- Hey gente!!! - Disse entrando no quarto e quebrando o clima. - Temos que nos aprontar ou vamos nos atrasar pra aula! - Sorri e me sentei na cama, Felipe me lançou um olhar assassino.
- É, aninda temos que resolver isso... - Comentou Diego pensativo.
- Você devia ficar aqui! - Disse Felipe. - Eu cuido de você!
- Não! - Respondeu Diego de prontidão, a dor que sentia não o deixava esquecer da noite passada. - Vá pra escola! Estude pra variar, quem sabe você não aprende alguma coisa... - Levantou-se da cama vestindo sua camisa.
- Pra onde você vai Diego?
- Pra casa óbvio!
- Mas, como você vai assim pra casa? - Perguntou Felipe preocupado.
- A essa hora meu pai já deve estar indo pro consultório e minha mãe deve estar fazendo compras em Madri.
Gente que diferença, minha mãe deve estar lavando os pratos do café-da-manhã agora... *risos*
- Eu tenho que ir logo, preciso ir em casa ainda, tomar banho, pegar meu uniforme...
- O Felipe empresta um uniforme pra você, uma toalha e tudo que você precisar... Eu te deixo na escola antes de ir pra casa.
Felipe não falou mais nada, só assentiu e foi pegar as coisas que Diego tinha mandado. Diego ficou frente ao espelho do guarda-roupa examinando os machucados de ontem.
- Você não acha que foi um pouco duro com ele? - Sussurrei.
- Você achou? - Indagou ele se virando para mim, o seu olho azul contrastando com o roxo do machucado.
Fiquei calado, ele realmente estava muito magoado.
Depois de tomar um banho (com sabonete da Natura, vale ressaltar!) eu vesti um uniforme que o Felipe me emprestou e pela primeira vez na vida usei um perfume importado! Um que é o formato de uma mão dando um soco. Até nisso Felipe é violento...
Minutos depois.
- Vamos Brunno? - Perguntou secamente colocando seus óculos de sol preto.
- Sim! - Respondi, terminando de ajeitar meu cabelo e acompanhando ele.
- Vamos no seu carro ou no meu? - Perguntou Felipe.
- Você vai no seu, e nós vamos no meu!
[...] Minutos depois...
- Desculpe por ter que presenciar isso tudo Brunno, mas eu cansei! Cansei de ficar seguindo ele pra todo lugar, fazendo tudo que ele manda, cansei de ser a sombra dele.
- Você sabe que eu não simpatizo com ele, e nem simpatizava com você alguns dias atrás, mas eu acho que ele foi sincero hoje de manhã...
- Você ouviu nossa conversa?
- Desculpe, eu estava entrando e ouvi o finalzinho...
- Como eu já te disse, eu conheço bem o Felipe. Ele faz a linha morde e assopra, entende? Hoje ele está aí pedindo desculpas e tudo mais, amanhã ele vai estar fazendo tudo de novo!
- Você não devia dar uma chance a ele?
- Outra? E você acha que é a primeira vez que ele faz isso?
- Tá... - Falei em reticências. Ele parou na frente da escola. - Obrigado pela carona!
Atravessei o corredor abarrotado de gente, me desviando aqui e ali pra não esbarrar em ninguém. Fiquei pensando na relação deles, tudo era muito intenso, não existiam linhas que delimitassem as coisas. Felipe era de fato, uma pessoa que não sabia controlar suas emoções. Não sei porque, mas acho que Diego estava fazendo um esforço sobre-humano pra não perdoar e e ir correndo pros braços de Felipe. Eu não entendo esses sentimentos intensos que eles têm, prefiro minha boa aula de estatística! CHeguei na sala e me sentei sem dizer palavra.
- Gente, que cheiro é esse? o Felipe chegou? - Comentou Tânia procurando a origem do cheiro.
Essa retardada tem um faro apurado pra coisas caras. Deve ser uma ferramenta que ela usa pra caçar dotes, isso é tão primitivo.
- Vem da-qui! - Comentou cheirando o meu pescoço de forma indelicada.
- Bom dia pra você também Tânia!
- Ah bruninhoooo... Perfume novo?
- Ganhei de presente ontem, gostou? - Disfarcei.
- É igual ao que o Felipe usa! Enfim... - Passou a vista pela sala. - Gabrielleeeeeeeeeeeee!!! - Bradou ela com aquela voz enjoada. - Você precisa ver minhas unhas craquelês! - Completou se afastando de mim.
Roberta olhou pra mim com aquele olhar investigativo que só ela sabia fazer.
- Brunno?
- O que?
- Explica!
