domingo, 19 de agosto de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 63



    - Ai, Felipe! É você... – Disse ao me virar. Meu coração ainda batia acelerado. É óbvio que eu tinha pensado que era o Alan, com algum tipo de resposta pra me dar.
    - Esqueceu que dia é hoje? –Indagou com uma expressão misteriosa.
    - Hoje é dia... – Fiz uma pausa para tentar recordar. – Hoje é o dia do resultado do exame! – Com todos esses pensamentos voltados para Alan, eu tinha esquecido que esse drama da gravidez estava prestes a acabar.
    - Estamos indo buscar agora! Venha! – Ordenou. Caminhando para fora da sala. Diego e Tânia o seguiram também.
    Eu não poderia perder isso por nada! Finalmente a loira peituda ia sair das nossas vidas! Diego e Felipe seriam felizes de novo e eu poderia me concentrar em outras coisas.
    Alguém me cutucou minhas costas e eu fui tomado por aquela sensação novamente.
    - Aonde você vai Brunno? – Indagou Roberta.
    - Betão! – Sussurrei olhando para ela rapidamente. – É hoje que a farsa acaba! Finalmente o drama vai terminar.
    - Agora me resta perguntar... – Reiniciou, andando ao meu lado. – E depois?
    - Depois o quê? – Respondi confusamente com outra pergunta.
    - Você sabe muito bem a finalidade da minha pergunta, não entre na fase de negação!
    - Eu sinceramente não sei dizer com precisão... – Respondi em reticências.
     Roberta se referia a o que ia acontecer daqui pra frente. Eu realmente estava evitando pensar nisso, apesar de eu ter tentado dar um ponto final nisso tudo, eu não conseguia mais ficar longe deles. Diego e Felipe estavam juntos novamente e o único obstáculo era essa falsa-gravidez de Tânia. Eu já tinha entregado o DVD que continha o vídeo que deixava os dois no meu poder e agora eles não tinham mais motivos pra continuar a andar comigo.
     - Brunno... Eu não quero que você se machuque! Você precisa estar preparado para todas as possibilidades! Eu acho mais sensato você tomar uma decisão, antes que os dois tomem por você!
    - Não sei Roberta! Eu sei que você está me dando o conselho certo e que eu deveria pular do barco antes que ele afunde, mas, você sabe que não é tão simples para eu fazer isso... – Parei na frente dela. – Mesmo assim, obrigado! – Apliquei um abraço confortante em Roberta. – Você realmente é uma amiga e tanto! Agora, preciso ir! Eles já estão muito na frente!

[...]

   Tânia estava sentada ao meu lado, completamente imóvel no banco de couro e olhava para a janela distraidamente. Ela sabia lá no fundo que estava caminhando para a guilhotina, em breve, sua cabeça estaria rolando pelo chão. Diego estava sentado no banco da frente e estava tenso, o silêncio no carro era mortal.
    Chegamos ao laboratório que analisava esse tipo de exame. Felipe e Tânia foram buscar o exame, enquanto Diego e eu sentávamos numa mesa de uma lanchonete que ficava na frente do laboratório.
     Eu não ousei falar. Diego estava frio. Eu conseguia imaginar o que estava passando por sua cabeça agora. Após alguns minutos que pareceram uma eternidade, eles voltaram. O envelope estava lacrado.
    Felipe sentou-se ao meu lado e Tânia sentou no lado oposto da mesa, ao lado de Diego. Felipe rasgou a borda do envelope do exame com paciência, folheando nervosamente a caminho da última folha. Ele parou um tempo lendo e depois passou o envelope pra mim. Eu comecei a ler e uma expressão de confusão tomou conta de mim.
    - Como assim você está grávida de verdade? – Indaguei perplexamente, fitando Tânia.

