sábado, 8 de outubro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 13

    Peguei um ônibus que demorou a me deixar em casa e a minha cabeça já estava a mil pensamentos. Por mais que eu tivesse caído na real e decidido devolver o vídeo eu ainda pensava ‘ E depois? O que acontece?’. É óbvio que eles iriam me abandonar e voltar pra suas vidinhas perfeitas de festas e roupas importadas e eu voltaria a ser o Brunno, o Nerd da sala. Afogando a minha vida nos livros pra tentar garantir o meu futuro. O futuro deles? Já estava garantido, a chance deles não serem bem sucedidos era menor que 2% isso se eles acordassem um belo dia e resolvessem chutar o balde e estragar sua vida por si só. Do contrário, seus pais e sua maravilhosa conta bancária garantiriam os 98% restantes e eles teriam uma vida sem mais dificuldades.
    Cheguei em casa grudando. O ônibus lotado e o calor da cidade do “Verão Eterno” tinha deixado meu corpo quente e minha mente estressada, afinal, Maceió não é lugar para os amantes do frio.          
    Resolvi tomar um banho e a medida que as gotas leves e gélidas tocavam meu corpo eu relaxava e tudo ficava mais nítido em minha mente. Será que o Diego se deixaria influenciar por Felipe novamente e voltaria a humilhar as pessoas? Será que ele iria me ignorar?
    Meu celular tocou insistentemente, coloquei meus óculos ficou meio borrado com a espuma e fitei o visor, apreensivo. DIEGO. O nome dele piscava. Atendi.
    - Hey Diego! – Disse.
    - Preciso falar com você urgente Brunno, daqui a 1 hora estou chegando na sua casa!
    - Mas... – Tentei dizer, mas ele já tinha desligado.
    Terminei meu banho, vesti uma roupa de sair e fui almoçar.
    - Pra onde vai assim Brunno? – Perguntou minha mãe
    - Um amigo meu vem pra cá para resolver umas coisas do colégio.
    - Porque não falou antes? Eu fazia uma coisa melhor pro almoço!
    - Não... Não... Ele vem daqui à uma hora mais ou menos e a gente vai resolver alguns detalhes do trabalho.
    - Da próxima vez avise viu Brunno?
    - Foi uma emergência...
    - Sei... – Comentou finalizando a conversa.
    Terminei de me aprontar e o meu celular tocou novamente. Diego tinha chegado. Fui pra porta buscá-lo. Ele estacionou, sua expressão era séria. Seus olhos estavam um pouco inchados, acho que ele tinha chorado antes de vim. Levei ele pro meu quarto e tranquei a porta.
    - Senta aí Diego... – Comentei apontando pra cama. – O que se passa? – Indaguei apreensivo.
    - Eu já pensei tanto que minha cabeça está explodindo de dor... Brunno, você é tão inteligente... Sempre tem a palavra certa pra resolver tudo... – Ele começou a lacrimejar, seus olhos pareciam um lindo mar azul transbordando em lágrimas. A mancha púrpura de seu olho já tinha diminuído. – Eu gosto do Felipe, mas tenho medo do que pode estar por vir...
    - Tem medo de que ele te bata novamente?
    - Não... Não é isso...
    - Então o que é?
    - Felipe nunca leva nada a sério, eu não sei o que se passa na cabeça dele... Uma hora ele parece que está comigo, me faz carinho e olha pra mim daquele jeito meigo que ele não olha pra mais ninguém e outra hora está pegando as meninas nas festas.
    - Pensei que vocês dois já tivessem resolvido isso. Vocês não ficam sempre com muitas meninas?
    - Eu também fico, mas ele transa com elas...
    - E você não?
    - Não... Eu finjo que faço a linha mais ‘cavalheiro’ justamente pra não precisar dormir com elas...
    - Você nunca...?
    - Com meninas não! Eu não conseguiria sentir com elas o que eu sinto com o Lipe! Então eu fico pensando. E se ele me deixar? E se ele quiser uma vida ‘normal’?
    - O amor é como um jogo, você nunca sabe o que vai acontecer... Há perdas e ganhos, mas você não consegue prever o que vai acontecer depois e acho que a vida toda é uma incerteza, por mais que se estude e se batalhe não existe 100% de certeza de que as coisas vão realmente sair do jeito que queremos.
    - Eu quero perdoar o Lipe, mas também posso aproveitar toda essa situação pra parar por aqui. Não quero mais me machucar... Nem fisicamente, nem emocionalmente...
    - Diego... – Recomecei aparando uma lágrima que rolava em seu rosto. – Há alguns dias atrás eu diria que o certo é se afastar do Felipe, mas por mais que eu am... Goste de você... e... – Me atropelei com as palavras, quase disse o que não devia, tentei contornar a situação. - Eu realmente... Achava que o Felipe não queria nada com nada, só ligava pra festas, bebedeiras, pegar meninas e tudo mais, mas eu vi outro lado do Felipe esses dias... Se ele continuar mudando, como ele mudou do começo da semana pra hoje, acho que daria certo entre vocês. Por trás daquela figura de “machão” e de “fortão” existe um garoto que não sabe bem controlar seus sentimentos. Eu não sou ninguém pra julgar a criação que os pais deram a ele, mas ele simplesmente não tem limites e sem isso, tudo fica confuso. Ele realmente gosta de você. Você precisava ver como ele ficou depois que te deu aquele soco.
    - Ele só se arrependeu e... – O interrompi
    - Não! Ele ficou em estado de choque chorando no chão da cozinha... Só estou te dizendo isso porque é visível o amor dele por você. Por mais que ele tente disfarçar pra não dar o braço a torcer, eu sei que ele te ama!
    - Você acha que eu devo voltar pra ele?
    - Infelizmente... – Sussurrei baixinho e depois voltei a minha voz normal. – Acho!
    - Obrigado Brunno, você sempre sabe a coisa certa a se fazer... – Disse ele me abraçando inesperadamente.
O abraço de Diego me pegou de surpresa, eu não sabia nem o que fazer... Eu estava nas nuvens, não sabia bem o que eu estava fazendo. Até que eu cometi um erro terrível.

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