domingo, 19 de maio de 2013

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 74



    - O que foi? - Perguntou. Com certa perplexidade no rosto. – Ah... Isso? – Ele apontou para seu tórax e fez uns leves movimentos verticais no dedo indicador. – Eu sempre fico assim em casa. Nunca foi um problema para o Diego!
    - É que, de onde eu venho, as pessoas ficam vestidas!
    - Até em casa? Por isso que você é esse chato... Tem que se libertar um pouco rapaz!
    - É muito fácil sair se exibindo por aí quando você tem um corpo perfeito!
    - O que eu vejo de velho gordo andando de sunga na praia! – Ele riu consigo mesmo.
    - Eu não consigo ser assim...
    - É engraçado Brunno, como, apesar de toda essa postura de segurança e superioridade, você tem uma auto-estima tão baixa! – Ele fez com que eu me sentisse exposto.
    - Não quero falar sobre isso!
    - Brunno... – Deixou em reticências, enquanto se aproximava de mim. – Até que você não é feio, baixinho! – Um corte descente nesse seu cabelo, um tratamento para tirar essas manchinhas de acne, quem sabe um clareamento para deixar o sorriso melhor... Sem contar na academia...
    - Isso é um episódio de “10 anos mais jovem”? – Eu sorri meio sem graça. Eu tinha plena consciência sobre meus defeitos, sabia o que deveria mudar e como deveria mudar, mas não tinha dinheiro pra fazer tudo isso. Acabei deixando pra lá, deixando pro futuro. Não gostava de ter meus defeitos apontados, ainda mais por Felipe. – Eu não tenho tempo pra essas frescuras!
    - Eu não sei se você não se importa, ou se você se considera tão feio a ponto de não achar que pode melhorar!
    - Só não tenho tempo para isso!
    - “Isso” não precisa levar tanto tempo assim, não é como se você fosse passar uma semana de cada mês confinado num SPA!
    - Você não me chamou aqui para falar disso, não é?
    - Na verdade eu não te chamei para falar nada em especial, só pra conversar mesmo sobre coisas banais... – Ele fez uma pausa. – Como está a sua vida?
    - Minha vida? – Indaguei meio perplexo. Não pensava que um dia o Felipe se importaria com o que faço da minha vida. – Normal... Tenho estudado mais agora...
    - Quem é ele? – Perguntou. Fechando o semblante em uma expressão séria.
    - Ele quem? – Rebati.
    - Você pode dizer, ou eu posso descobrir... Você escolhe!
    - Então, como você está se sentindo, agora que não tem mais o Diego?
    - Sua hostilidade não vai levar essa conversa a lugar nenhum Brunno, você bem sabe como eu estou me sentindo com isso tudo... É engraçado como você se dispõe tanto a ouvir as pessoas falarem e como você, em contrapartida, repele tantas perguntas e reprime tanto os seus próprios ímpetos de falar!
    - Não é isso...
    - Desculpe não ter a ‘maturidade’ do Diego para que você se sinta à vontade em falar suas coisas...
    Felipe ficou deitado na cama, olhando para o teto do quarto. Fechou os olhos e pareceu refletir profundamente. Esse não era o Felipe que conheci a tempos atrás, ele realmente tinha amadurecido muito, com todos os seus erros, e apesar de ainda parecer um pouco perdido do rumo de sua própria vida, nunca pareceu tão seguro de suas convicções. Creio que ele tinha chegado naquele momento da vida em que se está no limiar entre deixar de ser um garoto e começar a portar-se como um homem.
    Acho difícil apostar a minha confiança e todas as minhas outras fichas em Felipe. Apesar de tudo que passou isso ainda parecia um jogo de azar. Mas, o que pude aprender nos meus anos de pouca experiência é que às vezes não importa muito se irá vencer ou ganhar, o importante é jogar.
    - Alan! – Exclamei, com a voz firme. E deixei a palavra ecoar no silêncio do quarto.

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