sábado, 18 de agosto de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 62



    Eu tinha a mania masoquista de pensar no futuro e geralmente os resultados previstos ao serem comparados com os resultados reais causavam extrema frustração. Mas, mesmo sabendo disso, eu não conseguiria não imaginar o que poderia vir a seguir. O Alan entrou nesse colégio no mesmo dia que eu e isso não foi nenhuma coincidência! Já éramos amigos fazia um tempo, porque a minha mãe e a dele eram colegas de trabalho e decidimos mudar para o mesmo colégio. A nossa amizade só aumentou com o passar do tempo, mas parecia que as pessoas tinham inveja disso. Nós brigávamos constantemente, porque nós éramos dois cabeças-duras e prevalecia entre a nossa amizade um saudável instinto de competição, principalmente no que se referia às notas na escola, mas, nunca brigamos por esse motivo. A real razão das brigas era pelos ciúmes, o que a gente tentava explicar por “ciúmes de amigo” e que impedia que ninguém atravessasse a anteriormente delimitada linha de ‘melhor amigo’. No entanto, de forma natural, conseguimos agregar mais dois membros ao grupo: o Jonas e o Henrique e a partir disso, realmente o círculo se fechou. Em algum momento na época que eu fazia sexta série (O atual sétimo ano) nós brigamos e nunca mais voltamos a nos falar, pelo menos até o presente momento.
    Eu não podia negar que o que eu sentia por Alan era bem diferente do que sentia por Diego e diferente da atração que sentia por Felipe. Eu sentia raiva dele por tudo aquilo que aconteceu no decorrer desses anos, nas trocas de ofensas nos corredores, nas difamações que correram soltas pelas bocas e ouvidos dos fofoqueiros do colégio. Mas, junto com essa raiva morava um sentimento que clamava por uma reconciliação e era tão esperançoso que, além da amizade, ansiava por amor.

[...]

    Por mais que eu tentasse me concentrar nas malditas questões de Biologia II a ansiedade não deixava margem para meu foco em estudar. Eu tinha medo do que Alan podia responder, a ideia de ser amigo dele me assustava mais do que a de odiá-lo (ou fingir isso). Não sei se conseguiria manter o controle da situação conduzindo uma amizade com ele. Com muita dificuldade e varando a madrugada, consegui resolver as questões para a aula do dia seguinte.

[...]

    Acordei atrasado e tive que me arrumar às pressas, mas fiz com que minha Personal Slave me conseguisse uma carona pra escola, além de fazê-la preparar meu café-da-manhã. Então antes do trabalho, o namorado da minha irmã veio me buscar. Cheguei na escola a tempo, com uns cinco minutos de sobra, que era justo o tempo que era necessário pra chegar a minha sala.
    Sobressaltado, me sentei rapidamente e abri meu caderno, o professor já estava se preparando pra começar a aula.
    - Brunno, você está bem? – Sussurrou Roberta.
  - Não dormi direito fazendo as questões de Biologia II! – Respondi, sorrindo para ela.
    - Tem mais coisa por trás disso, que tipo de sorriso é esse?
    - O professor começou a falar Betão, depois a gente fala disso!
    Eu não conseguia me concentrar em mais nada, a angústia da falta de resposta me deixava apreensivo. Toda vez que eu olhava, ele se comportava como se nada tivesse acontecido.

[...]

    Depois de uma eternidade e de eu ter inventado mais uma história esfarrapada pra Roberta, as aulas acabaram. Eu não gostava de mentir pra minha melhor amiga, mas preferia explicar tudo pra ela depois que as coisas se resolvessem. Andei distraidamente em direção a porta da sala.
    - Aonde você pensa que vai? – Disse ele, me pegando de surpresa.

