sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 8

    - Felipe? - Falei e logo percebi que ele estava no canto da cozinha chorando.
    - Eu não queria... fazer... isso... - Disse ele em meio a soluços.
    - Eu sei que não, mas você tem que se controlar.
    - Ele me odeia não é? Vai me odiar pra sempre!
    - Se ele te odiasse não ia querer ficar aqui...
    - Acho que ele só ficou pra não preocupar os pais dele... - Ele voltou a chorar.
    - Eu pensei que o dia em que eu te visse chorar assim, seria o dia mais engraçado da minha vida, mas estava enganado. Eu vejo aquele menino-homem que se exibe na sala e encontro esse homem-menino chorando no chão da cozinha desesperadamente. Não fique assim, sempre há um jeito!
    - O que eu faço agora?
    - Primeiro você levanta daí!
    - E agora? - Perguntou ele já de pé.
    - Vem cá! - Puxei ele para um abraço, ele desabou o choro no meu ombro. - Chore com força... Solte tudo... Eu vou te dar um minuto pra isso! - Começei a olhar o tempo no meu relógio.
     05... 04... 03... 02... 01...
    - Acabou seu tempo! - Eu disse soltando ele. - Agora enxugue essas lágrimas e haja como um homem. Respire fundo e seja mais forte. Vamos preparar alguma coisa pra ele comer!
    Fizemos alguns sanduíches e voltamos pro quarto.
    - Diego eu tenho que...
    - Não precisa falar nada lipe, eu sei que você ficou com raiva...
    - Eu preciso falar... Dih... Desculpa por tudo que eu disse, eu fiquei irritado e não soube administrar a situação. Eu fui fraco, egoísta e... e...
    - E? - Diego interrompeu.
    - Eu te amo!
    Nesse momento parecia que a imagem tinha sido congelada. Parecia que alguém deu pause no filme para ir ao banheiro ou algo assim.
    - Eu te amo! - Recomeçou Felipe, tentando não chorar. - Eu te amo porque eu sempre fico com ciúmes de você como naquele dia no colégio, me dá vontade de ficar sem falar com você de tanta raiva porque você ficou com aquela menina na festa, mas quando eu te olho eu sinto saudades. Eu te amo porque você sempre foi mais esperto que eu, mais maduro... Eu te amo porque você me ensinou a amarrar os sapatos e teve toda a paciência do mundo pra me ensinar tantas outras coisas. Eu sei que sou machista, mas eu não sei que outra forma definir o que eu sinto por você. Nenhuma mulher nunca me fez senti isso antes...
    Eu não esperava um depoimento tão longo e ainda mais vindo do Felipe o maior galinha da sala. Eu percebi que ele gostava do Diego, mas não sabia que a intensidade era tanta. Diego ficou em choque e não conseguiu responder nada. Eu me sentia 'um objeto intruso daquela cena'.
    - Eu... Nem sei o que dizer... - Diego ficou com lágrimas nos olhos e beijou felipe de forma terna.
    Até eu fiquei comovido com tudo aquilo.
    - Gente, se vocês quiserem eu posso deixar vocês sozinhos... - Comentei.
    - Vem cá Brunno! - Pediu Diego.
    Eu me aproximei e sentei do lado dele na cama, no lado oposto ao que Felipe estava. Diego subitamente me beijou e foi um beijo tão suave e tão... Rápido.
    - Estamos quites Felipe! - Ele começou a rir.
    - Agora eu vou ser usado como instrumento de vingança é? - Brinquei rindo também.
    Passamos a noite conversando e eu pude entender o que estava por traz daquela ideia que eu tinha dos 'mauricinhos cabeças-ocas'. Só queria saber como é que iríamos explicar o olho roxo de Diego no dia seguinte.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 7

    - Você é um monstro! - Eu me ajoelhei no chão. - Diego você está bem? Diego? - Perguntei sem resposta, minhas mãos estavam sujas de sangue.
    - Eu não queria fazer isso... Diego... Diego...
    - SAIA DAQUI! SEU MONSTRO! - Eu não tinha percebido que estava gritando. Sentei no chão e coloquei a cabeça do Diego no meu colo tentando estancar a ferida.