- Explicar o que?
- Você ganhou mesmo esse perfume?
- O professor chegou, tá na hora da aula.
Felipe chegou com raiva, batendo a porta e sentando-se no fundo da sala. O professor ignorou toda a cena. Afinal, ele era pago pra isso. Estudar em um colégio tão elitista como esse dá nisso, você praticamente compra um diploma e faz todos ao seu redor de babás que ignoram suas pirraças. Sorte minha ser bolsista e realmente querer estudar.
- Nem pense que você vai escapar ouviu Sr. Brunno? Quero ouvir essa história no intervalo.
Roberta não ia ficar ali sem saber das coisas. Eu vou ter que mentir mais. Uma pessoa me cutucou (a Mariana) e me entregou um bilhete.
"Não sei o que fazer, mas você vai ter que me ajudar!" Dizia o pedaço de papel com uma caligrafia borrada.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
PORCENTAGEM ABRASIVA cap 9
O cheiro de café fresco invadiu o ambiente. Não poderia dizer de certeza se estava num sonho ou se isso tudo era real. Abri os olhos lentamente e pude ver o rosto de Diego perto do meu. Ele parecia até um anjo dormindo. Um anjo com o corpo perfeito como uma estátua esculpida em mármore branco, fiquei adimirando sua tatuagem de tribal, todas aquelas linhas curvadas se entrelaçando na superfície do seu ombro esquerdo.
- Ele é lindo não é? - Comentou Felipe entrando no quarto somente de cueca. Alguém sabe o que a palavra pijama significa? Não conseguia nem me concentrar... *risos*
- Des-Desculpe... - Respondi me sentando na cama, alisando meus dedos naquele lençol super macio.
- Cinco mil fios, Algodão egípcio... Bem diferente dos trapos que você se enrola não é? Esqueci de botar o jornal no canto da parede pra você se deitar... - Começou a rir, mas dessa vez seu riso era mais de descontração do que de gozação.
- Vocês não tem jeito não é? - Comentou Diego ao acordar. Sentou-se na cama.
- Bom dia... - Disse Felipe visivelmente desconcertado, o ollho de Diego ainda estava muito machucado. Colocou a bandeja de café da manhã no colo de Diego.
- Se eu soubesse que você iria me tratar tão bem assim deveria ter pedido pra você me dar um soco bem antes! - Brincou Diego. Sentindo o aroma da rosa vermelha que estava num vasinho minúsculo de cristal.
Felipe apenas sentou-se na cama e ficou olhando pra ele sem dizer nada. Passou a mão no rosto e no cabelo de Diego. Ele estava com uma expressão meio triste.
- Hum... Geléia de Framboesa... - Comentou Diego de forma vaga, passando com uma faca a geléia numa torrada. - Brunno!? - Sibilou, me dando a torrada.
- Obrigado! - Disse assentindo de leve. Comi a minha torrada com pressa e me levantei da cama. - Vou no banheiro... - Comentei. Os dois precisavam ficar a sós.
Olhei-me do espelho do vasto banheiro. Meu cabelo parecia bem pior quando eu acordava se ondulando e ficando armado. Começei a molhar as mãos e a tentar melhorar a situação. Sai do banheiro devagar, pisando de leve. Visualizei o quarto aos poucos, queria ver o que eles estavam fazendo. Felipe ainda estava um pouco pra baixo, sem saber o que dizer. Diego o beijou sem dizer nada e ficou adimirando ele. O silêncio era mortal.
- Eu... Eu... Nós precisamos conversar Dih... - Começou de cabeça baixa.
- Acho que você já disse tudo ontem...
- Desculpa... Eu preciso que você me perdoe...
- Eu também contribui, não devia ter falado aquelas coisas.
- Mesmo assim, eu não tinha o direito de...
- Lipe! É verdade o que você me disse ontem ou foi uma coisa que você falou sem pensar? Você gosta mesmo de mim?
- Dizem que você só valoriza alguma coisa, quando perde essa coisa, e ontem eu tive tanto medo de te perder. Eu nunca parei pra pensar que você é tão importante pra mim. Nós nos conhecemos desde pequenos e eu nunca percebi o quanto você se dedicou a mim...
- Lipe você... - Foi interrompido.
- Eu estou falando sério! Eu te amo!
- Felipe Duarte! Você nunca foi dessas coisas... - Comentou em tom de repreensão.
- Você quer namorar comigo? - Indagou com precisão e intensidade.
Nesse momento parece que a cena congelou. Diego ficou sem reação, totalmente estático.