sábado, 21 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 61


    Eu nunca pensei em experimentar tais sensações. Apesar do calorzinho típico de Maceió, eu estava gelado dos pés a cabeça e meu coração disparava alucinantemente. Eu não sabia ao certo o que dizer e muito menos como prever a reação do Alan mediante ao que eu tinha pra dizer, até porque, eu nem sei o que eu ia dizer! 
    Procurei alguma passagem para esse lugar que ele tinha indicado e depois de me espremer entre uma árvore e uma fresta eu consegui entrar no corredor estreito que ficava atrás do laboratório de ciências. Fiquei esperando. Ninguém passava nesse corredor, e essa foi a primeira vez que eu tinha ouvido falar nele. Fiquei encostado na parede tentando me segurar, porque minhas pernas estavam bambas. 
    Tentei me distrair observando as gotas de água que vinham dos vários condicionadores de ar desse lado do prédio e que formavam pequenas poças d’água no chão. Era engraçado pensar que essas gotinhas, lenta e diariamente conseguiam desgastar o chão de cimento e fazer pequenos orifícios no chão. Então foi que percebi que o que tinha que fazer com Alan era justamente isso, ir aos poucos, tentar manter pelo menos uma relação cordial com ele deforma que eu possa dar bom dia para ele e que ele me responda, no futuro, quem sabe, as coisas avancem um pouco mais.
    - Então... O que você quer? – Disse ele com sua voz grossa e firme me pegando totalmente desprevenido.
    - Queria... Falar sobre a nossa situação...   – Balbuciei com a voz entrecortada.
    - Que situação? – Indagou ele com uma cara de desconfiado.
    - O fato de nós termos sido melhores amigos e agora termos chegado a esse ponto de inimizade! – Falei, o mais calmamente possível.
    - Você sabe muito bem como chegamos a esse ponto! – Disse ele, franzindo o cenho.
    - O pior é que eu não sei! – Admiti. Fazia tanto tempo que isso se desenrolava que eu nem sabia como tinha começado.
    - Vai debochar, agora?
    - Não estou debochando Alan! Eu sei que a gente está brigado faz uns cinco anos, mas eu não me lembro o que começou essa briga! Eu só me lembro da gente rindo como melhores amigos e depois de estarmos no patamar que estamos agora!
    Alan fez uma pausa e ficou pensativo.
    - É... De fato eu não me lembro do motivo pelo qual iniciamos isso, mas deve ter sido porque você falou mal de mim pelas costas! – Incitou. Mas acho que, no fundo, ele também não sabia o motivo da nossa briga, só não queria admitir.
    - Se eu era seu melhor amigo, porque eu falaria mal de você? – Eu precisava conduzi-lo para um pensamento mais racional da situação.
    - Porque queria ser melhor que eu! – Ele continuava chutando teorias pra me culpar. Típico dele!
    - Você é que tem esse extinto de competição!
    - Olha só quem fala! Estou vendo que você é o mesmo idiota de sempre! – Ele se virou e tentou sair do corredor.
    - Espere! – Eu o puxei pelo braço. – Desculpa! – Sussurrei.
    - O quê? Eu não ouvi! – Fingiu ele, com aquela maneira infantil de tratar os assuntos sérios, como era do seu feitio.
    - Desculpa! Eu não sei o que aconteceu a cinco anos atrás. Não sei se eu falei alguma coisa ou não. Eu posso até ter dito alguma bobagem e alguém ter aumentado quando vou contar pra você... Você sabe como o pessoal da nossa sala é não é? – Indaguei. Todo mundo sabia que nossa sala era um ninho de cobras. - Mas, independente de qualquer coisa eu quero que a gente pare com isso e possamos, no mínimo, ser civilizados um como outro.
    - Ah! Agora você quer ficar meu amiguinho de infância de novo? – Ironizou ele.
    - Não necessariamente, mas, quero que a gente pare de competir por tudo, de virar a cara para o outro, essas coisas...
    - Não sei se devo confiar em você! – Alan tinha um gênio meio difícil, era difícil vê-lo dar o braço a torcer.
    - Eu não deveria nem ter inventado essa história! Sai da minha frente que eu vou sair daqui! – Tentei empurrá-lo, mas ele era como um guarda-roupa enorme e pesado impedindo a passagem.
    - Eu vou pensar Brunno! – Sibilou ele. Parecia que realmente ele estava se esforçando pra tentar acreditar em mim. – Mas, por enquanto, vamos deixar essa conversinha entre a gente!
    - Certo... – Respondi e logo o sinal tocou. Alan me deu passagem e eu voltei pra sala sem saber o que pensar dessa conversa. Será que eu tinha agido certo em tentar concertar isso depois de todos esses anos?


terça-feira, 17 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 60



    Parecia que o vento agora soprava ao nosso favor e finalmente a tempestade tinha passado. Com a Laura sob controle, fazendo, diga-se de passagem, todas as minhas obrigações domésticas e obedecendo a algumas exigências faraônicas que me vinham à cabeça deliberadamente. Os dias passavam deliciosamente e a iminência do resultado do teste de gravidez mantinha a peituda oxigenada a uma distância favorável à minha tranqüilidade. Era possível ver a expressão de felicidade no rosto de Felipe e Diego, mas, apesar desse sentimento mútuo, o olhar de Diego ainda trazia um pesar de medo do que poderia acontecer.
    Eu também tinha esse tempo para voltar a estudar intensamente, já que as minhas notas estavam na casa dos oito. Todo esse tempo extra me permitia pensar em outras possibilidades. Lembrei de algumas conversas que tinha tido com Diego sobre o menino pelo qual sou irracional e doentiamente apaixonado e agora estava pensando em fazer alguma coisa a respeito. Minha barriga se revirava e meu corpo gelava em um arrepio instantâneo só de pensar em dizer a ele como eu me sinto, ainda mais depois de tanto tempo. Eu queria conversar com Diego sobre isso, mas ele estava decepcionado comigo devido ao meu afastamento e meu orgulho era muito forte para eu ir até lá e tentar reatar laços com ele. Além disso, eu tinha que reaprender a fazer as coisas por mim mesmo, declarar minha independência de Felipe e Diego, talvez, esse tempo todo de aproximação excessiva com eles tenha me feito ter preguiça de dialogar com minha própria consciência.