    A cena tinha ocorrido muito rapidamente. Em um segundo Diego estava falando aquilo tudo para o Felipe. Depois ele aplicou um soco em Diego, que caiu e bateu a testa na mesa do computador.
    - O que eu faço? O que eu faço? - Perguntou Felipe aos prantos.
    - Traga uma toalha e gelo... muito gelo. - Eu tirei minha blusa e começei a estancar a ferida e dentro de alguns segundos Felipe veio com o gelo e a toalha. Peguei todo aquele gelo e enrolei com a toalha fazendo pressão na sua testa.
    - Dih! Fala coomigo Dih por favor! - Pedia Felipe em suas lágrimas incessantes.
    - Acho que vamos ter que levá-lo no hospital, mesmo que o corte não esteja tão profundo...
    - Brunno? - Diego me chamou com a voz fraca, acordando de seu relapso pós-traumático.
    - Calma Diego, vamos te levar ao hospital!
    - Não... Eu estou bem... Só com dor...
    - Mas você está sangrando... - Insisti
    - Me perdoa Dih, por favor! - Felipe parecia inerte em um delírio febril.
    - Não é hora pra isso! Vá ver se encontra uns curativos!
    Felipe saiu do quarto ainda embreagado com sua tristeza a procura de algum quit de primeiros socorros.
    - Eu quero ficar sentado! - Pediu ele
    - Você tem que ficar aí Diego! - Ele ignorou minha ordem e se sentou encostando-se na parede.
    - Não foi nada... O meu olho é que está doendo mais...
    - Calma, eu vou cuidar de você!
    - Não briga com ele Brunno...
    - Mas ele bateu em você... - Sussurrei
    - Eu nunca o vi chorar assim, não piore as coisas. Ele só... Explodiu... Deixe que eu me entendo com ele, eu sei o que dizer!
    Felipe voltou com uma maleta bem equipada com diversos instrumentos. Eu consegui estancar a ferida minutos depois e fiz um curativo com gaze esparadrapos. Colocamos ele na cama.
    - Tem certeza que não quer ir a um médico? - Perguntei
    - Não, eu estou bem, foi só um cortezinho... - Diego amenizou
    - Desculpe Diego você sabe...
    - Não quero ouvir nada agora, quero ir pra casa...
    - Não, não vá... O que seus pais vão pensar sobre mim?
    - Eu quero ir... - Diego continuou
    - Fique...
    - Eu não quero ficar sozinho com você!
    - O Brunno vai ficar também, nós cuidamos de você e dormimos aqui. - Afirmou Felipe
    - Como assim? - Indaguei
    - Eu fico se o Brunno ficar! - Comentou Diego, visivelmente recuperado
    - Mas como... Minha mãe...
    - Eu falo com ela, por favor! - Os olhos de Felipe estavam vermelhos e o verde de sua íris se afogava em suas lágrimas.
    - Tenho que falar com ela...
    Felipe saiu do quarto novamente, sem falar nada.
    Eu acabei ligando pra minha mãe e dizendo que ia assistir alguns filmes na casa de uns amigos e que iria pra escola daqui mesmo. Ela não queria concordar mas acabei chantageando ela com o papo de 'eu sempre me esforço e estudo tanto, não posso nem me divertir?' e ela acabou cedendo.
    Os pais de Felipe (ambos médicos) estariam de plantão esta noite, como era de costume. Diego não falou com Felipe o o tratava com severa frieza. Nós conversamos um pouco enquanto Felipe preparava alguma coisa pra gente comer.
    - Ainda não acredito que estou aqui, que vou dormir com vocês...
    - Obrigado por ficar... - Começou Diego. - Pode me passar o remédio?
    - Claro! - Entreguei a cartela de remédio para dor e ele tomou um.
    - Você entendeu porque não pode revelar esse vídeo? Felipe é muito machista e é muito explosivo. Eu tenho medo por você...
    - Ele é louco!
    - Ele tem seu lado bom, ele só está perdido. Você não conhece a vida dele como eu conheço. Nós somos amigos de infância.
    - Nada explica essa atitude dele! Ele já fez isso antes?
    - A gente briga de vez em quando, eu já dei um soco nele uma vez. - Ele começou a rir, mas logo sentiu dor. - Enfim... Ele não funciona bem sob pressão.
