domingo, 28 de abril de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 71




    O dia amanheceu nublado, com aquele leve friozinho que te gruda na cama, que realça o sono e intensifica a preguiça, mas, ignorei tais sensações de desânimo e fui tomar um bom banho gelado para acordar de uma vez.
    Acabei me lembrando do sonho estranho que tive enquanto a água gelada me açoitava dentro do Box do banheiro. O sonho não tinha muitos detalhes, mas era parecido com um filme ou uma novela. Eu estava muito bem arrumado, com camisa social, colete de alfaiataria, como numa novela de época e eu, ou seja lá quem eu tivesse sendo ali, parecia com o príncipe do filme da Xuxa! Bom, deixo claro que sonhos são meio irracionais, não são? Eu contava a minha mãe, que não era minha mãe, mas ao mesmo tempo era... Acho que era uma atriz com roupas de época também, enfim... Eu chegava na sala e no alto da minha elegância e beleza (obviamente eu não era eu, era o tal do Bernardo príncipe da Xuxa) e ao ser perguntado por minha mãe sobre pra onde eu estava indo, eu dizia que ia encontrar os meus namorados. Não, você não leu errado, eu falei no plural mesmo. E minha mãe de novela, com toda naturalidade, respondeu: “Mas, filho! Você já gosta de um desafio, não é? Já é difícil conviver com uma pessoa, imagina só duas!”. O sonho estranho acabou por aí mesmo, não sei quem eram os tais dois namorados, quem eles seriam? Tentei afastar isso da minha mente, não tinha tempo de pensar bobagens.
    Pensei na sensação de leveza de ter feito as pazes com Alan era animadora, mal poderia esperar pelo primeiro ‘bom dia’, pelo primeiro sorriso que ele vai esboçar pra mim depois que levantamos as bandeiras brancas.

[...]

    Dotado de uma leveza descomunal, atravessei aquele corredor miserável, infestado de futilidade por todos os cantos. A chuva pendia preguiçosamente do céu. O desfile de casacos caros já tinha começado. Era incrível como uma pequena mudança de temperatura abria precedentes para a vaidade desses estudantes, não que já não o fizessem com a desculpa do ar condicionado.
    Caminhei distraidamente, tentando me esquivar dos esbarrões e contatos físicos casuais e desnecessários. Quando levantei meu rosto bruscamente e pude ver aquele sorriso novamente, aqueles ombros largos, aquela presença notável. Alan sorriu pra mim, do alto dos seus um metro e oitenta.
    - Bom dia Brunno! – Disse ele, com descrição e educação ao espantar algumas gotas de água no ombro do seu casaco da GAP.
    - Bom dia Alan! – Respondi, tentando conter a minha empolgação. E no segundo seguinte ele já tinha passado por mim e tinha sumido na multidão.
    Como num frisson, senti o tempo ficar mais lento e pude perceber que algumas pessoas da minha sala, que estavam envolta, ficaram paralisadas.
    - Brunno! Brunno! – Exclamou Isadora, dando passos apressados para me acompanhar. – O que foi isso heim?
    - Bom dia Isadora! – Iniciei, estampando a expressão de desentendimento no meu rosto. – O que foi o quê?
    - Pensei que você e o Alan fossem arqui-inimigos! Vocês voltaram a se falar?
    - Arqui-inimigos  Existe esse tipo de relação antagônica fora da ficção? – Ri comigo mesmo, tentando mascarar o nervosismo.
    - Mas, Brunno... É que... – Ele reiniciou, mas foi interrompida.
    Em um movimento brusco, senti um braço se entrelaçando ao meu.
    - Bom dia pilantra! – Roberta sorriu pra mim me arrastando dali.
    - Bom dia Betão!
    - ‘Bom dia’ nada! Eu ouvi tudo!
    - Então, obrigado por ter me tirado dessa! – Dei um sorriso.
    - Agradeça me contando tudo, detalhe por detalhe! E... Antes que você tente replicar, já digo de antemão que essa é uma ordem! – Ela sorriu pra mim com um de seus sorrisos cheios de significado. Dessa vez não tinha escapatória.



sábado, 27 de abril de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 70



    Terminei de ler a redação da Roberta e comecei a cutucar o seu ombro com impaciência. Ela não me olhou de volta, odiava ser interrompida quando estava lendo. Anotei a lápis, algumas críticas que tinha para fazer.
    - Betão, você só tem 12 minutos pra passar a limpo! – Adverti.
    - Sério, Brunno? Nem me dei conta de como o tempo passou rápido.
    - É. Termine logo. – Respondi resumidamente. – Vou entregar minha redação, quero chegar cedo à biblioteca.
    - A gente não ia lanchar juntos hoje?
    - Tenho um assunto a tratar... – Deixei em reticências.
    - Algo me diz que você não vai chegar nem perto da biblioteca! – Ela fez aquela expressão de ‘eu sei que você está tentando me enganar’ para mim.
    - Não tenho tempo... – Comecei a falar, mas ela me interrompeu bruscamente.
    - ...De me explicar, mas depois você me conta tudo! – Completou ela.
    - É... Tenho que ir!

