sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 37


    Eu precisava considerar o que Diego tinha me dito. Colocar esse vídeo na internet estragaria a vida dos dois e apesar de eu não me importar muito como mauricinho cabeça-oca do Felipe, Diego era diferente, ele não merecia isso! Tentei me colocar no lugar dele e vi que eu teria feito a mesma coisa para ter o DVD em mãos, se alguém tivesse esse tipo de prova para me chantagear. Todos esses pensamentos não me afastaram da minha ideia pro desfecho dessa questão do DVD, já que eu corria o risco iminente de Diego jamais falar comigo de novo, pelo menos eu precisava de um bônus acompanhado desse ônus!

[...]

    Cheguei em casa para mais uma rodada de escravidão. Minha mãe agora tinha voltado a trabalhar, porque tinha tirado férias, e agora eu e Laura estávamos convivendo muito tempo juntos! Era uma relação linda de chantagem e palavrões e que logo chegaria ao fim! O namorado dela ainda estava viajando e acho que por esse motivo ela estava mais mau-humorada ainda. Devia ser a falta de sexo!
    - Os pratos estão te aguardando! – Ordenou ela quando eu entrei na sala.
    - Você ainda vai se arrepender disso, Laura!
    - De ficar aqui deitada no sofá a tarde toda assistindo TV e comendo chocolate? Acho que não...
    - Vou te dar a chance de acabar com essa chantagem agora, se não... – Ela me interrompeu.
    - Se não o que? Você vai contar para a Mamãe é bebê? Aproveita a ela e diz que você estava assistindo vídeo pornô e não se esqueça de esclarecer que era um pornô gay!
    - Como você é baixa!
    - Na verdade, nós somos quase da mesma altura! – Respondeu ela gargalhando fervorosamente. – Agora volte ao trabalho, escravo! Eu tenho que procurar alguma coisa pra fazer, afinal, eu tenho tanto tempo livre!
    - E o pé-rapado do seu namorado?
    - Eu não tenho que te dar satisfações, mas vou dizer assim mesmo! Esqueceu foi bicha burra que ele viajou? Só vou falar com a noite!
    - Laura... Você está indo longe de mais!
    - Espere... – Ela fez uma pausa. – Estou ouvindo alguma coisa!
    - O quê?
    - Acho que são os pratos te chamando!
    - Idiota!
    Sai de lá com raiva, mas, tinha conseguido o que eu queria. Não seria nada justo jogar minha querida irmãzinha na fogueira, sem lhe dar a chance de se redimir. Agora, eu tinha a mais absoluta certeza que ela vai merecer a chantagem que eu vou fazer com ela quando eu conseguir o que eu quero!

[...]

    Depois de tomar um bom banho eu fui enfrentar minhas tarefas de casa e estava me sentindo a própria cinderela como gata borralheira! Nesses momentos de faxina é que eu tinha a oportunidade de pensar sobre várias coisas e organizar meus pensamentos. Agora eu posso perceber que Felipe me manipulou, eu sei que isso é bem inesperado vindo de um idiota como ele que nem saber mais nada além de malhar e ficar se exibindo por aí, e eu não tinha percebido isso. Todas as coisas que ele disse, não foram só para me atingir, mas principalmente para que eu tivesse essa reação e de certa forma tratasse o Diego mal. Percebendo que minha relação com Diego era inviável e com raiva de tudo eu, no pensamento de Felipe, resolveria a questão acabando de uma vez por todas com a chantagem e deixando o caminho livre pros dois. Como eu fui um idiota! Mas se o Felipe acha que pode brincar comigo, ele está muito enganado! Está na hora do contra ataque!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 36