    - A relação de vocês dois é muito tensa...
    - Tensa e intensa... Eu quero um copo d'água. - Diego começou a se levantar.
    - Não se esforce, eu vou buscar...
    - Mas Brunno...
    - Quietinho aí. - Dei um beijo em sua mão. - Hoje você merece um pouco mais de carinho.
    Percorri o corredor, alguns gemidos estranhos vinham da cozinha.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 6

    Felipe permaneceu em silêncio os 15 minutos que levou para percorrer o caminho da minha casa para a dele, seu olhar sério concentravasse nos sinais e curvas da cidade. Por sorte, ou não, um rock pesado estava tocando no seu som, uma música tão absurdamente louca que eu nem tive tempo de pensar em nada. Ainda sobre o efeito anestesiante da música que ainda latejava em minhas têmporas entrei no elevador. Senti a pressão me puxar para cima e as minhas mãos começaram a gelar. Em pouco tempo eu estava sentado na cama dele.
    - Você pode dizer o que realmente quer de mim? - Começou ele, fazendo um esforço super-humano para não explodir.
    - Você não entende, pessoas como você não entendem... - Deixei em reticências.
    - Aconcelho a você tomar cuidado com o que fala, hoje não tem o Diego pra te proteger, ele teve que ir no dentista!
    - Isso é um tipo de armadilha? Você sabe o que eu posso fazer!
    - O que você ganharia com isso?
    - Teria o prazer de ver você sofrendo...
    - Você é sádico ou insano?
    - Faço a mesma pergunta a você!
    - Seria impagável encher você de porrada! Você não ia nem sequer lembrar de como respirar...
    - Como você se sente humilhando as pessoas? Você se sente melhor que elas? -  Tentei permanecer firme apesar do medo, minhas pernas ficaram bambas.
    - Algumas pessoas insistem em não aprender onde é o seu lugar...
    - Você é patético. Apenas um rostinho bonito e um punhado de grosseria emoldurados por alguns músculos...
    - E você é o que? Você chega a ser alguma coisa? Óculos, cabelo bagunçado, espinhas, roupas baratas, um sorriso encardido e essa sua prepotência de Senhor sabe-tudo.
    - Você pensa que o dinheiro resolve tudo não é?
    - Você não se sente melhor que os outros quando é o único a tirar 10 numa prova que todos se deram mal? Duvido que não se sinta!
    - Isso é diferente...
    - Nós buscamos poder de formas diferentes. Do mesmo jeito que eu tenho prazer em humilhar idiotas como você, você sente ao receber mais elogios dos professores...
    - Foi pra isso que me chamou aqui? Para recitar os meus méritos? Eu sei que sou inteligente, não precisa me dizer! - Fui sarcástico.
   - Claro que não... - Ele me olhou com uma expressão presunsoça. - Eu percebi o jeito que você me olhou quando eu estava trocando de roupa naquele dia...
    - Eu não olhei de jeito... - Fui interrompido.
    - Olhou sim nerdzinho! - Ele se aproximou e fincou seus dedos no meu cabelo. - Que tal resolvermos isso logo. Eu faço você feliz e você nos deixa em paz.
    - Você está louco?
    - Vamos terminar logo com isso, ainda tenho uma festa pra ir essa noite... - Comentou ele soltando o meu cabelo e tirando a camisa.
    Ele se aproximou de mim e me beijou. Seu beijo era molhado com um toque de fúria e desejo. Ele passou o braço por minha cintura e me apertou, me puxando para si. Puxou meus cabelos com a outra mão, seus dedos roçavam em minha nuca. Eu fui posto contra a parede, eu quase não conseguia respirar.
    - Felipe?! - Exclamou uma voz parciamente indagativa. - O que você está fazendo?
    - Você não ia ao dentista? - Soltou Felipe com desdém.
    - A consulta foi remarcada, mas isso não vem ao caso... O que você está pensando? - Insistiu Diego.
    - Estava resolvendo nossos problemas!
    - Agarrando o Brunno?
    - Você sabe o sacrifício que foi pra mim beijar ele?
