segunda-feira, 6 de maio de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 73



    Fitei aquele rosto conhecido demoradamente, ainda entorpecido. Eu me sentia como alguém que tinha sido acordado de um sonho bom, sabia que não poderia voltar novamente para ele, mas, no entanto, não queria voltar à realidade.
    - Felipe? O que você disse? – Indaguei confuso.
    - Sei que você não quer se envolver com nada que relacionado a mim e sei que não estou em posição de pedir isso, mas... – Ele fez uma pausa, engolindo seco o orgulho que ainda restava dentro dele e continuou entre dentes: - Eu preciso da sua ajuda! Não agüento mais a Tânia falando idiotices no meu ouvido e de alguma forma, as conversas com meus amigos antigos não me interessam. Preciso de um ‘tempo’ de tudo, mas não quero ficar sozinho nesse tempo!
    - Felipe, o que você quer dizer com isso? – Perguntei. O excesso de explicações e a minha lentidão mental não me permitiam muita compreensão.
    - Queria que nós passássemos uma tarde juntos. Você só precisa me ensinar alguma matéria ou a gente pode jogar videogame, qualquer coisa! – Pediu ele, com um olhar mais suplicante do que o normal.
    - Embora eu ache bem estranho esse pedido, não tem porque eu não acatá-lo! Acho que uma tarde sem estudar não fará mal nenhum!
    - Te pego em casa que horas?
    - Isso é hoje? – Questionei, mas acabei desconsiderando a pergunta, dada a expressão estranha no rosto de Felipe.
    - É que... – Ele tinha recomeçado a se explicar.
    - Duas e meia na minha casa!
    -Obrigado! – Agradeceu. Saindo com uma expressão de desolação em direção à cantina.

[...]

    Minha vontade era de inventar algum assunto qualquer para puxar com Alan, na esperança de que nós poderíamos passar alguns dos minutos do intervalo falando sobre qualquer assunto banal. Mas, era muito cedo para tentar algo assim, seria forçar muito a barra. Além disso, embora eu achasse difícil, o ideal nessa situação era eu não criar maiores expectativas quanto a minha amizade com o Alan. Ela poderia apenas voltar ao que era, e nossa relação nunca passou desse nível de ‘amizade’.
    Resolvi ir à biblioteca, ler qualquer coisa até a hora de tocar o sinal.

[...]

    Com o sinal tocando uma música gospel, que atualizava diariamente a lavagem cerebral que era feita no colégio, fui andando distraidamente em direção à sala. Inclinei meu corpo sobre o bebedouro para beber água.
    - Não é justo isso que você está fazendo comigo! Você não sabe que eu gosto de você? – Sussurrou uma voz masculina.
    - Não estamos mais juntos. Aceite isso! – Sussurrou uma voz que eu mal consegui distinguir.
    Levantei meu rosto, tentando transparecer naturalidade e pude ver Roger parado, fitando a multidão, de alunos andando em direção às suas respectivas salas, com expressão de perplexidade.
    - Isso não é justo! – Sussurrou para si. Depois começou a andar rapidamente, estralando cada um dos dedos com impaciência.

[...]

    - Obrigado mesmo Brunno, por você ter aceitado vir até aqui! – Disse Felipe quando entramos no seu quarto. Tirando com rapidez seus tênis e meias.
    - Não tem o que agradecer! –Respondi.
    - Fique a vontade! – Ele foi em direção a cama, tirando rapidamente a camisa e a calça. – Que calor infernal! Bem que um inverno viria a calhar nessa cidade, não? – Ele pegou o controle do ar condicionado e acionou o botão para ligá-lo.
    - O quê...? – Eu não sabia ao certo o que eu estava querendo perguntar. Mas, Felipe de cueca esparramado na cama, não era uma imagem que eu esperava ver nesse momento, embora eu gostasse de vê-la.

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