sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PORCENTAGEM ABRASIVA cap 19


    Por mais que o sofá-cama fosse confortável, eu não consegui dormir direito com essa dúvida: "Será que o Diego só está me usando para superar as frustrações que sofreu com Felipe?". Eu não devia ter feito nada disso!  Por mais que eu tivesse gostado de estar com ele ontem, isso é extremamente tóxico para mim. Eu tenho esse sentimento guardado dentro de mim há anos, desde que eu esqueci o outro... Bom... Não vale a pena pensar no outro... Diego foi mais um dos meus amores platônicos e deveria ter ficado aí. Quando as coisas de fato acontecem, tudo fica mais complicado! É tão seguro o meu mundo de imaginações... Eu posso amar alguém desesperadamente, fazer poemas, compor músicas melosas e eu sempre estarei seguro em meu coração...
    - Você já está acordado? - Perguntou Diego interrompendo meus pensamentos.
    - Ah... - Soltei levando um sobressalto. Percebi uma coisa molhada nos meus olhos. Eu não tinha percebido que tinha chorado. - Bom dia Diego... - Disfarcei enxugando as lágrimas com um falso 'esfregar de olhos matinal'.
    - Por que você tava chorando?... - Indagou ele fazendo uma pausa. - E nem adianta vir com aquela história de cisco no olho!!!
    - Nada... Nada... - Menti
    - Foi sobre o que aconteceu ontem?
    - Não... Não...
    - Desculpa mesmo Brunno! Eu não queria brincar com seus sentimentos, eu sei que você sente alguma coisa por mim. Mas eu queria mesmo fazer tudo aquilo, dentro de mim uma chama se acendeu... Eu precisava de você, inteiramente pra mim! Desculpe...
    - Não se preocupe com isso... Estava me lembrando de um velho amigo... - Deixei em reticências.
    - Ele morreu?
    - Não.
    - Você não o vê faz tempo?
    - Também não
    - Faz quanto tempo que você não o vê?
    - É... - olhei no relógio. - Ainda nem fez 24 horas...
    - Deve ser alguém muito especial pra você ter saudades assim
    - Pior que não é!
    - Não entendi.
    - Deixe pra lá, você nunca iria entender...
    - Se você prefere assim, tudo bem!
    Nesse momento uma enfermeira entrou no quarto com nosso café da manhã. Perguntou como o Diego estava e tudo mais e depois saiu.
    - Diego?
    - Diz... - Respondeu ele mordendo uma maçã
    - E o Felipe?
    - Você ainda via insistir nesse assunto?
    - Vou sim...
    - Mas você não deveria estar fazendo a caveira* dele pra mim?
(*NA: Fazer a caveira, pra quem não sabe, significa falar mal de uma pessoa no intuito de envenenar uma pessoa contra outra)
    -  Justamente porque tenho 'algum sentimento por você' - Imitei a fala dele, sendo levemente irônico - é que quero o seu bem, a sua felicidade... E você e o Felipe foram feitos um para o outro...
    - Mas ele...
    - Você sabe que ele não teve culpa! - Intervi antes de ele começar a rebater. - Você sabe que ele é meio esquentado, e tenho certeza que ele vai mudar por você!
    - Ainda não entendo o motivo dessa sua campanha pró-Felipe
    - Porque é o certo a se fazer!
    - Certo pra quem?
    - Nem tudo que eu quero tem que ser o certo...
    - Ainda não entendo
    - É complicado Diego...
    - Complicado?
    - Você é muito inteligente e certamente entenderia, mas eu não sei explicar... - Comentei tomando um gole de suco de goiaba.
    - Você tirou o dia pra deixar minha cabeça confusa...
    - Eu só quero que você pense no assunto...
    - Mas ontem ele quase foi pra cima de você e... - Interrompi Diego
    - Pense... Só pense... Imagine-se sem ele... Eu sei que é clichê o que eu vou dizer, mas que se foda: Escute seu coração e faça a coisa certa, antes que se arrependa! Eu sei que você está, em parte, fazendo isso pra ele te valorizar também, mas ele pode se cansar de correr atrás de você...
    - Brunno você não existe!
