quarta-feira, 27 de junho de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 58



   Voltei para a sala e comecei a resolver algumas questões de química 1 que tinha no livro, para recuperar a parte da aula que eu perdi em meio aos meus devaneios. Esse negócio de meia-vida até que era bem divertido, mas nada se compara a fazer cadeias de carbono Alcano, Alcino, Alceno, Benzeno, Álcool e etc. Era uma das minhas atividades de distração favoritas.
    Eu não sabia ao certo se eu tinha exagerado na dose de frieza com Diego, mas eu já estava um pouco estressado devido ao modo com que Felipe ironizava a minha tentativa de ajudá-lo
    A aula de redação começou, e como eu já tinha feito em casa todas as 10 redações que ele mandou fazer para constituir a nota bimestral, só iria me ocupar em passar a limpo de forma meticulosa. Esse era um daqueles momentos em que eu não queria pensar em absolutamente nada. Uma menina de outra turma entrou na sala e entregou um daqueles bilhetes chamativos, dessa vez, um bilhete verde-limão, para ele. Que parecia ler repetidas vezes sem compreender muito. Deixei isso pra lá e voltei ao meu trabalho caligráfico.
    - Brunno Biancchi, você está sendo chamado na sala da coordenação! – Proferiu ele, como se não entendesse o motivo que impulsionou esse chamado.

[...]

   Eu fiquei igualmente confuso, faz tempo que eu não era chamado lá, desde aquele episódio... Abri a porta da sala e acabei dando de cara com ele, que do alto dos seus 14 cm a mais de altura do que a minha, como eu costumava definir, ‘minusculosidade’, me fitou profundamente franzindo o cenho e fazendo questão de esbarrar em mim, como um rinoceronte raivoso, para entrar na sala. Eu fingi que nada aconteceu, afinal, me intrigava muito mais o fato de eu ter sido chamado na coordenação do que essa rixa de anos que eu tinha com o...
    - Oi Brunno! – Falou a psicóloga com aquela felicidade irritante. – Tudo bom, querido?
    - Tudo. – Respondi secamente, tentando ser o mais educado possível. Não era tão bom assim estudar numa sala que ficava vizinha à coordenação, não dava tempo nem de se preparar para receber a próxima bomba. Entrei, e cumprimentei a coordenadora que estava sentada no seu lugar habitual.
    - Sente-se, por favor! – Disse Sandra, a coordenadora. Eu preferia ouvir notícia ruim em pé, mas, o pedido dela foi quase como uma ordem. A sonsa da Audrey, a psicóloga retardada, sentou na cadeira ao lado da minha.
    - O que aconteceu? – Iniciei a conversa. Creio que tinha absorvido por osmose um pouco da impaciência que Felipe me mostrou no intervalo.
    - Veja bem Brunno, precisamos conversar sobre uma coisa muito importante! – Sandra falou enfaticamente. Será que alguém da minha família tinha morrido? Constatei instantaneamente que não, se fosse isso, a Audrey, vulgo psicóloga sensível, já estaria alisando as minhas costas ou realizando ações dessa natureza.
    - Algo com minha família? – Indaguei, fazendo uma cara de apreensão só pelo esporte de interpretar.
