domingo, 22 de abril de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 47



    - Ela disse que ficou ofendida por eu ter pedido o teste de gravidez! –Respondeu Felipe indignado.
    - Você foi gentil com ela? Porque por mais que você não esteja se importando com ela, a forma como você a tratar daqui por diante vai influenciar no desenrolar das coisas...
    - Não sei ao certo se eu fui ou não gentil, eu estou pouco me lixando para aquela retardada! – Exclamou Felipe, unindo as sobrancelhas num vinco de raiva.
    - Você precisou entender da pior forma Felipe... Não foi passar nenhum sermão em você, mas acho que esse é o momento oportuno para você modificar certos comportamentos... – Eu pousei minha mão pelo ombro dele.
    - Eu não preciso da sua pena! – Ele retirou minha mão de forma brusca.
    - Certo... – Respondi um pouco assustado com aquela reação instantânea e intensa de Felipe. – Eu só queria ajudar... – Deixei em reticências enquanto caminhava em direção a porta, não estava com vontade de ficar ouvindo as grosserias desnecessárias de Felipe.
    - Não... – Felipe correu e fechou a porta antes que eu saísse. – Desculpe Brunno! – Ele me abraçou de uma forma completamente inesperada. – Sei que você só está querendo ajudar! – Sussurrou no meu ouvido.
    - Não tem problema... – Eu estava me derretendo naquele abraço quente e desarticulado. – Eu já deveria ter me acostumado com esse seu temperamento difícil.
    - Você não precisa se acostumar com isso... – Proferiu soltando o abraço, que me infligiu um vazio imenso e imediato, e fixando seu olhar em mim intensamente. – Eu sei que sempre acabo magoando as pessoas que gostam de mim.
    - Eu acredito que exista alguém incrível aqui dentro, gritando pra sair! – Repousei minha mão sobre o peito de Felipe. – E parece que ela está conseguindo se libertar aos poucos...
    - Nerdzinho... Eu quero pedir desculpas por aquele dia da escada...
    - Mas, você já pediu! – Exclamei confuso interrompendo sua fala.
    - Eu sei, mas naquela ocasião eu só pedi desculpas porque o Diego mandou, mas hoje eu estou pedindo de verdade! E também quero agradecer pela força que você está  me dando... - Ele colocou a mão em meu queixo e se aproximou de mim, me empurrando contra a porta fechada. – Se eu não fosse perdidamente apaixonado pelo Diego, você seria um bom candidato ao posto de meu namorado, você é uma boa pessoa de se ter por perto!
    - Eu... – Comecei a falar desarticuladamente, mas fui interrompido.
    - Mas, eu e Diego fizemos um acordo, agora nós somos mais... Fiéis!
   - Não tem problema...
    - Mas isso não significa que eu não queira... – Argumentou ele para quebrar o clima estranho que tinha se apossado da conversa.
    - Eu tenho que ir... A Roberta estame esperando... Eu só digo  para você tentar, novamente, ser mais gentil com ela para que as coisas não tomem proporções inesperadas... – Orientei, abrindo a porta da sala.
    - Vou fazer isso! - Ele segurou a minha mão e me puxou, aplicando um beijo no meu rosto.
    - Tchau Felipe! – Encerrei meio desconcertado.

[...]

    - Está aqui sua taça de sorvete! – Disse Roberta sentando-se na cama. Ela estava como uma bomba-relógio e podia explodir de curiosidade a qualquer momento.
    - Obrigado! – Agradeci. Dei uma colherada no sorvete e saboreei lentamente, sentindo aquele sabor refrescante inundar minha boca.
    - Agora, fale! – Ordenou ela, dando uma ávida colherada no seu sorvete também.
    - Eu venci! – Nessa hora eu pude deixar aquele sorriso de satisfação que eu queria soltar mais cedo, enfim, se apoderar do meu rosto.
    - Venceu? – Indagou confusa, mas seus olhos já brilhavam em tentar imaginar a resposta.
    - Eu consegui completar meu plano e os resultados foram além do inesperado... – Iniciei, abrindo a mochila e tirando de lá o laptop de Roberta. – Está aqui amiga, obrigado!
    - Sério? Mas, e então, o que você conseguiu?

