terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Retomada


Caros Leitores,

Agradeço imensamente a sua paciência e fidelidade ao blog!
Daqui a algumas semanas será um aniversário muito triste para o blog: 3 Meses sem postagens! Por mais que isso pareça absurdo, existe um bom motivo por traz dessa minha falta! (Ou vários motivos, melhor dizendo)...
 Por questões de ordem pessoal e profissional eu tive que me afastar mesmo, para me focar em outros aspectos da minha vida, mas agora planejo voltar! Espero que vocês tenham um pouquinho de paciência, porque eu tenho que me situar novamente na história para voltar a reescrevê-la! Vou me dedicar ao máximo no carnaval para adiantar algumas coisas... Em breve eu divulgo a data oficial  da minha volta!

XO XO
Brunno Biancchi

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 68



    Eu ainda estava estarrecido com aquilo. Quando eles pararam o beijo e se abraçaram. Diego saiu do pequeno e mal iluminado corredor que se encontrava e ao dobrar a esquina do corredor desapareceu. O outro vinha na direção em que eu estava. Entrei rapidamente na biblioteca e fingi que estava procurando alguns livros por trás de uma prateleira. Diego só podia ter ficado completamente louco ao se envolver com aquele garoto e ainda mais arriscar um beijo daqueles dentro do colégio.
    Pude perceber que ele andou teatralmente fingindo que procurava alguma coisa nas prateleiras e depois de um tempo, sentou-se em uma das mesas. Abriu um livro de química que achou por ali mesmo e colocou seu iphone do lado. Depois de um alerta vibratório discreto, ele leu e respondeu uma mensagem de texto.
    Com meu exemplar tão almejado de Romeu e Julieta em mãos sentei em uma mesa onde podia ter uma visão estratégica dele. Tentei não olhar muito e não fixar na minha cabeça aquele beijo que eu tinha visto, mas como ele, eu precisava disfarçar um pouco antes de sair da biblioteca também.
    Mariana, uma das meninas populares e bonitas da minha sala, entrou na biblioteca e sorriu quando me viu. Ela era realmente simpática e parecia ser uma pessoa de bom caráter, mas eu preferia não me envolver com muita gente naquela sala, já que não tinha padrão financeiro e de sociabilidade para tanto.
    - Brunno! Que sorte encontrar você por aqui!
    - Oi, Mariana! Tudo bom? – Indaguei. O início da fala dela já me indicava que ela queria alguma informação de mim.
    - Você sabe o assunto da prova de Química 2? – Perguntou. Fazendo um gesto de “espere aí” para alguém que estava do outro lado da biblioteca.
    - Se eu não me engano é: Hidrocarbonetos... – Fiz uma pausa para fingir que estava me lembrando, ela interveio.
    - Hidro... O quê? – Ela fez uma careta meio engraçada.
    - Alceno, Alcino... Nomenclaturas... Aquelas cadeias de carbono...
    - Ah! São aquelas formulazinhas não é? Acho aquilo tão complicado... Enfim, depois você escreve num papel e me manda na aula está certo? O chato do meu namorado está impaciente ali! - Ela saiu sem esperar nem a minha afirmação ou negação.
    Ela se aproximou da mesa do menino, deu um beijo nele e se sentou ao seu lado.
     - Por onde você andou o intervalo todo? – Indagou ela em voz baixa.
     - Estava aqui, estudando pra prova de química... - Mentiu, com a mesma facilidade e naturalidade como respira.
      - Ai que bom amor! Você vai me ensinar!
    - Antes disso eu tenho que aprender... – Comentou, sorrindo. Puxando o queixo dela levemente e aplicando um beijo suave. Bem diferente do beijo ardente com direito a amasso na parede que ele deu em Diego a 3 minutos atrás.
     Aristides era um garoto popular da turma “D”. Ao contrário do que o nome sugere, ele é bem bonito. Tem aproximadamente 1,78m, corpo bem malhado e definido, sorriso bonito e como a maioria dos fúteis estudantes ricos do colégio, não tem uma inteligência notável. O engraçado é que eu tinha estudado com ele a na oitava série (o atual nono ano) e ele não era nada de mais. Lembro que nessa época, eu estava tão cheio da falsidade da minha turma, que tinha mudado para a D, com esperança de encontrar pessoas menos falsas, mas pude perceber que realmente tudo tem como ficar pior e acabei voltando pra minha turma meses depois. Voltando ao Aristides, ele era apenas mais um garoto sem sal e de porte físico comum, que tirava notas boas e andava com os meninos de sua sala. Eu realmente não prestei muita atenção nele depois de ter voltado a turma ‘A’ e fiquei bastante surpreso ao ver o desenvolvimento dos seus músculos, que provavelmente derivam de efeitos de anabolizantes e horas de musculação em alguma dessas academias famosas da cidade. Eu nem sabia que ele namorava a Mariana da minha sala.