- Ele é lindo não é? - Comentou Felipe entrando no quarto somente de cueca. Alguém sabe o que a palavra pijama significa? Não conseguia nem me concentrar... *risos*
- Des-Desculpe... - Respondi me sentando na cama, alisando meus dedos naquele lençol super macio.
- Cinco mil fios, Algodão egípcio... Bem diferente dos trapos que você se enrola não é? Esqueci de botar o jornal no canto da parede pra você se deitar... - Começou a rir, mas dessa vez seu riso era mais de descontração do que de gozação.
- Vocês não tem jeito não é? - Comentou Diego ao acordar. Sentou-se na cama.
- Bom dia... - Disse Felipe visivelmente desconcertado, o ollho de Diego ainda estava muito machucado. Colocou a bandeja de café da manhã no colo de Diego.
- Se eu soubesse que você iria me tratar tão bem assim deveria ter pedido pra você me dar um soco bem antes! - Brincou Diego. Sentindo o aroma da rosa vermelha que estava num vasinho minúsculo de cristal.
Felipe apenas sentou-se na cama e ficou olhando pra ele sem dizer nada. Passou a mão no rosto e no cabelo de Diego. Ele estava com uma expressão meio triste.
- Hum... Geléia de Framboesa... - Comentou Diego de forma vaga, passando com uma faca a geléia numa torrada. - Brunno!? - Sibilou, me dando a torrada.
- Obrigado! - Disse assentindo de leve. Comi a minha torrada com pressa e me levantei da cama. - Vou no banheiro... - Comentei. Os dois precisavam ficar a sós.
Olhei-me do espelho do vasto banheiro. Meu cabelo parecia bem pior quando eu acordava se ondulando e ficando armado. Começei a molhar as mãos e a tentar melhorar a situação. Sai do banheiro devagar, pisando de leve. Visualizei o quarto aos poucos, queria ver o que eles estavam fazendo. Felipe ainda estava um pouco pra baixo, sem saber o que dizer. Diego o beijou sem dizer nada e ficou adimirando ele. O silêncio era mortal.
- Eu... Eu... Nós precisamos conversar Dih... - Começou de cabeça baixa.
- Acho que você já disse tudo ontem...
- Desculpa... Eu preciso que você me perdoe...
- Eu também contribui, não devia ter falado aquelas coisas.
- Mesmo assim, eu não tinha o direito de...
- Lipe! É verdade o que você me disse ontem ou foi uma coisa que você falou sem pensar? Você gosta mesmo de mim?
- Dizem que você só valoriza alguma coisa, quando perde essa coisa, e ontem eu tive tanto medo de te perder. Eu nunca parei pra pensar que você é tão importante pra mim. Nós nos conhecemos desde pequenos e eu nunca percebi o quanto você se dedicou a mim...
- Lipe você... - Foi interrompido.
- Eu estou falando sério! Eu te amo!
- Felipe Duarte! Você nunca foi dessas coisas... - Comentou em tom de repreensão.
- Você quer namorar comigo? - Indagou com precisão e intensidade.
Nesse momento parece que a cena congelou. Diego ficou sem reação, totalmente estático.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
PORCENTAGEM ABRASIVA cap 8
- Felipe? - Falei e logo percebi que ele estava no canto da cozinha chorando.
- Eu não queria... fazer... isso... - Disse ele em meio a soluços.
- Eu sei que não, mas você tem que se controlar.
- Ele me odeia não é? Vai me odiar pra sempre!
- Se ele te odiasse não ia querer ficar aqui...
- Acho que ele só ficou pra não preocupar os pais dele... - Ele voltou a chorar.
- Eu pensei que o dia em que eu te visse chorar assim, seria o dia mais engraçado da minha vida, mas estava enganado. Eu vejo aquele menino-homem que se exibe na sala e encontro esse homem-menino chorando no chão da cozinha desesperadamente. Não fique assim, sempre há um jeito!
- O que eu faço agora?
- Primeiro você levanta daí!
- E agora? - Perguntou ele já de pé.
- Vem cá! - Puxei ele para um abraço, ele desabou o choro no meu ombro. - Chore com força... Solte tudo... Eu vou te dar um minuto pra isso! - Começei a olhar o tempo no meu relógio.
05... 04... 03... 02... 01...
- Acabou seu tempo! - Eu disse soltando ele. - Agora enxugue essas lágrimas e haja como um homem. Respire fundo e seja mais forte. Vamos preparar alguma coisa pra ele comer!
Fizemos alguns sanduíches e voltamos pro quarto.
- Diego eu tenho que...
- Não precisa falar nada lipe, eu sei que você ficou com raiva...