domingo, 8 de abril de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 46


    Diego aplicou um beijo suave e carinhoso na minha testa e me deu o melhor abraço que eu já recebi na vida.
    - Olha Brunno... Eu bem que queria te dar um beijão cinematográfico agora, mas eu e Felipe conversamos bastante e decidimos parar com esses joguinhos. Nós resolvemos firmar mesmo um compromisso...
    - Não tem problema Dih... Eu bem que iria querer esse tal ‘beijo cinematográfico’, mas só o seu abraço consolador já é suficiente... E, obrigado pela paciência que você teve em ouvir todos os meus dramas...
    - Que nada Buruno... – Diego acabou atropelando sua fala. – Brunno! – Corrigiu ele em seguida. – Sempre que você quiser desabafar é só me chamar! Você já fez isso bastante por mim, então, é um dever e também um prazer, retribuir!
    - Eu gostei mais de “Buruno” do que de “Bubu”! – Comentei, rindo.
    - Veja bem... – Começou ele com uma voz engraçada. – Na verdade a intenção de se criar um apelido é... – Ele fingiu que ajeitava um óculos imaginário. – Justamente ter uma opção reduzida de nome para diminuir o número de sílabas ou letras, economizar tempo e saliva!
    Foi então que eu percebi que ele estava me imitando, na forma de falar e na minha velha mania de ajeitar os óculos.
    - Você é um péssimo imitador Diego! – Eu disse, soltando uma risadinha.
    - Não ficou tão ruim assim... E para solução para esse problema do apelido, já que você não gosta de “bubu” e que “Buruno” é maior que seu próprio nome... Vou te chamar de Buru! – Ele sorriu.
    - Gostei! É, de fato, bem melhor do que ‘bubu’... ‘Bubu’ é apelido para bebês!
    - E quem disse que você não é um Bebê? – Proferiu Diego se levantando do banco de madeira. Ele me puxou pela mão e me fez levantar. – O meu bebê!


[...]


Voltamos para sala, ainda tinham mais duas aulas para assistir. Roberta me fitou com uma surpresa quase paralisante quando eu cheguei na sala.
    - Você... Ga-ze-ou? – Indagou Roberta, com tamanha empolgação que teve que imprimir sua surpresa em cada sílaba da palavra “Gazeou”. - Estou chocada!
    - Gazeei! – Soltei um dos meus sorrisos de satisfação.
    - Esse sorriso torto eu conheço! –Ela não estava se contendo de tanta curiosidade.
    - O professor vai começar... – Eu apontei para o quadro, lançando um olhar de mistério para ela. Espiei pelo rabo do olho e percebi que ela ainda estava olhando para mim.
    - Almoço na sua casa?
    - Claro! O suborno do sorvete de menta com chocolate sempre funciona!
    Roberta ficou quieta a partir daí. Apesar de ser muito curiosa, ela sabia esperar o momento certo de saborear uma boa novidade.
    No meio da aula, não resisti e me virei discretamente para olhar para Felipe e ele, em pouco tempo percebeu. Ele fez um sinal discreto de que queria falar comigo depois da aula.


[...]


    O tempo passou se arrastando de forma lenta e exaustiva e finalmente, a aula acabou. Comecei a colocar minhas coisas na mochila e Diego passou por mim se despedindo, logo atrás dele vinha Felipe que parou ao meu lado para falar comigo. Roberta o encarou com o olhar de desconfiança que ela costumava lançar para as pessoas com as quais não simpatizava. Eu tive um Déjà vu e instantaneamente me lembrei do outro dia que dispensei Roberta para conversar com ele e acho que Roberta teve a mesma impressão.
    - Betão... Você pode me esperar lá fora, por favor? Só vai levar um minuto!
    - Ok! – Respondeu ela, dando mais uma encarada no Felipe e saindo da sala.
    - Como sua amiga é simpática! – Comentou ele de forma zombeteira depois que ela saiu.
    - Ela se preocupa com o fato de eu estar andando com vocês, mas isso não vem ao caso... O que a Biscate loira falou?

