Fiquei sem reação, as palavras urgentes de Felipe não deixavam espaço pra minha concentração focar na lei das malhas que o professor estava tentando explicar com aquele sotaque chato de interior e suas brincadeiras sem graça.
De fato, eu ainda não tinha entendido a relação de Diego e Felipe. Tantos altos e baixos e sentimentos tão à flor da pele faziam a minha cabeça girar. No final das duas primeiras aulas, Felipe passou por minha mesa e me laçou um olhar furtivo. Levantei e fui seguindo ele discretamente, ele se sentou em um dos bancos de azulejo azul no local da escola que nós denominávamos de "Espaço" que nada mais era do que um "espaço" vazio com alguns bancos em volta onde se realizavam algumas atividades e aulas 'fora da sala'. Ele escolheu o banco mais afastado, onde só conseguiriam nos ver quem se aproximasse demasiadamente.
- O que você quer agora Felipe?
- Você se diz tão inteligente e não soube interpretar o bilhete? Preciso que você me tire dessa e logo!
- Depende... - Deixei em reticências
- Depende do que imbecil?
- Primeiro baixe essa sua bola, precisa vir armado não que não vai ter guerra! E segundo, depende do que você estiver disposto a falar...
- Disposto a falar? - Indagou respirando fundo
- Por mais que eu seja perspicaz, e por mais que eu raciocine eu ainda não entendi essa relação de vocês dois e eu só posso te ajudar se eu souber de alguma coisa...
- É que... - Parou por uns segundos. - Isso é tão pessoal...
- Eu acho que eu já vi, ou melhor, assisti o que tinha de mais 'pessoal' entre vocês!
- Vai ficar tirando sarro agora?
- Não, eu só estou dizendo que isso pra mim é bobagem
- E se você contar?
- Eu não mostrei o vídeo, que por si só já é auto explicativo... Imagine só fazer fofoquinhas
- Se você contar eu... - Interrompi sua fala
- Me envenena, me esquarteja e joga meus pedaços em um tanque de tubarões... Já sei Senhor "Eu sou o macho alfa intimidador"... Alguma coisa nova?
- Está bem... Eu vou te contar... - Respirou fundo e começou. - Diego e eu somos amigos de infância, nossos pais se conheceram através de amigos em comum na festa de inauguração de uma dessas mansões que fazem festas daqui da cidade, nós éramos muito pequenos quando isso aconteceu e desde lá somos amigos, estudamos nos mesmos colégios e tudo mais. Quando nós completamos 12 anos, mais ou menos, eu começei a sentir umas coisas estranhas quando estava com o Diego... Uma vontade de abraçar ele e de não deixar que nada o fizesse mal... De início eu achei isso estranho, mas eu deixei pra lá, achei que era sentimentos normais de amigo pra amigo. Com o passar do tempo ficou difícil administrar esses sentimentos, eu me pegava muitas vezes olhando pra ele com cara de idiota e eu percebia que ele me olhava também, mas eu não tinha certeza se ele me olhava pelo mesmo motivo que eu olhava. Nesse tempo a onda era ficar com as meninas e tirar o BV* (NA: boca Virgem pra quem não sabe), mas eu tinha receio... Ao passo que eu queria ser igual os outros e não ser mais bv eu não queria perder o bv com qualquer pessoa... Você deve achar isso uma idiotice...
- Não acho não Felipe...
- Enfim, um dia eu fui pra casa de praia dele em paripueira e a gente estava conversando antes de dormir, e como sempre estávamos falando do jogo de digimon que tinha no PS1 dele e anotando numa folha quantas vezes um derrotou o outro naquele dia... Essas bobagens que os muleques fazem quando são pequenos... Aí a mãe dele entrou no quarto e mandou a gente apagar a luz e dormir... Diego levantou, ligou o ar condicionado, fechou a porta, apagou a luz e voltou pra cama e a gente ficou conversando baixinho... Foi quando eu tive aquela vontade queimando dentro de mim e beijei ele. Ele ficou sem ação, mas acabou retribuindo o beijo, mas a gente ficou com vergonha e nunca mais falamos desse assunto... Então, quando a gente fazia 1° ano, a gente voltou de um aniversário de 15 anos da Isadora e ele acabou me beijando e ficou a noite toda no meu quarto...
- Vocês fizeram...?
- Claro que não... A gente resolveu conversar e resolvemos que a gente ia se 'divertir' juntos, mas que mesmo assim iríamos pegar as meninas e que seríamos 'héteros' mesmo ficando uma vez ou outra. E de lá pra cá a gente vem ficando, sem compromisso, e se divertindo na baixa* (NA: Na baixa aqui no meu esstado significa 'discretamente' não sei se no de vocês é assim também...). Eu nunca levei o meu relacionamento com o Diego a sério...
- Então, o que vocês tem de fato?
- Uma amizade com bônus... Nós continuamos amigos, vamos pra balada juntos, comemos umas meninas por aí e brigamos como todo homem briga, jogamos futebol e essas coisas de macho...
- "Coisas de macho"... Aham... Sei Felipe...
- Pronto! Não é linda minha historinha de amor seu idiota? - Ironizou, franzind a boca levemente.
- É um história bonita! - Ignorei o seu sarcasmo. - É a primeira vez que você bate nele?
- Lembra de quando o Diego etava de braço enfaixado?
- Foi você?
- Eu empurrei ele sem querer e ele caiu...
- Só foram essas duas vezes?
- Ah tá... Foram mais, confesso. Mas ele quebrou minha perna uma vez quando me empurrou quando eu estava correndo!
- Ah... é uma competição de quem quebra mais os ossos do outro?
- Não! - Respondeu fechando a cara. - Vai me ajudar ou não mamãe?
- Sua situação não está nada boa... Por mais que vocês sejam eio agressivos um com o outro, dar um soco... Um soco é uma coisa bem mais intencional que um empurrão...
- Eu estava com raiva...
- Primeiro, eu acho que você tem que descarregar essa raiva, já que você gosta de malhar, tente jogar essa força nos aparelhos ou vá procurar aulas de artes marciais... Sei lá... E segundo, o que é mais importante, você vai ter que se desculpar com o Diego!
- Eu já pedi desculpas!
- Isso não é o suficiente!
- E o que você sugere Senhor sabe tudo?
O sinal tocou e já era hora de voltar pra aula.
- Eu acho que eu sei o que fazer... - Dei um sorriso e me afastei dali rapidamente.
- O que é? - Perguntou ele me seguindo.
- Agora tem aula, depois eu te digo...
- Tá! - Respondeu a contra-gosto.
Voltamos para a sala, eu me sentei e começei a copiar o que o professor estava escrevendo no quadro.
- Estou esperando... - Disse Roberta, sentada na mesa ao lado da minha, batendo o pé no chão
- Esperando o que?
- Explicações... Por que você não fica mais conversando comigo no intervalo?
Hoje vai ser um longo dia...

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