    - Não... Nós precisamos falar sobre o seu rendimento escolar! – Sandra interveio.
    - O que é que tem? – Eu não estava com paciência pra conversa fiada.
    - Você percebeu que suas notas caíram consideravelmente? – Ela continuou.
    - Sim. – Respondi firmemente.
    - A que você atribui a isso? – Perguntou Audrey, com aquele ar de ‘conte-me sua vida e eu resolverei seus problemas’.
    - Talvez eu tenha dado uma relaxada, mas ainda estou acima da média. – Falei, demonstrando um certo descaso.
    - Não se contente com pouco Brunno, sabemos que você é um aluno aplicado e é um dos alunos mais aplicados da sua turma! – Disse a psicóloga. – Para sua informação é “O” aluno mais aplicado, e não “um dos”, sua idiota.
    - Eu me esforço...  – Deixei em reticências, afinal, parece que a humildade, mesmo que seja em 80% dos casos produzidas por falsidade produzida pela educação que recebemos desde pequenos, é amplamente apreciada.
    - Já escolheu o que vai fazer no vestibular?
    - Teatro! – Soltei rapidamente. A expressão delas mudou de forma bem sutil. Estava na cara que essa era mais uma daquelas conversas em que elas tentariam me induzir de todas as maneiras a fazer Medicina, Direito, Odontologia ou uma das Engenharias, já que esses são cursos de maior concorrência e conseqüentemente agregam um destaque maior ao conceito do colégio. Resolvi responder todas as perguntas imbecis que elas fariam anteriormente, com respostas justamente opostas ao que elas querem ouvir.
    - Mas, você já pensou a respeito, tem tantas opções... – Sandra tentava me persuadir.
    - Odeio medicina. Não tenho paciência para ficar estudando todas as partes do corpo e dessecando cadáveres. Odeio direito. Não vou ter paciência de ficar lendo leis que são modificadas de ano em ano. Não gosto de Odontologia, porque ficar abrindo bocas cheias de tártaro e cáries não me parece ser uma coisa muito interessante. Engenharia está fora de questão, me afogar em cálculos também não parece muito empolgante.
    - Você não tem nem uma segunda opção? – A coordenadora forçou a barra.
    - Filosofia. – Menti. Essa era minha mensagem subliminar de “Parede sonhar, vocês não vão me induzir a fazer o que vocês querem”.
    - Só pense a respeito... – Disse a psicóloga com aquela voz mansa como um ronronado de uma gata no cio, apoiando a mão em meu ombro – E não se esqueça do Simulado Pré-Enem.
    - Mais alguma coisa? – Perguntei, elas apenas balançaram a cabeça negativamente. – Então, tchau! Bom dia pra vocês!
     Sai da sala me sentindo ultrajado. É muita pretensão achar que eu tenho uma mente fraca a ponto de ser influenciado com técnicas tão primitivas.
    - O aluno perfeitinho está descendo do pedestal? – Proferiu ele, ironizando minha ida à coordenação.
    - Só se pode perder alguma coisa que já se teve... – Respondi ousadamente. – Todos sabem que o 2° lugar nunca é lembrado nesses tipos de ranking!
    Ele saiu sem rebater a minha resposta.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 57