    Decidi ir para uma daquelas várias mesas de pedra que ficavam no pátio por trás da cantina, lá era um lugar mais calmo para se pensar. Enquanto os alunos do colégio se estapeiam por um lanche e depois se sentam nas mesas que ficam na própria cantina, as mesas de pedra do pátio ficavam quase sempre vazias.
    - Pensei que o nosso assunto estivesse finalizado! – Comentei, me sentando no banco de pedra do pátio.
    - Só acaba quando termina Nerdzinho! – Disse Felipe entre dentes colocando o pé no banco bem próximo de mim.
    - Brunno, por favor! Por mais que eu confie em você essa espera é torturante! Não é justa essa chantagem... – Ele passou por mim e se sentou no banco do lado oposto, ficando de frente para mim. - Eu sei que a gente errou em te humilhar e a forma como a gente se comportou foi inaceitável, mas nós já aprendemos a lição!
    - Não se trata em aprender ou não a lição. Não estou fazendo uma chantagem didática!
    - Mesmo que seja vingança... Já acabou! Você venceu seu pé-rapado! – Interveio Felipe ao meu lado, preferi não manter contato visual com ele.
    - Eu não estou a fim de explicitar todos os motivos que me levaram a fazer isso! – Falei em tom de desprezo.
    - Felipe... Que tal você ir dar um passeio? – Indagou Diego.
    - Tá! – Grunhiu ele saindo dali.
    Felipe se afastou. A estratégia de policial bom e policial mau não parecia dar indícios de eficácia.
    - Eu não sei se eu estou errado, mas apesar de estarmos sob essa chantagem ridícula e sem fundamento, eu acabei me conectando a você. Todas as vezes que a gente conversou e me sentia mais seu amigo... – Iniciou Diego.
    - Antes ou depois de você dar em cima de mim para conseguir o DVD?
    - Podemos conversar sem esse sarcasmo? E é claro que eu fiz isso! Situações como essa exigem medidas extremas!
    - Extremas? Agora não resta dúvidas de que Felipe estava certo!
    - O quê? Dá pra você parar de brigar comigo sobre uma coisa que eu nem sei o que é?
    - “Você pensou mesmo que o Diego pudesse estar gostando de você? Provavelmente ele só estava querendo pegar o vídeo de volta... Ele tem bom gosto, ele nunca ficaria com alguém como você!“ Assinado, Felipe! – Respondi revoltado e irônico.
    - Eu poderia mesmo ficar somente como caras bonitos como o Felipe, mas eles são vazios... Só pensam em sexo e em fazer tudo com a máxima descrição para ninguém saber e os meus sentimentos como ficam? Você é diferente... O jeito que você me beija e o modo como você fala comigo mostram que você tem uma amizade despretensiosa. Você pode até querer ficar comigo e como os outros caras você também pode desejar fazer sexo comigo, mas eu acho que você enxerga além de um corpo malhado de academia e um par de olhos azuis...
    - Por que você está me dizendo isso tudo?
    - É o motivo pelo qual eu beijei você todas aquelas vezes, eu sei que o Felipe estava sempre me impulsionando a conseguir o DVD de volta, mas no caminho eu percebi que eu sentia bem mais do que vontade de ser livre novamente. Eu queria ter te conhecido fora dessa situação, sem essa chantagem...
    - Você provavelmente teria pisado em mim e deixado pra lá!
    - É verdade, mas agora eu vejo as coisas de uma maneira diferente. Eu queria começar de novo com você, do jeito certo!
    - Como eu vou saber que isso não é um truque?
    - Olha só Brunno, eu amo o Felipe e é um amor meio sem-sentido, meio irracional. Ele me irrita a metade do tempo e na outra metade ele me faz sofrer, mas algo dentro de mim precisa ficar com ele, é como um vício! Você me entende?
    - Pior que entendo... – Diego praticamente narrou os sentimentos que eu tenho pelo Alan.
    - Eu quero ser seu amigo quando tudo acabar, mas até lá, eu só espero que você continue do jeito que você é, e que faça a coisa certa para você! Se você acha mesmo que a gente merece, pode postar o vídeo na internet. Você vai conseguir dar uma lição no Felipe e vai acabar com tudo... Talvez você ache que minha vida é fácil só porque eu tenho dinheiro e vou a festas, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Eu tenho que ficar com as meninas pra manter uma imagem de pegador, mas eu nem gosto de meninas, eu tenho que conversar coisas fúteis com desconhecidos que eu chamo de amigos só porque eles freqüentam os mesmos lugares que eu e me esforço para orgulhar meus pais que nem estão em casa para eu dividir minhas conquistas... Faça o que achar melhor! – Concluiu Diego saindo dali.
    Eu fiquei me sentindo péssimo por tratá-lo desse jeito e pela maneira que eu acabei julgando ele ao pensar que ele e o Felipe eram pessoas iguais só porque eles andam juntos. Tudo isso confundiu muito a minha cabeça sobre o desfecho desse jogo de amor e vingança.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 35


    - Onde você se  meteu? – Indagou Roberta confusa. – Eu cheguei e vi sua bolsa, mas você não estava aqui! O professor quase não deixa você entrar! – Sussurrou.
    - É... Antes que ele mude de idéia e me coloque pra fora, vamos copiar o exercício! – Exclamei em um sibilo. Não estava em condições de dar explicações.
    Se eu não ouvisse a própria Tânia falar com Gabriele aos prantos no celular eu não acreditaria nisso, acharia que era um golpe da barriga ou coisa parecida. Mas, o fato de ela não saber que eu estava ouvindo e não estar contando para o Felipe me faz acreditar que essa notícia tem a possibilidade de ser verdadeira. O que me resta é saber o que eu vou fazer com esse tipo de informação.

[...]

    Olhei fixamente para um ponto específico da sala. Meus pensamentos se dispersavam facilmente. Dessa vez eu não estava pensando nem no meu plano para reaver o DVD, nem na suposta gravidez de Tânia e muito menos na minha relação conflituosa com Diego e Felipe. As vezes eu me pego  pensando nele de novo e sei que não deveria me martirizar desse jeito, mas é inevitável. É como um vício que me obriga a continuar alimentando-o.
    Eu gostava do tempo em que eu não sabia que estava apaixonado por ele, quando nós éramos apenas amigos ciumentos. Ninguém entrava no nosso grupinho do “quarteto” por causa de que todos nós tínhamos ‘ciúmes de amigos’, menos Thiago, ele não sentia nada disso, passava o ano juntando dinheiro para trocar seu celular por um 10 vezes mais moderno e continuava no mês seguinte, e pelo fato dele ser hétero, provavelmente ele não tenha essa mente feminina da competição. Jonas tem aquela síndrome de Blair Waldorf de querer controlar todos, de não deixar a gente socializar com os outros meninos. Ainda me lembro na 5ª série (que hoje já é o sexto ano) quando tentei fazer amizade com o Heitor, mas depois de um tempo Jonas me deu logo um ultimato: Ou eu me afastava dele, ou me afastava do grupo. E eu escolhi continuar no grupo. Partindo da idéia que Thiago não tinha ciúmes de ninguém e que o ciúme de Jonas era causado por sua síndrome Blair... Só restava eu e o Alan. Quem sabe o ciúme fosse meu o tempo todo e eu não tivesse me dado conta.
    Nas brigas entre nosso mini-grupo sempre cada um já tinha seu fiel escudeiro. Se eu brigasse com Alan, Jonas ficaria do meu lado e Thiago ficaria do lado do Alan. Se eu brigasse com Jonas, Alan ficaria do meu lado e Thiago ficaria do lado de Jonas. Era difícil acontecer algum desentendimento meu com Thiago então não consideraria essa possibilidade. É uma coisa até complexa de entender, a única forma de simplificar é que eu nunca ficaria do lado de Thiago, nem ele do meu. Pra mim ele era um apêndice do grupo. Todos nós, com exceção de Thiago, brigávamos por tudo e qualquer coisa, mas geralmente a raiva não sobrevivia a mais de uma semana. A gente sempre arrumava um jeito de mandar um escudeiro falar com o escudeiro do ’inimigo’ para ‘acabar com a guerra’. Mas o que eu não sabia era que uma dessas brigas seriam definitivas e que ela seria com o Alan, meu melhor amigo. Que eu conhecia desde os 10 anos. Nossa briga foi com 12 ou 13 anos e não me lembro bem o motivo. As pessoas sempre foram invejosas e nossas brigas sempre geravam ibope e fofoca das pessoas que não tinham o que fazer. Eu só sei dizer que, devem ter aumentado tudo que ele falou de mim e vice e versa e esse telefone sem fio acabou destruindo tudo o que a gente tinha conquistado ao longo desse tempo.

