Era nesse tipo de situação que minha fértil
imaginação tendia a divagar por um futuro utópico. Não tive como contê-la e
logo imaginei Alan me pedindo em namoro idealizando todo o desencadeamento de
fatos que viria a seguir, passeios na praia à tarde, tomar um sorvete e ver o
pôr-do-sol e todos aqueles clichês provenientes de filmes hollywoodianos.
Pensamentos tão piegas, tão idiotas... Tão... Maravilhosos. Meu sangue queimava
meu corpo em banho-maria, um calor gelado rente à pele. A expressão de
pensativo no olhar de Alan, como se ele estivesse escolhendo as palavras com
todo o cuidado do mundo.
- Você quer ir... Para o cinema comigo? –
Perguntou ele, a voz entrecortada. – Assim, não que eu esteja te chamando pra
sair, mas quero... Sair com você... É que... – Ele tentava se explicar e
acabava gaguejando ainda mais.
- Quero sim! – Exclamei. Tentando conter
minha empolgação, abafando um sorriso que explodia em meus lábios.
- Sério? Você quer? – Ele sorriu. – Eu estava
pensando em a gente marcar no dia do simulado... O que você acha?
- No dia do simulado? – Indaguei confuso.
- Acho que esse lance de competição não
está nos fazendo bem, acho que essa dupla desistência seria mais que uma prova
de que não ligamos mais para essa rivalidade, não acha? Mas, se você não quiser
eu vou entender... – Ele baixou um pouco a cabeça, desviou o olhar com timidez.
- Eu achei uma ideia excelente! – Sorri o
rei de todos os sorrisos.
- Então... Está marcado, certo? – Disse ele
estendendo sua mão.
- Combinado! – Discretamente enxuguei o
suor da minha mão na calça, e apertei a mão dele com leveza.
- Mão gelada... – Sussurrou ele.
Aproximando-se de mim.
- É... – Fiquei sem palavras. Ele se
aproximava mais e mais.
O sinal tocou. Com mais uma dose cavalar de
música gospel, lê-se lavagem cerebral de todos os dias. A inconveniente
interrupção fez Alan se afastar e reconsiderar o momento.
- Tenho que ir... – Ele comentou. – Esqueci
que ainda tenho que conversar um assunto com Nielly antes da aula começar. – E em
segundos ele já tinha ido embora.
Fiquei algum tempo assimilando o que tinha
acontecido, ou o que poderia ter acontecido.
- Maldito toque... – Sussurrei enquanto me
dirigia ao pátio principal.
Curiosamente, um burburinho intenso parecia
assolar o pátio. Apertei o passo com certa perplexidade – Todos deveriam estar se encaminhando para a sala, porque tanto barulho
aqui? Uma multidão se formava no canto direito do espaço, perto do portão
que dava acesso à cantina. Os alunos que ali estavam pareciam exageradamente
curiosos.
- O que está havendo? – Indagava uma menina
na ponta dos pés, querendo ver o que estava além.
Suspendi o olhar para a sacada do primeiro
andar, uma fileira de alunos se espremiam por um espaço no camarote. Pensei em
desconsiderar a curiosidade e voltar para a sala, mas algo naquela aglomeração
atípica de pessoas me fez querer ver mais.
- Afastem-se! Vocês precisam dar espaço! –
Bradou uma voz vinda do que parecia o meio do tumulto.