  
    - O que aconteceu com o ‘Não quero falar com vocês nunca mais’? – Iniciou Felipe, quebrando o clima de silêncio ao sentar à mesa de pedra do pátio perto da cantina.
    - Eu ainda estou com esse pensamento, mas eu não posso deixar tudo ficar do jeito que está e me sinto obrigado a tirar você dessa enrascada. – Respondi, apoiando meu queixo nos meus dedos entrelaçados.
    - Faltou chamar o Diego... – Começou ele.
    - Não... – Disse, interceptando sua fala. - Vamos resolver isso entre a gente!
    - Certo... Certo... Como você quiser, contanto que você desgrude aquela idiota de mim! – Felipe revirou os olhos e me fitou de forma séria. – Qual é o plano?
    - Bom... Pra início de conversa eu acho que essa tal gravidez é completamente falsa! Isso está me cheirando a golpe da barriga, ou seja, estou sentindo cheiro de desespero e, como eu sempre digo, pessoas desesperadas tomam medidas extremas...
    - Dá pra você me poupar dessa sua linha de raciocínio disléxica e ir direto ao ponto? – Felipe interveio, ele estava querendo chegar ao quociente antes de realizar a operação.
    - ‘Os jovens de hoje não sabem esperar’... – Parafraseei meu avô, soltando uma risada abafada. – Certo... Vamos direto ao ponto: não existe complicação e não é necessário a gente pensar em um plano mirabolante pra conseguir resolver isso, se ela não está grávida, como eu imagino, e sendo desesperada do jeito que ela é, ela vai querer engravidar de verdade!
    - O quê? – Perguntou ele, como se eu estivesse falando a coisa mais absurda do mundo.
    - Ela vai tentar fazer sexo com você enquanto você estiver bêbado ou vai furar a camisinha com uma agulha antes de vocês... – A imagem da cena me veio a cabeça e eu não pude evitar uma expressão de nojo.
    - O que foi? – A conexão entre minha fala e minhas expressões faciais não estava ajudando a compreensão limitada de Felipe.
    - Nada... – Chacoalhei a cabeça, como se varresse esse pensamento. – Continuando... Ou ela pode achar mesmo que está grávida. Isso se chama gravidez psicológica... Ela pode achar que está sentindo enjôo e mais outros sintomas, mas tudo ser fruto da cabeça dela...
    - Você não acha que anda lendo historinhas de mais?
    - Felipe... Temos que considerar todas as possibilidades, não podemos subestimar a Miss Peitos!
    - Miss... – Ele começou a rir. – Tinha esquecido de como você é engraçado! – Felipe pousou a mão dele sobre o meu braço e riu de forma descontraída. Quem não ficou confortável com essa situação fui eu, que logo senti aquele arrepio se propagando pelo meu corpo. Eu não tinha costume de ser tocado por um garoto, já que eu tinha só amigas mulheres, então, isso para mim, apesar de parecer um simples clichê, era um terremoto de 8 pontos na escala richter.
     - Voltando ao foco... É muito simples, é só fazer um teste de gravidez e pronto e para ela não ficar te enrolando que tal você fazer uma surpresinha? Finja que é romântico para ela!
    - Eu não vou...
    - Você vai fazer exatamente o que eu mandar! – Elevei o tom de voz. Odiava quando eu estava tentando ajudar alguém e o beneficiado atrapalhava meu trabalho. Voltei ao meu tom habitual. – A gente precisa pegá-la desarmada. Fique um tempo sendo romântico, com doses pequenas, para ela não desconfiar... Vá aumentando a intensidade gradativamente e quando você sentir que ela está na sua mão, a gente vai agir...
    - Obrigado Brunno! – Ele se aproximou de mim e pegou minha mão por debaixo da mesa.
    - Que parte do ‘não quero falar mais com vocês’ você esqueceu Brunno? – Bradou Diego, que surgiu sorrateiramente atrás de nós.
    - Mesmo que eu tivesse esquecido, e eu não esqueci, valeu pelo lembrete, Diego! – Respondi, me levantando. – Já resolvi tudo que tinha pra resolver! – Nem olhei para ele para não me perder novamente dos meus objetivos, saí andando apressadamente, sem olhar para trás.