[...]

    - No que você está pensando Brunno? – Indagou Roberta.
    - Na aula!
    - A aula acabou Brunno, você não percebeu? O professor liberou a gente pra conversar, porque já corrigiu os exercícios...
    - Desculpe... É só que... Eu não estou com cabeça pra mais nada.
    - Pensando nele de novo? E nem tente mentir pra mim!
    - Você sabe que eu ainda gosto dele...
    - Depois de tudo que ele fez? Depois de tudo que ele falou sobre você?
    - É irracional, eu sei, mas talvez isso seja amor não é?
    - Um amor masoquista e doentio! – Ela fez uma pausa. – Mas, mesmo assim é amor. E o amor é um sentimento muito digno, e mesmo que você ame o Moby Dick aí eu acho bonito.
    - Pois eu acho horrível...
    - Além disso, é bom ver que você é um ser humano. As notas altas e essa pose de “eu só não passo em medicina porque não quero” fazem você parecer um robô japonês programado para a perfeição! – Ela começou a rir.
    Eu não pude resistir e comecei a rir também.
    Alguém me cutucou. Olhei para traz e Dayana me estendeu um bilhete sorrindo para mim. Nem todos os populares são idiotas fúteis. A Dayana era legal. Peguei o bilhete, agradeci e virei novamente.

Precisamos conversar com você!
D. e F.

    Era um bilhete de Diego e Felipe. Eu nem precisaria ver as iniciais no fim, só a caligrafia impecável de Diego já era bastante para reconhecê-lo.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 34


    Com meu plano em andamento, a única coisa que precisava fazer era esperar. Nesse ínterim eu deveria evitar completa e absolutamente conversar com Felipe e Diego. Apesar de estar, enfim, concertando tudo a finalidade de todo esse processo voltou a minha mente para me fazer vagas indagações. O que eu ganhei com tudo isso? Alguns beijos calientes de Diego e Felipe em suas belas e bem-sucedidas tentativas de fazer ciúmes um ao outro. Diego, por sua vez, não só beijou como fez sexo comigo somente no intuito de receber o maldito DVD de volta e Felipe bem que tentou o mesmo plano. Apesar de observar mudanças no comportamento dos dois, mudanças, por sinal, positivas, a minha intenção não era essa restauração de caráter em prol da harmonia social. Eu comecei isso tudo por puro egoísmo, eu queria o Diego de qualquer jeito, queria que ele sentisse por mim o mesmo que sente por Felipe, mas creio que para isso eu precisasse de mais uns 15 cm de altura e alguns meses de academia. O fato é que essa “mudança” dos dois só ocorreu devido a chantagem que eu fiz e no momento que tudo acabar tudo vai voltar a ser como antes. Eles vão ir à festas, usar roupas caras e dormir em suas gigantescas King Sizes e eu vou  continuar me contentando com ir ao corujão do Cine SESI como maior badalação possível de uma noite.
    O sinal tocou com uma daquelas músicas gospels de novo e eu precisava ir pra sala, a aula já ia começar. Eu precisava desse tempo pra pensar nessas questões repetidas que martelavam a minha mente.
    Andei rapidamente, precisava cruzar o colégio para chegar a bendito andar do terceiro ano. Saí da biblioteca e comecei a ouvir uns sussurros. As vozes eram mais que conhecidas.
    - Eu preciso te dizer uma coisa!
    - Eu também...
    - Então comece você príncipe!
    - O que rolou entre nós está acabado!
    - Como assim está acabado? E ontem à noite?
    - É isso mesmo que você ouviu! Acabou! Ontem não foi a primeira vez mas foi a última!
    - Você disse que...
    - Eu invento qualquer coisa pra conseguir o que quero! E agora que já consegui, não tenho mais interesse em você!
    - Você me usou todo esse tempo? – A voz feminina fraquejou.
    - Não faça essa cara de santa! Você já deu pra metade desse colégio! Acho que você deveria se orgulhar de eu querer algo com você... Além disso, você não esnobou com suas amigas dizendo que eu estava na palma da sua mão?
    - Quem disse isso?
    - Isso não vem ao caso. Estou indo, cansei de ouvir essa sua voz chata. Quem sabe se você não fosse tão insuportável eu teria te comido por mais um tempinho! – Ele começou a rir.
    Perto da biblioteca tinham uns banheiros que nunca eram usados e sempre ficavam fechados, deveriam ser usados só em reunião de pais e mestres, se elas ocorressem no auditório ou coisa assim. Esses banheiros eram escondidos por umas paredes e quem visse de fora só via as plaquinhas homem e mulher. Foi dali que saiu Felipe rindo com um semblante aliviado.
    Pude ouvir a menina chorar e falar com alguém!
    - Alô? Gabriele? Você não vai acreditar no que aconteceu! – Ela sussurrou dificultosamente devido ao choro. – Ele acabou comigo! - Ela esperou um pouco, ouvindo o que a amiga tinha a dizer. – Não... Nem deu tempo de eu dizer que eu estou grávida!
    Não acreditei no que eu estava ouvindo. Esperei mais um pouco para ver quem era e não demorou muito para sair de lá a senhorita Miss Peitos! Tânia saiu dali arrasada, enxugando suas lágrimas e tentando ser forte. Toda essa cena me soou como um alerta de bomba, uma declaração de guerra. A loira oxigenada mal sabe, mas ela conseguiu ganhar na loteria, mesmo que não fique com Felipe, mas vai arrancar uma boa pensão da família Duarte! Parece que a aspirante a mulher fruta não é tão retardada como eu pensei, ela tem todas as armas pra vencer a guerra, mas é como dizem por aí: Não é o maior exército que vence a guerra e sim a melhor estratégia!