[...]

   O sinal para o intervalo tocou e em uma reviravolta de meio segundo meu coração se acelerou. Estava andando apressadamente no meio do corredor e rapidamente a multidão começava a se formar. Fiquei me sentindo como um peixe nadando contra a maré, já que eu estava indo pro lado oposto ao da cantina. Tentava ao máximo não esbarrar nas outras pessoas. Eu tinha um sério problema com contato físico desnecessário e não-programado.
    Em um lance rápido de olhar, pude perceber uma troca de olhares entre Diego e Aristides no corredor. Os dois deram um discreto sorrisinho discreto e seguiram na mesma direção, porém afastados. Tive uma visão rápida de como isso tudo iria acabar, mas, tinha que permanecer na minha posição de deixar Diego cometer seus próprios erros.
    Chegando ao mesmo local de sempre, pude ver Alan encostado na parede, no corredor apertado. Perto dele a goteira incessante do ar condicionado pingava vagarosamente. Ele percebeu a minha presença e me fitou por alguns segundos intermináveis. Eu apenas me encostei na parede e esperei ele começar a falar.
    - Olha só Brunno... – Começou ele, depois de alguns segundos de silêncio. – Eu realmente parei pra pensar na nossa amizade, coisa que eu não fazia a tempos e não consegui lembrar do motivo que levou a nossa discussão e que subsidiou os conflitos decorrentes dela. É engraçado isso, de ser meio que ‘inimigo’ de alguém sem saber o motivo... – Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as melhores palavras possíveis. – Mas, mesmo assim, acho que há uma lacuna de uns três anos, que precisa ser preenchida. Não dá pra sair da indiferença até a amizade de infância de forma instantânea...  Acho que isso tem que acontecer naturalmente mesmo, como você tinha sugerido. Não tenho razões pra não te dar um ‘bom dia’, um ‘oi’ e pretendo fazê-los...
    - É Alan... – Eu comecei, tentando normalizar meu tom de voz, alterado pelo nervosismo. – Não espero uma amizade instantânea, até porque isso seria falso, mas seria mais saudável se nós nos cumprimentássemos de vez em quando. Sem nenhuma pressão e tudo mais.
    - É verdade, quem sabe um dia nós voltemos a ter aquela amizade de antes não é? Mas, temos que encontrar algo mais interessante do que Digimon e Pokémon pra conversar! – Ele sorriu. Fazia tempo que eu não via que aquele sorriso tinha sido endereçado a mim.
    - Pior que é... – Comentei rindo também.
    - Bom... Já que tudo está esclarecido, vou lanchar com o pessoal! – Ele estendeu a mão para mim.
    - Certo Alan. Vá lá! – Respondi. Pegando na sua mão e cumprimentando-o.
    Ele saiu rapidamente indo em direção a cantina. Não pude conter um sorriso torto e um suspiro, era como se um peso saísse das minhas costas.
    Por mais que eu tentasse, não conseguia me estabilizar. Minhas pernas ainda estavam bambas, meu estômago ainda se revirava e minhas mãos ainda estavam suando frio. Retribui o aperto de mão, mas no fundo eu queria abraçá-lo. Que pensamento mais idiota, não é mesmo? Não gostava de me sentir assim, vulnerável. Ou será que no fundo eu gostava dessa adrenalina de não ter o controle sobre tudo?

sexta-feira, 19 de abril de 2013

I'm Back!



Caros Leitores,

Como vocês perceberam eu cumpri o prometido (e no prazo). Estava com saudades de escrever! Ainda estou me atualizando sobre o que eu já escrevi e os detalhes que ainda virão na história, então me deem um desconto! (risos)

Gostaria de agradecer a paciência de vocês e pelos 21.000 acessos! (Gente, isso é muito!)
Estou planejando uma surpresa para quando completarmos 30.000 acessos, então, aguardem...

Vou voltar a postar, mas vamos com calma, certo? Estou pagando várias disciplinas na faculdade esse semestre e isso vai me tomar bastante tempo! Então, as postagens serão nos finais de semana (Uma no sábado e outra no domingo), obrigatoriamente, totalizando 2 postagens semanais, e em consequência 8 postagens mensais! Dependendo da minha disponibilidade eu posso fazer postagens surpresas! (extras). Vou começar oficialmente a postar a partir da semana que vem!

