terça-feira, 3 de setembro de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 79




    Sentei em minha banca, ainda entorpecido pelos pensamentos que consumiam minha pele em arrepios que eriçavam os pêlos dos meus braços e faziam com que o calor pulsante do meu sangue percorresse com voracidade toda a extensão do meu corpo.  A mistura de amor e ódio que eu tinha cultivado por Alan se mostrava uma mistura alucinante e perigosa.
    Não poderia deixar de me sentir em êxtase depois do que tinha descoberto ontem a noite, feridas seriam curadas e de alguma forma a ordem poderia se restabelecer e esse pensamento me trazia a paz.
    O professor já tinha chegado e caminhava a passos lentos até sua mesa. Felipe foi à sua direção com o caderno em punho para tirar algumas dúvidas, cena que me causou um estranhamento positivo enquanto eu percebia que realmente as pessoas podiam mudar com o tempo. Inclinado sobre a mesa e murmurando alguma indignação por não ter conseguido resolver um problema, mesmo depois de várias tentativas, para o professor, que sorria com uma surpresa superior a minha.
    Diego entrou na sala com uma expressão fechada, ignorando algumas pessoas que deram bom dia quando o viram passar. Felipe virou bruscamente ao terminar de tirar suas dúvidas, dando uma cotovelada acidental em Diego, que passava distraído. O rosto de Diego se ruborizou, ele franziu o cenho e retomou seu caminho para uma banca no fundo da sala, ignorando o pedido de desculpas de Felipe.
    Eu ouvi dizer em algum lugar que ódio é amor reprimido e estava começando a me convencer disso, acreditava piamente que Felipe e Diego resolveriam os seus problemas e logo estariam juntos de novo. Afastei esses pensamentos de minhas preocupações por um instante, queria pensar no meu curto diálogo com Alan de alguns minutos atrás. O sorriso que ele tinha me ofertado tinha sido diferente, tinha algo de voraz em seus olhos, eu sentia que ele estava querendo dizer ou fazer alguma coisa, mas não sabia de fato o que era.
    - Eu conheço essa expressão? – Indagou Roberta com imprecisão.
    - Que expressão? – Respondi lançando outra pergunta.
    - Brunno, você está com um ar diferente essa manhã... – Ela fez uma pausa, aproximando-se de mim e me analisando – Bom... Feliz você está, mas qual seria a causa? Das duas uma, ou você arquitetou algum plano maligno perfeito ou algo mais aconteceu...
    - Betão, pare de me olhar como um membro do Grupo Lightman*! – Desatei a rir.
    - Um riso despreocupado vindo de você? Outra raridade nesses tempos difíceis...
    - A aula já vai começar e já tem meio quadro pra copiar! – Comentei, queria fugir dessa conversa por hora, precisava organizar meus pensamentos. Na lousa, o professor copiava rapidamente números miúdos, fazendo algumas pausas para pensar.

[...]

    Atravessei o banco de cimento e granito, passando por uma pequena árvore plantada em um vaso de gesso e entrei no beco estreito dos condicionadores de ar novamente. Alan já estava a minha espera e me encarou com uma expressão indecifrável.
    - Brunno! – Exclamou ele, revelando mais um sorriso estranho. Era incrível como com o passar dos anos eu perdi a sensibilidade para a decifração das expressões de Alan. Quando nós éramos crianças eu sempre sabia o que ele estava pensando apenas com o olhar, hoje eu não consigo interpretar nem suas intenções através da fala.
    - Oi Alan! – Respondi meio nervoso, não sabia como começar um diálogo com ele.
    - Tenho uma proposta pra te fazer! – A falta de introdução a tal frase me pegou completamente desprevenido, estava tentando me lembrar de como se respirar e ele continuou: - Não sei se é muito precipitado, se você vai aceitar, mas não quero esperar mais... – Ele deixou em reticências.


* Grupo Lightman: Presente na série “Lie to Me” da Fox. Grupo de cientistas que detectam mentiras através da observação de micro expressões faciais e linguagem corporal.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 78




    Sentei na cadeira de madeira posta em frente à minha escrivaninha, liguei o laptop e comecei a fazer algumas pesquisas e elaborar alguns cálculos. Voltei aos versos escritos na folha de caderno, fiz algumas marcações. Peguei meu celular apressadamente, disquei o número que já estava incrustado em minha memória.
      - Alô? Você sabe que horas são Brunno?
    - Desculpe... – Afastei o celular do ouvido por uns instantes, realmente essa não era uma hora propícia para fazer ligações. – Não queria te incomodar, mas já que acordou, preciso que você me responda uma coisa...