- Eu preciso falar... Dih... Desculpa por tudo que eu disse, eu fiquei irritado e não soube administrar a situação. Eu fui fraco, egoísta e... e...
- E? - Diego interrompeu.
- Eu te amo!
Nesse momento parecia que a imagem tinha sido congelada. Parecia que alguém deu pause no filme para ir ao banheiro ou algo assim.
- Eu te amo! - Recomeçou Felipe, tentando não chorar. - Eu te amo porque eu sempre fico com ciúmes de você como naquele dia no colégio, me dá vontade de ficar sem falar com você de tanta raiva porque você ficou com aquela menina na festa, mas quando eu te olho eu sinto saudades. Eu te amo porque você sempre foi mais esperto que eu, mais maduro... Eu te amo porque você me ensinou a amarrar os sapatos e teve toda a paciência do mundo pra me ensinar tantas outras coisas. Eu sei que sou machista, mas eu não sei que outra forma definir o que eu sinto por você. Nenhuma mulher nunca me fez senti isso antes...
Eu não esperava um depoimento tão longo e ainda mais vindo do Felipe o maior galinha da sala. Eu percebi que ele gostava do Diego, mas não sabia que a intensidade era tanta. Diego ficou em choque e não conseguiu responder nada. Eu me sentia 'um objeto intruso daquela cena'.
- Eu... Nem sei o que dizer... - Diego ficou com lágrimas nos olhos e beijou felipe de forma terna.
Até eu fiquei comovido com tudo aquilo.
- Gente, se vocês quiserem eu posso deixar vocês sozinhos... - Comentei.
- Vem cá Brunno! - Pediu Diego.
Eu me aproximei e sentei do lado dele na cama, no lado oposto ao que Felipe estava. Diego subitamente me beijou e foi um beijo tão suave e tão... Rápido.
- Estamos quites Felipe! - Ele começou a rir.
- Agora eu vou ser usado como instrumento de vingança é? - Brinquei rindo também.
Passamos a noite conversando e eu pude entender o que estava por traz daquela ideia que eu tinha dos 'mauricinhos cabeças-ocas'. Só queria saber como é que iríamos explicar o olho roxo de Diego no dia seguinte.
PORCENTAGEM ABRASIVA cap 7
- Você é um monstro! - Eu me ajoelhei no chão. - Diego você está bem? Diego? - Perguntei sem resposta, minhas mãos estavam sujas de sangue.
- Eu não queria fazer isso... Diego... Diego...
- SAIA DAQUI! SEU MONSTRO! - Eu não tinha percebido que estava gritando. Sentei no chão e coloquei a cabeça do Diego no meu colo tentando estancar a ferida.
A cena tinha ocorrido muito rapidamente. Em um segundo Diego estava falando aquilo tudo para o Felipe. Depois ele aplicou um soco em Diego, que caiu e bateu a testa na mesa do computador.
- O que eu faço? O que eu faço? - Perguntou Felipe aos prantos.
- Traga uma toalha e gelo... muito gelo. - Eu tirei minha blusa e começei a estancar a ferida e dentro de alguns segundos Felipe veio com o gelo e a toalha. Peguei todo aquele gelo e enrolei com a toalha fazendo pressão na sua testa.
- Dih! Fala coomigo Dih por favor! - Pedia Felipe em suas lágrimas incessantes.
- Acho que vamos ter que levá-lo no hospital, mesmo que o corte não esteja tão profundo...
- Brunno? - Diego me chamou com a voz fraca, acordando de seu relapso pós-traumático.
- Calma Diego, vamos te levar ao hospital!
- Não... Eu estou bem... Só com dor...
- Mas você está sangrando... - Insisti
- Me perdoa Dih, por favor! - Felipe parecia inerte em um delírio febril.
- Não é hora pra isso! Vá ver se encontra uns curativos!
Felipe saiu do quarto ainda embreagado com sua tristeza a procura de algum quit de primeiros socorros.
- Eu quero ficar sentado! - Pediu ele
- Você tem que ficar aí Diego! - Ele ignorou minha ordem e se sentou encostando-se na parede.
- Não foi nada... O meu olho é que está doendo mais...
- Calma, eu vou cuidar de você!
- Não briga com ele Brunno...
- Mas ele bateu em você... - Sussurrei
- Eu nunca o vi chorar assim, não piore as coisas. Ele só... Explodiu... Deixe que eu me entendo com ele, eu sei o que dizer!
Felipe voltou com uma maleta bem equipada com diversos instrumentos. Eu consegui estancar a ferida minutos depois e fiz um curativo com gaze esparadrapos. Colocamos ele na cama.
