sábado, 27 de abril de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 70



    Terminei de ler a redação da Roberta e comecei a cutucar o seu ombro com impaciência. Ela não me olhou de volta, odiava ser interrompida quando estava lendo. Anotei a lápis, algumas críticas que tinha para fazer.
    - Betão, você só tem 12 minutos pra passar a limpo! – Adverti.
    - Sério, Brunno? Nem me dei conta de como o tempo passou rápido.
    - É. Termine logo. – Respondi resumidamente. – Vou entregar minha redação, quero chegar cedo à biblioteca.
    - A gente não ia lanchar juntos hoje?
    - Tenho um assunto a tratar... – Deixei em reticências.
    - Algo me diz que você não vai chegar nem perto da biblioteca! – Ela fez aquela expressão de ‘eu sei que você está tentando me enganar’ para mim.
    - Não tenho tempo... – Comecei a falar, mas ela me interrompeu bruscamente.
    - ...De me explicar, mas depois você me conta tudo! – Completou ela.
    - É... Tenho que ir!

[...]

   O sinal para o intervalo tocou e em uma reviravolta de meio segundo meu coração se acelerou. Estava andando apressadamente no meio do corredor e rapidamente a multidão começava a se formar. Fiquei me sentindo como um peixe nadando contra a maré, já que eu estava indo pro lado oposto ao da cantina. Tentava ao máximo não esbarrar nas outras pessoas. Eu tinha um sério problema com contato físico desnecessário e não-programado.
    Em um lance rápido de olhar, pude perceber uma troca de olhares entre Diego e Aristides no corredor. Os dois deram um discreto sorrisinho discreto e seguiram na mesma direção, porém afastados. Tive uma visão rápida de como isso tudo iria acabar, mas, tinha que permanecer na minha posição de deixar Diego cometer seus próprios erros.
    Chegando ao mesmo local de sempre, pude ver Alan encostado na parede, no corredor apertado. Perto dele a goteira incessante do ar condicionado pingava vagarosamente. Ele percebeu a minha presença e me fitou por alguns segundos intermináveis. Eu apenas me encostei na parede e esperei ele começar a falar.
    - Olha só Brunno... – Começou ele, depois de alguns segundos de silêncio. – Eu realmente parei pra pensar na nossa amizade, coisa que eu não fazia a tempos e não consegui lembrar do motivo que levou a nossa discussão e que subsidiou os conflitos decorrentes dela. É engraçado isso, de ser meio que ‘inimigo’ de alguém sem saber o motivo... – Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as melhores palavras possíveis. – Mas, mesmo assim, acho que há uma lacuna de uns três anos, que precisa ser preenchida. Não dá pra sair da indiferença até a amizade de infância de forma instantânea...  Acho que isso tem que acontecer naturalmente mesmo, como você tinha sugerido. Não tenho razões pra não te dar um ‘bom dia’, um ‘oi’ e pretendo fazê-los...
    - É Alan... – Eu comecei, tentando normalizar meu tom de voz, alterado pelo nervosismo. – Não espero uma amizade instantânea, até porque isso seria falso, mas seria mais saudável se nós nos cumprimentássemos de vez em quando. Sem nenhuma pressão e tudo mais.
    - É verdade, quem sabe um dia nós voltemos a ter aquela amizade de antes não é? Mas, temos que encontrar algo mais interessante do que Digimon e Pokémon pra conversar! – Ele sorriu. Fazia tempo que eu não via que aquele sorriso tinha sido endereçado a mim.
    - Pior que é... – Comentei rindo também.
    - Bom... Já que tudo está esclarecido, vou lanchar com o pessoal! – Ele estendeu a mão para mim.
    - Certo Alan. Vá lá! – Respondi. Pegando na sua mão e cumprimentando-o.
    Ele saiu rapidamente indo em direção a cantina. Não pude conter um sorriso torto e um suspiro, era como se um peso saísse das minhas costas.
    Por mais que eu tentasse, não conseguia me estabilizar. Minhas pernas ainda estavam bambas, meu estômago ainda se revirava e minhas mãos ainda estavam suando frio. Retribui o aperto de mão, mas no fundo eu queria abraçá-lo. Que pensamento mais idiota, não é mesmo? Não gostava de me sentir assim, vulnerável. Ou será que no fundo eu gostava dessa adrenalina de não ter o controle sobre tudo?

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