[...]

    - Sério que você não sabia que a Mariana namora como Aristides? – Indagou Roberta, surpresa, sentando-se na sua carteira e abrindo o seu caderno. O professor começava a anotar algumas coisas no quadro.
    - Eu me ocupo em estudar, não fico preocupado em saber quem namora com quem, por aqui! – Respondi ironicamente.
    - Qualquer um sabe disso Brunno, não precisa investigar muito pra perceber eles se agarrando pelos corredores! – Comentou, soltando um risinho. Roberta sempre dizia que o meu sarcasmo era um grito de sinceridade, que só meus amigos íntimos podiam ouvir, já que eu estava imerso na minha falsa simpatia cotidiana.
    - Eu não sabia...
    - Se você está tão preocupado em estudar, porque isso te importa agora?
    - Pura curiosidade... Falta de ter o que fazer...
    - Você fala como se eu não soubesse que você não dá ponto sem nó! – Ela sorriu maliciosamente. – Sei que você não quer contar e que provavelmente vai dar a desculpa de que “Não pode”...
    - Garota esperta! – Respondi, arqueando uma sobrancelha e voltando minhas atenções às explicações que o professor começava a dar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 67



    - Roger? Como não pensei em você antes? – Indaguei surpreso, ao me virar – Pensei que você tivesse passado da fase Shakespeare!
    - É uma fase que eu nunca vou superar! – Comentou sorrindo. – Vejo que você quer entrar no mundo romântico e trágico de Romeu e Julieta com certa urgência! – Ele voltou a rir – Pode pegá-lo agora! – Ele arrastou o livro com os dedos até ele ficar mais próximo de mim.
    - Por favor! Gostaria de locá-lo! – Entreguei o livro à bibliotecária, que se ocupou em marcar a devolução de Roger e registrar a minha locação. – Apesar de não ter sido direcionado a você, desculpe pelo que eu disse!
    - É bom ver um pouco de sinceridade de vez em quando, Brunno! É bom saber que você não é aquela figura de perfeita simpatia e educação que costuma tentar transparecer, isso te faz parecer um pouco mais humano! – Brincou ele. Com uma leve crítica subentendida em suas palavras.
    - Eu não finjo... – Comecei a falar, mas ele me interrompeu.
    - Não encare como uma crítica e nem se preocupe com réplicas! Tenho que ir agora! – Finalizou. Saindo da biblioteca com pressa.
    Roger estudava na minha sala. Era um leitor compulsivo e escrevia como ninguém, se destacava nas matérias vinculadas à área de humanas e tinha desempenho menos notável nas áreas exatas. Por causa do meu forte instinto de competição, geralmente eu analisava meus concorrentes em cada matéria que era lecionada à minha turma. Sem sombra de dúvidas, Roger era meu mais forte concorrente em Literatura e Redação. O que mais me irritava era que isso era tão natural para ele, que ele facilmente tirava as notas máximas, sem ao menos ter se esforçado, já que ele mantinha suas leituras atualizadas diariamente e alimentava seu blog de literatura. Eu tive um início de amizade com ele, mas ela não evoluiu muito. Talvez isso tenha sido derivado do meu medo e meu conseqüente afastamento. Roger era muito perspicaz, falar e conviver com ele era como colocar seus pensamentos numa vitrine, ele é muito bom em “ler pessoas”, como costumo pensar. Tinha medo de ele conseguir ‘ler’ tudo que eu tentava esconder e do que ele podia fazer com essas informações. No entanto, Roger tinha um defeito enorme: se apaixonava facilmente pelas garotas erradas e essa paixão o levava a uma escravidão emocional imensurável e isso resultava na concretização das óbvias decepções que já davam indícios de fracasso nos primórdios de suas relações.
    Eu precisava relaxar e ler um pouco de forma despretensiosa, por puro prazer. Eu precisava sair daquela nuvem de intensa atribulação produzida pela minha ‘amizade’ com Diego e Felipe. Precisava me focar nos estudos de fim de ano e em me dar bem no simulado para ter novamente o 1° lugar no ranking. Eu precisava me concentrar no vestibular, em qual curso eu iria, de fato, escolher.
    Comecei a ler as primeiras linhas do primeiro ato distraidamente, ainda imerso em alguns tórridos pensamentos, andando lentamente até sair da biblioteca. Em alguns minutos o sinal para voltar pra aula iria tocar. Quando lancei um distraído olhar de soslaio para o lado, na direção de um pequeno corredor que dava acesso à uns banheiros que quase sempre ficavam fechados e só eram abertos em reuniões de pais e mestres, porque ficavam mais perto do auditório do colégio. Esse corredor mal iluminado abrigava em suas sombras, duas figuras se beijando apaixonadamente, o que era bem comum para o local, mas algo despertou minha curiosidade. Dei alguns passos para trás e fiquei escondido na parede do final de corredor da biblioteca e que dava acesso ao corredor do auditório.
    Tentei analisar quem eram os dois componentes daquele amasso de desejo que, ao mesmo tempo ainda apresentava muito carinho e romantismo. Analisando a farda, pude perceber que os dois eram garotos! Essa informação me deixou um pouco chocado e ainda mais curioso para ver quem eram. Foi aí que pude reconhecer Diego entre as sombras. Acabei me lembrando que tinha visto Felipe na cantina na fila pra comprar lanche com Tânia, minutos antes e estava imaginando como ele estaria aqui tão rápido se pegando com Diego. Também estranhei o fato deles fazerem isso aqui no colégio, o que não era nada comum. Até que... Eu pude perceber... Que o outro componente do beijo não era Felipe.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 66



