de ameaçar os garotos populares da sala? Será que só era vingança? Ou será que eu sentia vontade de que Diego pudesse, finalmente, me enxergar? E o Felipe? Será que era atração? Desejo? Hoje é um daqueles dias que minha mente está um caos, um daqueles dias em que basta um sopro para todo o meu castelo desmoronar... O "outro" voltou à minha mente, não pude deixar de lembrar dele... Em todos os momentos de fundo-do-poço ele retorna à minha mente com todas as forças pra arrancar o restinho de paz que sobrou no meu coração... Esse era um daqueles dias que acabam comigo ouvindo Whitney Houston jogado no chão e chorando! Que pensamento ridículo... - Eu ri comigo mesmo - eu preciso ter as rédeas da minha vida novamente.
    Voltei a desenhar os gráficos de física II, tentando manter minha mente o mais vazia possível. O sinal tocou de forma estrondosa. Eu pude ouvi Roberta perguntando se eu queria alguma coisa da cantina, eu só respondi mexendo a cabeça em negativa e voltei a copiar.
    - Brunno? - Indagou uma voz que se confundiu ao burburinho da multidão.
    - Já disse que não... - Iniciei levantando minha cabeça, redefini minha fala com um lance de olhar surpreso.  - Ah! Diego... Nem percebi que era você, desculpe...
    - Brunno... - Repetiu ele dando uma nova roupagem à pronúncia do meu nome. - Por que você não foi sentar com a gente?
    Pude ver Felipe passando em direção à porta, olhando pelo rabo do olho a minha expressão de tristeza. ele não esboçou nenhuma reação. Passou direto sem falar palavra.
    - Eu tenho muitas coisas pra copiar e muita matéria para colocar em dia...
    - Você acha que me engana Brunno? Eu sei que te conheço, pelo menos verdadeiramente, há pouco tempo... Mas acho que sei o que se passa na sua cabeça...
    - Você não... - Ele me interrompeu.
    - "Você não entenderia" - Rebateu ele antes que eu dissesse. - E antes que você complete, eu sei que "é complicado"...
    - Então, o que eu vou dizer?
    - Eu preciso estudar física... E não consigo pensar em alguém melhor do que você pra ensinar... Às três horas da tarde na minha casa!
    - Mas eu não... - Ele tornou a me interromper.
    - Não notou minha frase exclamativa? Vou ter que te dar uma aulinha de gramática? Isso não foi um pedido, foi uma ordem!!!
    - Você deve ter seus planos com Felipe e...
    - Ordens são ordens! Não cabe a você questioná-las e sim obedecê-las!
    - Está bem! - Concordei a contragosto. No final das contas eu gostava de ser controlado... *Risos*
[...]
    Cheguei em casa para mais uma sessão de chantagem subjetiva. Joguei minha mochila na cama e fui ver o que tinha pra comer, afinal, se é pra ir pra guerra, pelo menos, não vou de estômago vazio. Minha mãe estava terminando de se arrumar para sair. Senti aquele cheiro de ‘Florata in Rose’ se expandir pelo ar.
    - Brunno! Vou ter que sair e resolver algumas coisas no banco... Provavelmente vou passar a tarde inteira por lá! - Iniciou ela.
    - E a Laura?
    - A Laura saiu, foi pra casa da Joana lá no Jaraguá e também não vem tão cedo! - Ela fez uma pausa, procurando o celular na bolsa. - Almoce, lave a louça e deixe tudo no lugar viu? - Ordenou ela indo embora apressada.
    Nem deu tempo de avisar que eu ia estudar com Diego lá em casa. Comecei a comer assistindo "Say yes to the dress". Somente minutos depois eu consegui processar as informações. Eu vou ficar em casa sozinho, sem chantagem da Laura e o Diego vai vir pra cá!
    - Preciso me arrumar! - Exclamei pra mim mesmo em um sobressalto.
    Eu precisava arrumar a casa e deixar tudo em ordem, e precisava ficar bonito... (Mesmo que essa fosse uma missão quase impossível). Era o que eu costumava chamar de entrar no quarto como sapo e sair como príncipe. Se bem que eu ficava mais pra o figurante da cena que o  príncipe protagonizava do que, de fato, o próprio príncipe...
[...]