    - Você está com raiva por causa do vídeo não é? - Diego recomeçou. - Porque o seu orgulho tão importante foi ferido!
    - Eu disse pra você que era minha vez de novo!
    (Fiquei paralisado só ouvindo a briga dos dois)
    - Se fosse por você seria sua vez todo dia, você é tão egoísta... Eu tive que praticamente te ameaçar pra você concordar com isso!
    - Maldito dia que eu fui inventar de beber com você aqui em casa, você me convenceu disso tudo! Eu não quero ser a piada de todo o colégio!
    - 'Disso'?... É desse jeito que você se refere ao nosso relacionamento?
    - Relacionamento? - Comentou em meio a risos - Isso só foi diversão Diego, um passa-tempo... Uma infeliz forma de me distrair, que acabou com esse vídeo idiota!
    - Você fala como se não quisesse também, eu não te obriguei a nada! Eu estava bêbado naquele dia e te beijei e você correspondeu!
    - Eu não gosto de homens!
    - Então vai dizer que não gosta de mim? Basta um toque e você já fia todo 'animadinho'... Você é gay!
    - Eu não sou gay! Você é que é!
    - Pensei que vocês já tivessem resolvido essa questão! - Eu me intrometi dentro da conversa.
    - Sabe porque ele está assim Brunno? Porque fui eu quem estava comendo ele aquela noite e foi essa cena que a câmera gravou, porque ele estava gemendo que nem uma mulherzinha e pedindo pra eu ir com mais força... - Ouvi um baque abafado, tudo foi rápido demais.
     - Nãooooooooo!!!! O que você fez?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 5

    Nem consegui prestar atenção direito nas aulas que se seguiram e a tão aguardada aula de Geografia só aconteceria após o intervalo. Tânia veio até mim, no intervalo de troca de aulas, perguntar o que eu estava conversando com os meninos, acabei desconversando ao dizer que era algo relativo ao trabalho. Ela engoliu essa facilmente, pensar não era muito o seu forte, e voltou para o seu grupinho de fofocas. No intervalo fui andando normalmente até uma das mesas de pedra do pátio. Felipe e Diego me seguiram até lá como cachorrinhos famintos.
    - Que tal a gente conversar? - Começei percebendo a tensão no ar.
    - O que você quer que a gente diga? - Indagou Felipe, estava começando a ficar irritado novamente.
    - Brunno... Desculpa mesmo pelo jeito que tratamos você naquele dia, mas por favor não faça nada precipitado! - Pediu Diego.
    - Felipe! Vá comprar uma pizza e uma sprite para mim por favor! - Entreguei o dinheiro pra ele.
    Felipe se levantou a contra-gosto e Diego estava se levantando também.
    - Diego, você fica!
    Felipe me jogou um olhar de desprezo e andou em direção à cantina.
    - Nós podemos negociar... Eu e você, ele está muito zangado... - Começou Diego, mexendo no cabelo escuro e liso que tinha.
    - Tranquilize ele... Eu não sou o monstro que vocês pensam que eu sou, só quero um pouco de respeito...
    - Mas você não pode nos torturar a vida toda...
    - Torturar? Eu só quero conversar com vocês. Entender qual o motivo de tanta grosseria e humilhação!
    - Nós só estávamos brincando!
    - Suas brincadeiras são horríveis... Vocês já fizeram muita gente chorar por causa disso...
    - Eu nunca tinha visto por esse ângulo...
    - Você parece outra pessoa longe dele. Olhando pra você agora eu posso ver um garoto bom, que se importa com os outros.
    Ele não respondeu.
    - Seus olhos transparecem tanta calma... E eu sei que por trás desses músculos e dessa pose de popular tem algo mais!
    - Eu nem sei como tudo foi ficar assim... Eu era mais dedicado aos estudos, eu tinha mais amigos, mas aí veio as festas, a bebida e o poder... O poder que você tem, a admiração que as pessoas tem ao te olhar e é preciso sempre mais, e mais... O poder é viciante!
    - Pisar nos outros te faz feliz?
    - Não... Mas é que... - Gagueijou
    - Você acha que se não for igual a eles, eles te expulsam do grugo?
    - Acho que sim...