- Tem certeza que não quer ir a um médico? - Perguntei
- Não, eu estou bem, foi só um cortezinho... - Diego amenizou
- Desculpe Diego você sabe...
- Não quero ouvir nada agora, quero ir pra casa...
- Não, não vá... O que seus pais vão pensar sobre mim?
- Eu quero ir... - Diego continuou
- Fique...
- Eu não quero ficar sozinho com você!
- O Brunno vai ficar também, nós cuidamos de você e dormimos aqui. - Afirmou Felipe
- Como assim? - Indaguei
- Eu fico se o Brunno ficar! - Comentou Diego, visivelmente recuperado
- Mas como... Minha mãe...
- Eu falo com ela, por favor! - Os olhos de Felipe estavam vermelhos e o verde de sua íris se afogava em suas lágrimas.
- Tenho que falar com ela...
Felipe saiu do quarto novamente, sem falar nada.
Felipe saiu do quarto novamente, sem falar nada.
Eu acabei ligando pra minha mãe e dizendo que ia assistir alguns filmes na casa de uns amigos e que iria pra escola daqui mesmo. Ela não queria concordar mas acabei chantageando ela com o papo de 'eu sempre me esforço e estudo tanto, não posso nem me divertir?' e ela acabou cedendo.
Os pais de Felipe (ambos médicos) estariam de plantão esta noite, como era de costume. Diego não falou com Felipe o o tratava com severa frieza. Nós conversamos um pouco enquanto Felipe preparava alguma coisa pra gente comer.
- Ainda não acredito que estou aqui, que vou dormir com vocês...
- Obrigado por ficar... - Começou Diego. - Pode me passar o remédio?
- Claro! - Entreguei a cartela de remédio para dor e ele tomou um.
- Você entendeu porque não pode revelar esse vídeo? Felipe é muito machista e é muito explosivo. Eu tenho medo por você...
- Ele é louco!
- Ele tem seu lado bom, ele só está perdido. Você não conhece a vida dele como eu conheço. Nós somos amigos de infância.
- Nada explica essa atitude dele! Ele já fez isso antes?
- A gente briga de vez em quando, eu já dei um soco nele uma vez. - Ele começou a rir, mas logo sentiu dor. - Enfim... Ele não funciona bem sob pressão.
- A relação de vocês dois é muito tensa...
- Tensa e intensa... Eu quero um copo d'água. - Diego começou a se levantar.
- Não se esforce, eu vou buscar...
- Mas Brunno...
- Quietinho aí. - Dei um beijo em sua mão. - Hoje você merece um pouco mais de carinho.
Percorri o corredor, alguns gemidos estranhos vinham da cozinha.
PORCENTAGEM ABRASIVA cap 6
Felipe permaneceu em silêncio os 15 minutos que levou para percorrer o caminho da minha casa para a dele, seu olhar sério concentravasse nos sinais e curvas da cidade. Por sorte, ou não, um rock pesado estava tocando no seu som, uma música tão absurdamente louca que eu nem tive tempo de pensar em nada. Ainda sobre o efeito anestesiante da música que ainda latejava em minhas têmporas entrei no elevador. Senti a pressão me puxar para cima e as minhas mãos começaram a gelar. Em pouco tempo eu estava sentado na cama dele.
- Você pode dizer o que realmente quer de mim? - Começou ele, fazendo um esforço super-humano para não explodir.
- Você não entende, pessoas como você não entendem... - Deixei em reticências.
- Aconcelho a você tomar cuidado com o que fala, hoje não tem o Diego pra te proteger, ele teve que ir no dentista!
- Isso é um tipo de armadilha? Você sabe o que eu posso fazer!
- O que você ganharia com isso?
- Teria o prazer de ver você sofrendo...
- Teria o prazer de ver você sofrendo...
- Você é sádico ou insano?
- Faço a mesma pergunta a você!
- Seria impagável encher você de porrada! Você não ia nem sequer lembrar de como respirar...
- Como você se sente humilhando as pessoas? Você se sente melhor que elas? - Tentei permanecer firme apesar do medo, minhas pernas ficaram bambas.
- Algumas pessoas insistem em não aprender onde é o seu lugar...
- Você é patético. Apenas um rostinho bonito e um punhado de grosseria emoldurados por alguns músculos...
- E você é o que? Você chega a ser alguma coisa? Óculos, cabelo bagunçado, espinhas, roupas baratas, um sorriso encardido e essa sua prepotência de Senhor sabe-tudo.
- Você pensa que o dinheiro resolve tudo não é?
- Você não se sente melhor que os outros quando é o único a tirar 10 numa prova que todos se deram mal? Duvido que não se sinta!