    - Desculpe a demora! - Iniciou Diego entrando de forma tímida no meu humilde apartamento.
    - Sem problemas... - Comentei meio encabulado, conduzindo-o para o meu quarto.
    - Cadê sua mãe? - Perguntou ele notando o silêncio.
    - Saiu...
    - E sua irmã?
    - Também...
    - Quer dizer que... Você está sozinho? - Indagou Diego em um sorriso maroto.
    - É... - Foi só o que eu consegui responder antes dele me agarrar e me beijar, praticamente me arrastando até o quarto. - Você... Não... Queria... Estudar... Física?... - Perguntei entre beijos.
    - Estudar... Pra... Quê? - Respondeu ele da mesma forma, me empurrando na cama.
    Ele pulou em cima de mim mordendo meu pescoço e pressionando seu corpo no meu. Minha "reação na área periférica" foi instantânea! *Risos* Ele começou a passar uma das mãos pela minha perna e subiu, tentando subir minha camisa...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 22


    Minha irmã bateu na porta do meu quarto e já foi abrindo e entrando. Toda na intimidade.
    - Oie Irmão!!! - Disse ela de forma bem falsa. - Me empresta o seu laptop? - Indagou ela sentando-se na cama.
    - Não... Vou precisar dele hoje! E é assim entrando no meu quarto, sentando na minha cama... Que intimidade é essa?
    - Vai precisar para quê? - Indagou ela ignorando meu comentário sarcástico.
    - Desde  quando eu lhe devo satisfações?
    - Nada... Nada... É que eu queria assistir um filmezinho! - Disse ela arqueando a sobrancelha. - Bom...     Era só isso Sr. Educação em pessoa... - Disse ela saindo do quarto. - Ah!!!... Irmãozinho! - Retornou a falar botando a cabeça na porta. - Você tem que aprender a compartilhar... Pegue o meu exemplo, eu adoro compartilhar! - Ela saiu de uma vez dando uma risada a lá Paola Bracho.
    Será que isso realmente aconteceu? Só pode ser uma falha na minha interpretação... Não posso acreditar que a Laura achou a merda do DVD e logo na hora que eu ia devolvê-lo ao Diego. Certamente minha vida se tornaria um inferno a partir de agora. Laura é a pessoa mais má e ambiciosa que eu conheço! Sempre que minha mãe discute comigo ela fica colocando lenha na fogueira. Agora ela vai me chantagear até a morte! É melhor eu ir lá fazer um 'H' com ela!
    (NA: Fazer um 'H' = fazer uma média, chaleirar... etc...)
    Bati educadamente na porta da Laura. Ela estava ouvindo Calypso com Reginaldo Rossi, tem coisa pior meu Deus? Continuei a bater freneticamente, até que ela abriu a porta com a expressão do triunfo estampada na cara. Provavelmente ela ouviu a primeira batida que eu dei e ficou esperando para gerar expectativas. BITCH! 
    - O que foooooooooooi? - Perguntou ela de forma bem teatral.
    - Toma aí o Laptop!
    - Ai Bruninho... Não precisa, você está estressado e deve ter coisas pra fazer nele, não é? - Ela arqueou a sobrancelha.
    - Não vou usá-lo... Querida e honorável irmã, quero justamente pedir desculpas pelo meu mau comportamento e vim aqui para disponibilizar meu laptop a seu bel prazer! 
Se vamos brincar de teatrinho, eu também quero participar! Pensei.
    - Hum... - Grunhiu ela com um sorriso de satisfação. - Obrigada! - Respondeu praticamente arrancando ela da minha mão. Eu fiquei olhando pasmo de susto. - Vai ficar aí olhando pra mim o dia todo? Quer uma gorjeta ou o quê?
    - Tchau, Magnífica!- Praticamente cuspi essas palavras. Voltando para o meu quarto.
    Deitei na minha cama e olhei para o teto. Aquela sensação de perigo continuava a me assombrar enquanto um frio intenso se apropriava do meu estômago. Eu tinha que arrumar algum podre dela para poder contra-atacar. Eu gosto de chantagear, mas odeio ser chantageado. Mas, não posso me precipitar,tenho que analisar  a situação de todos os ângulos possíveis. Afinal, no xadrez, deixamos que os peões andem primeiro antes de colocarmos a artilharia de elite pra funcionar. Tudo que eu precisava nesse momento era ficar calmo e me distrair. Laura está querendo que eu me sinta encurralado e quer que eu fique esmagando meus miolos até que ela possa deferir o golpe final, mas esse não é um jogo para amadores.