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 45


  - Não... Eu falei errado! – Desconversei – É que eu sinto... Que... Sei lá, quando eu olho para ele eu começo a imaginar como as coisas seriam se a situação tivesse decorrido de outra forma!
    - Brunno, não se martirize! Não seja um refém do ‘se’... Não pense ‘se eu tivesse feito isso’ ou ‘se eu não tivesse dito aquilo’. As coisas simplesmente acontecem! Mesmo que você tenha errado em alguma coisa, se você tentou consertar e não conseguiu, paciência! Para que insistir nisso?
    - Mas aqueles sentimentos brotam sempre que o vejo...
    - Esqueça o Alan, Brunno! Ele é um idiota que não te merece! – Diego pôs a mão no meu ombro. Meu corpo rapidamente começou a congelar.
    - Não tem nada haver com aquele imbecil!
    - Eu não sou tão idiota assim Brunno! Por favor, não me subestime! Eu percebi como você olha para ele o tempo todo lá na sala, por mais que você tente disfarçar!
    - Certo... – Grunhi a contragosto. Essa ‘descoberta’ de Diego não me agradou nem um pouco. Agora eu estava me sentindo exposto, dessa vez eu não estava no controle da situação.
   - Eu não vou te fazer perguntas como “você ainda gosta dele?” ou outras perguntas óbvias como essa, porque está tudo estampado na sua cara, por mais que você tente mascarar... Eu só quero que você me veja como um amigo, eu sei que não sou o mais indicado para dar conselhos, mas se você quiser falar sobre isso... Desabafar... Ou se você ‘não quiser falar’... – Diego meio que se perdeu no seu próprio pensamento. – Enfim, estou aqui a sua disposição! – Nós, estranhamente, estávamos andando na direção da quadra de esportes.
    - Obrigado Dih... mas, para onde estamos indo? A sala de aula fica para o outro lado... – Ele me interrompeu ligeiramente.
    - Nós estamos indo para a quadra, é claro! Eu tenho a chave do vestiário masculino que só fica aberto nos dias de treino!
    - Mas a gente tem aula de Química 1 agora!
    - Agora, me diga alguma coisa que eu não saiba! - Ironizou ele, lançando aquele sorriso de desarmar bomba-relógio que só ele conseguia fazer.
    - Mas... Mas... – Retruquei, parando no meio do caminho.
    - So what? – Ele proferiu com uma expressão despreocupada. – Vai dizer que você nunca gazeou uma aula?
    - É óbvio que não!
    - Bom... É como dizem: sempre há uma primeira vez para tudo! – Disse Diego, encerrando definitivamente essa conversa. Eu realmente não tinha como me contrapor a ele, até porque as borboletas já tinham voltado a dar seus vôos rasantes em meu estômago me fazendo arrepiar. Eu queria saber o que viria a seguir.

[...]

    Não sei como a situação tomou essas proporções extremas, mas, minutos depois, eu estava sentado em um daqueles enormes bancos de madeira chorando no ombro de Diego, após ter contado um pouco da minha história com o Alan.
    - Não chora Bubu! – Ele começou a falar. Foi a primeira vez que eu gostei de ser chamado por esse apelido infantil. – O amor é uma droga! – Completou com essa frase que permitia múltiplas interpretações.
    - Eu não quero mais esse sentimento dentro de mim! – Voltei a chorar, eu não conseguia formular frases muito longas agora. – Eu me... Sinto... Um idiota!
    - Não por essa situação, mas, é tão lindo ver você chorando! Acho que é a confirmação de que você não é um robô! – Diego olhou para mim profundamente, parecia que neste momento meu corpo tivesse ficado transparente e ele pudesse decifrar a minha alma.
    Eu voltei a fitá-lo, desmanchando-me em mais algumas lágrimas e me deleitando com aquele olhar carinhoso de Diego enquanto ele se aproximava de mim lentamente, meu coração estava batendo acelerado e meu sangue começou a ferver...