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 56



    Apesar do alívio que se espalhou pelo meu corpo por um tempo considerável, devido ao fim dos turbilhões de problemas atrelados a Diego e Felipe, com o passar do tempo, esse alívio deu lugar a outros sentimentos. Não era fácil ver a Tânia, a biscate grávida, se pendurar no pescoço de Felipe e desfilar com ele pra cima e pra baixo, mostrando-o para todos como um troféu. Ela enchia a boca ao referir-se a ele como ‘meu namorado’ e obviamente a minha vontade era presenteá-la com um bom e velho ‘tapa de mão cheia’, mas, infelizmente, eu fui criado para ser um cavalheiro. Diz-se no ditado popular que ‘um homem não bate numa mulher nem com uma flor’, pensando nisso foi inevitável que eu imaginasse a cena em que eu bateria na retardada peituda com rosas cheias de espinhos esguichando sangue por todos os lados.
    Deixando os meus pensamentos sádicos, provavelmente derivados pela maratona de jogos mortais que eu assisti nesse final de semana para tentar não pensar na última briga que me afligiu, pude observar, no outro pólo, que Diego estava isolado. Mesmo que estivesse cercado dos outros componentes do grupo dos populares da sala, que eu não chego a comentar na minha narrativa porque eles não passam de débeis mentais inúteis, sua solidão era perceptível, de forma quase que gritante. Seu olhar vazio e sua falta de entusiasmo para as coisas eram evidentes, mas parecia que ninguém notava isso, ou simplesmente não se importavam.
    Minhas notas tinham caído consideravelmente, eu conseguia me manter ainda acima da média, mas nos novos resultados eu não tinha nenhuma nota superior a oito e isso me preocupava profundamente. Eu precisava esquecer tudo um pouco e me focar nos estudos.
    Eu sempre me excluí daquela sala e me restringia a poucas relações sociais, acho que em parte, era pelo medo de estar me sentindo assim como estou agora. Eu fui longe de mais ao querer ultrapassar a linha de amor platônico para a convivência real com aqueles garotos, eu desconstruí toda a ideia de ‘mauricinhos perfeitinhos’ e pude conhecer o outro lado deles, e foi justamente esse lado pelo qual eu realmente me apaixonei.
    Eu sentia que minha missão não estava completa e mesmo que eu quisesse me afastar dos problemas que envolviam Diego e Felipe, meu senso de justiça não me deixaria em paz até que eu derrubasse a Tânia do posto de vencedora. Eu me sentia culpado pela separação dos dois e era meu dever fazer com que tudo “voltasse ao normal”, como quando o Timmy Turner fazia um desejo ruim e pedia aos seus padrinhos mágicos: “quero que tudo volte ao normal”. Mas, não ia ser tão fácil como no desenho, e varinhas brilhantes não iriam garantir a minha vitória.
    Algo me dizia que essa possível gravidez de Tânia ou era o golpe da barriga, um dos mais velhos do mundo, ou era gravidez psicológica derivada de uma mente vazia e fútil que tinha sido preenchida pelo ressentimento pelo abandono atrelado ao seu desejo desesperado de namorar o Felipe. No entanto, eu não queria transformar essa batalha em um ato heróico que restabeleceria minha relação com eles dois, então, tinha que fazer tudo por debaixo dos panos.
    O professor saiu da sala e em seguida o sinal tocou. Diego saiu acompanhado da sua nuvem de ‘amigos’ populares sorrindo e falando besteira, fingindo que está tudo bem. Tânia agarrava Felipe desesperadamente perto do quadro, a expressão dele de tédio era quase cadavérica. Mesmo que eu quisesse resolver tudo sozinho, eu precisava do Felipe para terminar com isso de uma vez por todas, então, eu precisava romper temporariamente com a minha promessa de não falar com eles, e o pior de tudo: eu estava ansioso em fazê-lo!
    - Opa! O negócio está bom aí, mas eu posso roubar o Felipe um pouquinho? – Falei quebrando o clima. Ele me fitou com uma feição de surpresa e ao mesmo tempo de um alívio equivalente a alguém que tinha ficado num poço escuro por dias e finalmente foi resgatado.
    - Ah! Claro Bubu! Mas, me devolve ele inteirinho certo? – Disse ela com um sorriso de orelha a orelha.
    - Claro! – Falei sorrindo. Não sua idiota, vou matá-lo, esquartejá-lo e te devolver ele em partes dentro de sacolas plásticas! Pensei, no meu devaneio irônico pautado nas minhas maratonas noturnas de Dexter. Não nego pra ninguém que não tenho vida social e vivo assistindo seriados!
    Saí andando em direção à porta da sala, ali não era o lugar adequado para se ter esse tipo de conversa.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 55



    - Na briga, eu empurrei o Felipe e ele caiu contra a porta de vidro! – Ele enxugou uma última lágrima. – Acho que me descontrolei.
    - Você acha? – Indaguei.
    - Brunno, não é hora para as suas ironias! – Diego me censurou.
    - Eu só acho que... – Comecei a falar, mas me contive. – Deixa pra lá, minha opinião é irrelevante... – Eu me levantei da cadeira e fui andando em direção a porta. Eu não queria me envolver mais com a complicação que se derivava do convívio com aqueles dois. Mas, pelo Felipe, pela forma como ele tentou me defender, eu me sentia inclinado a ficar. Senti uma mão repousar sobre meu ombro.
    - Eu sei que eu não estou em posição de pedir nada, mas... – Diego reiniciou a conversa, mas eu o interrompi.
    - Você realmente não está ’em posição’ de pedir nada, mas eu vou ficar pelo Felipe! – Retirei a mão de Diego do meu ombro e voltei a me sentar confortavelmente em uma das poltronas da sala de espera.
    Tentei evitar ao máximo falar com Diego e só respondi às suas perguntas com singelos “Sim” e “Não”. Eu não queria piorar ainda mais as coisas, até porque sabia que quando eu ficava com raiva de alguém, era preferível deixar a poeira baixar para poder conversar sobre isso depois. Esse acontecimento repentino não me afasta da ideia de que tenho que parar e reorganizar tudo na minha mente e pensar um pouco, não só na briga de hoje, mas o meu relacionamento com Felipe e Diego como um todo.