    Era mais um dia comum na escola. Felipe estava sempre com Tânia, mas já não representava o papel de ‘namorado de estimação’ de outrora. Eles sempre estavam juntos, mas dificilmente ele dava alguma importância ao que ela dizia ou fazia. Felipe voltou à sua vida normal, recomeçou a andar com a turminha de costume e frequentar as festas badaladas que eram divulgadas na cidade, quando não promoviam suas festinhas particulares que ficavam famosas pelo excesso de bebida e a insanidade que dela derivava. Diego também voltou àquele contexto, mas não estava tão imerso como Felipe, parecia que ele estava emergindo e olhando além daquela limitada e fútil realidade. Era comum ver Diego lendo um livro distraidamente pelos corredores nos intervalos e suas notas subiram significativamente.
    Eu estava muito ocupado com os estudos e preso às preocupações do final do ano. Além disso, a pressão ficava mais intensa devido ao simuladão que o colégio promovia e que produzia competitividade, nem sempre saudável, entre os alunos. Afinal, todos queriam estar no top 10. Era uma questão de status para a maioria dos riquinhos imbecis que resolviam tomar a dose costumeira de ‘juízo de fim de ano’ e tentar uma colocação boa no ranking. Eu sou muito competitivo e adoro colocar todos eles no lugar de imbecilidade que eles merecem e mostrar que overdoses de cursinhos, aulas particulares e reforço não ajudam em nada se não forem atrelados a preceitos básicos como organização, responsabilidade e vontade de estudar. Era nesse momento que os pré-requisitos mudavam e eu passava de um mero bolsista de aparência comum, nível baixo de sociabilidade e que usa roupas de lojas de departamento, ou seja, a base da pirâmide social e passava a ocupar o topo da pirâmide intelectual por causadas minhas notas.
    Alan e eu retomamos nossa antiga amizade e aos poucos voltávamos a ser e a agir como fazíamos antigamente. Nós sempre estudávamos juntos e eu agora estava me inserindo na turma dele, embora não tivesse deixado de lado meus amigos. Tudo corria bem, embora Roberta se queixasse constantemente da minha falta de tempo e as reclamações referentes a não passar tanto tempo com ela como antigamente. Eu ainda via Diego e Felipe uma vez por semana, ou quando tinha tempo disponível, quando marcávamos de ver um filme ou tomar um sorvete, mas a conversa não passava muito do âmbito dos diálogos corriqueiros. Era possível perceber que entre eles, apesar das controvérsias, a amizade também estava voltando ao ser o que era antes de eu entrar e interferir nas suas vidas. Felipe me disse, em nosso último encontro que marcaria um jantar na casa dele para receber os pais de Tânia e contar a notícia, reafirmar o seu compromisso de sustentar a criança e participar da vida dela, embora eu particularmente pense que ele não nasceu para trocar fraldas. Mas, nunca se sabe o que está por vir, as coisas mudam o tempo todo.
    Fui à biblioteca. Precisava de algum lazer. É fato que minhas definições para lazer não passam pelo plano que a maioria das pessoas da minha sala idealizava, mas pelo fato de eu gostar muito de jogos de computador e me viciar facilmente neles, eu estava tentando buscar outras ocupações que me agradavam. Resolvi ler shakespeare pra passar o tempo. Tinha lido Macbeth recentemente, então, decidi fazer uma releitura da tragédia mais conhecida dele: Romeu e Julieta.
    - Como assim não tem Romeu e Julieta? - Indaguei perplexo, fitando a atendente da biblioteca.
    - Ele já está locado, Brunno! - Respondeu ela com calma.
  - De novo? Essa pessoa quer o quê? Encenar a peça ou fazer um longa-metragem? - Perguntei ironicamente, realmente achava um absurdo o fato da biblioteca só ter um exemplar de cada obra de Shakespeare e ainda tinha algum retardado que provavelmente locou, porque acha que ler shakespeare é tão fácil quanto ler crepúsculo, e ao ler a primeira página começou a usá-lo como peso de porta.
    - Boa ideia! Mas, por enquanto fico só na leitura e releitura mesmo! - Respondeu alguém, com a voz suave e colocou o livro de Romeu e Julieta na mesa.