[...]

    Após ter digitalizado algumas coisas e anexado ao meu email, a final, concordo com o ditado que diz que é melhor prevenir do que remediar. Permiti a mim mesmo descansar, a me render às pálpebras pesadas. A dor de cabeça tinha passado, afinal, teriam inventado remédio melhor? Enfim pude dormir uma noite tranqüila.

[...]


    Atravessei, como de costume, àqueles corredores cheios de gente, tentando não esbarrar com ninguém. Ainda estava em êxtase devido ao poema que encontrei. É incrível como um pedaço de papel conseguiu me energizar e revigorar a minha mente exausta por pensar em como isso iria terminar. Andei suavemente, sem a pressa que cotidianamente empregava em meus passos, hoje tudo poderia esperar, eu estava flutuando. O burburinho de vozes parecia abafado, tinha muito em o que pensar.
    - Eu não quero fazer isso! – Uma voz familiar protestou, estourando a bolha de pensamentos na qual estava imerso.
    - Mas, só assim vai dar tudo certo! – A voz feminina exclamou em um sussurro soprado.
    Nielly e Alan conversavam na porta da sala. Quando me viu chegar, ela se afastou, desavenças antigas fazem com que não suportemos a presença um do outro.
    - Bom dia, Brunno! – Sussurrou com um sorriso saboroso nos lábios.
    - Bom dia! – Respondi timidamente. Tentando pensar depressa algum assunto para puxar. – Semana que vem é o Simulado, está preparado? – Indaguei. Notando, posteriormente, que a frase poderia soar como um estímulo a competição.
    - Estou estudando como de costume, não estou preocupado com o ranking esse ano! – Alan comentou encostando-se na parede. – Tenho outras preocupações em mente! – Ele esboçou outro sorriso, que deu outra tonalidade às suas palavras.
    - Acho que a prova é um bom termômetro pra o vestibular... – Tentei esconder o arrepio que se apossava do meu corpo.
    Uma voz de dentro da minha sala me chamou. Salvo pelo gongo. Pensei. Não saberia sobreviver mais alguns minutos perto dele sem fazer nenhuma besteira.
    - Tenho que ir... Roberta está me chamando... – Sussurrei. Na verdade, por mais difícil que fosse ficar ao lado dele sem poder fazer nada do que eu tanto imaginava, eu preferia essa tensão, essas reviravoltas do meu estômago, esses arrepios...
    - Te vejo no intervalo? – Alan perguntou.
    - Claro! – Respondi de prontidão, sem ao menos pensar no caso.
    Posteriormente, lembrei que tinha que conversar com Felipe, mas, acho que existem preocupações mais urgentes!



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 77




    Uma dor de cabeça invadiu meus pensamentos. Estava deitado em minha cama. No meu quarto. Fitando a parede, tentando pensar em qualquer assunto banal que fugisse aos concernentes à relacionamentos. A ruína, que penso ter potencial para tornar-se permanente, no relacionamento entre Diego e Felipe pesavam meus ombros com a responsabilidade. Mesmo que eu não tenha tido nenhum envolvimento com a gravidez precoce de Tânia, penso que as minhas chantagens e o meu desejo por uma vingança estúpida pode ter desencadeado os eventos que estão acontecendo, afinal, tudo é interligado. Não queria ver os dois separados, não queria causar tudo isso... A minha reaproximação com Alan parecia uma dádiva não merecida, e tinha medo de botar tudo a perder ou ser atingido por algum karma, um ‘anti-cupido’ querendo me castigar por ter atrapalhado a relação dos outros. Queria ter o poder de consertar tudo, mas minhas esperanças estavam se esvaindo com o passar dos dias.
    Precisava me distrair, parar de pensar um pouco nesses assuntos. Também não estava com paciência para estudar, os exercícios de amanhã já estavam prontos. Preciso de algo mais dramático do que minha própria vida...
    - Shakespeare! – Sussurrei como se tivesse pronunciado um “Eureka!” depois de uma descoberta científica. Busquei o Romeu e Julieta, que tinha pegado emprestado da biblioteca da escola, na minha estante e voltei a me esparramar na cama, na esperança de me entreter com tragédias e amores que não me pertenciam.
    Deitado, ergui o livro com as duas mãos, tentando bloquear com ele, a lâmpada do teto. Analisei a capa gasta, dessa edição especial e antiga, que deve ter sido achada em algum sebo local e comprada a baixo custo e o abri. Folheei, brincando com as páginas, ouvindo aquele chiar leve de papel, até que fui atingido por um pedaço de folha de caderno. Com espanto e curiosidade, voltei a me sentar na cama, desdobrando a folha com intensa curiosidade.