sexta-feira, 23 de março de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 44


    - Oi, Tânia! – Respondeu Diego, sorrindo.
    Eu nem me dei o trabalho de responder, Tânia não tinha nível intelectual para manter uma conversa comigo por mais de dois minutos e eu não tinha nível de futilidade para fazer o mesmo.
    O sinal tocou de forma estrondosa, já estava na hora de voltar pra sala. Eu e Felipe sabíamos muito bem o que a “miss peitos” queria falar com ele. Como essa conversa era inevitável e como o Diego não poderia ouvir aquela biscate falar de jeito nenhum, eu tive que intervir.
    - Diego, eu posso falar com você em particular? – Indaguei olhando para ele com uma expressão misteriosa, para conseguir inferir que eu queria realmente falar com ele e não mostrar a realidade: que eu queria deixar Felipe e a oxigenada conversarem. - Vocês se importam? – Perguntei em seguida fitando Felipe e a biscate.
    - Não... Não queridos! Podem ir! – Sibilou Tânia com sua voz irritante, eu sempre tinha a estranha vontade de jogar um tijolo na cara dela para ver se ela se orientava!
    Nós nos levantamos e Felipe segurou no meu braço e fez uma expressão que me transmitia tudo que ele estava pensando.
      - Vá andando na frente Diego... – Falei. – Preciso falar uma coisinha com Felipe! – Diego fez uma expressão de confuso, mas se afastou sem falar mais nada. – Só um minutinho e ele é todo seu Tânia! – Expliquei por pura educação, não devia explicações a essa desmiolada.
    Felipe segurou no meu braço e me puxou até uma distância razoável da mesa. Tânia ficou analisando seu cabelo com suas mechas californianas – que por sinal estava ressecado, frisado e cheio de pontas-duplas – e aparentava não se importar com o teor da nossa conversa.
     - O que você pensa que está fazendo nerdzinho!?
     - Converse com a oxigenada, é melhor enfrentar isso agora do que ela ficar fazendo escândalo por aí! Convença ela a ficar calada e peça um teste de gravidez, mas vê se faz isso com cavalheirismo!
    - Eu? Ser cavalheiro com essa puta?
    - Na hora de comer ela você não aproveitou? Agora está na hora do ônus da sua irresponsabilidade!
    - Você acha que é quem pra me julgar?! – Indagou Felipe com raiva.
    - Quantas vezes eu vou dizer que estamos do mesmo lado? Só acalme ela e peça pra ela não espalhar pras amigas, se já não fez isso, e depois a gente conversa sobre isso...
    - E o Diego?
    - Você vai ter que dar a notícia a ele do jeito certo, dessa vez!
    - Eu não sei se consigo...
    - Você vai ter que conseguir! Não sabemos se esse ‘esquecimento’ do Diego vai durar ou não e de qualquer forma, ele precisa saber!
    - Mas...
    - Lipe... Pare de ser imediatista! Vamos resolver um problema de cada vez! Volte pra lá e seja bonzinho com a Tânia... Eu vou ter que enrolar Diego agora, ele já deve estar desconfiando que algo possa estar acontecendo!
    Eu me afastei dali rapidamente, precisava alcançar o Diego.

[...]

