quarta-feira, 27 de junho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 56



    Apesar do alívio que se espalhou pelo meu corpo por um tempo considerável, devido ao fim dos turbilhões de problemas atrelados a Diego e Felipe, com o passar do tempo, esse alívio deu lugar a outros sentimentos. Não era fácil ver a Tânia, a biscate grávida, se pendurar no pescoço de Felipe e desfilar com ele pra cima e pra baixo, mostrando-o para todos como um troféu. Ela enchia a boca ao referir-se a ele como ‘meu namorado’ e obviamente a minha vontade era presenteá-la com um bom e velho ‘tapa de mão cheia’, mas, infelizmente, eu fui criado para ser um cavalheiro. Diz-se no ditado popular que ‘um homem não bate numa mulher nem com uma flor’, pensando nisso foi inevitável que eu imaginasse a cena em que eu bateria na retardada peituda com rosas cheias de espinhos esguichando sangue por todos os lados.
    Deixando os meus pensamentos sádicos, provavelmente derivados pela maratona de jogos mortais que eu assisti nesse final de semana para tentar não pensar na última briga que me afligiu, pude observar, no outro pólo, que Diego estava isolado. Mesmo que estivesse cercado dos outros componentes do grupo dos populares da sala, que eu não chego a comentar na minha narrativa porque eles não passam de débeis mentais inúteis, sua solidão era perceptível, de forma quase que gritante. Seu olhar vazio e sua falta de entusiasmo para as coisas eram evidentes, mas parecia que ninguém notava isso, ou simplesmente não se importavam.
    Minhas notas tinham caído consideravelmente, eu conseguia me manter ainda acima da média, mas nos novos resultados eu não tinha nenhuma nota superior a oito e isso me preocupava profundamente. Eu precisava esquecer tudo um pouco e me focar nos estudos.
    Eu sempre me excluí daquela sala e me restringia a poucas relações sociais, acho que em parte, era pelo medo de estar me sentindo assim como estou agora. Eu fui longe de mais ao querer ultrapassar a linha de amor platônico para a convivência real com aqueles garotos, eu desconstruí toda a ideia de ‘mauricinhos perfeitinhos’ e pude conhecer o outro lado deles, e foi justamente esse lado pelo qual eu realmente me apaixonei.
    Eu sentia que minha missão não estava completa e mesmo que eu quisesse me afastar dos problemas que envolviam Diego e Felipe, meu senso de justiça não me deixaria em paz até que eu derrubasse a Tânia do posto de vencedora. Eu me sentia culpado pela separação dos dois e era meu dever fazer com que tudo “voltasse ao normal”, como quando o Timmy Turner fazia um desejo ruim e pedia aos seus padrinhos mágicos: “quero que tudo volte ao normal”. Mas, não ia ser tão fácil como no desenho, e varinhas brilhantes não iriam garantir a minha vitória.
    Algo me dizia que essa possível gravidez de Tânia ou era o golpe da barriga, um dos mais velhos do mundo, ou era gravidez psicológica derivada de uma mente vazia e fútil que tinha sido preenchida pelo ressentimento pelo abandono atrelado ao seu desejo desesperado de namorar o Felipe. No entanto, eu não queria transformar essa batalha em um ato heróico que restabeleceria minha relação com eles dois, então, tinha que fazer tudo por debaixo dos panos.
    O professor saiu da sala e em seguida o sinal tocou. Diego saiu acompanhado da sua nuvem de ‘amigos’ populares sorrindo e falando besteira, fingindo que está tudo bem. Tânia agarrava Felipe desesperadamente perto do quadro, a expressão dele de tédio era quase cadavérica. Mesmo que eu quisesse resolver tudo sozinho, eu precisava do Felipe para terminar com isso de uma vez por todas, então, eu precisava romper temporariamente com a minha promessa de não falar com eles, e o pior de tudo: eu estava ansioso em fazê-lo!
    - Opa! O negócio está bom aí, mas eu posso roubar o Felipe um pouquinho? – Falei quebrando o clima. Ele me fitou com uma feição de surpresa e ao mesmo tempo de um alívio equivalente a alguém que tinha ficado num poço escuro por dias e finalmente foi resgatado.
    - Ah! Claro Bubu! Mas, me devolve ele inteirinho certo? – Disse ela com um sorriso de orelha a orelha.
    - Claro! – Falei sorrindo. Não sua idiota, vou matá-lo, esquartejá-lo e te devolver ele em partes dentro de sacolas plásticas! Pensei, no meu devaneio irônico pautado nas minhas maratonas noturnas de Dexter. Não nego pra ninguém que não tenho vida social e vivo assistindo seriados!
    Saí andando em direção à porta da sala, ali não era o lugar adequado para se ter esse tipo de conversa.

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