    - Existo sim, do contrário eu não estaria aqui... Eu não sou um holograma! - Disse sorrindo. Mesmo que eu estivesse chorando por dentro, essa era a coisa certa a ser feita. A chance de eu me arrepender disso era superior a 99%.
    Nós rimos bastante com algumas piadinhas idiotas enquanto tomávamos nosso café da manhã. Depois de uns 15 minutos alguém bateu na porta. Felipe apareceu mais lindo do que nunca com uma camisa polo da Aleatory(risos) que o trazia um ar de bom-moço. Ele entrou lentamente e foi aí que eu percebi o que ele trazia na mão esquerda.
    - São pra você! - Disse ele estendendo o buquê de rosas lilases. A fita de cetim cor de berinjela pendendo no ar.
    Essa ação causou um frisson. Foi como se tudo estivesse em câmera lenta. No outro segundo Diego estava com o buquê em seus braços, sentindo o cheiro das rosas e deixando uma lágrima cair.
    - Eu não tenho mais palavras para dizer... - Recomeçou Felipe. - E me lembro bem como você gostou dos arranjos do casamento da Patrícia e me disse que essas eram suas flores preferidas.
    - Você achou uma bobagem eu ter uma flor favorita e ficou rindo de mim...
    - Eu não acho mais bobagem... - Respondeu ele fazendo uma pausa. - Tudo que você se interessa é importante pra mim. Eu só não tinha me dado conta disso... - Completou beijando a mão de Diego.
    Eu não aguentei ver aquela cena. Principalmente no estado emocional em que eu estava, até propaganda de margarina me faria chorar... Em mim parecia que uma represa tinha se rompido e estava escorrendo em minhas lágrimas. Tive que correr para longe dali.
    Entrei em uma das cabines do banheiro do hospital, fechei a tampa do vaso e me sentei. Apesar de achar banheiros coletivos completamente anti-higiênicos, eu desconsiderei e chorei como um louco, o álcool em gel fica pra depois. Tive que conter o choro pra não fazer barulho, o fluxo de lá era constante e o barulho da máquina de secar mãos atrapalhava meu momento emotivo.
    Pensei em Diego. Em quanto eu gostava dele e tudo mais, mas logo velhos sentimentos vieram à tona. O que eu sentia pelo 'outro' também veio com toda força. Como eu poderia esquecer meu melhor amigo de infância? Nós brincávamos de Beyblade e jogávamos yu-gi-oh na hora do intervalo e tudo parecia bem até que a adolescência chegou acompanhada por uma gangue de hormônios que acabaram transformando minha ingenuidade em uma arma auto-suicida. Tenho saudades do tempo que ainda falava com ele, nas vezes que dormi em sua casa e ficamos horas falando de pokémon, digimon e todos os outros desenhos que nós assistíamos. Não tinha Física quântica nem química orgânica, e a nossa maior preocupação era com um tema para a feira de ciências...
    Respirei fundo várias vezes. Já não tinha a menor ideia de quanto tempo eu tinha passado ali. Tentei me recompor. Comecei a enxugar minhas lágrimas e a assoar meu nariz. Precisava parecer apresentável para voltar lá. Percebi pela abertura de baixo da porta que alguém estava de pé na frente da minha cabine. A pessoa em questão começou a bater o pé de forma impaciente.
    - Eu ouvi toda a conversa de vocês... - A voz sibilante e amadeirada trovejou do lado de fora.
    Meu corpo se arrepiou todo em um segundo, meu coração começou a bater mais rápido, fiquei paralisado e aquela sensação de 'gelar' se espalhou por meu corpo.

3 comentários:

  1. Continuaaaaaaaaa, sou da comunidade e vim aqui só pra ler o conto, please!!!

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  2. Seu pedido é uma ordem meu caro leitor! Jáestá disponível o capítulo 20!
    Enjoy

    XO XO
    B. B.

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  3. *Já está

    E muito obrigado por estar seguindo por aqui também!!!

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