    - Quer dizer que você foi pedir ao Felipe dicas sobre relacionamentos? Eu não sei o que é mais estranho, você falar com ele ou pedir a alguém como ele dicas sobre esse assunto que ele não domina! – Diego começou a rir, parece que minha mentira foi convincente.
    - Mas parece que ele tem um dom natural para isso...
    - Por que você acha isso?
    - Porque, apesar de tudo, ele está com você! – Nesse momento o ar ficou mais pesado, meu coração começou a acelerar.
    - Você... – Diego recomeçou a falar em sussurros. – Pediu dicas a ele sobre mim?
    - Não... Sobre aquele garoto que eu te falei no hospital!
    - Você não conseguiu esquecer ele, não foi?
    - Faz uns cinco anos que eu tenho esses sentimentos estranhos por ele...
    - “Estranhos”? Não entendi... – Diego fez aquela expressão de criança que ouve uma palavra pela primeira vez.
    - É complicado... – Respondi admirando aquele rosto lindo de Diego.
    - Você sempre diz isso! Assim não vale! – Ele sorriu, mas tornou a ficar sério ao perceber que eu realmente estava abrindo meu coração.
    - A gente brigou, eu nem lembro ao certo o motivo... Nós éramos melhores amigos e no fundo eu sempre o amei... Mas, eu devo ter estragado tudo...
    - Você não tem como consertar?
    - Eu já tentei... Mas ele é inflexível! O pior é ter que ver ele todas as manhãs... – Eu me contive na hora, acabei falando de mais.
    - Quer dizer... Que ele estuda aqui no colégio? – Diego fez uma cara de surpreso.

domingo, 18 de março de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 43


    Felipe me conduziu, sem dizer palavra, para uma das mesas de pedra do pátio do colégio. Sentou-se e me encarou com uma seriedade que não era do seu feitio.
    - Então... Como foi lá no médico? – Eu iniciei, sentando ao lado dele. Eu não estava agüentando mais ficar sem saber.
    - Foi difícil fazê-lo ir e eu tive que inventar algumas desculpas... – Eu o interrompi bruscamente.
    - Felipe, por favor, vá direto ao ponto!
    - O médico que a gente consultou da outra vez o examinou novamente e está esperando novos resultados, mas ele me tranqüilizou dizendo que isso pode ter sido algum reflexo momentâneo da pancada que ele levou e que logo iria passar,ele também disse, que só faria os exames novamente por desencargo de consciência, mas que ele acreditava piamente que esses desmaios e esquecimentos são episódios passageiros que vão acontecer até a recuperação...
    - Então, por que você está com essa cara?
    - Eu tenho medo dos resultados, e se eles descobrirem alguma coisa?
    - Felipe, fique calmo! – Sussurrei colocando minha mão sobre a dele por baixo da mesa.
    - Você sabe que... – Ele fez uma pausa e fez aquela cara de quem está com vontade de chorar e está se prendendo. – Eu não me perdoaria se alguma coisa acontecesse a ele! – Ele deixou uma lágrima escapar, a contragosto e logo tratou de enxugá-la. Ele era muito orgulhoso.
    - Você não tem que se culpar... – Ele interrompeu minha fala.
    - Fui eu quem ficou descontrolado e dei um soco nele, você faz ideia de quanto idiota eu sou?
    - Foi uma atitude totalmente irracional, eu sei, mas você fez sem pensar... E pelo histórico de tapas e beijos bem que a situação poderia ser contrária...
    - Não... O Diego jamais cometeria um erro desses...
    - Vamos pensar positivo, não tem porque nos martirizarmos agora, além disso, o médico não te tranqüilizou e disse que não é nada de importante?
    - Mas... Ele é... – Felipe balbuciou entrecortadamente. – tudo pra mim! Você não consegue imaginar...  O quanto... Eu... – Ele não se conteve e começou a chorar no meu ombro feito uma criança desesperada que se perdeu dos pais numa estação de trem cheia de pessoas.
    - Felipe... Eu vou estar aqui com você aconteça o que acontecer! Eu não vou deixar você passar por tudo isso sozinho!
    A sorte é que tinham poucas pessoas no pátio e elas ainda não tinham notado a cena.
    - Agora... – Eu retornei a falar. – Pare de chorar e recomponha-se, o Diego já está vindo pra cá e ele precisa te ver bem!