sábado, 14 de janeiro de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 33


    Fui até o banheiro, precisava escovar os dentes e tomar um banho antes de enfrentar aquela pilha de pratos e ainda fazer aquele suco chato de fazer. Fiquei me olhando no espelho em cima da pia do banheiro. Eu era tão feio assim? Comecei a fazer uma análise de mim mesmo. Eu tinha algumas espinhas pelo rosto e alguns cravos também, principalmente no nariz. Meu cabelo era péssimo, eu nunca me entendi com ele, sempre precisava cortá-lo curto para ele ficar mais ou menos, ele era seco e leve e ficava todo embaraçado fazendo algumas ondulações. O pior de tudo é que meu cabelo não se decidia, ele nem era cacheado nem era inteiramente liso. Depois disso tinham meus dentes amarelados. Faziam alguns meses que eu tinha tirado o aparelho, mas minha mãe não quis pagar um clareamento. Então, finalmente, tínhamos o corpo, que não chegava nem aos pés do corpo escultural do Felipe, e ainda por cima eu tinha espinhas nas costas e nos braços. Resumidamente, eu precisava de um bom cabeleireiro e provavelmente de um daqueles tratamentos caros, acho que o Gavazzi resolveria a questão, o trabalho dele era brilhante, mas eu não tinha recursos para isso. Precisava também de um bom dermatologista e creminhos, géis dentre outros procedimentos que também eram caros. Precisaria de um clareamento a lazer para meu sorriso ficar perfeito. E, fazer academia, ou alguma atividade física que deixasse meu corpo melhor e detonasse meus pneuzinhos. Enfim... Eu precisava ganhar na mega sena, ou pelo menos no Alagoas dá sorte.
    Deixei essa auto-análise para outra hora. Precisava me arrumar rápido para  poder arrumar tudo em casa. Abri o armário-espelho e fui pegar a pasta de dente, acabei esbarrando em uns remédios e tive que arrumar tudo de novo. Odeio esse meu lado desastrado de ser. Arrumando as caixas uma me chamou atenção: Diazepam. Tentei me recordar para que é que ele servia. Acabei me lembrando de uma peça de comédia que tinha ido em que o protagonista tomava remédios para dormir e era esse tal diazepam. Isso me deu uma idéia interessante.
[...]
    Depois de tomar meu banho de revitalização e de ter escovado meus dentes. Coloquei uma colônia que eu usava em casa e me vesti. Fui rapidamente fazer o maldito, que agora era bendito, suco de maracujá. Pisei um comprimido no copo e misturei com o suco. Não queria que ela dormisse muito tempo.
    - Está aqui seu suco! – Entreguei à Laura fazendo cara de raiva.
    Voltei à cozinha e comecei a lavar os pratos. Não podia ficar na sala para não dar bandeira. Esperei o remédio surtir efeito. Depois de uns 10 minutos, quando eu estava na metade do serviço, fui a sala e percebi que ela estava dormindo. Ainda não era a hora de pegar o DVD, mesmo tendo sido agraciado com essa chance inesperada, eu queria que a Laura ficasse com a cara no chão, queria fazê-la de minha escrava, virar a mesa.
    Procurei a chave em todos os cantos da sala. O quarto dela estava trancado.
     - Que burrice Brunno! – Sussurrei para mim mesmo. O lógico era ela ficar com a chave o tempo todo então, nada mais seguro do que...
    Fui me aproximando dela lentamente. Minhas suspeitas se confirmaram, ela prendeu a chave a um colar.
    Tentar retirar aquele colar seria bem complicado, eu não queria que ela acordasse. Se eu tentasse puxá-lo para abrir o fecho, provavelmente eu teria que mexer no cabelo dela e isso não acabaria bem. A sorte é que a chave não estava presa diretamente à corrente, e sim, presa a uma argola de metal que, por sua vez, estava presa a corrente. Então tudo que eu tinha que fazer era abrir a argola, tirar a chave e depois que eu terminasse devolver a chave ao lugar.
    Peguei dois alicates que estavam guardados numa caixinha na dispensa (Da época que Laura fazia bijuterias) e com habilidade e paciência consegui retirar a chave da corrente sem fazê-la se acordar.
    Saí lentamente de casa. Precisava ir ao chaveiro para fazer uma cópia.
    Meu coração estava pulando pela boca, o homem estava demorando muito a terminar e não sei quanto tempo o meu boa noite cinderela improvisado iria durar. Corri de volta para casa. Laura já tinha mudado de posição no sofá, o que dificultou muito colocar tudo de volta sem acordá-la.
    Ainda com o coração acelerado, depois de ter devolvido a chave ao seu lugar original, coloquei a chave em um barbante e amarrei na minha cintura escondendo ela na minha cueca: o lugar mais seguro que eu podia imaginar... Voltei a lavar os pratos.
    Minha irmã veio até a cozinha cambaleante com dor de cabeça, colocou o copo na pia e saiu resmungando dizendo que estava com cólica e dor de cabeça. Ela mal sabia que teria bem mais dor de cabeça do que pensaria ter e dessa vez o incômodo não seria causado como um mero efeito colateral de um remédio...
[...]
    Infelizmente, as conversas noturnas de minha irmã com seu namoradinho idiota não passaram dela reclamando que estava com cólica e dizendo que estava com saudade dele e essas baboseiras, que não me ajudariam em nada na minha vingança. Mas eu não podia reclamar da sorte, com a cópia da chave eu poderia entrar no quarto dela na hora que eu quisesse. Depois que eu reunisse algumas coisas com as quais eu pudesse chantageá-la eu poderia entrar no quarto dela e pegar o DVD. Ela ia comer na minha mão...