    - Amigos de verdade não hajem assim... Mas vamos falar de outras coisas, esse assunto é seu, você que tem que refletir sobre isso... Então... Que profissão você deseja seguir? Afinal... Já estamos no segundo ano...
    - Meu pai quer que eu seja dentista, que nem ele.
    - Que profissão você quer seguir.
    - Eu? Eu não sei... Às vezes eu componho algumas músicas e toco no meu violão... Eu queria tocar... Saber tocar vários instrumentos, mas isso é um sonho idiota... - Ele baixou um pouco a cabeça.
    - Eu acho o máximo!
    - Como? - Ele me fitou com aqueles belos olhos azuis novamente.
    - Acho que você deve seguir o seu sonho!
    - Mas eu vou morrer de fome... - Abriu um sorriso desconcertado.
    - As pessoas dizem isso porque tem medo.
    - Medo de quê?
    - Medo de sonhar, medo de arriscar, medo de serem felizes. Elas acham que só Medicina, Direito, Engenharia, Odontologia e esses cursos mais 'clichês' é que dão dinheiro. Mas, pra que esse dinheiro todo se não houver felicidade?
     - Mas as contas precisam ser pagas e existem responsabilidades, e depois eu posso fazer disso um hobby.
    - Depois quando? Depois de se formar em odontologia ou depois de ser um profissional frustrado? Você vai esperar ter 58 anos no seu consultório, vendo cáries, fazendo canais diariamente, e vai olhar pro passado e ver que nada foi bom, vai se sentir arrependido de não ter tentado...
    - Está aqui a sua pizza e seu refrigerante ó grande majestade! - Disse Felipe de forma sarcástica, ao voltar com o lanche. - Comprei isso pra você Diego... - Entregou o lanche para o outro.
    - Obrigado...- Diego respondeu comigo em unissono.
    - A sua alteza vai precisar de mais alguma coisa, ou podemos nos retirar? - Indagou Felipe.
    - Descançar soldados... - Brinquei sorrindo. - Podem ir se quiserem
    - Vamos Diego?
    - Eu já estou indo, vá na frente...
    Felipe se afastou com uma expressão confusa.
    - Você até que é gente boa, apesar de estar nos chantageando. - Disse Diego.
    - De que outra forma você pararia pra conversar comigo?
    - Também não precisava ser assim... Mas, se vamos continuar com isso, que pelo menos seja sem conflitos... - Ele se levantou e partiu.
    Achei engraçado ele praticamente correndo pra alcançar o Felipe de um jeito desengonçado. Talvez esses populares não sejam um poço de perfeição...
    Voltei à minha sala. Roberta me olhava com a expressão confusa.
    - É impressão minha ou você passou o intervalo conversando com o Diego Albuquerque e com o Felipe Duarte?
    - Pra quê esses sobrenomes? Isso é uma novela mexicana por acaso?
    - Diga seu besta! - rebateu rindo.
    - Passei sim, acabei ficando amigo deles por causa do trabalho...
    - Cuidado Brunno, você não sabe com o que está lidando. - Ela me aconcelhou com seus olhos cor de avelão repletos de preocupação.
    - Eu sei o que estou fazendo! Relaxe!
    Pude perceber que no decorrer das aulas eles conversavam bastante, pareciam discutir sobre algum assunto. Um professor ficou a um passo de expulsá-los da sala. Eles pareciam não parar de falar e falar, o que eles tanto diziam?
    Na saída fiz questão de pegar o telefone dos dois, além de emails e tudo mais.
    Voltei pra casa, tomei um banho e fui assitir um pouco de tv. Algumas horas depois meu celular tocou.
   -Alô?!
   - Oi Brunno... é o Felipe... - A voz dele estava meio entrecortada.
   - Oi... - Falei com imprecisão.
   - Queria te chamar pra vir aqui na minha casa, quero desfazer os maus-entendidos, você pode vir?
   - C-Claro... Estarei aí daqui a uma hora mais ou menos, é que o ônibus demora...
   - Eu vou te buscar daqui a meia hora, me dê o endereço..
    Depois de eu dar o endereço e ter fixado completamente perplexo fui colocar uma roupa melhor e tomar um outro banho. (Eu sempre gostei de tomar banho). Expliquei pra minha mãe que ia sair com uns amigos e que tudo foi programado de última hora. Ela deixou eu ir, mas pediu pra que eu voltasse cedo.