[...]

    “Posso falar com você no intervalo? Ass: Brunno” Estava escrito no bilhete que tinha deixado dentro do caderno dele. A ansiedade me consumia, afinal, ele já tinha voltado do banheiro e sentado no seu lugar de costume há doze minutos e ainda não tinha aberto o caderno. Tentei prestar atenção na aula, sem muito sucesso, queria ver que reação ele teria ao ler o bilhete que eu tinha escrito em inacreditáveis trinta minutos porque não sabia de fato, que abordagem seria mais eficaz.
    O professor começou a anotar algumas questões no quadro que valiam ponto, então todos se apressaram em abrir seus cadernos; para alguns descompromissados essa ação se convertia em pedir folhas de caderno emprestadas aos outros, já que, nem cadernos levavam para as aulas; e foi então que ele abriu o caderno e viu o bilhete, ele pareceu ler e reler com certa indiferença ponderando se aceitaria ou não. Ele de repente lançou um olhar para mim, e com rapidez voltei minhas atenções ao caderno e comecei a copiar. Agora é só esperar. O professor proferiu, depois de muita insistência dos alunos da primeira fileira da sala, que o exercício poderia ser feito em trio, e logo pude perceber Felipe acenando para mim.
    - Obrigado Brunno! – Disse Felipe, puxando uma cadeira ao meu lado. – Estamos precisando de pontos nessa matéria, não é? – Ele deu uma leve cotovelada em Diego.
   - É... – Respondeu, puxando uma cadeira e sentando-se também.
   - Sem problemas... – Respondi em reticências, imprimindo um sorriso de educação. Minha cabeça só tinha espaço para a dúvida acerca de qual resposta eu iria receber.

[...]

    Acabei me distraindo com a quantidade de questões de matemática que tinha pra resolver em tão pouco tempo, afinal, nenhum dos meus dois ‘colegas de equipe’ sabiam me ajudar em nada.
   - Brunno, quer ajuda? – Indagou Felipe, interrompendo a conversa que estava levando com Diego.
   - Você não vai saber nenhuma dessas questões, até eu estou sentindo dificuldade! Você pode ajudar conversando mais baixo...
    Isadora me cutucou e me entregou um bilhete.
    “Eu aceito. Não por você, mas por minha curiosidade! Por trás do laboratório de ciências, no intervalo!” Um calafrio se apossou de mim. Ele aceitou!

domingo, 8 de julho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 59



    A intensa chuva me persuadia a continuar dormindo, mas meus compromissos com minhas metas eram superiores a minha preguiça. Além disso, seria hoje que Felipe faria a ‘surpresa’ pra Tânia e ver sua expressão ao chegar na sala após isso era de um valor imensurável. Provavelmente, o resultado do teste demoraria a sair, mas é fato que o resultado estaria estampado na sua expressão muito antes dos especialistas terem acesso as amostras.

[...]

    A aula de história estava submersa ao tédio e monotonia habituais, quando Felipe entrou na sala entregando um daqueles bilhetinhos coloridos ao professor e foi em direção ao lugar que costumava se sentar. Tânia não ousou sentar perto dele e com uma expressão de extremo desconforto, foi trocar sussurros com sua amiga Gabrielle.

[...]