[...]

    - Que fila enorme! – Disse Diego sentando-se no banco de cimento. –Estou considerando trazer o meu lanche de casa! – Ele começou a rir e entregou os nossos lanches.
    - Obrigado Diego! – Agradecemos, quase que em uníssono.
    - O que aconteceu aqui enquanto eu saí? Vocês estão estranhos... Brigaram de novo? Felipe eu já te disse pra não brigar com o Brunno...
    - Não Dih! Nem gaste sua saliva! Eu e o Brunno resolvemos nossas diferenças...
    - Finalmente amor, já estava na hora! – Proferiu Diego, eu pude sentir como a palavra “amor” o atingiu em cheio e produziu um olhar triste em Felipe por alguns segundos. Eu fiz um sinal pra ele franzindo as sobrancelhas e ele mudou de expressão automaticamente.
    - Amor... – Sussurrou Felipe se aproximando mais do Diego no banco. – Você imaginaria que chegaríamos a esse nível de romance? – Ele brincou, sorrindo.
    - Na verdade, eu sempre quis isso! – Respondeu, lançando um daqueles olhares penetrantes pré-beijo onde o tempo parece passar em câmera lenta.
    - Segurem a onda! Estamos no colégio, esqueceram? – Eu adverti, e eles voltaram a se separar. Uma distância segura sempre ajuda a conter os ânimos.
    Minutos depois eu pude ouvir aquela voz irritante novamente, o dia estava muito tranqüilo para ser verdade.
    - Meninoooooooooooooooooooooooooooooooos! – Exclamou, com uma voz que para mim soava como o barulho de unhas arranhando um quadro de giz.

sábado, 17 de março de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 42



    O email de Mário estava repleto de fotos anexadas e, vale ressaltar, que não era o sorriso dele que se destacava nas fotos, no lugar disso, estavam presentes várias fotos bem nítidas dele sem roupa e de várias posições diferentes. Mário era alto, malhado e tinha a pele branca, ele até que era simpático de rosto, mas creio que Laura se apaixonou por ele por outro motivo bem... Maior...
     Ela voltou a conversar com ele, elogiando as fotos, dizendo que estava com saudades dele, dentre outros detalhes que eu nem ouso reproduzir. Ela disse que tinha uma surpresinha para ele também, e depois eu pude constatar – obviamente foi uma coisa um tanto quanto traumática – que ela tinha feito algumas fotos com algumas langeries novas que tinha comprado para o reencontro dos dois. Pelos ângulos das fotos de Laura, é óbvio que ela teve ajuda de uma de suas amiguinhas. Então, agora posso chamá-la de Bitch sem peso na consciência.
    Encaminhei tudo para o meu email e após isso coloquei tudo no meu pendrive, para ter alguma coisa garantida. Mas, eu estava esperando a cereja do bolo, o clímax... O que realmente deixaria Laura no seu devido lugar – debaixo da sola do meu sapato, diga-se de passagem – e a faria parar com as chantagens e ainda me permitiria ser chantageá-la.
    Não foi com enorme surpresa que eu enfim consegui o que queria, mesmo que tenha que ter esperado até de madrugada para conseguir. Para fazer um dossiê completo eu li mais alguns emails dela e os que julguei interessantes também salvei no meu pendrive.  Agora era só organizar tudo de forma que aumentasse ainda mais o impacto explosivo do conteúdo e fiz algumas cópias em DVD.
    Fui dormir depois das 4 da manhã devastado pelo cansaço, mas com um sorriso de vitória estampado no rosto.


[...]