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 32 Versão especial (Dialeto Maceioense)


    - E então Dih... Está se sentindo melhor? – Eu disse, logo que ele abriu os olhos.
    - Ah! Pegue na minha chibata! – Felipe olhou para mim com fogo no zóio. - Você sabe que a culpa é sua seu caga-pau!
    - Aí dentro...- respondi voltando minha atenção para Diego.
    Estávamos na enfermaria do meu colégio que, por incrível que pareça, eu nunca tinha visitado. Eu quase nunca ficava doente. Deitado na pequena cama suspensa estava Diego, ainda sem entender o que se passava.
    - Diego? – Disse Felipe, ao perceber que ele não tinha respondido a minha pergunta. Parecia até que ele tava bebo topado!
    - Oxente Lipe! Como eu vim parar aqui? Onde eu estou? – Indagou Diego bulindo no cabelo.
    - Calma... Você teve uma bilôra e está na enfermaria! Deve tar meio lombrado ainda! Se você fosse mulher eu dizia que você tava buchuda! – Respondeu Felipe mangando. Passou a mão na cabeça dele carinhosamente.
    Eu fui andando lentamente até o balcão da enfermeira para avisá-la que Diego já tinha acordado. Ela estava procurando algum tipo de bregueço para fazê-lo acordar. Eunice, a freira enfermeira, andou aperriada na direção a Diego. Ela pediu que ele permanecesse em silêncio enquanto ela verificava sua pressão.
     - Olha só Diego... – Ela começou a falar, ajeitando o birilo que prendia seu cabelo no hábito - Sua pressão baixou um pouco, mas não há nada com que se preocupar. Na verdade, não entendo porque você desmaiou. Você se alimentou direito hoje?
     - Acho que tomei um suco... Não me lembro bem, devo ter saído de casa aperriado...
     - Rapazinho não faça mais isso! Você precisa se alimentar direito seu caba! – Disse a freira dando um carão nele. - Esses adolescentes não têm jeito... – Ela deu um largo sorriso de dentes amarelados. – Deve ter sido só uma gastura!
    - Eu já posso... Ir? – Indagou Diego descabriado, fazendo aquela cara de pidão que desarmava até bomba-relógio.
    - Claro! Vão com Deus! – Ela fez uma breve pausa – Ô seus cabas... Ajudem seu amigo certo? Ele pode estar um pouco tonto ainda... – Ela foi rapidamente até sua mesa e voltou com um quadradinho de papel rosa choque. – Não esqueçam do bilhete! Se não depois vão ficar dizendo que vocês tavam gazeando! E não é para ficar de gandaia pelos corredores não viu seus cabras? Diretinho pra sala visse?
    - Iapois! – Respondemos em uníssono.
    Os bilhetes eram quase como um “passe de corredor” na minha escola. Todo aluno que estava fora de sala por motivos importantes como estar na coordenação, na diretoria, na enfermaria, na psicóloga ou até com o serviço de orientação religiosa precisaria de um desses enxamosos bilhetes coloridos, devidamente assinados, para retornar à sala. Essa escola era toda cheia de pantim.
    Nós fomos andando com o Diego incangado no ombro de Felipe até um local do meu colégio que era todo revestido de porcelanato azul no chão e que tinham alguns bancos que ficavam meio escondidos. Lá nós teríamos mais sossego, caso contrário, o belo bilhete rosa choque, que não tinha uma hora inscrita, no aperreio da enfermeira, que devia estar avexada, ela só assinou a data e esqueceu de preencher a hora, iria nos proteger.
    - Pegue o beco pitôco! – Disse Felipe enfezado, logo quando nos sentamos.
    - Tá! – Retruquei me levantando.
    - Não, Brunno! Fique, precisamos conversar... – Pediu Diego.
    - Ah! Agora você quer falar com a mundiça néh? Quero passar mais perrengue não!– Respondi, voltando a me sentar. Fitei a parede e uma catenga tava olhando para mim mexendo a cabeça.
    - Deixe de munganga que o papo é sério... Olha só Brunno, eu não sei o que o Felipe te disse, mas... – Ele foi interrompido.
    - Já foi chorar pra mamãe foi Rafamé? Você é cheio de pantinho!– Rosnou Felipe entre dentes.
    - Oxe Lipe pare de arengar com o Brunno!!! – Ele botou seu olhar para Felipe, que foi quase um carão silencioso fazendo ele ficar arroiado.
    - Como eu dizia... Eu não sei o que foi dito, só sei que não foram coisas boas, você sabe como Felipe é péssimo com as palavras... – Ele pousou um dedo sobre a minha boca interceptando minha possível fala. – E nós pedimos desculpas por isso, não é Felipe?
    - Está bem seu niquelba, quer dizer... – Ele se corrigiu antes de continuar a falar. – Brunno. – Ele fez outra pausa. - Desculpa! Satisfeito? – Felipe aparentava estar com raiva.
    - Oxente... Tem precisão não Diego, não carece disso! – Respondi. – O que esse brocoió disse ou não disse não é importante, só sei que vou acabar logo com essa presepada!
    - Nem se atreva a mostrar nada, viu? Seu toco de amarrar jegue! Se não eu te dou um Vábei tão grande... – Reiniciou Felipe
    - Aí dentro! Nem se preocupe, por enquanto, eu não tenho intenção de divulgar o chumbrego de vocês não, seu cabuloso! Em breve chamarei vocês para entrarmos num acordo quanto a essa questão. – Fiz uma pausa só pra deixar o Felipe cabreiro. - Até lá, eu não quero mais me escalar para nada com vocês! Não quero que você Diego faça o sacrifício de ficar dando em cima de um fuleiro que nem eu para conseguir aquela porcaria de DVD de volta, nem quero o Sr. Invocado me ameaçando pelos corredores...
    - Como eu vou saber se isso não é só um Migué? – Falou Felipe todo peidado.
    - Deixe de Fuleragem Felipe! É melhor não deixar o Brunno arretado!
    - Eita bobônica da peste! Eu num sou faroso não seu caba de pêia! As minhas coisas não são de farenaite não!!! E é só isso que eu tenho a dizer! – Me levantei de supetão e vazei de lá atravessado feito cu de calango.