[...]
    Precisava sair de casa, sair desse lugar. Pelo menos até que eu pudesse re-organizar meus pensamentos. E acho que sabia muito bem o que faria tudo ficar diferente.
    Disquei aquele número já conhecido. Precisava de suporte emocional e não poderia mais me esconder disso.
    Avisei a minha mãe que precisava sair. Cheguei ao prédio Celestino II e toquei o interfone.
    - Alô?! Quem é?
    - Oi... - Comecei meio sem jeito - Sou eu... Você tem um tempinho para mim?
    - Já estava na hora não é Brunno? Claro que eu tenho tempo pra você, sempre tenho. Suba!
[...]
    - Quem é vivo sempre aparece não é?! O que te traz ao vaticano?- Indagou ela me abraçando.
    - Desculpa não ter vindo antes... - Disse com o olhar baixo.
    - Pode entrar amigo!
    - Com licença... - Proferi me jogando naquele sofá enorme, não consegui prender muito mais, precisava chorar.
     - Brunno? O que foi? - Indagou ela vindo me consolar.
    - Acho que estou fazendo uma coisa muito errada! - Disse em meio a soluços.
    - Seja qual for o problema, nós vamos resolver...
    - Betão...  Por favor não diga " Eu te disse" - Voltei a olhar os olhos profundo e castanhos-mel de Roberta.
    - Dá pra você para de chorar e falar direito?
    - Está bem... - Respondi me sentando de forma normal e enxugando minhas lágrimas.
    - Isso tem haver com o Felipe e o Diego? Eu vou acabar com a raça daqueles playboyzinhos!!!
    - Clama aí... Eu vou te contar tudo...
    - Fala logo, sabe que eu aguento a barra! Sem rodeios!
    - Eu consegui uma coisa, com a qual eu posso chantagear o Felipe e o Diego e é esse o 'motivo misterioso' da minha recente amizade com eles.
    - Você está... Ganhando dinheiro com algo incriminatório deles? Não acredito amigo, esse não é você!
    - Calma aí... Ouça tudo antes de comentar. - Recomecei - Eu não pedi dinheiro nem nada, só pedi pra eles andarem comigo e que conversassem comigo. Nos primeiros dias foi uma relação complicada, mas aos poucos eu pude ver quem eles são... Eles parecem superficiais, mauricinhos idiotas, mas no fundo são bem mais que isso...
    - Brunno você está apaixonado por algum deles? - Era incrível esse poder que Roberta tinha de prever o que eu estou sentindo.
    - A questão não é essa agora... Falamos disso depois...
    - E o que está em pauta agora?
    - A  Laura conseguiu achar esse material no meu esconderijo e está me chantageando...
    - O feitiço se virou contra o feiticeiro... - Sussurrou ela.
    - Hey! É pra me ajudar amiga!
    - Desculpa... É que esse ditado veio a minha mente. - Ela fez uma pausa.- E em que posso ajudar?
    - Não sei ao certo... Mas preciso deter a Laura!
    - Desculpa a expressão amigo, mas sua irmã nunca foi flor que se cheire... Eu estou pensando em algumas opções aqui... Você pode achar um podre dela que seja pior do  que esse já é ou tentar revirar o quarto dela quando ela não estiver em casa!
    - A do podre eu tinha pensado... Agora revirar o quarto é genial!!!
    Roberta elaborou um plano diabólico digno de novela mexicana e conseguiu realmente me tranquilizar. Duas cabeças pensavam bem melhor que uma só...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 21


    Entrei em pânico. Será que eu tinha mudado o DVD de lugar e estava me confundindo? Mas eu revirei o quarto todo e... Será que alguém pegou? Será que foi minha mãe? O que ela vai pensar de mim... Pior... O que ela vai pensar do Diego e do Felipe? "Mas, é melhor pensar positivo". Pensei tentando analisar todas as opções possíveis.
