sábado, 14 de janeiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 32


    - E então Dih... Está se sentindo melhor? – Eu disse, logo que ele abriu os olhos.
    Estávamos na enfermaria do meu colégio que, por incrível que pareça, eu nunca tinha visitado. Eu quase nunca ficava doente. Deitado na pequena cama suspensa estava Diego, ainda sem entender o que se passava.
    - Diego? – Disse Felipe, ao perceber que ele não tinha respondido a minha pergunta.
    - Oi Lipe... Como eu vim parar aqui? Onde eu estou?
    - Calma... Você apenas desmaiou e está na enfermaria! – Respondeu Felipe de forma carinhosa, passando a mão na cabeça dele.
    Eu fui andando lentamente até o balcão da enfermeira para avisá-la que Diego já tinha acordado. Ela estava procurando algum tipo de substância para fazê-lo acordar. Eunice, a freira enfermeira, andou rapidamente em direção a Diego. Ela pediu que ele permanecesse em silêncio enquanto ela verificava sua pressão.
     - Olha só Diego... – Ela começou a falar - Sua pressão baixou um pouco, mas não há nada com que se preocupar. Na verdade, não entendo porque você desmaiou. Você se alimentou direito hoje?
     - Acho que tomei um suco... Não me lembro bem, devo ter saído de casa atrasado...
     - Rapazinho não faça mais isso! Você precisa se alimentar direito querido! Esses adolescentes não tem jeito... – Ela deu um largo sorriso de dentes amarelados.
    - Eu já posso... Ir? – Indagou Diego com aquela cara de pidão que desarmava até bomba-relógio.
    - Claro! Vão com Deus! – Ela fez uma breve pausa - Meninos... Ajudem seu amigo certo? Ele pode estar um pouco tonto ainda... – Ela foi rapidamente até sua mesa e voltou com um quadradinho de papel rosa choque. – Não esqueçam do bilhete!
    Os bilhetes eram quase como um “passe de corredor” na minha escola. Todo aluno que estava fora de sala por motivos importantes como estar na coordenação, na diretoria, na enfermaria, na psicóloga ou até com o serviço de orientação religiosa precisaria de um desses chamativos bilhetes coloridos, devidamente assinados, para retornar à sala.
    Nós fomos andando com o Diego até um local do meu colégio que era todo revestido de porcelanato azul no chão e que tinham alguns bancos que ficavam meio escondidos. Lá nós teríamos mais sossego, caso contrário, o belo bilhete rosa choque, que não tinha uma hora inscrita, na presa a enfermeira só assinou a data e esqueceu de preencher a hora, iria nos proteger.
    - Acho que está na hora de você sair Nerdzinho! – Disse Felipe, logo quando nos sentamos.
    - Tá! – Retruquei me levantando.
    - Não, Brunno! Fique, precisamos conversar... – Pediu Diego.
    - Ok! – Respondi, voltando a me sentar.
    - Olha só Brunno, eu não sei o que o Felipe te disse, mas... – Ele foi interrompido.
    - Já foi chorar pra mamãe foi? – Rosnou Felipe entre dentes.
    - Lipe... – Ele colocou seu olhar de desaprovação para Felipe, fazendo-o se calar.
    - Como eu dizia... Eu não sei o que foi dito, só sei que não foram coisas boas, você sabe como Felipe é péssimo com as palavras... – Ele pousou um dedo sobre a minha boca interceptando minha possível fala. – E nós pedimos desculpas por isso, não é Felipe?
    - Está bem Nerdzi... – Ele se corrigiu antes de continuar a falar. – Brunno, desculpa! Satisfeito? – Felipe aparentava estar com raiva.
    - Isso realmente não é necessário Diego! – Respondi. – O que ele disse ou não disse não é importante, só sei que vou acabar logo com essa situação!
    - Nem se atreva a mostrar... – Reiniciou Felipe
    - Não se preocupe, por enquanto, eu não tenho intenção de divulgar nada. Em breve chamarei vocês para entrarmos num acordo quanto a essa questão. Até lá, eu não quero conviver com vocês! Não quero que você Diego faça o sacrifício de ficar dando em cima de alguém tão ridículo como eu para conseguir aquela porcaria de DVD de volta, nem quero o Sr. Esquentadinho me ameaçando pelos corredores. E é só isso que eu tenho a dizer! – Me levantei bruscamente e saí dali.

[...]

