sexta-feira, 30 de agosto de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 78




    Sentei na cadeira de madeira posta em frente à minha escrivaninha, liguei o laptop e comecei a fazer algumas pesquisas e elaborar alguns cálculos. Voltei aos versos escritos na folha de caderno, fiz algumas marcações. Peguei meu celular apressadamente, disquei o número que já estava incrustado em minha memória.
      - Alô? Você sabe que horas são Brunno?
    - Desculpe... – Afastei o celular do ouvido por uns instantes, realmente essa não era uma hora propícia para fazer ligações. – Não queria te incomodar, mas já que acordou, preciso que você me responda uma coisa...

[...]

    Após ter digitalizado algumas coisas e anexado ao meu email, a final, concordo com o ditado que diz que é melhor prevenir do que remediar. Permiti a mim mesmo descansar, a me render às pálpebras pesadas. A dor de cabeça tinha passado, afinal, teriam inventado remédio melhor? Enfim pude dormir uma noite tranqüila.

[...]


    Atravessei, como de costume, àqueles corredores cheios de gente, tentando não esbarrar com ninguém. Ainda estava em êxtase devido ao poema que encontrei. É incrível como um pedaço de papel conseguiu me energizar e revigorar a minha mente exausta por pensar em como isso iria terminar. Andei suavemente, sem a pressa que cotidianamente empregava em meus passos, hoje tudo poderia esperar, eu estava flutuando. O burburinho de vozes parecia abafado, tinha muito em o que pensar.
    - Eu não quero fazer isso! – Uma voz familiar protestou, estourando a bolha de pensamentos na qual estava imerso.
    - Mas, só assim vai dar tudo certo! – A voz feminina exclamou em um sussurro soprado.
    Nielly e Alan conversavam na porta da sala. Quando me viu chegar, ela se afastou, desavenças antigas fazem com que não suportemos a presença um do outro.
    - Bom dia, Brunno! – Sussurrou com um sorriso saboroso nos lábios.
    - Bom dia! – Respondi timidamente. Tentando pensar depressa algum assunto para puxar. – Semana que vem é o Simulado, está preparado? – Indaguei. Notando, posteriormente, que a frase poderia soar como um estímulo a competição.
    - Estou estudando como de costume, não estou preocupado com o ranking esse ano! – Alan comentou encostando-se na parede. – Tenho outras preocupações em mente! – Ele esboçou outro sorriso, que deu outra tonalidade às suas palavras.
    - Acho que a prova é um bom termômetro pra o vestibular... – Tentei esconder o arrepio que se apossava do meu corpo.
    Uma voz de dentro da minha sala me chamou. Salvo pelo gongo. Pensei. Não saberia sobreviver mais alguns minutos perto dele sem fazer nenhuma besteira.
    - Tenho que ir... Roberta está me chamando... – Sussurrei. Na verdade, por mais difícil que fosse ficar ao lado dele sem poder fazer nada do que eu tanto imaginava, eu preferia essa tensão, essas reviravoltas do meu estômago, esses arrepios...
    - Te vejo no intervalo? – Alan perguntou.
    - Claro! – Respondi de prontidão, sem ao menos pensar no caso.
    Posteriormente, lembrei que tinha que conversar com Felipe, mas, acho que existem preocupações mais urgentes!



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 77




    Uma dor de cabeça invadiu meus pensamentos. Estava deitado em minha cama. No meu quarto. Fitando a parede, tentando pensar em qualquer assunto banal que fugisse aos concernentes à relacionamentos. A ruína, que penso ter potencial para tornar-se permanente, no relacionamento entre Diego e Felipe pesavam meus ombros com a responsabilidade. Mesmo que eu não tenha tido nenhum envolvimento com a gravidez precoce de Tânia, penso que as minhas chantagens e o meu desejo por uma vingança estúpida pode ter desencadeado os eventos que estão acontecendo, afinal, tudo é interligado. Não queria ver os dois separados, não queria causar tudo isso... A minha reaproximação com Alan parecia uma dádiva não merecida, e tinha medo de botar tudo a perder ou ser atingido por algum karma, um ‘anti-cupido’ querendo me castigar por ter atrapalhado a relação dos outros. Queria ter o poder de consertar tudo, mas minhas esperanças estavam se esvaindo com o passar dos dias.
    Precisava me distrair, parar de pensar um pouco nesses assuntos. Também não estava com paciência para estudar, os exercícios de amanhã já estavam prontos. Preciso de algo mais dramático do que minha própria vida...
    - Shakespeare! – Sussurrei como se tivesse pronunciado um “Eureka!” depois de uma descoberta científica. Busquei o Romeu e Julieta, que tinha pegado emprestado da biblioteca da escola, na minha estante e voltei a me esparramar na cama, na esperança de me entreter com tragédias e amores que não me pertenciam.
    Deitado, ergui o livro com as duas mãos, tentando bloquear com ele, a lâmpada do teto. Analisei a capa gasta, dessa edição especial e antiga, que deve ter sido achada em algum sebo local e comprada a baixo custo e o abri. Folheei, brincando com as páginas, ouvindo aquele chiar leve de papel, até que fui atingido por um pedaço de folha de caderno. Com espanto e curiosidade, voltei a me sentar na cama, desdobrando a folha com intensa curiosidade.

Irracional

Tenho que te dizer
Ângulo que te miro não é relevante
Nada mais tenho a temer
Insônia é a minha acompanhante
Ah! Como eu queria ser só

Escravo da minha própria liberdade
Um fruto de minha arbitrariedade?

Te amar não foi ato do meu querer
Eu o fiz pelo meu existir

Agora não posso mais olhar pra trás
Meu amor, meu oxigênio se faz
O que eu faço pra ter você?


    Estava escrito em letras bonitas em palavras apagadas e reescritas. Notei algo estranho nos versos desarrumados, sem métrica adequada, em estrofes irregulares. Analisei tudo isso em uma folha à parte, procurando o sentido daquilo. Foi quando me dei conta! O que não foi refeito, aquilo do qual já se tinha certeza, aquilo que eu duvidei, mas que se confirmou, às vezes temos que duvidar da causa, não do efeito!

    Corri para o meu guarda roupa, desenterrando uma caixa que estava por baixo de outras. Finalmente, os números me favorecem!