quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 77




    Uma dor de cabeça invadiu meus pensamentos. Estava deitado em minha cama. No meu quarto. Fitando a parede, tentando pensar em qualquer assunto banal que fugisse aos concernentes à relacionamentos. A ruína, que penso ter potencial para tornar-se permanente, no relacionamento entre Diego e Felipe pesavam meus ombros com a responsabilidade. Mesmo que eu não tenha tido nenhum envolvimento com a gravidez precoce de Tânia, penso que as minhas chantagens e o meu desejo por uma vingança estúpida pode ter desencadeado os eventos que estão acontecendo, afinal, tudo é interligado. Não queria ver os dois separados, não queria causar tudo isso... A minha reaproximação com Alan parecia uma dádiva não merecida, e tinha medo de botar tudo a perder ou ser atingido por algum karma, um ‘anti-cupido’ querendo me castigar por ter atrapalhado a relação dos outros. Queria ter o poder de consertar tudo, mas minhas esperanças estavam se esvaindo com o passar dos dias.
    Precisava me distrair, parar de pensar um pouco nesses assuntos. Também não estava com paciência para estudar, os exercícios de amanhã já estavam prontos. Preciso de algo mais dramático do que minha própria vida...
    - Shakespeare! – Sussurrei como se tivesse pronunciado um “Eureka!” depois de uma descoberta científica. Busquei o Romeu e Julieta, que tinha pegado emprestado da biblioteca da escola, na minha estante e voltei a me esparramar na cama, na esperança de me entreter com tragédias e amores que não me pertenciam.
    Deitado, ergui o livro com as duas mãos, tentando bloquear com ele, a lâmpada do teto. Analisei a capa gasta, dessa edição especial e antiga, que deve ter sido achada em algum sebo local e comprada a baixo custo e o abri. Folheei, brincando com as páginas, ouvindo aquele chiar leve de papel, até que fui atingido por um pedaço de folha de caderno. Com espanto e curiosidade, voltei a me sentar na cama, desdobrando a folha com intensa curiosidade.

Irracional

Tenho que te dizer
Ângulo que te miro não é relevante
Nada mais tenho a temer
Insônia é a minha acompanhante
Ah! Como eu queria ser só

Escravo da minha própria liberdade
Um fruto de minha arbitrariedade?

Te amar não foi ato do meu querer
Eu o fiz pelo meu existir

Agora não posso mais olhar pra trás
Meu amor, meu oxigênio se faz
O que eu faço pra ter você?


    Estava escrito em letras bonitas em palavras apagadas e reescritas. Notei algo estranho nos versos desarrumados, sem métrica adequada, em estrofes irregulares. Analisei tudo isso em uma folha à parte, procurando o sentido daquilo. Foi quando me dei conta! O que não foi refeito, aquilo do qual já se tinha certeza, aquilo que eu duvidei, mas que se confirmou, às vezes temos que duvidar da causa, não do efeito!

    Corri para o meu guarda roupa, desenterrando uma caixa que estava por baixo de outras. Finalmente, os números me favorecem!

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