Irracional

Tenho que te dizer
Ângulo que te miro não é relevante
Nada mais tenho a temer
Insônia é a minha acompanhante
Ah! Como eu queria ser só

Escravo da minha própria liberdade
Um fruto de minha arbitrariedade?

Te amar não foi ato do meu querer
Eu o fiz pelo meu existir

Agora não posso mais olhar pra trás
Meu amor, meu oxigênio se faz
O que eu faço pra ter você?


    Estava escrito em letras bonitas em palavras apagadas e reescritas. Notei algo estranho nos versos desarrumados, sem métrica adequada, em estrofes irregulares. Analisei tudo isso em uma folha à parte, procurando o sentido daquilo. Foi quando me dei conta! O que não foi refeito, aquilo do qual já se tinha certeza, aquilo que eu duvidei, mas que se confirmou, às vezes temos que duvidar da causa, não do efeito!

    Corri para o meu guarda roupa, desenterrando uma caixa que estava por baixo de outras. Finalmente, os números me favorecem!

domingo, 23 de junho de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 76


    - Felipe, eu acho que o Diego precisa de um pouco de tempo e espaço. Vocês viveram juntos por muito tempo e, não estou dizendo que você seja sufocante, mas talvez ele só queira respirar um pouco... Novos ares... – Estava meio incerto se era meu papel comunicar Felipe do que estava acontecendo ou se deveria me abster.
    - Novos ares? O que você quer dizer com isso? – Indagou ele a perplexidade fincou suas sobrancelhas.
    - Estou falando de forma figurada, talvez ele só precise ficar um pouco longe de você para sentir sua falta, perceber como gosta de você!
    - Você está falando isso pra me agradar ou você pensa mesmo isso?
    - Eu penso isso mesmo, acredito que seja isso.
    - Tomara que seja verdade mesmo, Brunno! – Virou-se na cama e fixou seus olhos verdes, como duas esmeraldas escuras, em mim com uma expressão estranha, mas incrivelmente bonita.
    - Por que está me olhando assim? – Eu realmente odiava esse tipo de contato visual prolongado, considerava constrangedor.
    - Nada... Agora não posso mais olhar pra você?
    - Pode... – Respondi meio incerto. Não sei se queria aquele tipo de olhar pra mim com freqüência, é um olhar perigoso de mais.
    - Obrigado! – Disse, após um breve silêncio.
    - Pelo quê?
    - Por tudo que você fez, por ter entrado na minha vida...
    - Mesmo tendo sido dessa forma?
    - Talvez tenha sido justamente pela forma que você entrou na minha vida, e na do Diego, que nos fez baixar um pouco a guarda, pra pensar um pouco fora da bolha na qual estávamos aprisionados... – Ele se sentou na cama e sinalizou para eu sentar ao seu lado.
    Não tive como recusar, então levantei, e sentei ao seu lado, meio inseguro, meu estômago de repente ficou cheio daquelas conhecidas borboletas. Felipe segurou a minha mão e deslizou na cama para encostar-se à parede. Pediu pra eu tirar os sapatos, e assim o fiz. Depois me puxou de leve, me encaixando por entre suas pernas, enquanto me dava um abraço por trás. Senti uma mistura de calor e frio me assolar neste momento, meu coração bateu acelerado, em desespero, fazendo meu sangue arder e minha pele se arrepiou com o frio.
    - Desculpa Brunno, mas hoje eu estou meio carente e você vai ser meu ursinho de pelúcia... – Ele riu de si mesmo após ter dito isso.
    Seu comentário não foi uma pergunta, foi uma afirmação. Ele aplicou um beijo em minha cabeça.
    - Você merece alguém especial, que te valorize... – Comentou Felipe. – Por favor, me prometa que vai tomar cuidado com aquele imbec... – Ele se corrigiu rapidamente. – Com o Alan...
    - Por que você não gosta dele? – Indaguei me libertando do abraço e encarando ele face a face.
    - Tenho motivos pra gostar? Sei que você não vai querer ouvir, mas... – Parou por alguns segundos e retomou a fala. – Ele é a pessoa mais falsa que conheci! Ele finge ser amigo daquele pessoal inteligente da sala só pra fazer trabalhos escolares, mas quando ele sai pra se divertir, sai com os amigos de outras salas, nunca os convida pra nada... Enfim, eu não sei se isso prova alguma coisa, mas acho que ele é oportunista...
    - Eu conheço o Alan, e não é de hoje... Ele não é assim! – Protestei.
    - Não estou querendo ‘queimar’ ele com você, mas acho melhor você ficar com um passo atrás, sempre!
    - Está bem Felipe, eu sei me cuidar sozinho!
    - Desculpe se te incomodei.
    - Não incomodou – Menti por mera educação. Como Felipe se acha na posição de me dar esse tipo de aviso? Ele não sabe de nada! Por que ele está fazendo isso? – Bom... – Recomecei olhando as horas no celular. – Preciso ir...