- Isso é diferente...
- Nós buscamos poder de formas diferentes. Do mesmo jeito que eu tenho prazer em humilhar idiotas como você, você sente ao receber mais elogios dos professores...
- Foi pra isso que me chamou aqui? Para recitar os meus méritos? Eu sei que sou inteligente, não precisa me dizer! - Fui sarcástico.
- Claro que não... - Ele me olhou com uma expressão presunsoça. - Eu percebi o jeito que você me olhou quando eu estava trocando de roupa naquele dia...
- Eu não olhei de jeito... - Fui interrompido.
- Olhou sim nerdzinho! - Ele se aproximou e fincou seus dedos no meu cabelo. - Que tal resolvermos isso logo. Eu faço você feliz e você nos deixa em paz.
- Você está louco?
- Vamos terminar logo com isso, ainda tenho uma festa pra ir essa noite... - Comentou ele soltando o meu cabelo e tirando a camisa.
Ele se aproximou de mim e me beijou. Seu beijo era molhado com um toque de fúria e desejo. Ele passou o braço por minha cintura e me apertou, me puxando para si. Puxou meus cabelos com a outra mão, seus dedos roçavam em minha nuca. Eu fui posto contra a parede, eu quase não conseguia respirar.
- Felipe?! - Exclamou uma voz parciamente indagativa. - O que você está fazendo?
- Você não ia ao dentista? - Soltou Felipe com desdém.
- A consulta foi remarcada, mas isso não vem ao caso... O que você está pensando? - Insistiu Diego.
- Estava resolvendo nossos problemas!
- Agarrando o Brunno?
- Você sabe o sacrifício que foi pra mim beijar ele?
- Você está com raiva por causa do vídeo não é? - Diego recomeçou. - Porque o seu orgulho tão importante foi ferido!
- Eu disse pra você que era minha vez de novo!
(Fiquei paralisado só ouvindo a briga dos dois)
- Se fosse por você seria sua vez todo dia, você é tão egoísta... Eu tive que praticamente te ameaçar pra você concordar com isso!
- Maldito dia que eu fui inventar de beber com você aqui em casa, você me convenceu disso tudo! Eu não quero ser a piada de todo o colégio!
- 'Disso'?... É desse jeito que você se refere ao nosso relacionamento?
- Relacionamento? - Comentou em meio a risos - Isso só foi diversão Diego, um passa-tempo... Uma infeliz forma de me distrair, que acabou com esse vídeo idiota!
- Você fala como se não quisesse também, eu não te obriguei a nada! Eu estava bêbado naquele dia e te beijei e você correspondeu!
- Eu não gosto de homens!
- Então vai dizer que não gosta de mim? Basta um toque e você já fia todo 'animadinho'... Você é gay!
- Eu não sou gay! Você é que é!
- Pensei que vocês já tivessem resolvido essa questão! - Eu me intrometi dentro da conversa.
- Sabe porque ele está assim Brunno? Porque fui eu quem estava comendo ele aquela noite e foi essa cena que a câmera gravou, porque ele estava gemendo que nem uma mulherzinha e pedindo pra eu ir com mais força... - Ouvi um baque abafado, tudo foi rápido demais.
- Nãooooooooo!!!! O que você fez?
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
PORCENTAGEM ABRASIVA cap 5
Nem consegui prestar atenção direito nas aulas que se seguiram e a tão aguardada aula de Geografia só aconteceria após o intervalo. Tânia veio até mim, no intervalo de troca de aulas, perguntar o que eu estava conversando com os meninos, acabei desconversando ao dizer que era algo relativo ao trabalho. Ela engoliu essa facilmente, pensar não era muito o seu forte, e voltou para o seu grupinho de fofocas. No intervalo fui andando normalmente até uma das mesas de pedra do pátio. Felipe e Diego me seguiram até lá como cachorrinhos famintos.
- Que tal a gente conversar? - Começei percebendo a tensão no ar.
- O que você quer que a gente diga? - Indagou Felipe, estava começando a ficar irritado novamente.
- Brunno... Desculpa mesmo pelo jeito que tratamos você naquele dia, mas por favor não faça nada precipitado! - Pediu Diego.
- Felipe! Vá comprar uma pizza e uma sprite para mim por favor! - Entreguei o dinheiro pra ele.
Felipe se levantou a contra-gosto e Diego estava se levantando também.
- Diego, você fica!
Felipe me jogou um olhar de desprezo e andou em direção à cantina.
- Nós podemos negociar... Eu e você, ele está muito zangado... - Começou Diego, mexendo no cabelo escuro e liso que tinha.