    - E então, Felipe? –Incitei ao me aproximar dele no intervalo.
    - Ela fez o papel da inocente que tem a sua honestidade posta à prova! - Respondeu ele. Por que eu não me surpreendi com essa informação?
    - A julgar pela expressão dela, nós temos a batalha dada como vencida, mas, como diz aquele ditado redundante ‘só acaba, quando termina’ e só nos resta esperar.
    - Pelo visto, por enquanto, eu tenho tempo. Já que ela está tão tensa que não falou mais comigo desde o incidente desta manhã.
    - Curta sua liberdade então... Mas saiba que falta mais uma rodada antes que todos nós mostremos as cartas. – Agora é que eu percebi que eu tinha essa mania de sempre falar usando figuras de linguagem.
    - Brunno... Eu...
    - De nada! – Intervim, estava cansado de ser agradecido.
    - Eu ia dizer outra coisa, mas o agradecimento também estava subentendido.
    - Ah! – Eu fiz uma pausa, parecia que os pensamentos de Felipe não me eram tão previsíveis agora. -  Desculpa, o que você ia dizer?
    - Eu queria te chamar pra gente conversar... Sei lá, tomar um sorvete...
    - Embora eu venha a considerar que esse é um convite despretensioso, acredito que Diego não vai gostar de saber.
    - Eu sinto falta de você e sei que ele também sente!
    - Não torne as coisas mais difíceis! Eu só quero consertar as consequências que decorreram daquela chantagem... – Deixei em reticências, embora meu coração acelerado indicasse à resposta que eu gostaria de ter dado.
    - Você sempre se refere a isso como uma coisa negativa, mas, nós ganhamos muito convivendo com você! Mesmo que tenha sido sob esse contexto.
    - Como assim?
    - Provavelmente, sem tudo que ocorreu, Diego e eu continuaríamos com a relação que tínhamos antes de te conhecer. A gente não teria se aproximado tanto e admitido pra nós mesmos que aquilo não era só sexo.
    - Vocês teriam tirado essa conclusão mesmo sem mim. – Era impossível não conceber uma futura “evolução” desse relacionamento, para algo menos desgastante.
    - Mas, o ponto é: quando seria isso? A gente podia até se dar conta no futuro, mas, que conseqüências essa demora acarretaria?
    - Eu não saberia calcular...
    - Está vendo? Então pare de se culpar por tudo não ter saído conforme o planejado, às vezes a vida proporciona desfechos ainda melhores do que nós tínhamos imaginado.

[...]

    A conversa que tive com Felipe, que ocupou cada segundo restante do intervalo me deixou pior do que eu já estava me sentindo. Ele me ausentou de toda a culpa e ainda queria me ter de volta como um amigo participante na sua vida. Por mais que eu tivesse essa capa de que era frio e calculista, eu tinha um coração. E esse coração está amolecendo em banho Maria, e a cada gesto como esse se aproxima o dia em que ele vai tomar o controle e eu vou estar vulnerável a me decepcionar novamente!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 58



   Voltei para a sala e comecei a resolver algumas questões de química 1 que tinha no livro, para recuperar a parte da aula que eu perdi em meio aos meus devaneios. Esse negócio de meia-vida até que era bem divertido, mas nada se compara a fazer cadeias de carbono Alcano, Alcino, Alceno, Benzeno, Álcool e etc. Era uma das minhas atividades de distração favoritas.
    Eu não sabia ao certo se eu tinha exagerado na dose de frieza com Diego, mas eu já estava um pouco estressado devido ao modo com que Felipe ironizava a minha tentativa de ajudá-lo
    A aula de redação começou, e como eu já tinha feito em casa todas as 10 redações que ele mandou fazer para constituir a nota bimestral, só iria me ocupar em passar a limpo de forma meticulosa. Esse era um daqueles momentos em que eu não queria pensar em absolutamente nada. Uma menina de outra turma entrou na sala e entregou um daqueles bilhetes chamativos, dessa vez, um bilhete verde-limão, para ele. Que parecia ler repetidas vezes sem compreender muito. Deixei isso pra lá e voltei ao meu trabalho caligráfico.
    - Brunno Biancchi, você está sendo chamado na sala da coordenação! – Proferiu ele, como se não entendesse o motivo que impulsionou esse chamado.

[...]