[...]

    Não queria ouvir mais nada daqueles dois. Eles acabaram me seguindo como chumbetas, porque eu estava com a bobônica do bilhete. Bati levemente na porta e entreguei o bilhete ao professor de redação, sentando-me no lugar de costume. Umas pessoas ficaram fuxicando sobre nós. Roberta me olhou com um olhar de dúvida, que logo se substituiu por compreensão ao perceber que Diego e Felipe entraram comigo. Ela não me fez mais perguntas, sabia que mais tarde eu ia satisfazer todas suas curiosidades com um mero suborno de algumas taças de sorvete de menta. Mas mesmo assim ela ficou meio azogada.
[...]
    Eu me arreganhei no sofá da casa da Roberta como de costume. Os pais dela estavam viajando para resolver um problema familiar na Paraíba e ela ficaria sozinha por alguns dias, aí dava pra conversar potoca à vontade. Rosa, a empregada ou como gostaria de ser chamada “executiva do lar”, não demorou muito para servir o almoço que por sinal, estava arretado.
    - E aí gente, tá sapecado? –Indagou rosa. – Eu quase esquecia panela, tava com o bucho no tanque...
    - Não... Está ótimo rosa! Você cada dia ficando mais tampa de crush! – Eu respondi.
   Nós conversamos sobre os temas dos trabalhos de redação que teríamos que fazer. Por causa da minha ausência da sala, eu tinha perdido toda a explicação do professor. Se eu não procurasse saber eu ia levar tromba. Em sumo, o querido professor Osvaldo queria que nós fizéssemos 20 redações, escolhidas dentre os 50 tipos de temas e entregasse tudo isso no final de novembro encadernado. Ele era um professor muito exigente, e certamente o meu professor favorito. Eu nunca consegui uma nota máxima na matéria dele, esse professor só botava pra lascar, apesar das minhas notas serem umas das melhores da sala, num máximo de 0 a 18 eu geralmente tirava 16 ou 17, mas acho que isso, em parte, me instigava a melhorar a minha escrita.
    Depois do almoço, Roberta arrochou sorvete em duas taças e me conduziu ao quarto dela, e começou a fazer perguntas num aperreio só, e eu, entre uma colherada e outra, ia sanando suas dúvidas.
    No final de tudo, Roberta resolveu analisar a questão.
    - Brunno... Eu estou com medo de você levar uns supapos nessa história... Eu sei que você é arriado os quatro pneus e o estepe pelo Diego e não é de hoje! E não adianta querer dizer que você não tem uma quedinha pelo Felipe também!
    - Eita! Eu não gosto do Felipe!
    - Se não gosta eu sou uma bulacheira!... – Disse ela cheia de lomba. - Lembra dos jogos internos do ano passado? Quando ele saiu da piscina com aquela sunga vermelha com aquela lapa de bunda, depois de ter ganhado o ouro para o 2° “A”?
    - Oxe, o que é que tem?
    - Oxente...Você ficou babando por ele e me disse que se ele tivesse cérebro, você provavelmente estaria apaixonado por ele também...
    - Foi só um comentário... Nada haver você futucar nessa história!
    - Aí dentro! Deixe de presepada véi! Não diga que você num fica pocando de vontade de pegar ele... De dar uma chumbregada, dele ficar cheirando o seu cangote...– Roberta começou a se abrir.
    - Apesar de ser um completo idiota e ter um fiapo de charque no lugar do cérebro, não vou mentir que gosto dele... Nas festas, dançando com quenguinhas de quinta categoria, conversando com todo mundo e sendo sociável até que ele parece ser uma boa pessoa, apesar de ser raparigueiro. Mas eu é que não quero levar gaia enquanto ele cai na gandaia com as raparigas dele ou com os com as bichinhas cuscuz com sardinha.
    - Deixe de ser despeitado... – Reiniciou ela.  – Se bem que aquelas raputengas de lá da sala merecem! – Ela começou a rir, voltando a ficar sisuda logo. - Enfim querido Bruninho... Tenha juízo viu? Eu sei que você tem a cabeça no lugar, mas também não precisa repetir o que você fez na 5ª série! Não vá sacudir tudo o que você aprendeu!
    - Vixe Maria! Mas... Você tem que admitir que aquilo foi o pipoco! Saudades daqueles tempos que eu era tampa de crush - Rebati caindo na gargalhada, eu era terrível na 5ª série e fiz várias coisas divertidas para me vingar dos idiotas que falavam mal de mim pelas costas.
    - Valei-me Brunno... – Ela reiniciou fazendo sua cara de reprovação. – Eu te conheço desde a época que a gente jogava chimbra seu caba, e te digo uma coisa: Já dizia o sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, pois mata a alma e envenena! – Ela caiu na risada, mas sei que ela estava me dando um conselho muito importante no meio daquela presepada. – Cuidado para esse troço num miar viu?