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 65



    - Eu queria dizer que tudo vai melhorar, mas acho que a situação chegou a um nível crítico! É óbvio que existem situações bem piores, mas... – Fiz uma pausa. – Eu estou péssimo para conselhos hoje... Eu pensei que hoje a gente ia tirar um peso das nossas costas... – Comecei, me afundando no sofá da sala do apartamento do Diego.
    - Também achei que estaríamos livres disso tudo. Quem imaginaria que aquela gravidez era verdadeira? – Ele se esparramou no sofá e agarrou uma almofada.
    - Isso não elimina a possibilidade de vocês ficarem juntos, passou-se o tempo em que a regra ‘engravidou, tem que casar’ vigorava soberanamente...
    - Eu sei Brunno, mas acho que o problema é uma soma de outros fatores que me incomodaram... – Rebateu Diego, com ar melancólico.
    - Quais seriam? – Indaguei confuso.
    - O temperamento explosivo, a personalidade mutável, a imaturidade... Eu sempre vou ter que me dispor a aceitar tudo que ele faz? Eu sempre vou ter que romper as barreiras do que estou disposto a agüentar? Eu quero, pelo menos uma vez, algo fácil... – Ele se inclinou para a minha direção, colocando a almofada no meu colo e deitando nela.
    - Você acha realmente que vai conseguir? – Olhei para ele profundamente, tentando imergir naqueles olhos azuis. 
    - Não sei, mas eu preciso tentar respirar um pouco. Ter um relacionamento mais fácil. Não quero ter que decifrar o que a pessoa que está comigo está pensando, não quero mais me esconder...
    - A liberdade custa caro Diego... Você está disposto a pagar o preço?
    - Estou... – Assentiu ele prontamente.
    - Vou reformular a pergunta: Você está disposto a apostar nesse jogo de autenticidade? Está disposto pra arcar com as conseqüências?
    - Você fala como se eu fosse pregar um cartaz na cidade com uma foto minha beijando outro cara!
    - É só excesso de preocupação Dih, você sabe que eu não quero que você se machuque...
    - Você tem que parar de me ver como um ser indefeso Brunno! Eu posso lidar com meus problemas... Além disso, eu preciso me dar essa chance, eu preciso ver se o gramado do vizinho é mesmo mais verde!
    - Sua analogia foi ótima! – Comecei a rir. Era engraçado como, a cada dia que se passava eu percebia que Diego estava mais maduro. Era um quadro bem diferente do que tinha pintado quando o conheci. Parecia até que eram pessoas distintas.
    Felipe entrou no apartamento sem sequer bater na porta. Andou em silêncio até o sofá e sentou na outra ponta, colocando as pernas do Diego em seu colo.
    - A gente vai dar um jeito, não vai? – Ele sussurrou. Estava de cabeça baixa.
    - Eu acho que não Felipe... – Respondeu Diego, deixando a frase meio vaga. Voltando a ficar sentado.  – Dessa vez você vai ter que lidar com isso sozinho! Está na hora de voltarmos a ser o que nós éramos antes. Funcionava bem melhor.
    - O que você está sugerindo? – Felipe parecia não querer acreditar.
    - Felipe... Nós sempre fomos melhores amigos e acho que é isso que conseguimos fazer de melhor com o carinho que temos um pelo outro.
    - Você não pode acabar comigo!
    - Na verdade, estamos começando ou recomeçando! Não adianta insistir em uma coisa que não funciona!
    - Mas... Mas... – Felipe gaguejou olhando para mim, ele esperava que eu pronunciasse algo que fizesse Diego mudar de ideia. Mas, eu achava que aquela era a melhor decisão a se tomar, pelo menos, momentaneamente. 
    Diego o abraçou bem forte. Senti que os dois estavam começando a chorar, embora tentassem conter as lágrimas. Felipe soltou o abraço e segurou o rosto de Diego em suas mãos, estava preparando um arsenal de justificativas e estava disposto a descarregar toda sua munição de argumentos, mas a expressão de Diego desarmou qualquer tentativa. Estava decidido a dar um fim a parte ‘colorida’ da longa amizade deles, queria a liberdade de antigamente, queria que tudo voltasse a ser preto e branco. Que tudo voltasse a simplicidade das conversas despretensiosas de fim de tarde, que eles pudessem sair só pra rir e conversar, como costumavam fazer.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 64