PS: Não esqueci o meu novo conto não! (Aquele que vou escrever junto com o vencedor do concurso "Procura-se um Biancchi") Ele só está engavetado por um tempo! (Ele será postado já no novo site). Ainda planejo criar esse meu site pra repostar Porcentagem Abrasiva com correções, algumas mudanças e alguns capítulos extras. Até lá planejo terminar a história por aqui primeiro! Mas, esse site é pro futuro! (risos) Meu foco aqui é terminar o P. A.

XO XO
BRUNNO BIANCCHI

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 69



     Já estava mais do que na hora de deixar Diego em paz lidando com seus problemas, sozinho. Acho que meus sentimentos por ele transformaram a minha percepção da situação. Eu achava que pelo fato de Diego ser sensível, ele seria ingênuo e indefeso. Apesar de não querer que ele sofresse e tentar incessantemente amortecer qualquer impacto, qualquer situação adversa que pudesse ocorrer eu precisava deixá-lo cometer seus próprios erros e porque não dizer: preciso deixar ele cometer seus próprios acertos. Diego já tem idade e maturidade – o que é de uma relevância bem maior – para não precisar da minha ajuda.
     Confesso que acho esse ‘relacionamento volátil e de curto prazo’ com Aristides não era muito racional, mas se essa é a forma que ele encontrou pra esquecer o Felipe, acho que a tentativa já basta. Eu tenho essa mania irritante de pensar no ‘doravante’, em tudo aquilo que virá a seguir, principalmente as consequências que isso vai decorrer. Calculo que, em média, isso tem mais de 73,8% de chance de dar errado. Nem consigo explicar como faço esses cálculos de consequência, diga-se de passagem. Acho que Diego está trocando seis por meia dúzia. Aristides namora a um tempo considerável com Mariana – fiz minhas pesquisas – afinal, dois anos é um tempo bem relevante. Depois que comecei a prestar atenção neles – geralmente não presto nenhuma atenção especial em ninguém desse colégio – percebi que eles sempre estão se beijando lá perto do pátio, provavelmente se escondem da rigorosidade religiosa das regras da instituição. Provavelmente, ela é o ’disfarce’ dele ou em outra hipótese, que considero de probabilidade bem inferior, que Diego seja o primeiro, ou um dos poucos com que ele se relacionou. Diego está em uma corda bamba, de um lado está a namorada do seu novo affair e do outro está Felipe, ambos podem descobrir, caso eles sejam descuidados, mas acredito que o pior seria se ela soubesse.
     Não posso deixar de perceber a atitude autodestrutiva de Felipe. Ele vem faltado muito às aulas e ouvi dizer que ele anda exagerando na bebida nas festas. É visível o esforço que ele está fazendo para ‘suportar’ Tânia e pelas tentativas de fazê-la pensar antes de tomar atitudes precipitadas. Não sei mais o que fazer para ajudar o Felipe, ele terá que resolver essa situação sozinho.
    Meus dias agora estão mais tranqüilos. Estou focado nos estudos para elevar ainda mais minhas notas e tenho saído mais com Roberta, acho que ela já está mais calma. Ela estava com medo de que minha amizade com Felipe e Diego fizesse com que eu a abandonasse, como se eu conseguisse viver sem a amizade dela.

[...]


    A melhor aula da semana começou. Simplesmente era apaixonado pelas aulas de redação. Problematizar temas, desenvolver um pensamento crítico por temáticas polêmicas e escrever eram minhas paixões. Sempre fazia a redação e ficava revisando, inúmeras vezes até considerar que ela estivesse perfeita, sem gerúndios, sem palavras de sentido vago, sem informações excessivas e desnecessárias. Um bom texto era um texto com questões bem fundamentadas, afiado, curto e que surtisse efeito. Que subsidiasse a minha opinião.
    Esta seria a última aula antes do intervalo, e já faltavam quinze minutos para que ela acabasse. Eu já tinha passado minha redação a limpo e estava revisando a da Roberta – que não necessitava de muita revisão, já que ela escrevia muito bem – só no caso de ela ter esquecido alguma pontuação ou se eu tivesse uma crítica relevante a fazer e que ocasionasse uma mudança de última hora. Roberta, estava fazendo o mesmo, lendo uma redação de uma de nossas amigas, – sim, eu tenho amigos além da Betão – distraidamente.
    Subitamente um pedaço de folha de caderno dobrado foi colocado com discrição na minha mesa. Levantei o olhar e vi Alan andando até o birô do professor, entregando sua redação e saindo da sala. Abri o bilhete discretamente, escondendo ele entre as minhas pernas, por baixo da carteira.

“Preciso falar com você, no mesmo lugar da outra vez.”

Aquela caligrafia tirou qualquer dúvida que eu pudesse ter. Allan tem uma resposta!