- O que aconteceu com o ‘Não quero falar
com vocês nunca mais’? – Iniciou Felipe, quebrando o clima de silêncio ao sentar
à mesa de pedra do pátio perto da cantina.
- Eu ainda estou com esse pensamento, mas
eu não posso deixar tudo ficar do jeito que está e me sinto obrigado a tirar
você dessa enrascada. – Respondi, apoiando meu queixo nos meus dedos
entrelaçados.
- Faltou chamar o Diego... – Começou ele.
- Não... – Disse, interceptando sua fala. -
Vamos resolver isso entre a gente!
- Certo... Certo... Como você quiser,
contanto que você desgrude aquela idiota de mim! – Felipe revirou os olhos e me
fitou de forma séria. – Qual é o plano?
- Bom... Pra início de conversa eu acho que
essa tal gravidez é completamente falsa! Isso está me cheirando a golpe da
barriga, ou seja, estou sentindo cheiro de desespero e, como eu sempre digo,
pessoas desesperadas tomam medidas extremas...
- Dá pra você me poupar dessa sua linha de
raciocínio disléxica e ir direto ao ponto? – Felipe interveio, ele estava
querendo chegar ao quociente antes de realizar a operação.
- ‘Os jovens de hoje não sabem esperar’...
– Parafraseei meu avô, soltando uma risada abafada. – Certo... Vamos direto ao
ponto: não existe complicação e não é necessário a gente pensar em um plano
mirabolante pra conseguir resolver isso, se ela não está grávida, como eu
imagino, e sendo desesperada do jeito que ela é, ela vai querer engravidar de
verdade!
- O quê? – Perguntou ele, como se eu
estivesse falando a coisa mais absurda do mundo.
- Ela vai tentar fazer sexo com você
enquanto você estiver bêbado ou vai furar a camisinha com uma agulha antes de
vocês... – A imagem da cena me veio a cabeça e eu não pude evitar uma expressão
de nojo.
- O que foi? – A conexão entre minha fala e
minhas expressões faciais não estava ajudando a compreensão limitada de Felipe.
- Nada... – Chacoalhei a cabeça, como se
varresse esse pensamento. – Continuando... Ou ela pode achar mesmo que está grávida. Isso se chama gravidez
psicológica... Ela pode achar que está sentindo enjôo e mais outros sintomas,
mas tudo ser fruto da cabeça dela...
- Você não acha que anda lendo historinhas
de mais?
- Felipe... Temos que considerar todas as
possibilidades, não podemos subestimar a Miss Peitos!
- Miss... – Ele começou a rir. – Tinha
esquecido de como você é engraçado! – Felipe pousou a mão dele sobre o meu braço
e riu de forma descontraída. Quem não ficou confortável com essa situação fui
eu, que logo senti aquele arrepio se propagando pelo meu corpo. Eu não tinha
costume de ser tocado por um garoto, já que eu tinha só amigas mulheres, então,
isso para mim, apesar de parecer um simples clichê, era um terremoto de 8 pontos na escala richter.
- Voltando ao foco... É muito simples, é
só fazer um teste de gravidez e pronto e para ela não ficar te enrolando que
tal você fazer uma surpresinha? Finja que é romântico para ela!
- Eu não vou...
- Você vai fazer exatamente o que eu
mandar! – Elevei o tom de voz. Odiava quando eu estava tentando ajudar alguém e
o beneficiado atrapalhava meu trabalho. Voltei ao meu tom habitual. – A gente
precisa pegá-la desarmada. Fique um tempo sendo romântico, com doses pequenas,
para ela não desconfiar... Vá aumentando a intensidade gradativamente e quando
você sentir que ela está na sua mão, a gente vai agir...
- Obrigado Brunno! – Ele se aproximou de
mim e pegou minha mão por debaixo da mesa.
- Que parte do ‘não quero falar mais com
vocês’ você esqueceu Brunno? – Bradou Diego, que surgiu sorrateiramente atrás
de nós.
- Mesmo que eu tivesse esquecido, e eu não
esqueci, valeu pelo lembrete, Diego! – Respondi, me levantando. – Já resolvi
tudo que tinha pra resolver! – Nem olhei para ele para não me perder novamente
dos meus objetivos, saí andando apressadamente, sem olhar para trás.

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