- Tranquilize ele... Eu não sou o monstro que vocês pensam que eu sou, só quero um pouco de respeito...
- Mas você não pode nos torturar a vida toda...
- Torturar? Eu só quero conversar com vocês. Entender qual o motivo de tanta grosseria e humilhação!
- Nós só estávamos brincando!
- Suas brincadeiras são horríveis... Vocês já fizeram muita gente chorar por causa disso...
- Eu nunca tinha visto por esse ângulo...
- Você parece outra pessoa longe dele. Olhando pra você agora eu posso ver um garoto bom, que se importa com os outros.
- Você parece outra pessoa longe dele. Olhando pra você agora eu posso ver um garoto bom, que se importa com os outros.
Ele não respondeu.
- Seus olhos transparecem tanta calma... E eu sei que por trás desses músculos e dessa pose de popular tem algo mais!
- Eu nem sei como tudo foi ficar assim... Eu era mais dedicado aos estudos, eu tinha mais amigos, mas aí veio as festas, a bebida e o poder... O poder que você tem, a admiração que as pessoas tem ao te olhar e é preciso sempre mais, e mais... O poder é viciante!
- Pisar nos outros te faz feliz?
- Não... Mas é que... - Gagueijou
- Você acha que se não for igual a eles, eles te expulsam do grugo?
- Acho que sim...
- Amigos de verdade não hajem assim... Mas vamos falar de outras coisas, esse assunto é seu, você que tem que refletir sobre isso... Então... Que profissão você deseja seguir? Afinal... Já estamos no segundo ano...
- Meu pai quer que eu seja dentista, que nem ele.
- Que profissão você quer seguir.
- Eu? Eu não sei... Às vezes eu componho algumas músicas e toco no meu violão... Eu queria tocar... Saber tocar vários instrumentos, mas isso é um sonho idiota... - Ele baixou um pouco a cabeça.
- Eu acho o máximo!
- Como? - Ele me fitou com aqueles belos olhos azuis novamente.
- Acho que você deve seguir o seu sonho!
- Mas eu vou morrer de fome... - Abriu um sorriso desconcertado.
- As pessoas dizem isso porque tem medo.
- Medo de quê?
- Medo de sonhar, medo de arriscar, medo de serem felizes. Elas acham que só Medicina, Direito, Engenharia, Odontologia e esses cursos mais 'clichês' é que dão dinheiro. Mas, pra que esse dinheiro todo se não houver felicidade?
- Mas as contas precisam ser pagas e existem responsabilidades, e depois eu posso fazer disso um hobby.
- Depois quando? Depois de se formar em odontologia ou depois de ser um profissional frustrado? Você vai esperar ter 58 anos no seu consultório, vendo cáries, fazendo canais diariamente, e vai olhar pro passado e ver que nada foi bom, vai se sentir arrependido de não ter tentado...
- Está aqui a sua pizza e seu refrigerante ó grande majestade! - Disse Felipe de forma sarcástica, ao voltar com o lanche. - Comprei isso pra você Diego... - Entregou o lanche para o outro.
- Obrigado...- Diego respondeu comigo em unissono.
- A sua alteza vai precisar de mais alguma coisa, ou podemos nos retirar? - Indagou Felipe.
- Descançar soldados... - Brinquei sorrindo. - Podem ir se quiserem
- Vamos Diego?
- Eu já estou indo, vá na frente...
Felipe se afastou com uma expressão confusa.
- Você até que é gente boa, apesar de estar nos chantageando. - Disse Diego.
- De que outra forma você pararia pra conversar comigo?
- Também não precisava ser assim... Mas, se vamos continuar com isso, que pelo menos seja sem conflitos... - Ele se levantou e partiu.
Achei engraçado ele praticamente correndo pra alcançar o Felipe de um jeito desengonçado. Talvez esses populares não sejam um poço de perfeição...
Voltei à minha sala. Roberta me olhava com a expressão confusa.
- É impressão minha ou você passou o intervalo conversando com o Diego Albuquerque e com o Felipe Duarte?
- Pra quê esses sobrenomes? Isso é uma novela mexicana por acaso?
- Diga seu besta! - rebateu rindo.
- Passei sim, acabei ficando amigo deles por causa do trabalho...
- Cuidado Brunno, você não sabe com o que está lidando. - Ela me aconcelhou com seus olhos cor de avelão repletos de preocupação.
- Eu sei o que estou fazendo! Relaxe!
Pude perceber que no decorrer das aulas eles conversavam bastante, pareciam discutir sobre algum assunto. Um professor ficou a um passo de expulsá-los da sala. Eles pareciam não parar de falar e falar, o que eles tanto diziam?