[...]

    - E aí Felipe, você está se sentindo melhor? – Perguntei ao entrar no quarto do hospital. Depois de algumas horas de silêncio mortal na sala de espera, uma enfermeira liberou a nossa entrada.
    - Bem melhor! Obrigado! – Felipe sorriu para mim de uma forma completamente nova e, a princípio, eu não sabia identificar o motivo.
    - Lipe eu queria te pedir... – Iniciou Diego, sentando ao seu lado.
    - Não precisa dizer nada Dih... Espero que isso tenha nos deixado quites! – Ele apontou para o braço direito que estava apoiado em uma tipóia e envolto com esparadrapos brancos.
    - Desculpas... – Completou ainda cabisbaixo.
    - É interessante estar no lado de cá... No lado do agredido! Eu poderia ficar ressentido com você e fazer um pouco de drama, mas isso não vai mudar o que eu sinto por você! O que tem que mudar é a forma como nós expressamos nossos sentimentos! – Agora tinha ficado bem claro o sorriso de Felipe. Apesar dos danos, essa guerra foi vitoriosa para ele. Finalmente o peso nas costas, de ter passado dos limites com Diego na última briga, aliviou.
    - Às vezes nós exageramos na dose... – Comentou Diego, como se isso fosse uma coisa completamente comum.
    - Eu prefiro quebrar todos os meus ossos, mas continuar com você! – Proferiu Felipe, ao segurar a mão de Diego.
    Nesse momento todo esse romantismo de novela mexicana estava me dando nos nervos, mais clichê que isso só filme da Disney.
    - Antes que esqueçam meus caros! – Intervim. – Aqui está o DVD, não seria nada inteligente deixar ele no centro do apartamento do Diego, vai que alguém encontrasse essa atuação digna de Oscar! – Entreguei o DVD ao Felipe.
    - Brunno... Você está com uma feição diferente... – Comentou Felipe.
    - Eu estou cansado emocional e fisicamente... Estou cansado de vocês! Eu não tenho estrutura psicológica para agüentar mais tempo nessa convivência cheia de altos e baixos! – Desabafei, e um alívio surpreendente tomou conta de mim.
    - Isso quer dizer que... – Diego começou a falar, como se ainda estivesse refletindo sobre a minha decisão. Isso é o resultado de cuidar muito do  corpo e esquecer de reservar um tempinho para a mente.
    - Tudo voltará a ser como antes! Eu já devolvi o DVD e fim de história, está na hora do “felizes para sempre” de vocês!
    - Mas, Brunno! – Felpe pareceu realmente surpreso com tudo que eu estava dizendo, até porque ele estava me usando como ferramenta para ajudá-lo a resolver seus problemas.
   - Por favor, não falem comigo amanhã, nem nos dias seguintes! ACABOU! – Finalizei, saindo as pressas dali. Não queria que ninguém me seguisse para tentar ‘conversar’. Já tinha falado tudo que queria ter dito e já tinha ouvido o suficiente. Foi a gota d’água que faltava para fazer um colapso na minha paciência.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Divulguem o Blog!

