- Felipe... Eu prefiro que o Brunno durma aqui, eu acho melhor você ir pra casa... – Fez uma pausa. – Eu não quero discutir mais com você o que já está resolvido!
- O que está resolvido então? – Disse ele aumentando seu tom de voz.
- Felipe, vem aqui fora comigo, por favor! – Eu disse, puxando ele pelo braço...
- Se você está pensando que...
- Cala a boca e vem! – Insisti praticamente arrastando ele pra fora.
Fechei a porta e me afastei um pouco, não queria que Diego ouvisse nada.
- O que foi nerdzinho? – Disse Felipe com desdém
- Vá pra casa do Diego e pegue algumas coisas pra ele como roupas e coisas de uso pessoal, faça meio que uma mini-mala e... –Ele me interrompeu
- Agora vai voltar a dar ordens em mim?
- Deixe eu terminar de falar seu imbecil! Vá fazer isso e eu vou ficar tentando convencer ele a deixar você dormir aqui essa noite...
- E por que você faria isso?
- Por causa da sua simpatia é que não é! Só vá fazer o que eu mandei!
- Agora?
- Espere lá na lanchonete, eu vou falar com minha mãe e já falo com você!
[...]
Resolvi aproveitar que tinha saído e voltar a sala de espera pra falar com minha mãe.
- Como ele está, querido? – Perguntou ela apreensiva.
- Ele está bem. Passou por uma bateria de exames e está um pouco cansado. Talvez tenha que passar 1 ou 2 dias no hospital em observação.
- Coitado do rapaz... Nem sabem o motivo nem nada?
- Parece que ele escorregou e caiu... – Menti descaradamente.
- Ah ta... Então vamos embora filho?
- Ainda não... É que ainda estamos resolvendo quem vai ficar pra dormir com ele...
- E os pais desse menino, onde estão?
- A mãe está viajando e o pai está dando palestras em um tipo de congresso que está tendo aqui...
- Aquele congresso de odontologia que está acontecendo no centro de convenções?
- Esse mesmo...
- Sua irmã vai chegar logo em casa e eu ainda não fiz o jantar...
- Vá pra casa mãe, qualquer coisa o Felipe me leva, ele está de carro...
- Esse Felipe já tem idade pra dirigir...
- Tem sim... – Não sei como ele passou na prova, Pensei. – A propósito... Vou pedir pro Felipe te dar uma carona até em casa, aproveite e coloque algumas roupas numa sacola caso eu precise dormir aqui.
- Está certo filho... É muito bonito isso que você está fazendo pelo seu amigo...
- É o que os amigos fazem...
[...]
Depois de mandar o Felipe levar minha mãe em casa e pegar umas coisas pro Diego e pra ele mesmo, afinal, eu não tinha como prever se eu conseguiria ou não persuadir Diego a deixar Felipe dormir no hospital ou não, voltei ao quarto.
- O que você disse a ele? – Perguntou Diego, logo quando eu voltei à sala.
- Que fosse buscar umas roupas na sua casa...
- Ele ainda vai voltar?
- Aham... Ele vem trazer aqui...
- Hum... – Soltou suspirando.
- Diego, eu acho que você deve o deixar dormir aqui... Até porque vocês são amigos há muito tempo e...
- Você se esqueceu do motivo pelo qual eu estou aqui? Tudo que eu estou passando é culpa dele... As dores de cabeça, as tonturas e até o meu desmaio são culpa dele!
- Você gosta dele e ele é louco por você, eu sei que o que ele fez não se justifica, mas mesmo assim você deve perdoar ele e deixar ele dormir aqui...
- Por que você está fazendo isso?
- Porque é a coisa certa a se fazer!
- Mas você odeia ele!
- Odiar é uma palavra muito forte... Digamos que a filosofia de vida dele é antagônica à minha...
- Brunno. Posso te fazer uma pergunta?
- Você acabou de fazer uma... – Respondi sorrindo. – Faça a outra agora...
- Por que você fez tudo isso? O lance do vídeo e tudo mais...
- Vingança por tudo que vocês fizeram comigo e como me humilharam...
- Só por isso? – Indagou Diego arqueando a sobrancelha direita.
- Talvez por inveja... Vocês têm tudo tão fácil. Eu tenho que ficar contando cada centavo que ganho e tenho que juntar por meses pra comprar alguma coisa boa, e vocês conseguem tudo só passando o cartão de crédito...
- Se a questão é dinheiro porque você não aceitou o acordo que a gente propôs?
- Não... Não é dinheiro! – Respondi interrompendo a sua fala. – Eu tenho orgulho do que sou, e eu só sou assim porque batalho pelas coisas. Talvez se eu tivesse muito dinheiro, eu seria um mauricinho cabeça-oca que não quer nada com a vida!
- Tipo, nós?!
- Quase isso... Eu queria que vocês se sentissem como nós nos sentimos quando vocês fazem questão de pisar e humilhar as pessoas que não tiveram a mesma sorte de nascerem berço de ouro como você e o Felipe tiveram.
- Mas não foi só isso não é Brunno?
- O que mais seria?
- Eu acho que você tem uma quedinha pelo Felipe, apesar de vocês brigarem tanto... Sentir-se o dominador da situação e mandar nele é algum tipo de fetiche que você tem?
- Claro que eu não sinto nada por ele! – Respondi com indignação
- E por mim, você sente?
- Aonde você quer chegar com essa conversa?
- Não responda uma pergunta minha com outra pergunta! – Disse ele mudando bruscamente a sua posição na cama, tentando se sentar.
- Você tem que ficar em repouso!
- Então responda! Agora!!!
- O que você quer que eu diga? – Meu sangue começou a ferver. - Que eu olho pra você desde a 4ª série? Quer que eu diga quantas noites eu passei sonhando em beijar você? Quer que eu diga quantos trabalhos eu fiz em grupo com você e fiz o trabalho todo pra você ganhar notas maiores pra recuperar o seu boletim! Eu amo você idiota!!! – Parei pra respirar, tinha falado rápido de mais.
- Venha aqui! – Ordenou Diego. Eu dei alguns passos. – Mais perto! – Eu andei um pouco mais. – Mais perto...
- Diga... – Sussurrei, meu rosto estava a alguns centímetros do dele.
- Eu acho que você merece alguma coisa por tudo que você fez por mim... - Sibilou, segurando meu rosto e me aplicando um beijo leve e molhado.
- O que é isso?! – Uma voz grave trovejou atrás de mim.

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