    - Eu te levo em casa!

domingo, 26 de maio de 2013

Aviso


    Não terei como postar essa semana, tenho várias atividades para realizar e pouco tempo para tanto!
    Espero a compreensão de todos!

XO XO
BRUNNO BIANCCHI

domingo, 19 de maio de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 75



    - Aquele imbecil? – Sussurrou ele. Permanecendo na mesma posição.
    - Era melhor nem ter comentado nada... – Respondi revirando os olhos.
    - Desculpa Brunno... – Ele abriu os olhos e sentou na cama olhando para mim. – Você acha, sinceramente, que isso vai dar certo?
    - Não posso ter certeza... Mas, só quero a amizade dele! – Menti.
    - Isso é o que você diz aos outros Brunno, nós sabemos que você planeja ir muito mais além. – Felipe tinha chegado a um nível interessante de perspicácia, alguns tipos de mentiras que eu contava começavam a perder o efeito.
    - É... Acho que não posso negar isso, não para você! Mas, eu não quero falar disso agora... Pode ser? – Eu não considero que Felipe seja a melhor pessoa para se conversar sobre relacionamentos amorosos.
  - Claro que pode, mas, se você pedisse o meu conselho eu diria pra você se afastar dele o quanto antes! – Preveniu. Com um tom estranho na voz.
    - Obrigado... – Respondi meio sem jeito. Não entendi as motivações levaram Felipe a não gostar do Alan a ponto de querer que eu me afaste dele e a fazer esses comentários tão contrários. – E você e a Tânia, como estão?
    - Estou aprendendo a tolerar... – Respondeu, respirando fundo.
    - Os pais dela já sabem? – Percebi que esse era o momento certo para fazer as perguntas que mais o incomodavam.
    - Nós estamos pensando na melhor maneira de falar... Na verdade, eu estou! Porque sei que ela bem queria sair espalhando por aí a notícia. Estou adiando o máximo que posso, mas eu tenho plena consciência que não vou conseguir fazer isso por muito tempo.
    - Bom, existe uma possibilidade de que os pais dela peçam pra você se casar com ela, caso eles sejam muito tradicionais, o que você faria nessa situação?
    - Como você mesmo já comentou em outra conversa, estamos no século XXI. Então, não preciso necessariamente me casar com ela. Vou assegurar que não vai faltar nada para essa criança...
    - Você está preparado para ser pai?
    - Prefiro nem pensar nisso sabe? Você melhor do que ninguém sabe que eu não queria estar nessa situação... Imagina se eu ia querer aquela idiota buzinando no meu ouvido todos os dias ‘você deveria ser mais romântico comigo’, ‘faz um poema pra mim, eu acho tão lindo isso’ e blá, blá, blá...
    - Poema? De onde ela tirou isso?
    - Sei lá, deve ter começado a prestar atenção nas aulas de literatura e ter pegado gosto, o que eu acho muito difícil. Pode ser só manha de menina iludida que sonha com o príncipe encantado!
    - Eu acho que aquela ali só quer dar o golpe da barriga mesmo!
    - Obrigado, Brunno!
    - Desculpa Felipe, mas é o que eu penso!
    - E o pior é que você está certo! Eu me arrependo todos os dias de ter me envolvido com ela... Mas é que, eu estava me sentindo estranho... Eu comecei a pensar no que os meus pais diriam se descobrissem sobre o que eu tinha com o Diego. Estava achando que isso era errado... Sei lá... Pensei que se eu dormisse com ela talvez as coisas fizessem mais sentido...
    - E fizeram? – Indaguei.
    - Não... Foi péssimo! Eu não conseguia me concentrar direito, bebi mais do que devia e no outro dia acordei com dor na consciência e ressaca! Não queria ter feito isso com o Diego... Acabei percebendo que eu saia com meninas para provar alguma coisa para os outros...
    - Para se sentir aceito?
    - Acho que sim, tinha medo do que as pessoas iam pensar.
    - E hoje, você tem?
   - Hoje eu nem me importo mais! Os meus amigos só estão comigo para ir a festas, falar bobagens... Já ouvi diversas vezes eles criticarem os gays em geral. E eu sentia como se aquele comentário tivesse sido feito diretamente pra mim, sabe? Mas, eu tinha que disfarçar e tentar ouvir com naturalidade.
    - Então, quer dizer que...
  - Sim! Eu sou gay Brunno! Não gosto mesmo de mulheres! Satisfeito?
    - Eu? Não tenho que está satisfeito com isso – Fiz uma pausa. – Você está?
    - Eu estou. Só queria que tudo voltasse a ser como antes, eu daria tudo para ter o Diego de volta, por ele sim eu faria um poema...