    Meus caros leitores, estou muito feliz pelos mais de 11.000 acessos, mas a gente pode conseguir mais néh? (Estou guloso por mais leitores). Quem puder divulgar, eu agradeceria imensamente! É só colar esse Banner (foto) no seu Mural do Facebook, perfil do orkut... Enfim, qualquer lugar! Quem puder divulgar só o link, também fiquem a vontade! Para facilitar pra quem vai procurar no Google é só escrever "Porcentagem Abrasiva" e tudo que aparecer lá é do meu blog!
    PS: O Banner tá meio pobrezinho, porque o seu humilde escritor o fez no paint! kkkkk Quem fizer um Banner daqueles bem fodas mesmo e me mandar, ganha 1 semana de postagens exclusivas (vai ler antes de qualquer pessoa na face da terra)! kkkkkkk


XO XO
BRUNNO BIANCCHI

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 54



    Felipe estava no chão. Entre a porta que dividia a sala da varanda. Vários estilhaços de vidro brilhavam ao seu redor e tinha sangue, muito sangue. Nós não tínhamos muito tempo pra conversa.
    - Diego, pegue as chaves do carro e eu vou pegar gelo!
    - Mas... Meu pai está usando meu carro hoje, porque o dele está na oficina... – Ele começou a chorar.
    - Pegue as chaves do Felipe, ele está de carro! – Gritei da cozinha. Estava tirando gelo de todas as cubas que encontrei no freezer. E joguei em um balde de metal que achei dentro de um armário. Voltei correndo pra sala. – Diego! Nem pense em tirar nenhum caco de vidro do braço de Felipe, ele pode ter atingido uma veia e ele pode ter uma hemorragia.
    - Desculpa... – Sussurrou ele, tirando a mão instantaneamente do estilhaço de aproximadamente sete centímetros que estava fincado no braço direito de Felipe. – E agora, o que a gente faz?
    - Vamos levar ele pro hospital... Mas, antes, vá buscar umas toalhas! Rápido! – Coloquei alguns cubos de gelo nas feridas maiores. Precisava estancar aquele sangue. Em alguns segundos ele retornou com as toalhas.
    Felipe estava no limiar entre consciência e inconsciência e gemia suavemente no chão de mármore da sala.
    - Pegue ele no braço, Diego! Você é mais forte! – Falei, tirando as toalhas da suas mãos. Percebi que ele ainda estava chocado com tudo aquilo. Fui apressadamente para o corredor e chamei o elevador. Voltei pro apartamento e ajudei Diego a colocar Felipe no braço, sem que houvesse piores danos.
    - Vamos Brunno! Rápido! – Disse Diego. Passando por mim.
    Eu me apressei e tirei a chave da porta pra fechar o apartamento e foi aí que percebi, de relance, o DVD brilhando no centro da sala. Corri para buscá-lo. Se os pais do Diego vissem aquilo tudo... Eu não tinha nem como mensurar as consequências que decorreriam, afinal, não os conhecia o bastante para calcular. Coloquei o DVD no bolso novamente e fechei a porta.
    Diego batia o pé de forma impaciente esperando o elevador abrir. Entramos no elevador rapidamente e cliquei no SS. Voltei meu olhar para Diego e pude ver uma expressão muito familiar no seu rosto: o medo. Uma expressão tal qual como a que tinha visto no rosto de Felipe depois do soco que ele deferiu em Diego, semanas atrás.
    Nesses momentos de desespero completo, eu forçava minha mente ao máximo para poder lidar com todas as situações com tranqüilidade e conseguir resolver os problemas de forma rápida e eficaz. Diego não tinha essa habilidade.
    A porta de metal se abriu finalmente e foi como se o ar ficasse mais leve, como se naqueles segundos estivéssemos presos em uma enorme caixa de metal embalada a vácuo.

[...]

    Estava no banco de trás limpando as feridas de Felipe e colocando gelo para tentar estancar o sangue. Diego tentava se manter calmo ao volante, sem conseguir muito sucesso com isso. Mas, infelizmente, eu não sabia dirigir e nem ia arriscar aprender num momento como esses.

[...]