O que ele pretendia com tudo isso?



 

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 4

   
    Até o ar parecia mais leve, com o aroma delicado da aurora. As vozes conflitantes do corredor soavam como o mais melodioso silêncio. Sentei no meu lugar habitual e respondi de forma desatenta a todos os 'bom dia' que os meus amigos proferiam. Tânia chegou alguns minutos depois exibindo suas novas mechas californianas e tagarelando sobre o vídeo do trabalho. Eu só estava esperando o circo pegar fogo e a chance disso acontecer era de 100%. Tentei parecer natural e conversava algumas coisas com Roberta quando alguém bateu nas minhas costas. Virei lentamente e disse um 'huh?' me sentindo a própria Leandra Borges* ( A personagem da Ingrid Guimarães que é inspirada em Gisele Bündchen).
    - Preciso falar com você idiota! - Soltou Felipe. Eu podia ver o fogo em seus olhos.
    - Eu estou no meio de uma conversa aqui, não está vendo? - Respondi dando um sorriso malicioso.
    - Seu retardado... - Tentou reiniciar, mas Diego apertou seu braço.
    - Por favor, cara! - Sussurrou Diego.
    - Eu vou ali discutir umas coisas do trabalho de geografia tá Betão - (Eu chamo a roberta de Betão...kkk)
    - Tá certo! - Respondeu ela meio perplexa.
    Fui andando até o banheiro calmamente, mas meu coração já estava pulando pela boca. Será que fui longe de mais?
    - O que você quer? - Perguntou Diego tentando permanecer calmo.
    - Eu? - Indaguei ajeitando meu cabelo no espelho.
    - Não se faça de sonso seu... - Felipe começou, mas eu o interceptei.
    - Pra começar eu quero que você fique calado!- Falei. Estralando calmamente meus dedos um por um.
    - Felipe fique quetinho aí, você está com muita raiva, deixe que eu resolvo isso! - Pediu Diego com um tom mais de ordem do que de pedido. Ele respirou profundamente. - O que você quer? Dinheiro?
    - Que tal você parar de me ver como um morto de fome? Só porque eu não moro numa cobertura na Ponta Verde, não quer dizer que eu seja um mendigo.
    - Você quer se vingar porque a gente fez aquelas brincadeiras? - Diego tornou a falar.
    - Você acha que se eu quisesse fazer algo, eu já não teria feito?
    - O que você quer então? - Os belos olhos azuis dele eram suplicantes.
    - Eu quero me divertir às suas custas, assim como vocês fizeram comigo.
    - Eu vou te encher de porrada! - Felipe voltou a conversa.
    - Hã hã hã... Qualquer coisa que acontecer comigo o vídeo cai na internet, já tenho uma pessoa com ordens para fazer isso. Então fique quietinho aí e deixe eu falar com o outro débil mental. Voltando ao assunto anterior... Eu quero que vocês andem comigo o tempo todo. Afinal, quem não precisa de serviçais hoje em dia? hahahahahah - Começei a rir me sentindo a própria Paola Bracho.
    - Diga o quanto você quer e acabamos mais rápido com isso! - Disse Felipe usando de uma força quase Superhumana para não me dar um soco.
    - A vingança é um prato que se come frio... E eu sempre digo que 'devagarzinho é mais gostoso´ não é Diego?
    - Você não sabe com o que está se metendo! - Felipe estava prestes a estourar.
    - E você sabe muito bem onde se meter! - Voltei a rir saindo do banheiro. - Vejo vocês no intervalo, escravos!
    Parece que hoje será um longo e divertido dia...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 3


   No outro dia...
    - Aiiii bubuuuuu desculpa por não ter ido ontem... Sorry mesmoooooo... - Rangiu Tânia com sua voz insurpotável. Fiquei refletindo quando foi que eu dei intimidade pra ela me chamar de 'bubu'.
    - Ahhhh... Que nada, besteira. - Falei, exercendo minha simpatia, como sempre. - Depois você me recompensa! - Soltei um sorriso maroto.