     "Eu devo ter mudado de lugar ou..." Ouvi a porta da sala bater, minha irmã entrou reclamando pra minha mãe que o Net Book dela pifou, que ela queria um novo e minha mãe respondeu, com a delicadeza de uma patada de elefante, que não iria comprar outro!
    - Leve esse pra assistência! Ele ainda deve estar na garantia! Você quis comprar de uma marca mais fuleira porque quis! Lembra que você preferiu comprar um Net book mais barato pra pagar aquele vestido caríssimo que você usou no ano novo?
    *NA: Fuleira = Nesse caso se refere a uma marca ruim.*
    Minha irmã não respondeu. Só bateu a porta do quarto e logo começou a ouvir Hansons. O gosto musical da minha irmã era bem questionável, variava de Boys Bands à forró (Especificamente Eliane, a rainha do forró), passando por Reggae da pior qualidade e terminando no funk. Ela era muito retardada. Apesar de ser 5 anos a mais do que eu, parecia uma pirralha retardada de 12 anos.
    Foi aí  que eu senti um "click" em minha cabeça. Será que foi a Laura? Mas logo descartei essa possibilidade. Laura era muito idiota pra encontrar o DVD no fundo falso da minha caixa que ficava no fundo do guarda roupa.
    Minha mãe logo berrou dizendo que era hora do jantar. Ela não parecia estar de bom humor. 
    Esse foi um dos jantares mais tensos da minha vida. Minha mãe estava muito estranha. Eu mal consegui comer, só engoli tudo sem prestar atenção no gosto. Fiquei fitando a televisão de forma vazia, depois recolhi o meu prato e voltei pro quarto.
    Silêncio na minha casa significa guerra fria, minha mãe gosta de  pensar muito antes de começar  a brigar comigo. Ela espera até o dia que eu estou mais despreparado e joga todo seu arsenal em mim subitamente, assim eu não tenho como me defender. É o que eu chamo de 'a calmaria antes da tempestade'.
    Terminei de colocar algumas coisas no lugar- isso significa, jogar tudo dentro do guarda-roupa - e me joguei na cama fechando os olhos. Tem que ter outra resposta. Não posso ficar a mercê desse par de possibilidades.
    Voltei a pensar no vídeo. Nunca mais eu o tinha assistido e muito menos conferido se ele ainda estava no mesmo lugar. Nunca imaginaria que alguém pudesse entrar em meu quarto e conseguir encontrá-lo. Comecei a martelar na minha cabeça vários sentimentos de culpa. Como eu fui idiota! Como eu não pude prever isso? Eu tinha que avaliado todos os centímetros do meu quarto, eu tinha que estar 100% seguro! 
[...]
    Acordei com o sol batendo em meu rosto. Não sabia ao certo se tinha sonhado ou se realmente o fato de eu “perder o DVD” era real. Por via das dúvidas andei até meu guarda-roupa e chequei novamente o esconderijo. Realmente, o pesadelo era real.
    Olhei para meu celular, tinha várias ligações de Diego e pude notar também pela hora que eu estava atrasado. Tomei um banho muito rápido, me vesti, comi uma torrada e saí correndo para pegar o ônibus. No caminho, minha irmã veio me aborrecer com a história do Net Book dela e que precisava do meu emprestado. Eu só fiz o de sempre, ignorei e continuei andando até ela parar de me seguir. Não sei como eu compartilho material genético com ela, somos tão diferentes...
     Consegui pegar meu ônibus e consegui um lugar pra sentar, isso foi praticamente uma proeza digna dos deuses olímpicos. Hoje eu estava com sorte, mas ela não iria agüentar muitas horas. Mesmo que por enquanto não tivesse sentido nenhum resquício da tempestade. Cada segundo contribuía com o arsenal vocabular da minha ascendência matrilinear. Comecei a pensar em explicações e desculpas, mas de fato, o vídeo não deixava espaço para interpretações subjetivas. Tudo estava muito claro. Minha mãe provavelmente brigaria comigo alegando que eu sou gay, o que de fato é bem possível, ou mesmo que eu falasse da chantagem, ela iria brigar comigo em igual nível de estresse. O pior dessa situação é de não ter a certeza do que estava por vir. Como me preparar para um golpe inesperado?
[...]
