Apesar do alívio que se espalhou pelo meu
corpo por um tempo considerável, devido ao fim dos turbilhões de problemas
atrelados a Diego e Felipe, com o passar do tempo, esse alívio deu lugar a
outros sentimentos. Não era fácil ver a Tânia, a biscate grávida, se pendurar
no pescoço de Felipe e desfilar com ele pra cima e pra baixo, mostrando-o para
todos como um troféu. Ela enchia a boca ao referir-se a ele como ‘meu namorado’
e obviamente a minha vontade era presenteá-la com um bom e velho ‘tapa de mão
cheia’, mas, infelizmente, eu fui criado para ser um cavalheiro. Diz-se no
ditado popular que ‘um homem não bate numa mulher nem com uma flor’, pensando
nisso foi inevitável que eu imaginasse a cena em que eu bateria na retardada
peituda com rosas cheias de espinhos esguichando sangue por todos os lados.
Deixando os meus pensamentos sádicos,
provavelmente derivados pela maratona de jogos mortais que eu assisti nesse
final de semana para tentar não pensar na última briga que me afligiu, pude
observar, no outro pólo, que Diego estava isolado. Mesmo que estivesse cercado
dos outros componentes do grupo dos populares da sala, que eu não chego a
comentar na minha narrativa porque eles não passam de débeis mentais inúteis, sua
solidão era perceptível, de forma quase que gritante. Seu olhar vazio e sua
falta de entusiasmo para as coisas eram evidentes, mas parecia que ninguém
notava isso, ou simplesmente não se importavam.
Minhas notas tinham caído consideravelmente,
eu conseguia me manter ainda acima da média, mas nos novos resultados eu não
tinha nenhuma nota superior a oito e isso me preocupava profundamente. Eu
precisava esquecer tudo um pouco e me focar nos estudos.
Eu sempre me excluí daquela sala e me
restringia a poucas relações sociais, acho que em parte, era pelo medo de estar
me sentindo assim como estou agora. Eu fui longe de mais ao querer ultrapassar
a linha de amor platônico para a convivência real com aqueles garotos, eu
desconstruí toda a ideia de ‘mauricinhos perfeitinhos’ e pude conhecer o outro
lado deles, e foi justamente esse lado pelo qual eu realmente me apaixonei.
Eu sentia que minha missão não estava
completa e mesmo que eu quisesse me afastar dos problemas que envolviam Diego e
Felipe, meu senso de justiça não me deixaria em paz até que eu derrubasse a
Tânia do posto de vencedora. Eu me sentia culpado pela separação dos dois e era
meu dever fazer com que tudo “voltasse ao normal”, como quando o Timmy Turner
fazia um desejo ruim e pedia aos seus padrinhos mágicos: “quero que tudo volte
ao normal”. Mas, não ia ser tão fácil como no desenho, e varinhas brilhantes
não iriam garantir a minha vitória.
Algo me dizia que essa possível gravidez de
Tânia ou era o golpe da barriga, um dos mais velhos do mundo, ou era gravidez psicológica
derivada de uma mente vazia e fútil que tinha sido preenchida pelo
ressentimento pelo abandono atrelado ao seu desejo desesperado de namorar o
Felipe. No entanto, eu não queria transformar essa batalha em um ato heróico
que restabeleceria minha relação com eles dois, então, tinha que fazer tudo por
debaixo dos panos.
O professor saiu da sala e em seguida o
sinal tocou. Diego saiu acompanhado da sua nuvem de ‘amigos’ populares sorrindo
e falando besteira, fingindo que está tudo bem. Tânia agarrava Felipe
desesperadamente perto do quadro, a expressão dele de tédio era quase
cadavérica. Mesmo que eu quisesse resolver tudo sozinho, eu precisava do Felipe
para terminar com isso de uma vez por todas, então, eu precisava romper
temporariamente com a minha promessa de não falar com eles, e o pior de tudo:
eu estava ansioso em fazê-lo!
- Opa! O negócio está bom aí, mas eu posso
roubar o Felipe um pouquinho? – Falei quebrando o clima. Ele me fitou com uma
feição de surpresa e ao mesmo tempo de um alívio equivalente a alguém que tinha
ficado num poço escuro por dias e finalmente foi resgatado.
- Ah! Claro Bubu! Mas, me devolve ele
inteirinho certo? – Disse ela com um sorriso de orelha a orelha.
- Claro! – Falei sorrindo. Não sua idiota, vou matá-lo, esquartejá-lo e
te devolver ele em partes dentro de sacolas plásticas! Pensei, no meu
devaneio irônico pautado nas minhas maratonas noturnas de Dexter. Não nego pra
ninguém que não tenho vida social e vivo assistindo seriados!
Saí andando em direção à porta da sala, ali
não era o lugar adequado para se ter esse tipo de conversa.

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