    Diego se levantou subitamente sem dizer palavra. Fulminou Felipe com o pior olhar que conseguiu deflagrar. Silenciosamente, irrompeu pela porta de vidro da lanchonete deixando o ar pesado enquanto se afastava. Acho que até para pessoas com inteligência limitada a situação tinha ficado clara.
    - O que deu nele? – Perguntou Tânia. Mostrando surpreendente falta de perspicácia.
Levantei. Felipe fez o mesmo.
    - Leve a Tânia pra casa, agora ela precisa de todos os cuidados! Vou ver o que deu no Diego, acho que ele ficou bravo com você por sua irresponsabilidade, sabe como ele é certinho! – Disse fitando Felipe, usando essa mentira pra amenizar o comportamento ‘você roubou meu namorado’ que Diego tinha demonstrado. – A propósito, parabéns Tânia! Você vai ser mamãe! – A cada dia que passava eu percebia que o meu dom da falsidade ficava melhor.

[...]

    - Diego! – Eu disse, com a respiração entrecortada, depois de ter corrido até ele. – Espera!
    - O que você quer agora, Brunno? Vai defender ele, vai dar em cima de mim... vai fazer o quê? – Bradou ele. Ele estava se contendo. Parecia que o choro ia desabar a qualquer momento.
    - Calma, a gente vai superar isso!
    - Superar? Filho é pra sempre! Mesmo que eu continue com Felipe, sempre vai ter aquela responsabilidade... E ainda vai ter a Tânia, pra piorar ainda mais a situação.
    - Diego, me desculpa! – Começou Felipe, que tinha nos seguido.
    - Eu não disse pra você... – Comecei a falar, mas fui interrompido.
    - Você não manda em mim, Brunno! Embora você quisesse muito ter esse poder... – Felipe me cortou. – Diego, ainda tem solução... Eu vou pedir a ela pra...
    - Nem ouse terminar essa frase! Eu nunca vou conseguir ser feliz sabendo que alguém morreu por isso! Eu não quero falar com você! – Diego começou a andar apressadamente.
    - Embora você não queira me obedecer é bom você perceber que ele não está pronto pra ter essa conversa agora! Leve a biscate em casa e depois a gente resolve isso! Afinal, onde ela está?
    - Está realizando um “desejo”, está acabando com o estoque de tortelete da lanchonete!
    - Volte lá e... – Eu me contive, já estava tão acostumado com meu ar autoritário que nem percebia que vivia dando ordens aos outros. - ... Bom, faça o que quiser, eu vou levar Diego pra casa!

