segunda-feira, 29 de outubro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 65



    - Eu queria dizer que tudo vai melhorar, mas acho que a situação chegou a um nível crítico! É óbvio que existem situações bem piores, mas... – Fiz uma pausa. – Eu estou péssimo para conselhos hoje... Eu pensei que hoje a gente ia tirar um peso das nossas costas... – Comecei, me afundando no sofá da sala do apartamento do Diego.
    - Também achei que estaríamos livres disso tudo. Quem imaginaria que aquela gravidez era verdadeira? – Ele se esparramou no sofá e agarrou uma almofada.
    - Isso não elimina a possibilidade de vocês ficarem juntos, passou-se o tempo em que a regra ‘engravidou, tem que casar’ vigorava soberanamente...
    - Eu sei Brunno, mas acho que o problema é uma soma de outros fatores que me incomodaram... – Rebateu Diego, com ar melancólico.
    - Quais seriam? – Indaguei confuso.
    - O temperamento explosivo, a personalidade mutável, a imaturidade... Eu sempre vou ter que me dispor a aceitar tudo que ele faz? Eu sempre vou ter que romper as barreiras do que estou disposto a agüentar? Eu quero, pelo menos uma vez, algo fácil... – Ele se inclinou para a minha direção, colocando a almofada no meu colo e deitando nela.
    - Você acha realmente que vai conseguir? – Olhei para ele profundamente, tentando imergir naqueles olhos azuis. 
    - Não sei, mas eu preciso tentar respirar um pouco. Ter um relacionamento mais fácil. Não quero ter que decifrar o que a pessoa que está comigo está pensando, não quero mais me esconder...
    - A liberdade custa caro Diego... Você está disposto a pagar o preço?
    - Estou... – Assentiu ele prontamente.
    - Vou reformular a pergunta: Você está disposto a apostar nesse jogo de autenticidade? Está disposto pra arcar com as conseqüências?
    - Você fala como se eu fosse pregar um cartaz na cidade com uma foto minha beijando outro cara!
    - É só excesso de preocupação Dih, você sabe que eu não quero que você se machuque...
    - Você tem que parar de me ver como um ser indefeso Brunno! Eu posso lidar com meus problemas... Além disso, eu preciso me dar essa chance, eu preciso ver se o gramado do vizinho é mesmo mais verde!
    - Sua analogia foi ótima! – Comecei a rir. Era engraçado como, a cada dia que se passava eu percebia que Diego estava mais maduro. Era um quadro bem diferente do que tinha pintado quando o conheci. Parecia até que eram pessoas distintas.
    Felipe entrou no apartamento sem sequer bater na porta. Andou em silêncio até o sofá e sentou na outra ponta, colocando as pernas do Diego em seu colo.
    - A gente vai dar um jeito, não vai? – Ele sussurrou. Estava de cabeça baixa.
    - Eu acho que não Felipe... – Respondeu Diego, deixando a frase meio vaga. Voltando a ficar sentado.  – Dessa vez você vai ter que lidar com isso sozinho! Está na hora de voltarmos a ser o que nós éramos antes. Funcionava bem melhor.
    - O que você está sugerindo? – Felipe parecia não querer acreditar.
    - Felipe... Nós sempre fomos melhores amigos e acho que é isso que conseguimos fazer de melhor com o carinho que temos um pelo outro.
    - Você não pode acabar comigo!
    - Na verdade, estamos começando ou recomeçando! Não adianta insistir em uma coisa que não funciona!
    - Mas... Mas... – Felipe gaguejou olhando para mim, ele esperava que eu pronunciasse algo que fizesse Diego mudar de ideia. Mas, eu achava que aquela era a melhor decisão a se tomar, pelo menos, momentaneamente. 
    Diego o abraçou bem forte. Senti que os dois estavam começando a chorar, embora tentassem conter as lágrimas. Felipe soltou o abraço e segurou o rosto de Diego em suas mãos, estava preparando um arsenal de justificativas e estava disposto a descarregar toda sua munição de argumentos, mas a expressão de Diego desarmou qualquer tentativa. Estava decidido a dar um fim a parte ‘colorida’ da longa amizade deles, queria a liberdade de antigamente, queria que tudo voltasse a ser preto e branco. Que tudo voltasse a simplicidade das conversas despretensiosas de fim de tarde, que eles pudessem sair só pra rir e conversar, como costumavam fazer.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 64



    Diego se levantou subitamente sem dizer palavra. Fulminou Felipe com o pior olhar que conseguiu deflagrar. Silenciosamente, irrompeu pela porta de vidro da lanchonete deixando o ar pesado enquanto se afastava. Acho que até para pessoas com inteligência limitada a situação tinha ficado clara.
    - O que deu nele? – Perguntou Tânia. Mostrando surpreendente falta de perspicácia.
Levantei. Felipe fez o mesmo.
    - Leve a Tânia pra casa, agora ela precisa de todos os cuidados! Vou ver o que deu no Diego, acho que ele ficou bravo com você por sua irresponsabilidade, sabe como ele é certinho! – Disse fitando Felipe, usando essa mentira pra amenizar o comportamento ‘você roubou meu namorado’ que Diego tinha demonstrado. – A propósito, parabéns Tânia! Você vai ser mamãe! – A cada dia que passava eu percebia que o meu dom da falsidade ficava melhor.

[...]

    - Diego! – Eu disse, com a respiração entrecortada, depois de ter corrido até ele. – Espera!
    - O que você quer agora, Brunno? Vai defender ele, vai dar em cima de mim... vai fazer o quê? – Bradou ele. Ele estava se contendo. Parecia que o choro ia desabar a qualquer momento.
    - Calma, a gente vai superar isso!
    - Superar? Filho é pra sempre! Mesmo que eu continue com Felipe, sempre vai ter aquela responsabilidade... E ainda vai ter a Tânia, pra piorar ainda mais a situação.
    - Diego, me desculpa! – Começou Felipe, que tinha nos seguido.
    - Eu não disse pra você... – Comecei a falar, mas fui interrompido.
    - Você não manda em mim, Brunno! Embora você quisesse muito ter esse poder... – Felipe me cortou. – Diego, ainda tem solução... Eu vou pedir a ela pra...
    - Nem ouse terminar essa frase! Eu nunca vou conseguir ser feliz sabendo que alguém morreu por isso! Eu não quero falar com você! – Diego começou a andar apressadamente.
    - Embora você não queira me obedecer é bom você perceber que ele não está pronto pra ter essa conversa agora! Leve a biscate em casa e depois a gente resolve isso! Afinal, onde ela está?
    - Está realizando um “desejo”, está acabando com o estoque de tortelete da lanchonete!
    - Volte lá e... – Eu me contive, já estava tão acostumado com meu ar autoritário que nem percebia que vivia dando ordens aos outros. - ... Bom, faça o que quiser, eu vou levar Diego pra casa!