    - C-Claro... - Respondeu ela desconcertada, seu rosto ficou ruborizado.
    Neste momento Felipe chegou na sala, visivelemente irritado e todo boyzinho como era de costume, mas não sentou perto de Diego. Passou pela minha cabeça uma idéia vaga do motivo e começei a rir.
    - Tá ficando doido é menino? - Indagou Roberta que se aproximara a pouco, me abraçando. - Está tão feliz de me ver assim?
    - Não sua besta... - Disse em tom de brincadeira. - Só acho a vida muito engraçada. Quando acho que ela não tem mais graça ela vem e me conta uma piada! - Voltei a rir
    - Eu também quero saber! É babado? Adorooooooo! - Ela sorriu ansiosa.
    - Nada de importante... - Voltei a rir. - O professor começou a dar a aula e tive que conter minhas gargalhadas. 'Será que sou tão perverso assim por rir disso?'.
    No final da aula voltei minha atenção para os dois novamente. Diego se levantou meio incerto estralando os dedos. Estava meio tenso. E foi falar com Felipe... Bom... Ele tentou falar com ele. Felipe fingiu que ele não existia e saiu da sala sem dizer nada.
    Eu mal conseguia manter a seriedade. 'Tudo que você faz contra alguém volta contra você triplicado'. Tinha ouvido isso um dia, algo como o Karma, mas não sabia que isso acontecia fora das novelas. Na aula de Geografia (duas aulas depois) a professora pediu para nos reunirmos de novo,o prazo já estava se esgotando, a entrega era amanhã. Acho que essa professora queria era umas aulas de folga, ficou lendo um romance enquanto a galera se reunia. Preguiçosa!
    A tensão estava presente na reunião.
    - Então... - Começou Tânia se debruçando sobre a mesa (os peitos dela ficavam maiores nessa posição... kkkkk). - Brunno, vocês tiveram progresso com o ensaio?
    - Quase nada ficou bom, gente irresponsável mal sabe decorar seu nome quisá decorar um parágrafo de texto. - Comecei a rir. Nenhum dos dois falou nada.
    - Ai... Vocês não funcionam sem mim não é meninos? Ai Ai Ai! - Repreendeu de forma infantil. - Eu estava pensando em usar a tela verde do meu irmão para a gente fazer uma montagem de inverno por trás, a gente podia usar uns casacos e ...
    - Como assim? - perguntei
    - Deixa ela falar babaca! - Soltou Felipe após ter voltado do seu breve coma emocional.
    - Vocês meninos podem fazer parte de uma espécie de telejornal e vocês serão os apresentadores. Eu serei a correspondente na Rússia e vou respondendo algumas perguntas que vocês fizerem e o bubu poderia ser o homem do tempo! Não é genial?
    - Claro que não... Por que vamos mudar a idéia toda? O que aconteceu com minha idéia do documentário? - Indaguei com raiva.
    - Eu achei ótima a idéia da Tânia e você Felipe? - Diego mencionou.
    - É! - Respondeu monossilabicamente.
    - Desculpa Bubu, foram três votos a 1.
    Deixei isso pra lá... Que ela faça como quiser, ela fez questão de acertar todos os detalhes e voltaríamos a casa de Felipe amanhã para fazer o vídeo. Eles prometeram a ela que iam ensaiar as falas. (As falas que a Tânia fez questão de modificar) e amanhã a tarde estaríamos lá novamente.
    Voltei pra casa e a possível briga dos amigos inseparáveis ficou rondando meus pensamentos. Depois de tomar um banho longo eu editei o vídeo, fiz 2 cópias e deletei o arquivo do computador. Aquilo era nitroglicerina pura! hahahaha *risada maquiavélica*. Fui dormir me sentindo um vilão de anime bem sucedido. Tipo a Renge do Ouran High School, saindo do chão com aquela gargalhada maléfica!!!
    O outro dia não teve nada de muito interessante na aula, a única novidade foi que os 'amiguinhos de infância' voltaram a se falar.
    Fui novamente ao prédio do riquinho metido, segurando o terno do meu pai na mão esquerda, batendo na porta com a direita. Alguns segundos se passaram. Tornei a bater e nada. Depois de 5 minutos eu fui atendido.