   Eu fiquei igualmente confuso, faz tempo que eu não era chamado lá, desde aquele episódio... Abri a porta da sala e acabei dando de cara com ele, que do alto dos seus 14 cm a mais de altura do que a minha, como eu costumava definir, ‘minusculosidade’, me fitou profundamente franzindo o cenho e fazendo questão de esbarrar em mim, como um rinoceronte raivoso, para entrar na sala. Eu fingi que nada aconteceu, afinal, me intrigava muito mais o fato de eu ter sido chamado na coordenação do que essa rixa de anos que eu tinha com o...
    - Oi Brunno! – Falou a psicóloga com aquela felicidade irritante. – Tudo bom, querido?
    - Tudo. – Respondi secamente, tentando ser o mais educado possível. Não era tão bom assim estudar numa sala que ficava vizinha à coordenação, não dava tempo nem de se preparar para receber a próxima bomba. Entrei, e cumprimentei a coordenadora que estava sentada no seu lugar habitual.
    - Sente-se, por favor! – Disse Sandra, a coordenadora. Eu preferia ouvir notícia ruim em pé, mas, o pedido dela foi quase como uma ordem. A sonsa da Audrey, a psicóloga retardada, sentou na cadeira ao lado da minha.
    - O que aconteceu? – Iniciei a conversa. Creio que tinha absorvido por osmose um pouco da impaciência que Felipe me mostrou no intervalo.
    - Veja bem Brunno, precisamos conversar sobre uma coisa muito importante! – Sandra falou enfaticamente. Será que alguém da minha família tinha morrido? Constatei instantaneamente que não, se fosse isso, a Audrey, vulgo psicóloga sensível, já estaria alisando as minhas costas ou realizando ações dessa natureza.
    - Algo com minha família? – Indaguei, fazendo uma cara de apreensão só pelo esporte de interpretar.
    - Não... Nós precisamos falar sobre o seu rendimento escolar! – Sandra interveio.
    - O que é que tem? – Eu não estava com paciência pra conversa fiada.
    - Você percebeu que suas notas caíram consideravelmente? – Ela continuou.
    - Sim. – Respondi firmemente.
    - A que você atribui a isso? – Perguntou Audrey, com aquele ar de ‘conte-me sua vida e eu resolverei seus problemas’.
    - Talvez eu tenha dado uma relaxada, mas ainda estou acima da média. – Falei, demonstrando um certo descaso.
    - Não se contente com pouco Brunno, sabemos que você é um aluno aplicado e é um dos alunos mais aplicados da sua turma! – Disse a psicóloga. – Para sua informação é “O” aluno mais aplicado, e não “um dos”, sua idiota.
    - Eu me esforço...  – Deixei em reticências, afinal, parece que a humildade, mesmo que seja em 80% dos casos produzidas por falsidade produzida pela educação que recebemos desde pequenos, é amplamente apreciada.
    - Já escolheu o que vai fazer no vestibular?
    - Teatro! – Soltei rapidamente. A expressão delas mudou de forma bem sutil. Estava na cara que essa era mais uma daquelas conversas em que elas tentariam me induzir de todas as maneiras a fazer Medicina, Direito, Odontologia ou uma das Engenharias, já que esses são cursos de maior concorrência e conseqüentemente agregam um destaque maior ao conceito do colégio. Resolvi responder todas as perguntas imbecis que elas fariam anteriormente, com respostas justamente opostas ao que elas querem ouvir.
    - Mas, você já pensou a respeito, tem tantas opções... – Sandra tentava me persuadir.
    - Odeio medicina. Não tenho paciência para ficar estudando todas as partes do corpo e dessecando cadáveres. Odeio direito. Não vou ter paciência de ficar lendo leis que são modificadas de ano em ano. Não gosto de Odontologia, porque ficar abrindo bocas cheias de tártaro e cáries não me parece ser uma coisa muito interessante. Engenharia está fora de questão, me afogar em cálculos também não parece muito empolgante.
    - Você não tem nem uma segunda opção? – A coordenadora forçou a barra.
    - Filosofia. – Menti. Essa era minha mensagem subliminar de “Parede sonhar, vocês não vão me induzir a fazer o que vocês querem”.
    - Só pense a respeito... – Disse a psicóloga com aquela voz mansa como um ronronado de uma gata no cio, apoiando a mão em meu ombro – E não se esqueça do Simulado Pré-Enem.
    - Mais alguma coisa? – Perguntei, elas apenas balançaram a cabeça negativamente. – Então, tchau! Bom dia pra vocês!
     Sai da sala me sentindo ultrajado. É muita pretensão achar que eu tenho uma mente fraca a ponto de ser influenciado com técnicas tão primitivas.
    - O aluno perfeitinho está descendo do pedestal? – Proferiu ele, ironizando minha ida à coordenação.
    - Só se pode perder alguma coisa que já se teve... – Respondi ousadamente. – Todos sabem que o 2° lugar nunca é lembrado nesses tipos de ranking!
    Ele saiu sem rebater a minha resposta.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 57

