- Aquele imbecil? – Sussurrou ele. Permanecendo
na mesma posição.
- Era melhor nem ter comentado nada... –
Respondi revirando os olhos.
- Desculpa Brunno... – Ele abriu os olhos e
sentou na cama olhando para mim. – Você acha, sinceramente, que isso vai dar certo?
- Não posso ter certeza... Mas, só quero a
amizade dele! – Menti.
- Isso é o que você diz aos outros Brunno,
nós sabemos que você planeja ir muito mais além. – Felipe tinha chegado a um nível
interessante de perspicácia, alguns tipos de mentiras que eu contava começavam
a perder o efeito.
- É... Acho que não posso negar isso, não
para você! Mas, eu não quero falar disso agora... Pode ser? – Eu não considero
que Felipe seja a melhor pessoa para se conversar sobre relacionamentos amorosos.
- Claro que pode, mas, se você pedisse o meu conselho eu diria pra você
se afastar dele o quanto antes! – Preveniu. Com um tom estranho na voz.
- Obrigado... – Respondi meio sem jeito. Não
entendi as motivações levaram Felipe a não gostar do Alan a ponto de querer que
eu me afaste dele e a fazer esses comentários tão contrários. – E você e a Tânia,
como estão?
- Estou aprendendo a tolerar... –
Respondeu, respirando fundo.
- Os pais dela já sabem? – Percebi que esse
era o momento certo para fazer as perguntas que mais o incomodavam.
- Nós estamos pensando na melhor maneira de
falar... Na verdade, eu estou! Porque sei que ela bem queria sair espalhando
por aí a notícia. Estou adiando o máximo que posso, mas eu tenho plena consciência
que não vou conseguir fazer isso por muito tempo.
- Bom, existe uma possibilidade de que os
pais dela peçam pra você se casar com ela, caso eles sejam muito tradicionais,
o que você faria nessa situação?
- Como você mesmo já comentou em outra
conversa, estamos no século XXI. Então, não preciso necessariamente me casar
com ela. Vou assegurar que não vai faltar nada para essa criança...
- Você está preparado para ser pai?
- Prefiro nem pensar nisso sabe? Você melhor
do que ninguém sabe que eu não queria estar nessa situação... Imagina se eu ia
querer aquela idiota buzinando no meu ouvido todos os dias ‘você deveria ser
mais romântico comigo’, ‘faz um poema pra mim, eu acho tão lindo isso’ e blá,
blá, blá...
- Poema? De onde ela tirou isso?
- Sei lá, deve ter começado a prestar atenção
nas aulas de literatura e ter pegado gosto, o que eu acho muito difícil. Pode
ser só manha de menina iludida que sonha com o príncipe encantado!
- Eu acho que aquela ali só quer dar o
golpe da barriga mesmo!
- Obrigado, Brunno!
- Desculpa Felipe, mas é o que eu penso!
- E o pior é que você está certo! Eu me
arrependo todos os dias de ter me envolvido com ela... Mas é que, eu estava me
sentindo estranho... Eu comecei a pensar no que os meus pais diriam se
descobrissem sobre o que eu tinha com o Diego. Estava achando que isso era
errado... Sei lá... Pensei que se eu dormisse com ela talvez as coisas fizessem
mais sentido...
- E fizeram? – Indaguei.
- Não... Foi péssimo! Eu não conseguia me
concentrar direito, bebi mais do que devia e no outro dia acordei com dor na
consciência e ressaca! Não queria ter feito isso com o Diego... Acabei
percebendo que eu saia com meninas para provar alguma coisa para os outros...
- Para se sentir aceito?
- Acho que sim, tinha medo do que as
pessoas iam pensar.
- E hoje, você tem?
- Hoje eu nem me importo mais! Os meus
amigos só estão comigo para ir a festas, falar bobagens... Já ouvi diversas
vezes eles criticarem os gays em geral. E eu sentia como se aquele comentário
tivesse sido feito diretamente pra mim, sabe? Mas, eu tinha que disfarçar e
tentar ouvir com naturalidade.
- Então, quer dizer que...
- Sim! Eu sou gay Brunno! Não gosto mesmo
de mulheres! Satisfeito?
- Eu? Não tenho que está satisfeito com
isso – Fiz uma pausa. – Você está?
- Eu estou. Só queria que tudo voltasse a
ser como antes, eu daria tudo para ter o Diego de volta, por ele sim eu faria
um poema...