    Levamo-lo para a emergência. Quando os médicos o levaram, a adrenalina começou a se dissipar aos poucos. Sentei ao lado de Diego em uma das poltronas da sala de espera. Comecei a dobrar uma das toalhas ensangüentadas e cobertas de pedaçinhos de gelo e cacos de vidro.
    - Agora, Diego, você pode me explicar o que aconteceu?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 53


     Das duas uma: ou eu tinha um problema sério com elevadores, ou, simplesmente, eu odiava esperar. Não há nada pior do que você estar no último andar e a porcaria do elevador estar no subsolo. Mas, é como dizem por aí ‘para descer o santo ajuda’. Não sei de fato quem é esse santo, mas, eu acho que para pessoas não alfabetizadas esse deve ser um conceito parecido com gravidade.
    Comecei a descer as escadas do prédio, que ascendiam conforme eu iria avançando. Eu nunca pensei que o fim seria esse. Ser ofendido por Diego daquele jeito, por tentar ajudá-lo. Posso ter superestimado alguns elementos da personalidade de Diego e promovido ele de ‘mauricinho cabeça-oca’ para ‘príncipe de armadura reluzente’ rápido de mais.
    Eu sempre aprendi a tentar enxergar nas piores coisas um lado positivo. Até porque, gente rica é que fica fazendo cena por uma unha encravada ou porque mandou o arquiteto fazer um projeto em azul-turquesa e ele fez em azul-piscina. Gente pobre como eu, tem que se conformar com as coisas e pensar sempre ‘podia ter sido pior’. O bom disso tudo seria que eu finalmente teria tempo de estudar massivamente como fazia outrora. Até porque estava com medo que minhas notas caíssem. E também não posso negar que, fora dessa atmosfera de brigas e agressividade, eu finalmente teria ‘paz’ ou qualquer coisa que chegasse perto disso.
    Eu penso que, em parte, as coisas que Diego falou são bem verdadeiras. Meu subconsciente pode ter me levado a fazer toda essa chantagem não só por uma vingança pessoal, devido aos maus tratos que eu e outras pessoas vínhamos sofrendo na mão de Felipe, Diego e outros membros do ‘grupinho dos populares’ de lá da minha sala, mas talvez eu estivesse curioso para saber mais sobre eles. Algo como globo repórter. Acabei imaginando o apresentador iniciando o programa sobre esse assunto: Nesse programa de hoje vamos conhecer mais sobre os ‘mauricinhos cabeças-ocas’ uma espécie nem tão rara!  Como eles vivem? Como se alimentam? Onde moram? Como se comportam? Comecei a rir de mim mesmo. Essa habilidade de tirar sarro com tudo de ruim que me ocorre era ótima para me ‘regenerar’ depois de uma grande decepção como essa. 
    Voltando a outro ponto da fala de Diego, será que eu tinha inveja deles? Talvez eu tivesse – e tenha – e possa não ter percebido isso antes. Penso que, essa inveja pode ser direcionada ao fato deles terem uma vida mais confortável, por eles terem tudo que querem de imediato, por eles serem bonitos e tudo mais. Mas, eu não tenho inveja do que eles são de verdade. Eu não tenho inveja do desempenho – ou falta dele – na escola. Nem acho que eles são pessoas boas a fim de ser invejadas. Eles são frios, egoístas e provavelmente se eu tivesse sido criado no mesmo contexto que eles eu seria assim também. Eu prefiro ser eu mesmo, com todos os meus defeitos e imperfeições, porque eu sei que sou quem sou hoje, por causa de tudo que eu vivi e tenho que me orgulhar disso e... – Meu pensamento foi interrompido.
    - Brunno! Brunno! – Gritou ele descendo as escadas. Eu pude ver Diego lá do alto descendo rapidamente e me chamando.
    Eu apenas ignorei e comecei a descer mais rápido ainda.
    - Brunno! Por favor! É urgente! Caso de vida ou morte, literalmente! – O desespero de sua voz era contundente. Esperei ele descer. – Brunno! – Repetiu ele, ofegante. – Eu preciso de você agora! – Ele puxou minha mão e começou a subir todos os degraus novamente, quase que me arrastando.


[...]


    Não pude acreditar no que vi quando entrei no apartamento dele, de novo.
    - Eu não acredito que você fez isso! – Exclamei, olhando, abismado, aquela cena toda.