[...]
     Voltei para casa. Precisava dar andamento ao meu plano para recuperar o DVD e tucaiar a Laura. Além disso, se eu fosse para casa tarde iria ter muito maloqueiro nóiado na rua. Tava um calor de rachar o quengo, ô lugar quente essa minha querida cidade de Maceió!
    Minha irmã estava arreganhada no sofá, com as canelas cheia de pelos nascendo, assistindo um especial na VH1 sobre os Hansons. Parece que ela só se arruma quando o namorado tá na cidade. Como era de costume ela já veio fazendo algumas exigências.
    - Os pratos estão esperando você na pia certo irmãozinho? – Disse ela enquanto eu tentava ir sorrateiramente para o quarto. - E cadê o meu laptop heim seu leso? Responda! Tá môco é? – Ela indagou empinando a venta.
    Espere só eu botar pocando, pra você deixar dessas presepadas pra cima de mim! Mas num vou ficar afobado não, vai ser tudo ao seu tempo.
    - Espere aí... – Eu fui rapidamente no meu quarto e peguei o MEU laptop para dar para a minha irmã retardada. – Está aqui! Pronto! – Eu disse fingindo que tava descabriado, estendendo-o em sua direção.
    - Bote esse bregueço ali no raque! – Respondeu ela matando uma muriçoca.
    Eu coloquei e já estava saindo de fininho antes que recebesse mais ordens. Sem sucesso. Ela voltou a matracar.
    Ela tá se achando a bala.
    - Mainha pediu para que eu fizesse suco de maracujá... Então... Você pode fazer para mim irmãozinho? Os maracujás estão inriba da mesa da cozinha... – Iniciou ela com ironia. – Ah!  Então esqueça de trazer um copinho para mim e tire as roupas do varal, pode ser que dê um toró e molhe tudo...
    Eu vou é enfiar esse suco na sua guéla sua rapariga até você botar os bofes pra fora!
    - Tá!  - Respondi brabo. Aquela fia da peste me deixava infezado. Se ela acha que vou fazer o que ela quer o tempo todo, vou uma pinóia! Deixe estar...
    Ela não sabia que estava cutucando onça com vara curta, mas ela não perdia por esperar... Vai ser um pega-pra-capá da bixiga!

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 32


    - E então Dih... Está se sentindo melhor? – Eu disse, logo que ele abriu os olhos.
    Estávamos na enfermaria do meu colégio que, por incrível que pareça, eu nunca tinha visitado. Eu quase nunca ficava doente. Deitado na pequena cama suspensa estava Diego, ainda sem entender o que se passava.
    - Diego? – Disse Felipe, ao perceber que ele não tinha respondido a minha pergunta.
    - Oi Lipe... Como eu vim parar aqui? Onde eu estou?
    - Calma... Você apenas desmaiou e está na enfermaria! – Respondeu Felipe de forma carinhosa, passando a mão na cabeça dele.
    Eu fui andando lentamente até o balcão da enfermeira para avisá-la que Diego já tinha acordado. Ela estava procurando algum tipo de substância para fazê-lo acordar. Eunice, a freira enfermeira, andou rapidamente em direção a Diego. Ela pediu que ele permanecesse em silêncio enquanto ela verificava sua pressão.
     - Olha só Diego... – Ela começou a falar - Sua pressão baixou um pouco, mas não há nada com que se preocupar. Na verdade, não entendo porque você desmaiou. Você se alimentou direito hoje?
     - Acho que tomei um suco... Não me lembro bem, devo ter saído de casa atrasado...
     - Rapazinho não faça mais isso! Você precisa se alimentar direito querido! Esses adolescentes não tem jeito... – Ela deu um largo sorriso de dentes amarelados.
    - Eu já posso... Ir? – Indagou Diego com aquela cara de pidão que desarmava até bomba-relógio.
    - Claro! Vão com Deus! – Ela fez uma breve pausa - Meninos... Ajudem seu amigo certo? Ele pode estar um pouco tonto ainda... – Ela foi rapidamente até sua mesa e voltou com um quadradinho de papel rosa choque. – Não esqueçam do bilhete!
    Os bilhetes eram quase como um “passe de corredor” na minha escola. Todo aluno que estava fora de sala por motivos importantes como estar na coordenação, na diretoria, na enfermaria, na psicóloga ou até com o serviço de orientação religiosa precisaria de um desses chamativos bilhetes coloridos, devidamente assinados, para retornar à sala.
    Nós fomos andando com o Diego até um local do meu colégio que era todo revestido de porcelanato azul no chão e que tinham alguns bancos que ficavam meio escondidos. Lá nós teríamos mais sossego, caso contrário, o belo bilhete rosa choque, que não tinha uma hora inscrita, na presa a enfermeira só assinou a data e esqueceu de preencher a hora, iria nos proteger.
    - Acho que está na hora de você sair Nerdzinho! – Disse Felipe, logo quando nos sentamos.
    - Tá! – Retruquei me levantando.
    - Não, Brunno! Fique, precisamos conversar... – Pediu Diego.
    - Ok! – Respondi, voltando a me sentar.
    - Olha só Brunno, eu não sei o que o Felipe te disse, mas... – Ele foi interrompido.
    - Já foi chorar pra mamãe foi? – Rosnou Felipe entre dentes.
    - Lipe... – Ele colocou seu olhar de desaprovação para Felipe, fazendo-o se calar.
    - Como eu dizia... Eu não sei o que foi dito, só sei que não foram coisas boas, você sabe como Felipe é péssimo com as palavras... – Ele pousou um dedo sobre a minha boca interceptando minha possível fala. – E nós pedimos desculpas por isso, não é Felipe?
    - Está bem Nerdzi... – Ele se corrigiu antes de continuar a falar. – Brunno, desculpa! Satisfeito? – Felipe aparentava estar com raiva.
    - Isso realmente não é necessário Diego! – Respondi. – O que ele disse ou não disse não é importante, só sei que vou acabar logo com essa situação!
    - Nem se atreva a mostrar... – Reiniciou Felipe
    - Não se preocupe, por enquanto, eu não tenho intenção de divulgar nada. Em breve chamarei vocês para entrarmos num acordo quanto a essa questão. Até lá, eu não quero conviver com vocês! Não quero que você Diego faça o sacrifício de ficar dando em cima de alguém tão ridículo como eu para conseguir aquela porcaria de DVD de volta, nem quero o Sr. Esquentadinho me ameaçando pelos corredores. E é só isso que eu tenho a dizer! – Me levantei bruscamente e saí dali.