    Acordei e fui espalhando três, dos cinco DVDs dos quais fiz cópias para esconder em alguns lugares estratégicos do meu quarto. Nesses novos esconderijos os meus trunfos estariam salvos devido a falta de criatividade e a total ignorância de Laura, todavia, planejei tomar algumas precauções para não subestimar o inimigo e perder novamente uma batalha.
    Uma das melhores partes do meu início da manhã foi ter que continuar a minha encenação de “estou com medo da Laura, porque ela tem algo que pode ser usado contra mim” para que minha querida irmã não desconfiasse de nada e minha – não tão brilhante, mas igualmente eficiente – encenação de “tudo está em sua perfeita  normalidade” para minha mãe. Já conseguia ouvir o som ecoante da voz da Angelina Jolie dizendo: And the Oscar for best actor goes to: Brunno Biancchi, for his role in "War with my sister"! Eu já poderia ouvir os aplausos! Mas, ainda tinham fases do meu plano para serem concluídas, então, deixei esses devaneios de lado, terminei o meu café e fui rapidamente para a escola. Precisava falar com Roberta!


[...]


   As primeiras aulas transcorreram na sua completa naturalidade. As riquinhas sem cérebro fofocavam umas das outras na rivalidade de grupinhos típicas de escolas particulares elitizadas, se olhavam no espelho e se maquiavam. A ausência de Felipe e Diego na sala também não gerou estranheza, normalmente quando a farra durava até tarde ou eles inventavam uma viagem de última hora eles costumavam faltar.
    No final da segunda aula, no entanto, para o espanto de todos, Diego e Felipe entraram na sala e sentaram no lugar de costume. A 3ª aula começou e eu me preocupei em me focar e tirar algumas dúvidas, afinal, a prova de física já estava chegando e eu não tinha estudado tanto quanto eu estava acostumado a estudar.


[...]


    Quando ela finalmente acabou eu fui andando para o final da sala, como quem não quer nada, para falar com os dois.
    - Bom dia Brunno! – Exclamou Diego sorrindo.
    - Bom dia Diego! – Respondi, percebendo uma certa tensão no olhar de Felipe.
    - Dih... Compra o lanche da gente enquanto eu e o Brunno vamos guardar lugar em uma mesa do pátio...
    - Está certo! – Respondeu ele, aparentemente, sem notar que a intenção de Felipe era conversar comigo, e pela cara do Felipe, as notícias não seriam nada boas...

sexta-feira, 16 de março de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 41