Na saída fiz questão de pegar o telefone dos dois, além de emails e tudo mais.
Voltei pra casa, tomei um banho e fui assitir um pouco de tv. Algumas horas depois meu celular tocou.
-Alô?!
- Oi Brunno... é o Felipe... - A voz dele estava meio entrecortada.
- Oi... - Falei com imprecisão.
- Queria te chamar pra vir aqui na minha casa, quero desfazer os maus-entendidos, você pode vir?
- C-Claro... Estarei aí daqui a uma hora mais ou menos, é que o ônibus demora...
- Eu vou te buscar daqui a meia hora, me dê o endereço..
Depois de eu dar o endereço e ter fixado completamente perplexo fui colocar uma roupa melhor e tomar um outro banho. (Eu sempre gostei de tomar banho). Expliquei pra minha mãe que ia sair com uns amigos e que tudo foi programado de última hora. Ela deixou eu ir, mas pediu pra que eu voltasse cedo.
O que ele pretendia com tudo isso?
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
PORCENTAGEM ABRASIVA cap 4
Até o ar parecia mais leve, com o aroma delicado da aurora. As vozes conflitantes do corredor soavam como o mais melodioso silêncio. Sentei no meu lugar habitual e respondi de forma desatenta a todos os 'bom dia' que os meus amigos proferiam. Tânia chegou alguns minutos depois exibindo suas novas mechas californianas e tagarelando sobre o vídeo do trabalho. Eu só estava esperando o circo pegar fogo e a chance disso acontecer era de 100%. Tentei parecer natural e conversava algumas coisas com Roberta quando alguém bateu nas minhas costas. Virei lentamente e disse um 'huh?' me sentindo a própria Leandra Borges* ( A personagem da Ingrid Guimarães que é inspirada em Gisele Bündchen).
- Preciso falar com você idiota! - Soltou Felipe. Eu podia ver o fogo em seus olhos.
- Eu estou no meio de uma conversa aqui, não está vendo? - Respondi dando um sorriso malicioso.
- Seu retardado... - Tentou reiniciar, mas Diego apertou seu braço.
- Por favor, cara! - Sussurrou Diego.
- Eu vou ali discutir umas coisas do trabalho de geografia tá Betão - (Eu chamo a roberta de Betão...kkk)
- Tá certo! - Respondeu ela meio perplexa.
Fui andando até o banheiro calmamente, mas meu coração já estava pulando pela boca. Será que fui longe de mais?
- O que você quer? - Perguntou Diego tentando permanecer calmo.
- Eu? - Indaguei ajeitando meu cabelo no espelho.
- Não se faça de sonso seu... - Felipe começou, mas eu o interceptei.
- Pra começar eu quero que você fique calado!- Falei. Estralando calmamente meus dedos um por um.
- Felipe fique quetinho aí, você está com muita raiva, deixe que eu resolvo isso! - Pediu Diego com um tom mais de ordem do que de pedido. Ele respirou profundamente. - O que você quer? Dinheiro?
- Que tal você parar de me ver como um morto de fome? Só porque eu não moro numa cobertura na Ponta Verde, não quer dizer que eu seja um mendigo.
- Você quer se vingar porque a gente fez aquelas brincadeiras? - Diego tornou a falar.
- Você acha que se eu quisesse fazer algo, eu já não teria feito?
- O que você quer então? - Os belos olhos azuis dele eram suplicantes.
- Eu quero me divertir às suas custas, assim como vocês fizeram comigo.
- Eu vou te encher de porrada! - Felipe voltou a conversa.
- Hã hã hã... Qualquer coisa que acontecer comigo o vídeo cai na internet, já tenho uma pessoa com ordens para fazer isso. Então fique quietinho aí e deixe eu falar com o outro débil mental. Voltando ao assunto anterior... Eu quero que vocês andem comigo o tempo todo. Afinal, quem não precisa de serviçais hoje em dia? hahahahahah - Começei a rir me sentindo a própria Paola Bracho.
- Diga o quanto você quer e acabamos mais rápido com isso! - Disse Felipe usando de uma força quase Superhumana para não me dar um soco.
- A vingança é um prato que se come frio... E eu sempre digo que 'devagarzinho é mais gostoso´ não é Diego?
- Você não sabe com o que está se metendo! - Felipe estava prestes a estourar.
- E você sabe muito bem onde se meter! - Voltei a rir saindo do banheiro. - Vejo vocês no intervalo, escravos!
Parece que hoje será um longo e divertido dia...
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