Depois de alguns minutos pude ver Felipe entrando pela porta de vidro com uma expressão indecifrável. Ele se aproximou lentamente, o ar ficou mais pesado como em um frisson.
- Não podemos vê-lo ainda... – Iniciei tentando acalmá-lo. Percebi uma lágrima rolando em seu rosto.
- Alguma notícia?
- Até agora não... Temos que esperar... Estava esperando você pra você tentar se comunicar com os pais deles, você tem como ligar pra eles?
- Claro... – Respondeu sério. Felipe saiu do local e ficou na porta falando ao telefone por alguns minutos.
O vai-e-vem era constante no local, apesar de ser um hospital particular a lotação era digna de um SUS. Gente desmaiando e gemendo pelos cantos, seria uma longa noite. Depois de exaustivas horas e de folhear praticamente as edições completas da revista caras de dois anos atrás, o médico apareceu.
- Vocês são a família do Diego?
- Sim! – Respondeu Felipe de prontidão.
- Ainda estamos investigando o caso dele, ele já recobrou a consciência e realizamos uma bateria de exames, os resultados saem em poucos dias, ele brevemente será liberado. Acho que se tudo correr bem, amanhã ele voltará pra casa.
- Podemos vê-lo? – Interrompeu Felipe.
- Claro que sim! Quarto 16, a 3ª porta a direita!
Nós seguimos o médico até a porta e nos deixou a sós. Minha mãe resolveu ficar na sala de espera mesmo.
- Dih... – Proferiu ele com o pouco de ar que lhe restava, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Eu apenas dei um dos meus sorrisos unilaterais e me sentei no sofá, afinal, eu era um mero coadjuvante na cena.
- Oi Felipe... – Sussurrou ele com certa indiferença.
Felipe se aproximou aos poucos, medindo cada passo que dava com cautela, sentando-se na escadinha que ficava ao lado da cama. Ele segurou a mão de Diego, fitando a bolsa do soro, ligada ao braço esquerdo de Diego, por alguns instantes.
- Como você está?
- Bem... – Respondeu em reticências.
- O que houve com você afinal?
- O médico disse que foi por causa da minha pancada na cabeça... – Essa frase soou como milhões de agulhas de gelo dilacerando as expressões de Felipe, que logo compôs um semblante martirizado pelo arrependimento. – Ele ainda disse... Que se eu tivesse feito os exames logo, teria sido mais ‘aconselhável’... Médico idiota!
- Mas, vai ficar tudo bem com você! – Intervi, levantando do sofá e me aproximando dele. – Desculpa se eu te deixei irritado naquela hora...
- Não Brunno, você não tem culpa de nada! – Respondeu Diego, fazendo questão de enfatizar a palavra ‘você’. – E se for algo grave? – Reiniciou ele em lágrimas.
Felipe estava em estado de choque.
- Calma Dih... Sempre temos que esperar o melhor! O médico disse que, se tudo correr bem, você poderá ser liberado amanhã.
- Eu vou ter que dormir aqui? – Falou indignado.
- É pra o seu bem Diego... Você não pode fazer muito esforço físico! Nem ouse tentar se levantar daí sem permissão! – Ordenei em tom leve.
- Tá! – Respondeu a contra-gosto.
Nesse momento ouve uma leve batida na porta. O médico de outrora adentrou no quarto com um homem muito vistoso, que aparentava ter um pouco mais que quarenta anos.
- Diego... – Bradou ele com ar de reprovação. – O que aconteceu? Você sempre metido em encrencas... – Ele cruzou os braços e ficou analisando-o. – O que vocês aprontaram dessa vez Felipe? - Ignorou completamente a minha existência.
- É que... – Balbuciou Felipe cm certa dificuldade.
- Eu escorreguei e caí quando estava correndo...
- Hum... – Soltou secamente voltando seu olhar para o médico de plantão.
- Foi exatamente isso que ele me contou, pela minha análise prévia creio que é muito provável que tenha sido uma queda seguida de forte impacto na cabeça...
- Podemos ir já? – Reiniciou fitando seu relógio de ouro com impaciência.
- Ele vai precisar ficar em observação... – Disse o médico.
- Quanto tempo?
- Até amanhã, ou depois da manhã... Depende da evolução do caso. O senhor pode dormir aqui com ele no quarto...
- Diego... – Sibilou com ar de indignação. – Logo agora no meio do congresso de odontologia norte e nordeste...
- Pai... Eu posso ficar com meu amigo...
- Não sei... O que você acha Doutor?
- Sem problema...
- Ótimo... – Ele se aproximou da cama, aplicando um beijo na testa do filho. – Por favor, não faça eu me preocupar mais... – Sussurrou. – Toda vez que sua mãe viaja você me apronta uma dessas, que tipo de pai ela vai achar que eu sou?
- Não precisa contar pra mamãe...
- Ainda não contei...
- Então não conte! – O celular do pai de Diego tocou.
- Certo... Certo... Vou ter que atender essa ligação, amanhã eu passo aqui pra te buscar – Ele saiu rapidamente do local.
Um silêncio se apossou do ambiente, eu me aproximei mais de Diego e perguntei:
- Era o seu Pai?
- Rodrigo Albuquerque, o próprio... O melhor dentista da cidade e blá blá blá, e tudo mais que aqueles puxa-sacos dizem dele...
- Parece ser um homem distinto...
- Desculpa, ele não ter falado com você, ele tem essa mania deselegante...
- Sem problema, numa situação dessas, ele não conseguiu perceber minha presença por causa da tensão...
- Creio que não foi por isso, mas deixe pra lá...
- Bom Diego... – Começou o médico que estava praticamente de enfeite na cena toda – Eu tenho que ir visitar outros pacientes, qualquer coisa é só chamar uma das enfermeiras. Você está fora de perigo, só evite fazer muitos esforços...
- Certo Doutor... – Respondeu Diego, o médico saiu do quarto em seguida. - Bom... E agora? – Ele voltou a falar, olhando para mim.
- Não sei Dih... Temos que pegar algumas roupas pra você, já que você ficará até por algum tempo. Amanhã eu copio tudo da aula e tiro xérox pra você certo?
- Mas, Brunno... Eu quero que você durma aqui comigo! – Respondeu ele com ar suplicante.
Eu nem sei com que expressão eu fiquei, só sei que fiquei todo arrepiado quando ele falou isso.
- E eu? – Indagou Felipe despertando de seu transe pós-traumático.

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