    Eu precisei voltar para casa, afinal, teríamos prova de física dentre dois dias, mas antes de me despedir, forcei Felipe a me prometer que levaria Diego no médico pela manhã com a desculpa de que os dois iriam se submeter a exames de rotina. Em parte, eu acabei percebendo que, apesar da preocupação, Felipe acabou gostando desse esquecimento do Diego. Eu penso que isso só será um alívio momentâneo, em breve, Diego relembraria a cena toda e todo o drama viria à tona novamente com essas lembranças.
    Minha mãe já estava em casa, então, pelo menos por enquanto, as chantagens de Laura me fariam uma trégua, mas, nessa guerra fria, os dias de “paz” são momentos de recarregar as armas e mandar reforços!
    Depois de jantar eu passei um tempo na sala só para fazer uma ‘social’ com minha mãe para ela não desconfiar de mim e começar a elaborar questionamentos como “você está com algum problema? Você está estranho!” e essas coisas.  Afinal, eu precisava manter os meus ‘negócios’ com a Laura por baixo dos panos até o momento de deferir o meu único e derradeiro golpe que vai acabar de uma vez por todas com essa chantagem ridícula. Finalmente, pude ir para o meu quarto e revisar umas questões de ‘Lei das malhas’ e ‘Lei dos nós’ antes de dormir.
    Com todas essas confusões que me atingiram nesses últimos dias eu acabei ficando um pouco desleixado com os estudos. Apesar de anotar todas as informações e exercícios, eu ainda não tinha parado de fato para estudar e me concentrar. Talvez tenha sido má ideia ter começado com toda essa história envolvendo os mauricinhos cabeças-ocas. Eu poderia apenas ter dito uma quantia razoável de dinheiro para fazer algumas coisas que eu já tinha planejado antes, com relação a minha aparência, ou simplesmente ter deixado para lá. Eu não posso permitir que isso afete minhas notas impecáveis e o meu sonho de entrar na universidade em 1° lugar.
    Embora eu tenha tentado exaustivamente manter o foco em estudar Física I eu não podia deixar de pensar em Diego entre uma questão e outra. Os desmaios dele e agora essa perda de memória recente parecia ser preocupante. Eu não poderia fazer nada, por hora, só tinha que confiar na palavra de Felipe e esperar que os exames não dessem em nada e que ele parasse de ter esses episódios de perda de consciência. Precisava de outra coisa pra me distrair...
    Obviamente eu não poderia me esquecer do meu plano para me desvencilhar das chantagens de Laura e precisava finalizá-lo o mais rápido possível. Liguei o laptop da Roberta, que por sinal, já estava querendo ele de volta, e fui dar uma olhada no que Laura estava fazendo. Até agora estava tudo em sua perfeita normalidade, ela só estava conversando como namorado dela, que ainda estava em sua viagem para a Bahia. Então, deixei o computador gravando o que ela estava fazendo e as imagens da Webcam.
    Voltei a me focar nos estudos, então, meu celular voltou a tocar.
    - Betão! Tudo bom?! – Falei logo que atendi ao telefonema de Roberta.
    - Sabia que eu me sinto uma sapatão quando você me chama assim? – Ela começou a rir e voltou a falar. – Meu filho, cadê meu laptop heim? Meu avô já está achando que eu vendi ele pra comprar drogas! – Ela caiu na gargalhada.
    - Você não disse a ele que o laptop estava comigo?
    - Até disse, mas pelo tempo ele já está desconfiando!
    - Ainda não obtive grandes progressos, mas, se você quiser eu levo ele na sua casa amanhã! Aí seu avô vai ver que estava comigo e não com um traficante! – Soltei uma risada baixa.
    - Não tem problema, eu enrolo ele por mais alguns dias, agora consiga logo o que você quer! A propósito, você nunca me explicou os detalhes desse seu plano para conseguir chantagear sua irmã para ela parar de te chantagear e no que o meu laptop vai  te ajudar nisso!
    - Você parou para escutar o que você falou? Não adivinhou que o que eu vou fazer?
    - O seu laptop está com a Laura, e o meu está com você... – Ela ficou em silêncio por um tempo. – Você vai rackear seu próprio computador através do meu para conseguir algum podre dela?
    - Boa! You Right!
    - Mas, isso pode demorar muito tempo e pode não dar certo.
    - Poderia até ser, mas o namorado dela foi passar 1 mês na Bahia, e você sabe que, ninguém é de ferro!
    - Você teria mesmo coragem?
    - Você duvida?
    - Vindo de você eu espero tudo, por isso eu repito: Vou morrer sua amiga, ok? Best friends for ever! – Ela voltou a cair na gargalhada. – Então resolva isso logo que eu já estou em abstinência!
    - Está certo! Não vai demorar... Nem se preocupe!
    Logo que eu desliguei, eu voltei a visualizar a tela do laptop cor de rosa da Roberta e vi que minha irmã estava conversando com seu namorado, agora, via webcam. Então, coloquei o fone para ouvir a conversa dos dois.
    Em suma, eles passaram um bom tempo naquela melação de ‘namorados apaixonados distanciados por uma viagem’ até que uma parte da conversa me chamou a atenção.
    - Você viu o email que eu te mandei hoje à tarde? – Ele falou levantando a sobrancelha esquerda e sorrindo.
    - Espera aí, que eu vou ver! – Ela também fez uma cara estranha.
    O bom de ter Laura como irmã é que ela era tão lesada que sussurrava as coisas que escrevia, quando precisava se lembrar de alguma coisa. Então, já que o email em questão já estava ali disponível na minha tela, só restava saber qual era a senha. Ela sussurrou a senha e eu rapidamente acessei o email de Laura para ver de qual email ele estava falando, e o resultado foi surpreendente!