    Quando cheguei à sala, relativamente atrasado, fui recebido pelo sorriso mais lindo do universo. Diego sorriu para mim, com uma expressão de suprema satisfação. Ele acenou para mim indicando o lugar ao seu lado. Sentei prontamente, como um cachorrinho que acata instantaneamente a ordem do seu dono, e sorri para ele em resposta, praticamente abanando o rabinho. (NA: Que metáfora horrível... kkkkkk).
    - Já está se sentindo melhor Diego?- Perguntei.
    - Estou sim, meu médico já me liberou. Disse que não tem nada de errado comigo.
    - E o seu desmaio?
    - Ah! – Ele tornou a falar, dando uma risadinha. – Foi só porque eu perdi um pouco de sangue e minha pressão baixou. Coisa normal...
    - Que bom Dih! Fico feliz por você... E vejo que você está feliz também. – Olhei para o lado oposto do Diego, Felipe estava lá postado ao seu lado. Nem tinha enxergado ele. – Bom dia Felipe! – Sussurrei.
    - Ótimo dia! – Respondeu ele resumidamente arqueando uma sobrancelha.
    Pelo visto tudo tinha voltado ao normal.
    O dia passou bem rápido e eu odiava a idéia de chegar em casa novamente. OS sorrisos de Diego me fizeram esquecer toda a problemática por algumas horas, mas a realidade batia na porta insistentemente.
[...]
    Depois do almoço resolvi re-organizar minhas coisas, afinal, tinha bagunçado tudo e jogado tudo no guarda-roupado mesmo jeito. Mas, meu guarda-roupa já estava arrumado e a caixa estava fora do seu lugar de costume. Resolvi olhar mais uma vez, mesmo sabendo que ele  não estaria lá...
    O DVD ESTÁ AQUI DE NOVO?!
    Pulei de alegria e beijei o DVD. Sei que isso foi bem idiota da minha parte, até porque depois de um tempo eu parei pra pensar. Se eu saí de casa de manhã e o guarda-roupa estava desorganizado e a caixa sem o DVD, como eu volto e tudo está em ordem e ele voltou pro lugar?
A única explicação plausível é que alguém, de fato, pegou o DVD e quer que eu saiba que pegou. Essa dúvida está me matando...

sábado, 5 de novembro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 20

 

    Abri a porta da cabine, de fato, não parecia boa idéia. Sabe aqueles filmes em que um personagem diz “- Do jeito que está não pode piorar!” e depois começa a chover? Era mais ou menos isso que eu estava sentindo, já estava trovejando e eu precisava abrir a porta. Assoei o nariz, enxuguei meu rosto e abri a porta.
    - Pode fazer o que quiser comigo... – Comentei abrindo a porta. Fitei ligeiramente seus olhos verdes e voltei meu olhar pro chão. No segundo seguinte eu senti o impacto me esmagando. Fechei os olhos rapidamente, apertando minhas pálpebras com força.
    Respirei fundo. A adrenalina diminuía devagar. Não estava entendendo mais nada.
    - Obrigado! – Sussurrou ele em meu ouvido. O abraço dele era forte e confortável.
    - O que eu fiz? – Indaguei em meio a um soluço. Já estava chorando de novo.
    - Eu ouvi o que vocês conversaram, eu vi você lá sendo meu advogado! – Disse ele sorrindo.
    - Antes que você me coloque no céu... – Recomecei, soltando o abraço dele. – Felipe... Eu tenho que te dizer uma coisa...
    - Eu já sei... Eu ouvi tudo... Eu estou morrendo de ciúmes e provavelmente te encheria de porrada por isso, mas pela primeira vez na vida eu resolvi esperar e ouvir tudo e mudei de idéia.
    - Você mudou de idéia?
    - Brunno, eu estava errado sobre você! O que você fez hoje, nenhum outro faria! Eu não faria isso no seu lugar... Entregar a pessoa que você ama pra outra pessoa e ainda por cima sendo alguém que te odeia...
    - Você tem mais condições de fazer o Diego feliz... Eu acho que amar é isso, é querer a felicidade do outro... – Quando eu terminei de dizer isso, Felipe me olhou de uma forma que nunca tinha me olhado antes. Eu pude perceber nitidamente o motivo pelo qual Diego se apaixonou por Felipe. Por trás daquela pose de cafajeste, existe um garoto lindo e romântico.