    Não queria ouvir mais nada daqueles dois. Eles acabaram me seguindo, porque eu estava com o bilhete. Bati levemente na porta e entreguei o bilhete ao professor de redação, sentando-me no lugar de costume. Roberta me olhou com um olhar de dúvida, que logo se substituiu por compreensão ao perceber que Diego e Felipe entraram comigo. Ela não me fez mais perguntas, sabia que mais tarde eu ia satisfazer todas suas curiosidades com um mero suborno de algumas taças de sorvete de menta.

[...]

    Eu me joguei no sofá da casa da Roberta como de costume. Os pais dela estavam viajando para resolver um problema familiar na Paraíba e ela ficaria sozinha por alguns dias. Rosa, a empregada ou como gostaria de ser chamada “executiva do lar”, não demorou muito para servir o almoço. Nós conversávamos sobre os temas dos trabalhos de redação que teríamos que fazer. Por causa da minha ausência da sala, eu tinha perdido toda a explicação do professor. Em sumo, o querido professor Osvaldo queria que nós fizéssemos 20 redações, escolhidas dentre os 50 tipos de temas e entregasse tudo isso no final de novembro encadernado. Ele era um professor muito exigente, e certamente o meu professor favorito. Eu nunca  consegui uma nota máxima na matéria dele, apesar das minhas notas serem umas das melhores da sala, num máximo de 0 a 18 eu geralmente tirava 16 ou 17, mas acho que isso, em parte, me instigava a melhorar a minha escrita.
    Depois do almoço, munida pelas taças de sorvete, Roberta me conduziu ao quarto dela, e começou a fazer perguntas e eu, entre uma colherada e outra, ia sanando suas dúvidas.
    No final de tudo, Roberta resolveu analisar a questão.
    - Brunno... Eu estou com medo de você se machucar nessa história... Eu sei que você gosta do Diego e não é de hoje! E não adianta querer dizer que você não tem uma quedinha pelo Felipe também!
    - Eu não gosto do Felipe!!!
    - Lembra dos jogos internos do ano passado? Quando ele saiu da piscina com aquela sunga vermelha depois de ter ganhado o ouro para o 2° “A”?
    - O que é que tem?
    - Você ficou babando por ele e me disse que se ele tivesse cérebro, você provavelmente estaria apaixonado por ele também...
    - Foi só um comentário...
    - Brunno! – Roberta fez aquela cara de ‘deixa dessa’ para mim.
    - Apesar dele ser um completo idiota e ter um grão de arroz no lugar do cérebro, não vou mentir que gosto dele... Nas festas, dançando com as meninas, conversando com todo mundo e sendo sociável até que ele parece ser uma boa pessoa.
    - Enfim querido Bruninho... Tenha juízo viu? Eu sei que você tem a cabeça no lugar, mas também não precisa repetir o que você fez na 5ª série!
    - Mas... Você tem que admitir que aquilo foi divertido!- Rebati caindo na gargalhada, eu era terrível na 5ª série e fiz várias coisas divertidas  para me vingar dos idiotas que falavam mal de mim pelas costas.
    - Brunno... – Ela reiniciou fazendo sua cara de reprovação. – Já dizia o sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, pois mata a alma e envenena! – Ela caiu na risada, mas sei que ela estava me dando um conselho muito importante no meio daquela brincadeira.
[...]

     Voltei para casa. Precisava dar andamento ao meu plano para recuperar o DVD. Minha irmã estava jogada no sofá assistindo um especial na VH1 sobre os Hansons. Como era de costume ela já veio fazendo algumas exigências.
    - Os pratos estão esperando você na pia certo irmãozinho? – Disse ela enquanto eu tentava ir sorrateiramente para o quarto. -  E cadê o meu laptop heim?
    - Espere aí... – Eu fui rapidamente no meu quarto e peguei o MEU laptop para dar para a minha irmã retardada. – Está aqui! – Eu disse, estendendo-o em sua direção.
    - Pode colocar ali no raque!
    Eu coloquei e já estava saindo de fininho antes que recebesse mais ordens. Sem sucesso.
    - A mamãe pediu para que eu fizesse suco de maracujá... Então... Você pode fazer para mim irmãozinho? Os maracujás estão na mesa da cozinha... – Iniciou ela com ironia. – Ah!  Então esqueça de trazer um copinho para mim.
    - Tá!  - Rosnei com raiva.
    Ela não sabia que estava cutucando onça com vara curta, mas ela não perdia por esperar...

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