    - Ah... é você! - Pulverizou Diego desmanchando seu sorriso de boas-vindas endereçado à Tânia.
    Felipe logo apareceu muito exibido como sempre com a toalha na cintura, tinha acabado de sair do banho. Não pude deixar de dar uma espiadinha de rabo-de-olho pra conferir o material. *risos*
    - Pensei que fosse a Tânia... Você é bem pontual não é nerdzinho?
    - Responsável! - Exclamei mostrando o monte de coisas que estava carregando. - Onde posso colocar?
    - Coloca no meu quarto, em qualquer canto... Você sabe o caminho! - Disse Felipe com ar de desdém.
    Fui trotando pelo corredor, o peso da minha bolsa quase me fazia cair pra traz e tinha que ter o maior cuidado para não amarrotar o terno.
    - Você vai deixar ele ir lá sozinho? - Bradou Diego com zombaria. - Vai que ele rouba alguma coisa!
    Os dois começaram a rir e me seguiram até o quarto. Eu simplesmente me sentei na cama e tentava repassar as minhas falas. Felipe foi até seu guarda roupa e o abriu deixando sua toalha cair no chão e eu não consegui não olhar. Ele tinha um corpo escultural e suas costas eram perfeitas e malhadas. Sua bunda... Nossa... Era um pouco mais clara que a pele bronzeada que ele tinha e era perfeitamente redondinha. Ele logo vestiu uma cueca box branca e virou pra cama. Eu disfarcei. (ou bem que tentei) Mas a parte da frente também era interessante, nossa! 'Para de pensar essas coisas Brunno! Seu idiota! Foco! Foco!' pensei olhando pro outro lado. Diego estava tirando a camisa e mostrando a sua maravilhosa tatuagem de tribal contrastando com sua pele branca. Seu corpo parecia ter sido esculpido pelo melhor artista do mundo, não perdendo nenhum pouco para o corpo de deus grego do Felipe.
    Fui ao banheiro e me troquei também. Quando voltei ao quarto Tânia já tinha chegado e tagarelava um monte de besteiras. A tela verde já estava armada e o ar condicionado já estava congelando minhas mãos. Ela puxou um casaco-sobretudo enorme da bolsa que tinha as bordas e o capuz revestidos de pele (não sei dizer se era animal ou sintética). Tânia mais parecia uma capa da Playboy inspirada em esquimós, do que uma correspondente de um jornal. O casaco ficou bem apertado naqueles seios enormes e os meninos nem disfarçavam ao olhar.
    Depois de todo aquele showzinho que ela fez, entre pausas pra maquiagem e a tietagem dos garotos eu enfim falei a minha fala quase minúscula apontando com uma antena quebrada de tv algumas áreas coloridas no mapa da Rússia. Os garotos riram muito da minha cara, vale frisar. Depois daquilo tudo Tânia (vulgo: a Biscate peituda) logo foi embora recolhendo sua tela verde e seu casaco caramelo dizendo que tinha algo pra fazer no cabeleireiro.
    'Eis a minha deixa!' Pensei. Arrumei as minhas coisas calmamente e quando estava sendo enxotado como da outra vez finalizei.
    - Ah... Antes que eu esqueça! - Disse antes que Felipe fechasse a porta. - Gravei aqui suas brincadeirinhas de ontem, se vocês quiserem assistir! - Entreguei o dvd que tinha escrito 'Explorando a Geografia'. - Faço questão que vocês assistam. Afinal, vocês podem rir da minha cara de novo não é?
    - É só olhar pra sua cara que já tenho vontade de rir seu retardado! Mas já que faz questão de se humilhar de novo, vamos assistir agora... Que tal você ir embora?
    - Ah... Só pra constar! Eu tenho uma cópia, também achei muito engraçado. - Comentei, Felipe fechou a porta na minha cara.
    Tudo que eu tinha que fazer agora era correr! Desci as escadas a toda e parti dizendo um 'tchau' para o porteiro. Mesmo com o terno e a maxi bolsa gigantesca eu pude ir rápido até o ponto e pra minha sorte meu ônibus não demorou. O que será que eles vão achar do meu videozinho?
     Começei a rir novamente. Qual vai ser a cara deles amanhã?