domingo, 19 de agosto de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 63



    - Ai, Felipe! É você... – Disse ao me virar. Meu coração ainda batia acelerado. É óbvio que eu tinha pensado que era o Alan, com algum tipo de resposta pra me dar.
    - Esqueceu que dia é hoje? –Indagou com uma expressão misteriosa.
    - Hoje é dia... – Fiz uma pausa para tentar recordar. – Hoje é o dia do resultado do exame! – Com todos esses pensamentos voltados para Alan, eu tinha esquecido que esse drama da gravidez estava prestes a acabar.
    - Estamos indo buscar agora! Venha! – Ordenou. Caminhando para fora da sala. Diego e Tânia o seguiram também.
    Eu não poderia perder isso por nada! Finalmente a loira peituda ia sair das nossas vidas! Diego e Felipe seriam felizes de novo e eu poderia me concentrar em outras coisas.
    Alguém me cutucou minhas costas e eu fui tomado por aquela sensação novamente.
    - Aonde você vai Brunno? – Indagou Roberta.
    - Betão! – Sussurrei olhando para ela rapidamente. – É hoje que a farsa acaba! Finalmente o drama vai terminar.
    - Agora me resta perguntar... – Reiniciou, andando ao meu lado. – E depois?
    - Depois o quê? – Respondi confusamente com outra pergunta.
    - Você sabe muito bem a finalidade da minha pergunta, não entre na fase de negação!
    - Eu sinceramente não sei dizer com precisão... – Respondi em reticências.
     Roberta se referia a o que ia acontecer daqui pra frente. Eu realmente estava evitando pensar nisso, apesar de eu ter tentado dar um ponto final nisso tudo, eu não conseguia mais ficar longe deles. Diego e Felipe estavam juntos novamente e o único obstáculo era essa falsa-gravidez de Tânia. Eu já tinha entregado o DVD que continha o vídeo que deixava os dois no meu poder e agora eles não tinham mais motivos pra continuar a andar comigo.
     - Brunno... Eu não quero que você se machuque! Você precisa estar preparado para todas as possibilidades! Eu acho mais sensato você tomar uma decisão, antes que os dois tomem por você!
    - Não sei Roberta! Eu sei que você está me dando o conselho certo e que eu deveria pular do barco antes que ele afunde, mas, você sabe que não é tão simples para eu fazer isso... – Parei na frente dela. – Mesmo assim, obrigado! – Apliquei um abraço confortante em Roberta. – Você realmente é uma amiga e tanto! Agora, preciso ir! Eles já estão muito na frente!

[...]

   Tânia estava sentada ao meu lado, completamente imóvel no banco de couro e olhava para a janela distraidamente. Ela sabia lá no fundo que estava caminhando para a guilhotina, em breve, sua cabeça estaria rolando pelo chão. Diego estava sentado no banco da frente e estava tenso, o silêncio no carro era mortal.
    Chegamos ao laboratório que analisava esse tipo de exame. Felipe e Tânia foram buscar o exame, enquanto Diego e eu sentávamos numa mesa de uma lanchonete que ficava na frente do laboratório.
     Eu não ousei falar. Diego estava frio. Eu conseguia imaginar o que estava passando por sua cabeça agora. Após alguns minutos que pareceram uma eternidade, eles voltaram. O envelope estava lacrado.
    Felipe sentou-se ao meu lado e Tânia sentou no lado oposto da mesa, ao lado de Diego. Felipe rasgou a borda do envelope do exame com paciência, folheando nervosamente a caminho da última folha. Ele parou um tempo lendo e depois passou o envelope pra mim. Eu comecei a ler e uma expressão de confusão tomou conta de mim.
    - Como assim você está grávida de verdade? – Indaguei perplexamente, fitando Tânia.