- Eu queria dizer que tudo vai melhorar, mas acho que a situação chegou a um nível crítico! É óbvio que existem situações bem piores, mas... – Fiz uma pausa. – Eu estou péssimo para conselhos hoje... Eu pensei que hoje a gente ia tirar um peso das nossas costas... – Comecei, me afundando no sofá da sala do apartamento do Diego.
- Também achei que estaríamos livres disso tudo. Quem imaginaria que aquela gravidez era verdadeira? – Ele se esparramou no sofá e agarrou uma almofada.
- Isso não elimina a possibilidade de vocês ficarem juntos, passou-se o tempo em que a regra ‘engravidou, tem que casar’ vigorava soberanamente...
- Eu sei Brunno, mas acho que o problema é uma soma de outros fatores que me incomodaram... – Rebateu Diego, com ar melancólico.
- Quais seriam? – Indaguei confuso.
- O temperamento explosivo, a personalidade mutável, a imaturidade... Eu sempre vou ter que me dispor a aceitar tudo que ele faz? Eu sempre vou ter que romper as barreiras do que estou disposto a agüentar? Eu quero, pelo menos uma vez, algo fácil... – Ele se inclinou para a minha direção, colocando a almofada no meu colo e deitando nela.
- Você acha realmente que vai conseguir? – Olhei para ele profundamente, tentando imergir naqueles olhos azuis.
- Não sei, mas eu preciso tentar respirar um pouco. Ter um relacionamento mais fácil. Não quero ter que decifrar o que a pessoa que está comigo está pensando, não quero mais me esconder...
- A liberdade custa caro Diego... Você está disposto a pagar o preço?
- Estou... – Assentiu ele prontamente.
- Vou reformular a pergunta: Você está disposto a apostar nesse jogo de autenticidade? Está disposto pra arcar com as conseqüências?
- Você fala como se eu fosse pregar um cartaz na cidade com uma foto minha beijando outro cara!
- É só excesso de preocupação Dih, você sabe que eu não quero que você se machuque...
- Você tem que parar de me ver como um ser indefeso Brunno! Eu posso lidar com meus problemas... Além disso, eu preciso me dar essa chance, eu preciso ver se o gramado do vizinho é mesmo mais verde!
- Sua analogia foi ótima! – Comecei a rir. Era engraçado como, a cada dia que se passava eu percebia que Diego estava mais maduro. Era um quadro bem diferente do que tinha pintado quando o conheci. Parecia até que eram pessoas distintas.
Felipe entrou no apartamento sem sequer bater na porta. Andou em silêncio até o sofá e sentou na outra ponta, colocando as pernas do Diego em seu colo.
- A gente vai dar um jeito, não vai? – Ele sussurrou. Estava de cabeça baixa.
- Eu acho que não Felipe... – Respondeu Diego, deixando a frase meio vaga. Voltando a ficar sentado. – Dessa vez você vai ter que lidar com isso sozinho! Está na hora de voltarmos a ser o que nós éramos antes. Funcionava bem melhor.
- O que você está sugerindo? – Felipe parecia não querer acreditar.
- Felipe... Nós sempre fomos melhores amigos e acho que é isso que conseguimos fazer de melhor com o carinho que temos um pelo outro.
- Você não pode acabar comigo!
- Na verdade, estamos começando ou recomeçando! Não adianta insistir em uma coisa que não funciona!
- Mas... Mas... – Felipe gaguejou olhando para mim, ele esperava que eu pronunciasse algo que fizesse Diego mudar de ideia. Mas, eu achava que aquela era a melhor decisão a se tomar, pelo menos, momentaneamente.
Diego o abraçou bem forte. Senti que os dois estavam começando a chorar, embora tentassem conter as lágrimas. Felipe soltou o abraço e segurou o rosto de Diego em suas mãos, estava preparando um arsenal de justificativas e estava disposto a descarregar toda sua munição de argumentos, mas a expressão de Diego desarmou qualquer tentativa. Estava decidido a dar um fim a parte ‘colorida’ da longa amizade deles, queria a liberdade de antigamente, queria que tudo voltasse a ser preto e branco. Que tudo voltasse a simplicidade das conversas despretensiosas de fim de tarde, que eles pudessem sair só pra rir e conversar, como costumavam fazer.