[...]

    Não queria ouvir mais nada daqueles dois. Eles acabaram me seguindo, porque eu estava com o bilhete. Bati levemente na porta e entreguei o bilhete ao professor de redação, sentando-me no lugar de costume. Roberta me olhou com um olhar de dúvida, que logo se substituiu por compreensão ao perceber que Diego e Felipe entraram comigo. Ela não me fez mais perguntas, sabia que mais tarde eu ia satisfazer todas suas curiosidades com um mero suborno de algumas taças de sorvete de menta.

[...]

    Eu me joguei no sofá da casa da Roberta como de costume. Os pais dela estavam viajando para resolver um problema familiar na Paraíba e ela ficaria sozinha por alguns dias. Rosa, a empregada ou como gostaria de ser chamada “executiva do lar”, não demorou muito para servir o almoço. Nós conversávamos sobre os temas dos trabalhos de redação que teríamos que fazer. Por causa da minha ausência da sala, eu tinha perdido toda a explicação do professor. Em sumo, o querido professor Osvaldo queria que nós fizéssemos 20 redações, escolhidas dentre os 50 tipos de temas e entregasse tudo isso no final de novembro encadernado. Ele era um professor muito exigente, e certamente o meu professor favorito. Eu nunca  consegui uma nota máxima na matéria dele, apesar das minhas notas serem umas das melhores da sala, num máximo de 0 a 18 eu geralmente tirava 16 ou 17, mas acho que isso, em parte, me instigava a melhorar a minha escrita.
    Depois do almoço, munida pelas taças de sorvete, Roberta me conduziu ao quarto dela, e começou a fazer perguntas e eu, entre uma colherada e outra, ia sanando suas dúvidas.
    No final de tudo, Roberta resolveu analisar a questão.
    - Brunno... Eu estou com medo de você se machucar nessa história... Eu sei que você gosta do Diego e não é de hoje! E não adianta querer dizer que você não tem uma quedinha pelo Felipe também!
    - Eu não gosto do Felipe!!!
    - Lembra dos jogos internos do ano passado? Quando ele saiu da piscina com aquela sunga vermelha depois de ter ganhado o ouro para o 2° “A”?
    - O que é que tem?
    - Você ficou babando por ele e me disse que se ele tivesse cérebro, você provavelmente estaria apaixonado por ele também...
    - Foi só um comentário...
    - Brunno! – Roberta fez aquela cara de ‘deixa dessa’ para mim.
    - Apesar dele ser um completo idiota e ter um grão de arroz no lugar do cérebro, não vou mentir que gosto dele... Nas festas, dançando com as meninas, conversando com todo mundo e sendo sociável até que ele parece ser uma boa pessoa.
    - Enfim querido Bruninho... Tenha juízo viu? Eu sei que você tem a cabeça no lugar, mas também não precisa repetir o que você fez na 5ª série!
    - Mas... Você tem que admitir que aquilo foi divertido!- Rebati caindo na gargalhada, eu era terrível na 5ª série e fiz várias coisas divertidas  para me vingar dos idiotas que falavam mal de mim pelas costas.
    - Brunno... – Ela reiniciou fazendo sua cara de reprovação. – Já dizia o sábio Seu Madruga: A vingança nunca é plena, pois mata a alma e envenena! – Ela caiu na risada, mas sei que ela estava me dando um conselho muito importante no meio daquela brincadeira.
[...]

     Voltei para casa. Precisava dar andamento ao meu plano para recuperar o DVD. Minha irmã estava jogada no sofá assistindo um especial na VH1 sobre os Hansons. Como era de costume ela já veio fazendo algumas exigências.
    - Os pratos estão esperando você na pia certo irmãozinho? – Disse ela enquanto eu tentava ir sorrateiramente para o quarto. -  E cadê o meu laptop heim?
    - Espere aí... – Eu fui rapidamente no meu quarto e peguei o MEU laptop para dar para a minha irmã retardada. – Está aqui! – Eu disse, estendendo-o em sua direção.
    - Pode colocar ali no raque!
    Eu coloquei e já estava saindo de fininho antes que recebesse mais ordens. Sem sucesso.
    - A mamãe pediu para que eu fizesse suco de maracujá... Então... Você pode fazer para mim irmãozinho? Os maracujás estão na mesa da cozinha... – Iniciou ela com ironia. – Ah!  Então esqueça de trazer um copinho para mim.
    - Tá!  - Rosnei com raiva.
    Ela não sabia que estava cutucando onça com vara curta, mas ela não perdia por esperar...