  
    - O que aconteceu com o ‘Não quero falar com vocês nunca mais’? – Iniciou Felipe, quebrando o clima de silêncio ao sentar à mesa de pedra do pátio perto da cantina.
    - Eu ainda estou com esse pensamento, mas eu não posso deixar tudo ficar do jeito que está e me sinto obrigado a tirar você dessa enrascada. – Respondi, apoiando meu queixo nos meus dedos entrelaçados.
    - Faltou chamar o Diego... – Começou ele.
    - Não... – Disse, interceptando sua fala. - Vamos resolver isso entre a gente!
    - Certo... Certo... Como você quiser, contanto que você desgrude aquela idiota de mim! – Felipe revirou os olhos e me fitou de forma séria. – Qual é o plano?
    - Bom... Pra início de conversa eu acho que essa tal gravidez é completamente falsa! Isso está me cheirando a golpe da barriga, ou seja, estou sentindo cheiro de desespero e, como eu sempre digo, pessoas desesperadas tomam medidas extremas...
    - Dá pra você me poupar dessa sua linha de raciocínio disléxica e ir direto ao ponto? – Felipe interveio, ele estava querendo chegar ao quociente antes de realizar a operação.
    - ‘Os jovens de hoje não sabem esperar’... – Parafraseei meu avô, soltando uma risada abafada. – Certo... Vamos direto ao ponto: não existe complicação e não é necessário a gente pensar em um plano mirabolante pra conseguir resolver isso, se ela não está grávida, como eu imagino, e sendo desesperada do jeito que ela é, ela vai querer engravidar de verdade!
    - O quê? – Perguntou ele, como se eu estivesse falando a coisa mais absurda do mundo.
    - Ela vai tentar fazer sexo com você enquanto você estiver bêbado ou vai furar a camisinha com uma agulha antes de vocês... – A imagem da cena me veio a cabeça e eu não pude evitar uma expressão de nojo.
    - O que foi? – A conexão entre minha fala e minhas expressões faciais não estava ajudando a compreensão limitada de Felipe.
    - Nada... – Chacoalhei a cabeça, como se varresse esse pensamento. – Continuando... Ou ela pode achar mesmo que está grávida. Isso se chama gravidez psicológica... Ela pode achar que está sentindo enjôo e mais outros sintomas, mas tudo ser fruto da cabeça dela...
    - Você não acha que anda lendo historinhas de mais?
    - Felipe... Temos que considerar todas as possibilidades, não podemos subestimar a Miss Peitos!
    - Miss... – Ele começou a rir. – Tinha esquecido de como você é engraçado! – Felipe pousou a mão dele sobre o meu braço e riu de forma descontraída. Quem não ficou confortável com essa situação fui eu, que logo senti aquele arrepio se propagando pelo meu corpo. Eu não tinha costume de ser tocado por um garoto, já que eu tinha só amigas mulheres, então, isso para mim, apesar de parecer um simples clichê, era um terremoto de 8 pontos na escala richter.
     - Voltando ao foco... É muito simples, é só fazer um teste de gravidez e pronto e para ela não ficar te enrolando que tal você fazer uma surpresinha? Finja que é romântico para ela!
    - Eu não vou...
    - Você vai fazer exatamente o que eu mandar! – Elevei o tom de voz. Odiava quando eu estava tentando ajudar alguém e o beneficiado atrapalhava meu trabalho. Voltei ao meu tom habitual. – A gente precisa pegá-la desarmada. Fique um tempo sendo romântico, com doses pequenas, para ela não desconfiar... Vá aumentando a intensidade gradativamente e quando você sentir que ela está na sua mão, a gente vai agir...
    - Obrigado Brunno! – Ele se aproximou de mim e pegou minha mão por debaixo da mesa.
    - Que parte do ‘não quero falar mais com vocês’ você esqueceu Brunno? – Bradou Diego, que surgiu sorrateiramente atrás de nós.
    - Mesmo que eu tivesse esquecido, e eu não esqueci, valeu pelo lembrete, Diego! – Respondi, me levantando. – Já resolvi tudo que tinha pra resolver! – Nem olhei para ele para não me perder novamente dos meus objetivos, saí andando apressadamente, sem olhar para trás.