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 74



    - O que foi? - Perguntou. Com certa perplexidade no rosto. – Ah... Isso? – Ele apontou para seu tórax e fez uns leves movimentos verticais no dedo indicador. – Eu sempre fico assim em casa. Nunca foi um problema para o Diego!
    - É que, de onde eu venho, as pessoas ficam vestidas!
    - Até em casa? Por isso que você é esse chato... Tem que se libertar um pouco rapaz!
    - É muito fácil sair se exibindo por aí quando você tem um corpo perfeito!
    - O que eu vejo de velho gordo andando de sunga na praia! – Ele riu consigo mesmo.
    - Eu não consigo ser assim...
    - É engraçado Brunno, como, apesar de toda essa postura de segurança e superioridade, você tem uma auto-estima tão baixa! – Ele fez com que eu me sentisse exposto.
    - Não quero falar sobre isso!
    - Brunno... – Deixou em reticências, enquanto se aproximava de mim. – Até que você não é feio, baixinho! – Um corte descente nesse seu cabelo, um tratamento para tirar essas manchinhas de acne, quem sabe um clareamento para deixar o sorriso melhor... Sem contar na academia...
    - Isso é um episódio de “10 anos mais jovem”? – Eu sorri meio sem graça. Eu tinha plena consciência sobre meus defeitos, sabia o que deveria mudar e como deveria mudar, mas não tinha dinheiro pra fazer tudo isso. Acabei deixando pra lá, deixando pro futuro. Não gostava de ter meus defeitos apontados, ainda mais por Felipe. – Eu não tenho tempo pra essas frescuras!
    - Eu não sei se você não se importa, ou se você se considera tão feio a ponto de não achar que pode melhorar!
    - Só não tenho tempo para isso!
    - “Isso” não precisa levar tanto tempo assim, não é como se você fosse passar uma semana de cada mês confinado num SPA!
    - Você não me chamou aqui para falar disso, não é?
    - Na verdade eu não te chamei para falar nada em especial, só pra conversar mesmo sobre coisas banais... – Ele fez uma pausa. – Como está a sua vida?
    - Minha vida? – Indaguei meio perplexo. Não pensava que um dia o Felipe se importaria com o que faço da minha vida. – Normal... Tenho estudado mais agora...
    - Quem é ele? – Perguntou. Fechando o semblante em uma expressão séria.
    - Ele quem? – Rebati.
    - Você pode dizer, ou eu posso descobrir... Você escolhe!
    - Então, como você está se sentindo, agora que não tem mais o Diego?
    - Sua hostilidade não vai levar essa conversa a lugar nenhum Brunno, você bem sabe como eu estou me sentindo com isso tudo... É engraçado como você se dispõe tanto a ouvir as pessoas falarem e como você, em contrapartida, repele tantas perguntas e reprime tanto os seus próprios ímpetos de falar!
    - Não é isso...
    - Desculpe não ter a ‘maturidade’ do Diego para que você se sinta à vontade em falar suas coisas...
    Felipe ficou deitado na cama, olhando para o teto do quarto. Fechou os olhos e pareceu refletir profundamente. Esse não era o Felipe que conheci a tempos atrás, ele realmente tinha amadurecido muito, com todos os seus erros, e apesar de ainda parecer um pouco perdido do rumo de sua própria vida, nunca pareceu tão seguro de suas convicções. Creio que ele tinha chegado naquele momento da vida em que se está no limiar entre deixar de ser um garoto e começar a portar-se como um homem.
    Acho difícil apostar a minha confiança e todas as minhas outras fichas em Felipe. Apesar de tudo que passou isso ainda parecia um jogo de azar. Mas, o que pude aprender nos meus anos de pouca experiência é que às vezes não importa muito se irá vencer ou ganhar, o importante é jogar.
    - Alan! – Exclamei, com a voz firme. E deixei a palavra ecoar no silêncio do quarto.