    - Obrigado novamente! Mas não pense que eu vou dar moleza pra você não viu? Eu não vou retribuir a gentileza! Guarde muito bem na memória o que aconteceu na noite passada, porque isso não vai se repetir, o Diego é SÓ MEU! – Enfatizou em tom de ameaça.
    - O que é bom, dura pouco...
    - Vamos voltar pro quarto antes que o Diego se preocupe está bem?
    - Tá! – Respondi seguindo ele.
    Será que Felipe realmente estava começando a mudar? Um abraço? Será que ele estava sendo sincero ou isso era mais um jogo para que eu apagasse o vídeo? Mas, acho que é impossível simular um olhar daqueles. Nem na novela das nove eu vi uma coisa daquela.
    Voltamos para o quarto. Diego olhou para mim com um semblante de espanto.
    - Brunno? Chorou de novo?
    - Dih... Deixa isso pra lá ta? Eu já conversei com ele e está tudo resolvido... Está tudo certo não é Brunno? – Indagou Felipe.
    - Eu estou bem Diego... – Respondi fitando os olhos azuis cheios de preocupação do Diego.
    - Lipe o que você fez agora? – Perguntou Diego.
     - Nada meu amor... – Respondeu ele dando um beijo leve no Diego. – Eu não te disse que estou começando a mudar? O Brunno estava precisando de uma ajudinha com uns assuntos, só...
     -Eu só queria te tranqüilizar Diego... Desculpa por ter saído daquele jeito, mas eu estou péssimo hoje. Estou tendo um daquelas crises existenciais que eu tenho de vez em quando, você não entenderia. Eu não faço sentido quando estou assim.
     - Igual à mulher na TPM? – Indagou sorrindo.
     - Mais ou menos isso... – Respondi com um riso abafado.
     - Você não tem jeito mesmo!
     - Diego... Eu queria saber se eu estou dispensado por hoje?
     - Pensei que era você que dava as ordens. Quando foi que o faraó virou escravo?
     - Posso ir? – Ignorei a metáfora idiota de Diego.
    - Pode! O Felipe fica aqui comigo... – Ele fez uma pausa. – Depois de levar você em casa, claro! Certo Brunno?
    Eu nem respondi. Estava perdido em meus pensamentos. Só peguei minha bolsa e segui o Felipe até o carro. O silêncio pairou na viagem toda. Felipe fez o favor de não colocar aquele rock barulhento que ele costuma ouvir. Ele tentou puxar conversa em alguns momentos, mas eu ignorei totalmente, fazer desenhos no vidro embaçado pelo ar condicionado era mais interessante que tudo ao meu redor.
     - Brunno? Brunno? Brunno? – Ele me deu um soco de leve no braço.
     - Hã? – Respondi meio zonzo.
     - Chegamos! Ou você quer que eu te carregue até o quarto? Só faltava essa...
     - Tchau! – Respondi rispidamente começando a abrir a porta.
     - Espera! – Ele me beijou de forma bem suave por um longo tempo. Esse beijo me fez voltar à realidade.
     - E agora? Melhorou? – Disse ele. – Aproveita, que não vai se repetir.
     - Então... Já que é pra aproveitar... – Beijei-o também de forma ainda mais intensa. Na melhor parte do beijo, eu o larguei e fui embora. Precisava pensar.
      Eu não vou agüentar mais essa situação. É muito pra mim. Eu quero voltar a estudar pras provas e voltar a tirar meus 10. Era tudo mais simples. Além disso, tudo que aconteceu com Diego é culpa minha. Não quero que as coisas fiquem ainda piores, é bom abandonar o jogo enquanto estou por cima, antes que eu comece a perder novamente. Será que eu devo entregar o vídeo pra Diego, ou será que é melhor continuar desse jeito?
     Subi a escada, dando bom dia pra minha mãe. Ela perguntou o motivo dos meus olhos inchados e eu menti dizendo que eu estava com sono. Tomei um longo banho e fui ao meu esconderijo buscar o DVD. Peguei a caixa que ficava no fundo do meu guarda-roupa, tirei o fundo falso e... NÃO ACREDITO!!! CADÊ O DVD? Revirei a caixa inteira e meu guarda-roupa também. Passei horas procurando pelo quarto. O que eu faço agora?